31 de dez. de 2008
O Computador como Tecnologia Educacional
Peter Drucker afirma, em seu livro Novas Realidades, que estamos vivendo numa Segunda Renascença. Vou aqui refletir um pouco sobre essa interessante idéia de um dos mais criativos pensadores deste final de século XX.
A primeira Renascença revolucionou a educação -- e, através da educação, revolucionou o mundo. E a força motriz da primeira Renascença foi uma tecnologia educacional, o livro impresso, tornado possível pela imprensa de tipo móvel inventada por Guttenberg em 1450.
Antes da Renascença, a maioria das pessoas era analfabeta, até mesmo grande parte da classe dirigente. A leitura e a escrita eram em geral dominadas apenas pelos intelectuais, que, na Europa, eram quase todos religiosos. Havia uma razão muito básica para esse analfabetismo generalizado na Idade Média: não havia o que ler. Livros, embora existissem antes da invenção da imprensa, eram poucos, pois tinham que ser copiados a mão, e, dado o clima intelectual da época, ficavam trancafiados em bibliotecas de mosteiros (vide O Nome da Rosa).
O livro impresso, relativamente fácil de produzir, mudou tudo isso. Em pouco tempo o livro se tornou popular. Depois da Bíblia, primeiro livro impresso (em Latim, naturalmente) por Guttenberg, vieram outros: tratados religiosos, ensaios filosóficos, e, em seguida, a ficção. (Não é por acaso que a literatura da maioria dos povos, inclusive dos que falam português, tem sua origem nesse período).
Mas o livro também tornou possível, pela primeira vez, o ensino a distância e o auto-aprendizado. Antes de existirem livros em grande quantidade, se alguém quisesse aprender algo, tinha que achar alguém que o soubesse e se locomover até ele, para que ele lho ensinasse. Se quisesse aprender Teologia, tinha que ir até Paris, para que Tomás de Aquino lhe ensinasse teologia… Com o livro, as pessoas passaram a poder aprender com outras pessoas, distantes no espaço -- e no tempo. Depois do livro, não houve mais necessidade de que as pessoas aprendessem apenas quando quem ensinasse estivesse presente e disposto a ensiná-las: elas passaram a poder aprender por sí próprias, com o auxílio de uma boa biblioteca. (E tem gente que pensa que ensino a distância requer satélites, antenas parabólicas, etc….).
Hoje os livros fazem de tal forma parte de nossa educação que são saberíamos ensinar e aprender sem eles.
Mas o livro mudou não só a educação. Sem a imprensa provavelmente não teria havido a eclosão da Reforma Protestante, o surgimento da Ciência Moderna, o fortalecimento das diferentes línguas, e, conseqüentemente, o florescimento das culturas regionais e nacionais e o aparecimento dos Estados modernos.
A Segunda Renascença em que fala Drucker tem sua força motriz em outra tecnologia educacional: o computador. O computador, que nasceu como tecnologia bélica, e se popularizou como tecnologia industrial e comercial, é hoje, eminentemente, meio de comunicação e tecnologia educacional.
O computador se tornou meio de comunicação ao se infiltrar, subversivamente, nos meios de comunicação tradicionais, provocando a digitalização dos conteúdos por eles veiculados. Digitalizaram-se os meios de comunicação impressos: hoje livros, revistas, e jornais estão disponíveis na Internet, e, não importando onde estejam fisicamente armazenados, é possível aceder a eles instantaneamente de virtualmente qualquer parte do planeta. O som se digitalizou, e a popularização do som digital disponível em CDs e a universalização da Internet estão fazendo das rádios tradicionais emissoras globais. A fotografia digital já está aqui, e o vídeo-fone e a televisão digital estão às portas. Nos países mais avançados já se trocam mais mensagens eletrônicas do que cartas pelo correio convencional. Até a telefonia tradicional está ameaçada pelo "Internet Phone". É a revolução nos meios de comunicação. Cinco anos atrás ninguém sabia o que era multimídia: hoje todo mundo sabe que multimídia tem que ver com a comunicação, mesmo à distância, usando textos, gráficos, desenhos, sons, imagens estáticas e dinâmicas, tudo isso num ambiente de interatividade.
Essa revolução certamente não vai deixar de afetar a nossa educação, pois vai alterar drasticamente as maneiras em que aprendemos -- fora e dentro da escola. O mestre e a escola estão se virtualizando e a educação a distância vai ser a regra, não a exceção.
É por isso que cerca de 70% das pessoas que compram um microcomputador para uso doméstico o fazem pensando na educação dos filhos. Mesmo que não tenham uma idéia muito clara de como isso se dará, os pais estão convictos de que o computador é, hoje, a mais importante tecnologia educacional de que podem lançar mão, porque engloba todas as outras.
E o computador está revolucionando não só as maneiras em que aprendemos, mas as formas em que trabalhamos, o modo em que nos comunicamos uns com os outros, e até o jeito em que nos divertimos. A revolução que o computador está causando em nossa vida será muito mais ampla e profunda do que aquela que o livro provocou.
Vai levar algum tempo até que as escolas assimilem o computador às suas rotinas de sala de aula. Levou séculos para que o livro se tornasse tão popular a ponto de toda escola ter sua biblioteca e de um clássico ser vendido em banca de jornal por cerca de dois reais, tornando o acesso à informação impressa virtualmente universal. Vai levar muito menos tempo para o computador se tornar um eletrodoméstico tão ubíqüito quanto o rádio ou o televisor e para a informação multimídia estar "na ponta de nossos dedos", como há anos vem preconizando Bill Gates -- CD-ROMs, que custavam centenas de dólares há três ou quatro anos, hoje já são distribuídos gratuitamente, como brindes, em bancas de jornais. O problema é que o rádio e o televisor, embora onipresentes, foram mantidos em grande parte fora da sala de aula. Não podemos permitir que o mesmo se dê com o computador. O preço será a obsoletização da escola, como instituição pedagógica, e sua eventual transmutação em instituição de mera guarda de menores. Se isso se der, a expressão "Microsoft University" deixará de ser mera metáfora.
Mas o caminho do computador para a sala de aula passa pela familiarização do professor com ele (os alunos, nessa questão, o mais das vezes tomam conta de si mesmos). Para o professor se familiarizar com o computador ele precisa usá-lo nas mais variadas atividades, mesmo que elas não sejam de especial significado pedagógico nem voltadas para a sala de aula. Quando os professores tiverem com o computador a intimidade que hoje têm com o livro, descobrirão ou inventarão maneiras de inseri-lo em suas rotinas de sala de aula, encontrarão formas de criar, em torno do computador, ambientes ricos em possibilidades de aprendizagem que propiciarão aos alunos uma educação que os motivará tanto quanto hoje o fazem os jogos computadorizados, os desenhos animados, os filmes de ação, e a música estridente do rock.
Fonte: http://edutec.net/Textos/Self/EDTECH/zoom.htm
30 de dez. de 2008
Tenho orgulho de ser professor
Quando resolvi cursar história recebi o apoio de meus pais apesar de suas evidentes preocupações quanto ao meu futuro. Pensavam eles a respeito da desvalorização profissional pela qual passavam todos aqueles que resolviam trilhar essa carreira ao longo de suas vidas. Percebiam com clareza que os professores já não possuíam a mesma consideração e respeito de outrora e que, também, os salários estavam cada dia mais achatados...
Arrisquei minhas fichas todas nesse caminho e digo, com total certeza, que não me arrependo das opções que fiz. Pelo contrário, afirmo categoricamente que tenho o maior orgulho de ser professor, de atuar na educação. E porque venho a público afirmar a plenos pulmões essa satisfação? Pelas notícias que temos lido nos jornais e que nos contam do abandono da profissão, da baixa concorrência nos vestibulares nas áreas que formam professores e também pela crença geral de que a educação pode e deve semear o futuro de nosso país.
Trabalho a praticamente vinte anos nessa profissão, já tive a oportunidade de lecionar para praticamente todos os níveis e séries (exceto a educação infantil e turmas de primeira a quarta séries do ensino fundamental). Tive experiências marcantes com a terceira idade, educação de adultos, ensino de línguas, crianças, jovens e em especial, adolescentes.
Atualmente estou lecionando apenas na universidade, mas já dei aulas de história, geografia, filosofia, inglês e algumas outras disciplinas que nem mais existem (como OSPB – Organização Social e Política do Brasil – ou EMC – Educação Moral e Cívica).
Tive dificuldades como todos aqueles que trabalham numa sala de aula. Experimentei estratégias, realizei planejamentos, pensei possibilidades para as aulas que desejava desenvolver e, em alguns casos, não fui tão feliz quanto desejava nos resultados obtidos. Apesar disso, posso afirmar com certeza, que se nesses infortúnios não atingi o que objetivava, em tantos e tantos outros fui vencedor. Além de que, com meus erros, pude aprender muitas coisas...
E se fui um vencedor é porque contava com o apoio e o trabalho árduo e dedicado dos alunos com os quais estive. É nesse ponto que me detenho para exaltar o que considero nevrálgico para o sucesso profissional em educação. Temos que formalizar parcerias, conquistar o apoio de nossos estudantes, contar com sua energia positiva para realizar qualquer um dos gols que pretendemos em nosso desempenho profissional.
Imagino que os sucessos na educação derivam de muito esforço, preparação, estudo constante e, sobretudo, dessa necessária parceria com nossos estudantes. Sempre contei com o apoio da maioria dos estudantes para dar vida aos projetos que desenvolvíamos. Não eram meus projetos, pelo contrário, eram nossos. Se era minha competência conceber ou pensar nas alternativas pedagógicas, aos estudantes cabia dar alma, dar vida...
Considero, porém, que nada poderia ter acontecido se não tivesse estudado e me preparado muito. Como poderia ter ajudado alguém a educar-se em qualquer uma das áreas nas quais lecionei se não tivesse lido, feito cursos, criado uma bagagem cultural ou contado com o auxílio de prestimosos mestres que me ajudaram em minha formação?
Acredito, enquanto aluno, que temos que valorizar o trabalho de nossos professores e, além disso, que devemos literalmente fazer a nossa parte. Devemos sacrificar algumas horas de nosso lazer ou de nosso descanso com a finalidade de realizar nossos projetos, trabalhos, tarefas e estudos. Parece fácil dizer isso agora, quando sou o professor, no entanto esclareço que sou também, nesse momento de minha vida, estudante na PUC de São Paulo, no programa de doutorado em Educação: Currículo...
Tive a felicidade de contar com alunos que se mostraram sempre generosos no que tange a trabalhar mesmo quando isso significava abdicar de algumas horas se divertindo. Eles são diferentes de qualquer estudante com o qual você já trabalhou? Não, em absoluto. São adolescentes ou jovens que precisavam apenas de estímulo, respeito e credibilidade.
Queriam escutar nossas orientações, mas também sentiam a necessidade de afirmar seus pensamentos sem que fossem ridicularizados, desprezados ou desdenhados por quem os ouvia. Muitos deles careciam apenas de alguns momentos de atenção durante nossas aulas para que viessem a desabrochar e demonstrar seus talentos e melhores qualidades.
Catalisei muitas energias desses contatos. Cresci e aprendi talvez até mais do que eles podem imaginar a partir de nossos encontros. Penso que vivemos algumas estações do ano em nossos convívios. Mais primaveras e verões do que outonos e invernos. O tempo sempre me pareceu mais quente e aprazível enquanto estivemos juntos do que nublado e chuvoso...
Fui e sou feliz porque sei que de alguma forma contribuo para a formação presente e futura desses adolescentes e jovens. Não me considero melhor do que ninguém e nem ao menos me percebo como exemplo a ser seguido. Apenas acredito que tenho que fazer na minha profissão a diferença a favor de um mundo melhor e que, por isso, tenho que dedicar-me a dar o máximo de mim enquanto estiver numa sala de aula.
Vejo educação nos filmes que assisto, nos livros que leio, nas músicas que escuto, no movimento das marés, na luz do sol, no brilho das estrelas, nos olhos de nossos alunos que nos pedem silenciosamente que façamos algo pela escola para torná-la mais e mais sedutora, interessante e inteligente.
Acredito que a única forma de superar os desmazelos da vida cotidiana, recheada de escândalos e problemas (corrupção, violência, desestruturação familiar, drogas,...), passa pela criação de possibilidades melhores para o amanhã das pessoas. E o melhor caminho para a efetivação dessa vida com perspectivas de crescimento e progresso passa necessariamente pela escola, por nossas salas de aula, pelo nosso trabalho...
É isso tudo que me faz sentir que trabalho na profissão mais importante que existe e que me deixa sempre com um sorriso no rosto quando afirmo que sou, com orgulho, um professor...
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=981
29 de dez. de 2008
Caldeirão de Idéias no Best Blogs Brazil - Vote Já
Este blog recebeu a honra de ser indicado para votação no Best Blogs Brasil 2008. São 30 categorias e é a primeira vez que a educação faz parte da lista, mas o Caldeirão de Idéias foi indicado na categoria CORPORATIVO.Agradeço muitíssimo aos leitores que indicaram o Caldeirão de Idéias.
Agora, vem a segunda etapa que é a votação popular, por isso o voto de vocês é importante.
Só é possível votar em um blog por categoria e apenas o vencedor será premiado, durante o Campus Party 2009.
Para votar é preciso se cadastrar, mas é rápido.
Se quiser votar neste blog e nas outras categorias é só clicar neste link.
Obrigado aos amigos que votaram no Caldeirão de Idéias.
Eu sou um guerrilheiro e faço parte da revolução
Por Marco Gomes
Eu sou um revolucionário, faço parte da revolução digital.
Estamos mudando a forma como as pessoas se relacionam e se comunicam, destruindo monopólios e inventando maneiras de interagir.
Nós fazemos com que músicos não precisem assinar com gravadoras para ter seu trabalho divulgado, sequer precisam ir a programas de TV domingo à tarde. Bandas de incrível sucesso mundial liberam suas criações num sistema “pague o quanto quiser pelo álbum”. Centenas de milhares de músicas são armazenadas num espaço físico que antes não caberia uma única faixa de LP. Essas músicas são facilmente filtradas, classificadas, buscadas, e, o mais importante: compartilhadas com outras pessoas.
Aparelhos móveis inteligentes nos ajudam a acabar com prisões ilegais. Apresentam mapas com detalhamento que, nos anos 70, seriam considerados problema de segurança. Com um smartphone conectado à internet posso fazer mais que todos os computadores de 20 anos atrás juntos. Trocando mensagens de texto rapidamente conseguimos organizar eventos que aparentam não ter objetivo claro, mas têm: mostrar que podemos.
Propagandas em horário nobre concorrem com anúncios de texto espalhados em milhões de sites pessoais. Empresas resolvem entregar seus produtos a consumidores influentes sem exigir nada em troca, apenas pela oportunidade de criar uma experiência. Anúncios publicitários criados por nós têm mais impacto que muitos anúncios profissionais. O conteúdo que criamos mete o pé na porta dos canais de televisão, o mainstream deu lugar ao underground.
Produtos que vendem pouquíssimo passam a ter importância no faturamento de grandes lojas; a massa de itens que vende pouco pode continuar disponível para venda, alimentando um renascimento da cultura heterogênea. Conseguimos músicas, séries de TV, jogos e todo tipo de entretenimento sem pagar por isso. O próximo passo serão as viagens de avião gratuitas. Nós importamos sem ficar presos a legalidades fronteiriças, não por má fé, mas como forma de protesto. Queremos um mundo sem barreiras comerciais (as culturais nós já derrubamos).
Nós fazemos muitos hiperlinks, recriamos conteúdo já existente, misturamos animê japonês com música infantil norte-americana, colocamos contrabaixo no duo guitarra-bateria vermelho e branco, misturamos o álbum preto com o álbum branco. Recriamos nosso idioma, inventamos novos e mantemos os antigos vivos. Remixamos cultura. É como Larry Lessig disse: “Vocês nos aceitam ou nos criminalizam. Nos mostram para o mundo ou nos mandam para o underground. Vocês só não conseguem nos parar”.
Terremotos imprevistos são anunciados ao mundo no momento em que estão acontecendo. Em menos de 140 caracteres surgem amores, amizades, intrigas, piadas, eventos, histórias. As pessoas passam a se conhecer pelo que falam, levamos a amizade a uma escala global, ignorando limites traçados no solo, não há solo.
Obrigamos jornais e revistas a liberar grátis seu conteúdo, antes só acessível sob pagamento. Fizemos com que milhões de vídeos caseiros tenham valor comparável à reservas infinitas de minério. Nossos jogos movimentam mais dinheiro que o cinema.
Nós destruímos a formalização do ensino. Desprezamos títulos e valorizamos ações. Não nos reconhecemos pelos nossos PhDs, mas pela energia que agregamos à comunidade. Por nossa causa o governo fechou cybercafés próximos a escolas. Preferimos usar a internet a ficar trancados numa cela seguindo um modelo de ensino milenar. Nós aprendemos idiomas, linguagens de programação, história, ciência e qualquer coisa que nos interesse sem ajuda de instituições de ensino. Nós não precisamos de autorização para nada.
Muitas das coisas que fazemos não são inéditas, mas nós estamos agindo numa escala global. Computadores são cada vez mais baratos, em breve serão gratuitos e não haverá discriminação no acesso à informação.
Eu sou guerrilheiro nessa revolução. E você?Sobre o autor
Marco Gomes (eu@marcogomes.com) projeta produtos para internet, é designer e programador de interfaces, empreendedor profissional, diretor de tecnologia da boo-box e mantém um blog pessoal.
28 de dez. de 2008
Projeto Cinema no Caldeirão - 27/12
O filme de hoje no Projeto Cinema no Caldeirão é a animação Os Sem Floresta. O filme trata da questão da destruição do meio ambiente feita pelo homem e como isso afeta a vida dos animais. Também levanta questões sobre alimentação saudável, além de mostrar que a grupos organizados lutando por seu espaço no mundo e na sociedade.
O filme é fantástico é merece a indicação.
Abraços
Equipe NTE Itaperuna
Os Sem-Floresta - A modernidade em questão
Desenhos animados inteligentes são aqueles que conseguem trabalhar nas entrelinhas temas importantes sem que isso atrapalhe a diversão da criançada e que, ao mesmo tempo, os tornem conscientes dessas prementes questões do mundo em que vivemos. Trata-se realmente de uma arte conciliar animações com assuntos como meio-ambiente, relação familiar, alimentação, modernidade,...
Esse é, sem dúvida, o caso da produção Os Sem-Floresta, da Dreamworks. O filme dos diretores Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, roteirizado de forma talentosa por Len Blum, Lorne Cameron, David Hoselton e também pela diretora Kirkpatrick, é uma engenhosa e muito animada história envolvendo animais que moram numa pequena floresta e que, depois do período de hibernação, acordam tendo como vizinhos um grande e moderno condomínio.
A partir desse encontro muito provável nos dias em que vivemos (tendo em vista a grande expansão do mercado imobiliário em sua busca incessante por novas áreas agregáveis aos seus interesses financeiros), se estabelece uma relação interessantíssima entre os bichos da floresta e a nova realidade que os cerca. Relação essa pautada em casos verídicos percebidos através de matérias divulgadas pela grande mídia que dão conta de inúmeras situações em que animais selvagens entram em bairros residenciais próximos ao seu habitat natural em busca de alimentos nos lixos das casas ali localizadas...
Entramos aí na primeira das questões cruciais do filme, ou seja, a degradação do meio-ambiente e a deformação do modo de vida dos animais que vivem no entorno desses novos conglomerados humanos. O que é apresentado de forma engraçada no filme pode e deve ativar uma conversa com as crianças no sentido de saber das mesmas se já viram animais como aqueles apresentados no filme nas cercanias de suas residências. Se viram, o que fizeram? Como deveriam proceder em casos como esses? Como eram os animais que eles viram?
Isso tudo poderia desencadear uma conversa/aula bastante esclarecedora de ciências naturais. Ajudaria inclusive a resguardar as crianças em situações nas quais elas encontrassem algum espécime selvagem. Poderia levar ao surgimento de projetos em bairros que tivessem tal característica afim de que veterinários ou biólogos ajudassem a resgatar e resguardar os animais, encaminhando-os a entidades ambientais responsáveis que os pudessem reencaminhar para a natureza... Outra ligação interessante seria entre os animais e o meio-ambiente onde usualmente vivem. Poderia iniciar-se um estudo sobre diferentes paisagens e seus tipos naturais mais comuns. Estaríamos misturando elementos de ciências com geografia.
As questões ambientais nos levam, por sua vez, a discussão da própria modernidade em que estamos inseridos. Para onde vamos? Onde queremos chegar? Quais as conseqüências de nossos atos para o Planeta? Será que não estamos condenando a vida na Terra a extinguir-se? E as futuras gerações, será que elas conhecerão as diversas espécies animais e vegetais que ainda hoje existem nos continentes, oceanos, mares, rios e ar?
Há matérias sendo publicadas e divulgadas com enorme constância (muito maior do que realmente gostaríamos de admitir) nos principais meios de comunicação do mundo. Telejornais, revistas, publicações científicas, jornais de grande circulação, rádios e a própria Internet têm demonstrado que o ritmo voraz de consumo da humanidade exige muito mais do que o planeta Terra é capaz de nos dar. Imaginem então que... se falta para nós, o que irá acontecer com os outros seres vivos que habitam a nave-mãe em que vivemos?
Que modernidade é essa que nos leva a querer sempre mais e mais, numa desenfreada busca pelo conforto e pelo prazer eternos, e que, paradoxalmente nos condena ao ocaso e a destruição dentro de algumas décadas apenas? Como poderemos equilibrar nossa relação com o planeta, diminuindo a destruição, preservando a vida animal e vegetal, sendo mais justos na distribuição das riquezas produzidas (visando estancar a enorme pobreza que abate milhões e milhões de pessoas em vários países, inclusive no nosso) e evitando o futuro caótico que prevê nossa própria extinção?
Modernidade essa que já está estremecendo as próprias bases da relação humana, especialmente a família. No desenho Os Sem-Floresta a vida dos animais é retratada como sendo baseada nos moldes familiares dos seres humanos, pelo menos naqueles que retratam uma busca coletiva e cooperativa pela sobrevivência pautados numa relação cordial, fraterna, sincera e amiga entre os personagens. A inserção de um novo membro a essa “família”, onde se respeitam as particularidades e as diferenças, demonstrando-se claramente a idéia de tolerância, altera completamente a relação do grupo...
O novo animal que se junta ao grupo e que por ele é recebido de braços abertos não comunga das idéias que balizam essa comunidade familiar. Ele é mais esperto e, portanto, une-se aos demais com um propósito claro e pré-estabelecido de utilizar-se dos outros em benefício próprio. Não está, portanto, muito distante de tantas e tantas histórias que escutamos e que são próprias das comunidades humanas...
Se não bastassem todas essas temáticas importantíssimas inseridas nessa animação, há ainda espaço para se discutir a própria alimentação dos seres humanos. E é justamente nessa temática que se concentram as maiores ironias e os trechos mais engraçados do filme. Afinal de contas, enquanto os animais selvagens “comem para viver”, os seres humanos “vivem para comer”. Mesmo que sua alimentação siga caminhos que os levem inevitavelmente para problemas de saúde já que não segue critérios ou práticas (de conhecimento público e notório) que garantam sua própria segurança...
E precisa mais? Os Sem-Floresta é um ótimo desenho animado. Daqueles que temos que colocar na coleção e rever várias vezes com nossos filhos, sobrinhos, netos,...
O Filme
R.J. é um guaxinim faminto que tem a sua frente uma daquelas máquinas onde se colocam moedas e se escolhem salgadinhos. Ele está num local desértico, numa baia que abriga momentaneamente viajantes que passam pela rodovia logo à frente. Apesar de ser um animal selvagem, R.J. colocou uma moedinha na máquina (afinal estamos falando de um desenho animado, não é mesmo!) e teve a infelicidade de ver o seu pacote de salgadinhos Nacho ficar preso e não chegar as suas mãos...
Essa sua infelicidade o leva a tentar matar a fome saqueando os alimentos recolhidos por um grande e perigoso urso que está hibernando. Esse depósito alimentar a ser furtado conta com uma grande quantidade de mercadorias produzidas pelos seres humanos e esquecidas ou jogadas no lixo. Não há alimentos naturais, apenas produtos industrializados...
O problema é que o urso acorda e pega o guaxinim com a “mão na massa”, em flagrante delito... E o pior de tudo é que R.J. ainda deixa que tudo seja destruído num infeliz acidente envolvendo uma enorme carreta. Já que o sono foi interrompido e a comida perdida, cabe a R.J. tornar-se o cardápio do enfurecido urso... a não ser que... tudo possa ser recuperado dentro do prazo máximo de uma semana, exatamente quando surgir a lua cheia!
Esse é o mote inicial do encontro que irá marcar o restante da trama. R.J. irá se juntar a um pequeno e simpático grupo de animais que se depara, ao término de seu longo período de sono de inverno, com um novo e incrível obstáculo, inicialmente inominável para todos eles... uma grande cerca viva. E, para tornar ainda mais doloroso esse despertar, essa barreira os separa de um mundo totalmente novo e assustador para cada um daqueles animaizinhos.
Essa “família” de animais se encontra então com R.J., um esperto e aparentemente amigável guaxinim que se dispõe a ajudá-los a conhecer o mundo que os espera atrás da cerca viva e suas maravilhosas e nada assustadoras novidades. O que os animais não desconfiam é que, na realidade, R.J. quer apenas utilizá-los nessa perigosa empreitada para acertar suas contas com o perigoso urso que o espreita... Certamente uma das melhores e mais inteligentes animações produzidas pela Dreamworks, Os Sem-Floresta é programa obrigatório para as crianças e também para os pais...
Para Refletir
1 - Proponha a criação de um catálogo de espécies animais próprias da região onde vivem seus alunos. Nessa produção devem constar dados sobre os espécimes retratados e também sobre a geografia local. Para facilitar e tornar o trabalho mais agradável seria interessante legar aos estudantes a responsabilidade sobre certas espécies, como répteis, anfíbios, mamíferos, aves, peixes,... No tocante ao trabalho devem ser conseguidas imagens, informações sobre o modo de vida, as bases alimentares, o espaço onde vivem, como se reproduzem, se correm ou não o risco de extinguir-se,... Ao final a produção de todos os grupos poderia ser reunida para a confecção de um único livro a ser apresentado para os pais, os outros alunos da escola e para a comunidade.
2 - Amplie a discussão sobre o tema anterior levando especialistas como biólogos ou estudiosos da flora e da fauna para falar sobre o assunto com os estudantes. Além disso faça uma pesquisa em locadoras ou em emissoras de televisão aberta e paga (se for possível) para descobrir documentários que retratem os traumas causados pela modernidade ao meio-ambiente. Promova uma semana sobre o assunto contando com o apoio da direção e dos outros professores e funcionários.
3 - Instigue seus alunos a levar suas pesquisas e produções para as autoridades municipais. Divulgue o trabalho através da mídia local. Através de ações como essas, o que se pretende é fazer com que o tema seja debatido em esferas mais amplas e que a preocupação com o assunto se transforme em práticas que ajudem a preservar o meio-ambiente. Ao levar os alunos, desde as séries iniciais do Ensino Fundamental, a participar desse tipo de atividade/ação o que se pretende é fazer com que ele se sinta ativo e responsável pelo mundo em que vive e que, ao mesmo tempo, essas crianças entendam que não adianta ficar de “braços cruzados”, esperando resoluções tomadas por outras pessoas, todos precisamos trabalhar por um mundo melhor!
Ficha Técnica
Os Sem-Floresta
(Over the Hedge)
País/Ano de produção: Estados Unidos, 2005
Duração/Gênero: 83 min., Animação
Direção de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
Roteiro de Karey Kirkpatrick, Len Blum, Lorne Cameron, David Hoselton
Elenco (vozes): Bruce Willis, Garry Shandling, Steve Carrel, William Shatner, Wanda Sykes, Nick Nolte, Thomas Haden Church, Allison Janney, Eugene Levy, Catherine O’Hara.
Links
- http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=11585
- http://www.adorocinema.com.br/filmes/sem-floresta/sem-floresta.asp
- http://www.cineclick.com.br/cinemateca/ficha_filme.php?id_cine=13469
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=719
22 de dez. de 2008
A guerra dos alfabetizadores
Leonardo da Vinci
Antes mesmo de Francis Bacon, Da Vinci já mostrava o caminho da ciência experimental, cujos avanços mudaram a face da Terra. Alguns ramos da ciência embarcam em naves espaciais. Mas, entre nós, há educadores que, nessa matéria, continuam refestelados em seus uivantes carros de boi. As discussões sobre como alfabetizar uma criança ainda não seguiram os conselhos de Da Vinci: se há dúvidas, é preciso buscar os "resultados de experimentos". Os vôos da imaginação só cobrem a decolagem do processo científico. A aterrissagem é no solo do mundo real.
Circulam pelo menos quatro escolas de pensamento. Há uma que afirma ser a leitura um processo global. Aprende-se a ler frases inteiras, blocos de palavras. Ao lidar com um assunto palpitante, tudo dá certo. Esse é o método exaltado pelos gurus e adotado quase universalmente. Outra escola afirma que o melhor é metodicamente aprender sons e letras. É o método fônico, neto do velho bê-á-bá. Uma terceira seita fica entre as duas anteriores. Adota o processo fônico, mas acha necessário contar uma história interessante, em paralelo à tarefa mecânica de aprender a associar sons e garranchos no papel. Por último, há um grupo agnóstico, que afirma que, não importa o método, tudo depende do professor. Cada grupo cita seu guru favorito, e a discussão patina.
Como a capacidade de ler e entender é algo eminentemente mensurável, estamos falando de números. Por sorte, há números em abundância. Isso porque, como os Estados Unidos e a Inglaterra passaram por dilema semelhante, foi criado um Literacy Panel, encarregado de juntar todas as pesquisas sérias feitas sobre o tema (veja-se Diane McGuinness, O Ensino da Leitura, editora Artmed). Apareceram cerca de 100 000 artigos científicos. Passando o pente-fino, sobreviveram menos de quarenta. Pelas mesmas razões que não é necessário ser engenheiro automobilístico para ver quem chegou em primeiro numa corrida, podemos medir qual método alfabetiza melhor sem entender suas teorias.
Os resultados são bastante claros e se aplicam ao português – por ser também uma língua fonética. Nem uma só pesquisa confiável mostrou vantagens para o método global. A disputa foi entre variantes do método fônico. A combinação do fônico com uma contextualização ou enredo não mostrou bons resultados. Ao que parece, a historinha que acompanha o aprendizado de letras e sons desvia a atenção e consome tempo dos alunos. É melhor primeiro aprender a ler bem e depois dedicar-se a entender o que está escrito. Observou-se também que, quanto mais fraco o aluno, mais o método fônico traz vantagens. Tais resultados puseram uma pá de cal na controvérsia. Todos os países de Primeiro Mundo que haviam abandonado os métodos fônicos voltaram a adotá-los. Faz pouco, o ministro francês Gilles de Robien proibiu o global.
As pesquisas mostram vantagens sistemáticas para o fônico. Portanto, a hipótese dos agnósticos é negada. De fato, se o método fosse irrelevante, tais diferenças não existiriam. Mas os agnósticos podem ter alguma razão quando se comparam professores que não conhecem bem nem um método nem outro. Nesse caso, as comparações não mostram nada.
Em ciência não há conclusões definitivas ou finais. Mas, até que se refutem as conclusões do Literacy Panel, o que sabemos hoje nos obriga a aceitar a superioridade do método fônico. A sociedade brasileira tem o direito de fazer duas exigências aos que recebem salário (pago pelos contribuintes) para cuidar de alfabetização. Que superem suas cruzadas ideológicas e se ponham de acordo. Que para isso se valham dos princípios da ciência empírico-dedutiva, que, desde Bacon, todos os cientistas aceitam (ou seja, o que valida uma hipótese são experimentos, não os gritos de seus defensores).
Claudio de Moura Castro é economista
(Claudio&Moura&Castro@cmcastro.com.br)
Fonte: http://veja.abril.com.br/120308/ponto_de_vista.shtml
21 de dez. de 2008
O capital quer uma nova escola. A atual já não serve
Estive lá no Descolagem #3. Vários blogueiros bateram post. Destaco os do Frederick e do Sergio Lima com textos, fotos e vídeos.
Os palestrantes eram evangelistas. No Wikipedia em português ainda não tem uma definição para o termo. Trata-se da pessoa que incentiva os outros com novas idéias. (Se me lembrar ou alguém puder dar uma arrumada por lá, seria bom.)
Do blog do Sergio Lima tiro os seguintes trechos da palestra da Diretora Pedagógica da Escola Parque Patrícia Konder.
(A foto tirei do blog dele.)
Ela diz, “A tecnologia determina, de certo modo, como a sociedade se organiza, mas a Escola ainda é quase a mesma nos últimos 200 anos. A Escola precisa mudar paradigmas, mas isto é muito complicado porque é necessário romper com nossas referências. É dificil, mas é preciso começar do zero”.
Ela defendeu, ainda usando o blog do Sérgio como referência:(…), redesenhar a “geografia da escola”! Nova organização dos alunos (não necessariamente por idade)… organizar os alunos por problemas! (…) espaço para se aprender a problematizar, pensar e resolver problemas (relevantes e significativos)! (…).
Fim.
O que fiquei a pensar sobre essa discussão. Se a escola está aí há 200 anos, perguntaria o professor, por que não vai ficar mais 200 anos do mesmo jeito?
Talvez esta seja uma questão central, pois se tudo nunca mudou por que haveria de mudar “justamente agora que eu estou aqui?”
Tenho percebido nos lugares que vou, que a dimensão das mudanças pelas quais passamos não está suficientemente clara. Tivemos mudanças iguais a essa atual poucas vezes na história!
Quando começamos a escrever e passamos do modo interativo - um-um para um-muitos; quando passamos a publicar livros e jornais - quando expandimos tremendamente o um-muitos, seguido, bem depois pelo rádio e televisão. E agora, com a possibilidade do muitos para muitos.
Leiam Cibercultura do Lévy. Ou o primeiro capítulo do meu livro e do Marcos.
Mudamos nessas rupturas a maneira pela qual produzimos informação, nos comunicamos em escala maior e, portanto, na forma de obter conhecimento.
Concordando e reafirmando o que disse a palestrante: “A tecnologia determina, de certo modo, como a sociedade se organiza”…complemento: ainda mais as ligadas ao conhecimento, que mudam profundamente a sociedade e esta se adapta ao novo modelo.
Note que a escola sempre foi um replicador do status quo.
Servia bem ao sistema, da fase industrial, na qual o aluno deveria sair para apertar parafuso e não pensar.
Ou seja, quem defendia o contrário, queria modificar o sistema.
A grande mudança de paradigma é de que o novo ambiente de conhecimento - no atual modelo de troca de informação cada vez mais rápida - ganha dinheiro em torno das idéias, criatividade e inovação.
A escola que serviu e teve o incentivo dos poderes hegemônicos da sociedade e serviu muito bem a eles durante anos, conforme protestou Paulo Freire, agora dá uma guinada, pois os interesses do capital estão mudando.
Não se quer mais apertadores de botão, mas pensadores.
E justamente por causa disso que a Escola que já era obsoleta vai bater de frente com a demanda das empresas e do mercado de trabalho.
Ou dito de outra forma: do jeito que está, não serve mais aos interesses de ninguém, principalmente do capital cada vez mais intelectual e menos industrial.
Isso vai acontecer de forma gradual e lenta, pois é uma instituição antiga, mas o processo já se iniciou.
Um aluno formado sem criatividade está sendo educado para o século passado e terá dificuldade em se colocar na indústria criativa do século XXI. Vai ser o aluno bumerangue: baterá no mercado de trabalho e voltará para um curso de criatividade na esquina.
Basta ver o ambiente de trabalho hoje do Google e da Microsoft.
Ali, está não só o germe da nova escola, mas das novas empresas, na qual a criatividade é o ar que se respira.
E me parece esse um grande incentivo para que os professores possam parar um pouco para pensar, a despeito dos 200 anos de não-mudança.
Não mudou, mas agora tende a mudar.
O ambiente de conhecimento é outro, repito, o capital que vale agora é a massa cinzenta, para produzir bens intangíveis.
Novas regras, novo jogo.
Assim, do que fica do papo do sábado chuvoso, se a escola muda, mudam as empresas, como muda a sociedade.
Moral do post: a escola vai mudar, não só por que já está velha e caquética, desde que eu me sentei por lá, mas será outra, pois o sistema, agora quer e vai criar fortes demandas para isso.
As escolas inovadoras serão procuradas pelo mercado e incentivadas a se proliferarem.
É o início neo-Paulo Freirismo, revisitado.
O debate da Descolagem foi show, estarei lá nos próximos…
Anotem: o lugar vai ficar pequeno. Alguns pontos que ficam para outras descolagens…ou as questões que ainda me inquietam sobre tudo isso.
Como será esse novo trabalhador do conhecimento diante das injustiças corporativas? Até quando ele terá que pensar e com terá que se conformar? Será ainda empregado ou acionista? Empreendedor ou empreendido?
Que me dizes…Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/11/26/o-capital-quer-uma-nova-escola-a-atual-ja-nao-serve/
20 de dez. de 2008
Projeto Cinema no Caldeirão - 20/12
O filme de hoje no Projeto Cinema no Caldeirão é o documentário Uma Verdade Inconveniente do Al Gore. Estamos vivenciando um tempo em que as mudanças culturais, sociais, educacionais, tecnológicas e climáticas ou sejam elas qual forem, estão mudando o mundo de forma muito rápida. Na escala da evolução humana os anos eram contados aos milênios e agora aos anos, e se não mudarmos aos segundos.
Reduzir as emissões de carbono, reduzir a quantidade de lixo produzido e reciclando o que já existe, consumir conscientemente, dar destino correto ao lixo tecnológico, poupar água e energia, dar preferencia a produtos ecologicamente corretos e empresas ecologicamente sustentáveis entre tantas outras ações.
Fica aqui essa sugestão e boas aulas
Abraços
Equipe NTE Itaperuna
Uma verdade inconveniente - Rumo à extinção da vida na Terra
“A era das protelações, das meia-medidas, das ações a curto-prazo, dos adiamentos, está terminando. Em seu lugar estamos entrando numa era de conseqüências.” (Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, na década de 1930, quando o país passou por um estado de emergência causado por questões ambientais).
Icebergs descongelando. Furacões e enchentes em diferentes partes do mundo. Florestas ameaçadas por incêndios. Fábricas soltando toneladas de fumaça na atmosfera. Muitas pessoas acreditam que, tendo em vista as dimensões de nosso planeta, desastres ambientais de grande intensidade, por maiores que venham a ser, não são capazes de tornar impossível a continuidade da vida no planeta. A essas pessoas é dirigida a mensagem de Al Gore, senador norte-americano, candidato derrotado por George Bush à presidência da república e que se tornou, nos últimos anos, um dos maiores e mais destacados líderes em favor da luta contra o aquecimento global de que se tem notícia.
E para atingir públicos ainda maiores, de preferência obtendo repercussão nos quatro cantos do mundo, Gore protagonizou palestras em várias instituições, criou materiais através dos quais apresenta e discute o tema do aquecimento global e, para dar maior impacto a sua cruzada mundial, produziu o filme “Uma verdade Inconveniente”.
Para ilustrar com clareza a tese de que estamos cada vez mais desprotegidos e também para comprovar que somos todos cúmplices no movimento que está levando o Planeta a derrocada final, em uma de suas falas iniciais no filme, Al Gore nos lembra o pensamento de Carl Sagan, renomado e reputado astrônomo norte-americano, mundialmente famoso.
Segundo Gore, Sagan comparava a atmosfera terrestre a uma fina camada de verniz utilizada para proteger, dar brilho e manter por período mais prolongado de vida um globo terrestre. Trata-se, portanto a atmosfera, de uma camada que, sendo assim tão reduzida, e tendo pela frente toda a ação humana que alterou completamente o equilíbrio da vida na Terra, fragilizou-se de tal maneira, que já não atua como antes o fazia na redução dos efeitos da radiação solar sobre o planeta e os seres que aqui vivem.
Mas o que realmente aconteceu?
A atmosfera, que até recentemente era fina o suficiente para deixar os raios ultravioleta emitidos pelo Sol e direcionados ao planeta Terra, aqui entrar e depois sair, conservando dentro dos limites de nossa nave-mãe uma parte dos mesmos, praticamente a medida exata de nossas necessidades (para que sejamos capazes de sobreviver ao frio extremo que existiria caso esse mecanismo não fosse assim ou ainda, para que não sejamos literalmente “cozidos” ou “fritos” se as doses de radiação que aqui permanecessem fossem excessivas), está passando por um processo de “engorda”, ou melhor dizendo, está sendo engrossada.
A poluição do ar, do solo e das águas ocasiona e acelera o efeito estufa.
E o que está ocasionando isso? O chamado “Efeito Estufa”, ou seja, a emissão de gases, fumaça, poluentes, resíduos químicos ou ainda de qualquer tipo de detrito produzido pela humanidade a partir de sua ação na crosta terrestre. Isso inclui, também, os oceanos e toda e qualquer ação que altere a harmonia ali reinante e que esteja sendo produzida pelos homens através de seus processos produtivos (e destrutivos). Esse fenômeno, em sua totalidade, “aprisiona” mais calor na Terra, em virtude da excessiva emissão de dióxido de carbono na atmosfera, e promove o que conhecemos como aquecimento global.
A quantidade de dióxido de carbono que estamos lançando no ar, no solo e na água é tão elevada que as estimativas científicas para os próximos 50 anos indicam que estaremos tendo, ano após ano, recordes sucessivos de altas temperaturas. E isso já é claramente visível se levarmos em conta o que ocorreu ao longo dos últimos 50 anos nas regiões geladas da Terra, em suas diversas localidades: no Himalaia, nas Rochosas norte-americanas, nos Andes, nos Alpes, no Alasca, na Groenlândia, ou ainda nos pólos Norte e Sul. É uma mensagem muito clara e evidente para todos nós, ou seja, se não fizermos alguma coisa, todo o planeta será seriamente afetado, a ponto de não sermos mais capazes de sobreviver, de resistir.
Faltará água potável. Alimentos escassearão em virtude da diminuição das áreas de plantio. A desertificação aumentará de proporção em todos os continentes. Espécies vegetais e animais sucumbirão e se tornarão extintas em tempo recorde. A humanidade terá muitas dificuldades para sobreviver, se lograr isso...
A preocupação com as mudanças climáticas atinge as pessoas como deveria? Não. Ficamos sabendo e nos mostramos sensibilizados em relação a isso. Notícias de desastres ambientais provocados pelas mudanças climáticas tornam-se a cada dia mais freqüentes e não ocorrem de forma isolada, afetando apenas algumas localidades ou continentes. Adentramos a era das conseqüências, como previu Winston Churchill, ainda na década de 1930, como destacado no início desse texto e no filme “Uma verdade inconveniente”, de Al Gore.
Apesar disso, parecemos sempre muito mais preocupados com o que acontece num contexto muito imediato e particular. Desastres ambientais ocorridos na China ou na Índia, tufões que causam enorme destruição nos Estados Unidos ou no Japão, desertificação crescente que afeta os países africanos ou ainda enchentes e ondas de calor acentuadas que aumentam os índices de mortalidade na Europa são realidades muito distantes.
Só parecemos realmente nos importar quando esses inconvenientes ocorrem diretamente conosco. As imagens da televisão e as notícias dos desastres na internet são rapidamente esquecidas e tudo fica para trás por conta de nossos compromissos pessoais. E que mundo estamos deixando para nossos herdeiros?
O degelo das montanhas e das regiões geladas do planeta aumenta o nível dos oceanos.
Somos já, enquanto geração que está nesse momento escrevendo a história do planeta, atuando na linha de frente dos processos produtivos que caracterizam o fenômeno da globalização, pessoas que receberam um legado comprometedor, com a Terra já bastante devastada em virtude da ambição desmedida, do não comprometimento com a saúde do ambiente e da necessidade de cavar cada vez mais fundo, em busca das últimas gotas de petróleo ou ainda de crescentes quantidades de ferro, manganês, cobre ou qualquer outro tipo de minério.
Demos continuidade a ampliação desmedida das áreas de plantio e, em contrapartida, diminuímos sensivelmente a cada ano os espaços destinados as florestas. Tornamos maiores também os índices de produção e produtividade de nossas indústrias, desesperados por nos mostrar sempre mais “musculosos” e prontos para vencer na cada vez mais árdua disputa por mercados mundiais.
Mas, ainda assim, não nos demos conta do maior de nossos pecados. E o mais mortal de todos. Aquele que pode ocasionar não apenas a nossa purgação eterna, mas que, caso não seja detido, pode gerar milhões de mortes e comprometer para sempre o futuro de todos os seres vivos desse planeta.
E saibam, nossas crianças não estão alheias a tudo isso. Na verdade, estão muito mais ligadas do que os adultos. E temerosas do que pode lhes acontecer em virtude de nosso descaso com o meio-ambiente. O aquecimento global os faz perder o sono e supera, em muitos casos, os piores vilões dos desenhos animados, dos filmes de ação, suspense ou terror que conhecem.
Meu filho de 11 anos é prova disso. Tem acompanhado as notícias e, de tantos infortúnios apresentados na televisão, comprovando a força da natureza em sua revolta contra a humanidade, constantemente se pergunta sobre nossas possibilidades reais de sobrevivência. Numa dessas ocasiões, sentou-se ao meu lado na cama e começou a chorar, assustado com o que lhe parece ser inevitável.
Perguntou-me então, se eu achava que existia uma saída real para o aquecimento global que nos ameaça tão fortemente. Contei que cientistas e pesquisadores de várias partes do mundo estavam nesse momento debruçados sobre a questão, analisando alternativas e propondo idéias que poderiam reverter o quadro, tão desolador.
A incidência de furacões, tornados, enchentes, secas e do fenômeno da desertificação tornou-se muito maior ao longo dos últimos 30 anos.
Lembrei-lhe então de um filme que havíamos assistido, uma versão recente de “Peter Pan” levada as telas. Pedi a ele que se recordasse do momento em que a fada Sininho estava enfraquecida e prestes a morrer, pois as crianças pareciam não mais acreditar nela ou em qualquer tipo de ser encantado. Para que isso não acontecesse, Peter Pan disse a Wendy e as crianças que estavam na Terra do Nunca, que deveriam crer e dizer, em alto e bom som, que acreditavam na existência de seres mágicos como fadas, gnomos, ogros ou duendes. E as crianças do mundo todo começaram então a entoar em altos brados: “Eu acredito, eu acredito, eu acredito...”.
E a partir de então, sempre que lê ou escuta algo sobre aquecimento global, e se sente ameaçado pela devastação que estamos provocando na Terra, ele olha para mim e diz: “Eu acredito! Eu acredito!”, referindo-se no caso, a possibilidade que temos de conseguirmos salvar o planeta...
“Uma verdade inconveniente” é um filme obrigatório e certamente uma das mais importantes produções dos últimos 30 ou 40 anos. Por quê? Pois é justamente a partir de então que aumentamos e aceleramos ainda mais o ritmo de devastação que está provocando o efeito estufa e o aquecimento global... Ou agimos rapidamente ou comprometeremos para sempre a vida no planeta... Senão por nós, pelo menos pelas próximas gerações e por todos os sere vivos que estamos sacrificando...
Ficha Técnica
Uma verdade inconveniente
(An inconvenient truth)
País/Ano de produção: Estados Unidos, 2006
Duração/Gênero: 100 min., Documentário
Direção de Davis Guggenheim
Roteiro de Al Gore
Links
Site official: http://www.climatecrisis.net
http://www.cinepop.com.br/especial/verdadeincoveniente.htm
http://www.omelete.com.br/cine/100003331/Uma_verdade_inconveniente.aspx
http://www.adorocinema.com/filmes/verdade-inconveniente/verdade-inconveniente.asp
Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=974
19 de dez. de 2008
Professor do Futuro e Reconstrução do Conhecimento
Ele fala que a escola é o mais importante caminho para a construção de conhecimento, é nela, que o nosso cérebro é estimulado a trabalhar com o CONHECIMENTO que possuímos anteriormente de freqüentarmos uma instituição escolar, porém, esse processo somente obterá êxito se o aluno realmente compreender o tema e a sua importância, de modo que ele possa tornar-se um não apenas um sujeito integrante, mas também interativo.
O autor ressalta que não é possível promover aprendizagem em sala de aula se o professor não tiver total domínio do conteúdo, sem precisar recorrer constantemente nos livros didáticos que apresentam respostas prontas e únicas para os exercícios, também afirma que: quem estuda com quem não estuda jamais aprenderá estudar.
Demo diz que o livro didático suprime a voz e as inquietudes do aluno não deixando revelar o cidadão que queremos. O poder do livro didático como discurso de verdade, enfatiza o conteúdo a distanciada como um exercício de reprodução e não de formação e/ou criação. Então ele fala que é preciso proporcionar ao aluno atividades que possibilitem estimular seu raciocínio, trazendo as atividades mais perto possível da realidade do educando.
Pedro Demo também faz uma classificação significativa de nove requisitos básicos para que o professor construa o perfil do professor do futuro, ele deve ser:
1) pesquisador;
2) formulador de proposta própria;
3) capaz de por em prática a teoria e teorizar a prática;
4) permanente atualizado em seu conhecimento;
5) aperfeiçoar-se também nos meios tecnológicos;
6) torna-se interdisciplinar;
7) deve ter mestrado;
8) engajado com a cidadania;
9) Professor do futuro é aquele que sabe fazer o futuro.
Estes são os noves requisitos apresentados por Pedro Demo para formar um professor do futuro, e fundamenta suas teorias dizendo que: fizeram futuro as sociedades que souberam pensar, as sociedades que souberam produzir e usar de modo inteligente as energias de conhecimento, a versatilidade autopoética da aprendizagem, a indocilidade da educação.
Fonte: http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_45489.html
18 de dez. de 2008
O mito da Geração Google
http://palazzo.pro.br
10 de Maio de 2008
Nas férias passadas estava lendo um caderno de classificados de computação quando, de forma completamente imprevista devido aos objetivos daquele caderno, encontrei este pequeno editorial:
Editorial do Caderno de Classificados de Informática do Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 10 de Fevereiro de 2008, página 1.
Pesquisadores britânicos afirmam que a suposta habilidade dos jovens para lidar facilmente com novas tecnologias não se confirma
Os jovens conseguem utilizar novas tecnologias com facilidade e adquirir conhecimento apenas com o uso da internet, certo? Pois um estudo encomendado pela Biblioteca Britânica diz o contrário. A pesquisa, realizada pela University College of London, afirma que a Geração Google - como são chamados os adolescentes nascidos a partir de 1993, depois da popularização do computador - tem sua capacidade supervalorizada.
Conforme o levantamento, feito com o objetivo de esclarecer como o avanço tecnológico afetará as bibliotecas, os garotos de hoje não são necessariamente eficientes em fazer pesquisas pela internet.
Também não permanecem mais tempo online do que as pessoas mais velhas e não destoam do resto da sociedade em priorizar informação rápida e digerida. "Na verdade, já somos a Geração Google: a demografia da internet e do consumo de mídia está erodindo supostas diferenças de gerações", diz o relatório da pesquisa.
O trabalho ressalta ainda que a "alfabetização digital" e a "alfabetização informativa" não caminham conjuntamente, o que se reflete na incapacidade demonstrada por muitos jovens para filtrar o imenso arsenal de dados disponíveis na web. Outro mito que não se confirma, dizem os pesquisadores, é o de que os garotos são mais propensos do que seus pais a buscar informações rápidas e "mastigadas". A preferência por textos resumidos e buscas por palavras-chave é uma norma geral. "A sociedade (como um todo) está se emburrecendo", diagnostica o estudo.
Uma característica que muitos já suspeitavam também foi confirmada: a dita Geração Google é uma forte adepta da prática de "copiar e colar" informações para seus trabalhos escolares, e prefere plataformas interativas de informação ao consumo passivo dos dados. Para tirar suas conclusões, os cientistas utilizaram estudos feitos com jovens nas décadas de 80 e 90 e os compararam com a forma como os adolescentes de hoje pesquisam na Biblioteca Britânica e nos sites educacionais do governo inglês.
O que o estudo não conseguiu responder é se os jovens são mesmo mais capazes do que seus pais de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. "A questão mais ampla é saber se as habilidades seqüenciais, necessárias à leitura, também estão sendo desenvolvidas", observam os pesquisadores.
A ênfase na conclusão apresentada acima é minha e o problema é muito sério mesmo. Há bastante tempo escrevi sobre o plágio acadêmico pois estava começando a ficar preocupado com esta tendência de copiar e não de criar. Este péssimo hábito está esterilizando a criatividade. Precisamos absolutamente da revisão dos conhecimentos passados para poder construir mais alto! Uma frase, atribuída a Isaac Newton, condensa esta posição: “In the sciences, we are now uniquely privileged to sit side by side with the giants on whose shoulders we stand.” Aliás uma parte desta frase foi tomada como mote pelo Scholar Google para balizar o uso correto deste serviço.
O que aconteceu? A citação acima dá o caminho: a "alfabetização digital" e a "alfabetização informativa" não caminham conjuntamente. As pessoas passaram a utilizar a Web de forma natural pois foram "alfabetizadas digitalmente" mas não sabem utilizar a informação obtida. O conjunto de dados disponíveis na Web representa um acervo gigantesco. O grande desafio é acessar, recuperar e organizar estes dados de forma a transformá-los em informação relevante.
A palavra Dados vem do latim datum isto é algo oferecido, dado. Esta é a significação de dados: algo que está disponível que foi oferecido. Em informática consideramos dados como valores que podem ser números, cadeias de caracteres ou imagens sem interpretação. Isto quer dizer que um valor não possui uma significação em si mesmo, por exemplo: 220 podem ser volts ou quilômetros por hora. Este é o primeiro nível na representação do mundo real. Informação é o próximo nível, a informação consiste no significado associado aos dados, no exemplo anterior 220 volts é uma informação associando um valor (dado) a uma grandeza que tem significado físico. Neste caso 220 é interpretado como uma grandeza elétrica, a voltagem. Finalmente no último nível, o Conhecimento, existe a compreensão do significado da informação com a possibilidade de utilizar este conhecimento para algum uso específico. No nosso exemplo o conhecimento associado a 220 volts poderia ser que esta tensão elétrica é perigosa para o ser humano e que devem ser utilizadas ferramentas isoladas para manipular fios submetidos a esta tensão. Para que consigamos entender o significado das informações é necessária a estruturação do conhecimento e a construção de um modelo, uma espécie de mapa, relacionando os diferentes conceitos recuperados. Esta é a parte que está faltando a "alfabetização informativa ou de conhecimento".
O que ocorre parece ser uma tendência para a obtenção de material simples e de fácil aplicação. Para que estudar mais se o simples me garante a subsistência? Para que conhecer os fundamentos se me pagam pelo conhecimento e competência no uso de ferramentas de software? Para que um curso mais longo se três anos bastam para minha colocação no mercado? Estas são as perguntas correntes. Comprovei isto assistindo uma recente entrevista, longa - no padrão francês de uma hora, na TV5 de um líder estudantil de uma grande confederação de estudantes sobre os quarenta anos de Maio de 68. Seu comentário que mais me causou impacto foi: "Os estudantes de 68 queriam mudar o mundo nós só queremos nosso espaço no mercado (de trabalho)"! O problema é que esta posição levada ao limite nos conduz à mediocridade, apenas uma vida mais ou menos estável, nenhum desafio maior, nada a desbravar...
Uma destas conseqüências do utilitarismo do ensino é a visão de Bolonha sobre os cursos universitários; se por um lado há o fator positivo do intercâmbio e da mobilidade há o lado negativo da redução do tempo dos cursos. A visão dos colegas envolvidos neste processo é que o objetivo é criar um modelo de cursos curtos, para inserção rápida no mercado de trabalho, associado a um modelo de long life learning, ou seja o retorno ao estudo para atualização. Eu estou pensando que seria melhor chamar este modelo de long life training - o treinamento de mecânicos para as novas tecnologias. Quem vai desenvolver estas novas tecnologias? A Universidade Européia, que era conhecida por suas qualidades de abstração e de criação conceitual e filosófica no modelo de Universidade Humboldtiana, pode estar se transformando em uma escola técnica superior.
O mesmo se passa com nossos estudantes, se tudo está disponível na Web porque desenvolver? É mais fácil copiar. Para que estudar algoritmos se encontramos libraries para tudo com dois toques de teclado? Este texto, republicado no JC e-mail 3503, de 02 de Maio de 2008, é uma leitura essencial.
Nora Bär (ciencia@lanacion.com.ar) é editora de Ciência e Saúde do jornal argentino "La Nacion", onde publicou este artigo: En los siglos XVI y XVII, Galileo fue astrónomo, filósofo, matemático y físico. En esas épocas, una sola persona -- claro que no cualquiera: ¡Galileo, nada menos! -- podía abarcar el conjunto de los conocimientos de su tiempo. En el mundo globalizado de hoy, la ciencia dejó de ser una empresa individual para convertirse en un aparato gigantesco cuyos engranajes exceden lo puramente académico y cuyos hallazgos impulsan no sólo el avance del conocimiento, sino también la competitividad de los países. A los científicos actuales ya no les basta, como se cuenta que hizo Galileo, con asomarse a la Torre de Pisa, lanzar dos piedras y observar cómo caen. Para alimentar la moderna maquinaria de experimentación, capaz de bucear en el submundo de la materia y de desmontar las piezas de la vida, se necesitan equipos monumentales y cuantiosas inversiones que no suelen estar al alcance de los países en desarrollo. ¿Entonces qué chance les queda a los jóvenes David frente a los superpoderosos Goliat que dominan el escenario científico global? En el discurso de apertura de la última reunión de la Asociación Americana para el Avance de la Ciencia, su ex presidente, David Baltimore, formuló algunas ideas que vale la pena tener en cuenta. Baltimore ganó el Premio Nobel de Fisiología o Medicina en 1975 (junto con Renato Dulbecco y Howard Temin) por el descubrimiento de la enzima que en los virus oncogénicos "traduce" el ARN en ADN. Pero además de ser un científico brillante, fue un administrador exitoso que presidió la Universidad Rockefeller y el Instituto Tecnológico de California, y asesoró a los gobiernos de la India y Ruanda en temas científicos. Contrariamente a lo que podría suponerse, para él la fuerza de un país en materia científica no depende tanto de los equipos e instalaciones como de la calidad de los investigadores. Entre otras cosas, aconseja mantener un alto nivel de excelencia en la selección de recursos humanos, impulsar el desarrollo de instituciones pequeñas, no separar la enseñanza de la investigación y preservar la libertad académica de los científicos. Por otra parte, insiste en que -aun para los países en desarrollo- la ciencia básica (que no tiene un fin definido) es insoslayable. "Incluso si uno tiene la intención de que sus graduados trabajen en las cosas más prácticas, el entrenamiento que reciben en la ciencia básica es el mejor que se les puede ofrecer", afirma durante una entrevista publicada por SciDev.net. "Desarrollar ciencia de primer nivel es difícil -- dice Baltimore --. Sólo se llega a la excelencia después de un proceso largo y trabajoso. Si uno [se limita a comprar] una máquina, produce ciencia estándar. En investigación, son las personas las que hacen la diferencia, haciendo cosas nuevas y formulando nuevas preguntas. La calidad de la gente es la que determina lo que se produce. De modo que uno puede tener máquinas maravillosas, pero a menos que tenga gente extraordinaria, no podrá producir ciencia extraordinaria." En un mundo dominado por el dinero, es reconfortante pensar que Baltimore puede tener razón... (La Nacion, Buenos Aires, 30/4)
Para finalizar uma citação de Albert Einstein:
“Quero opor-me à idéia de que a escola tem de ensinar diretamente o tipo especial de conhecimento e as técnicas que uma pessoa tenha que utilizar mais tarde diretamente na vida. As exigências da vida são demasiadamente múltiplas para permitir que uma preparação tão especializada seja possível como uma ferramenta morta. A escola deveria sempre ter como alvo que o jovem saísse dela como uma personalidade harmoniosa, não como um especialista”.
Acho que temos bastante material para meditar neste Dia do Trabalho.
Fonte: http://palazzo.pro.br/cronicas/028.htm
17 de dez. de 2008
Blog na sala de aula
(Colaborou: Carmem Granja)
Sabe quando você chega aos 30 se sentindo um velho? Não que minhas articulações acusem dores inéditas ou que minha memória esteja começando a falhar. Na verdade, este é um fenômeno comum desde o século passado. O sujeito nascia ouvindo rádio, passava a infância vendo TV em preto-e-branco e chegava à adolescência em cores, quando adulto ele conhece o videocassete, abandona os discos de vinil, se espanta com o fax, custa a entender o computador caseiro e chama os netos para ajudar com uma transação bancária via Internet.
Não foi o meu caso, mas a revolução tecnológica nestes tempos de virada de século, em vez de diminuir o seu ritmo, desembestou ladeira abaixo. Se meus primórdios testemunharam o tele-jogo (ancestral do já arcaico Atari) e descobriram o videocassete na infeliz Copa de 82, tive que rapidamente adaptar-me aos CDs (o que foi um prazer) e, na vida adulta, à crescente necessidade do uso de computador (aprendizado bem mais sofrido). Basta dizer que, em minha faculdade de Jornalismo, a sala de redação onde nos "preparávamos" para o mercado de trabalho era composta apenas de máquinas de escrever. Isto em 1993!
Hoje não consigo nem olhar por muito tempo para os videogames alucinógenos que fascinam tampinhas de gente, e ainda estou me perguntando se um dia terei DVD. Claro que sim, mas não sem resistência!
Calhou de eu ter que trabalhar com Internet, de modo que minha profissão me relembra a toda hora como fico defasado a cada segundo que passa.
Velho aos 30, enfim!
A Internet não pára
Não apenas para mim, a Internet é ainda um mundo novo. Há 10 anos, quase ninguém tinha sequer ouvido falar dessa tecnologia de comunicação que hoje faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros.
Como toda inovação tecnológica, com o tempo a Internet vem se modificando, à medida que as pessoas descobrem novas formas de usá-la. A primeira coisa que eu conheci nesse terreno, lá pelo ano de 1996, foi o correio eletrônico, também conhecido por seu nome americano: e-mail (lê-se "i-mêiou"). Hoje muita gente já o incorporou no seu dia-a-dia, mas trata-se de uma tremenda revolução: comunicar-se quase em tempo real com pessoas em qualquer lugar do mundo, enviar e receber documentos de trabalho, imagens, som, vídeo. Tudo ao custo de uma ligação local! Graças ao e-mail, reatei amizades enfraquecidas pelo tempo e pela distância. Alguém já falou: hoje, longe é um lugar que não existe.
A partir daí, conviver com a Internet tornou-se um aprendizado constante. Navegar timidamente pelos sites mais conhecidos foi o primeiro passo. Logo descobri que os sites de busca são ferramentas indispensáveis para encontrar o que se quer, pelo quase infinito mundo virtual afora. Notícias, cultura, esportes, política, humor, curiosidades, serviços... e o bicho-de-sete-cabeças que era a Internet já virou um fascinante companheiro.
Mas novos recursos não páram de surgir, nos surpreender e nos conquistar. Através dos bate-papos (chats), é possível conversar em tempo real (ao vivo) com gente comum, dos mais variados estilos, trocar idéias, se divertir, e quem sabe até namorar com a ajuda da rede. Não aconteceu comigo, e confesso que nunca me deslumbrei muito com os bate-papos virtuais. Mas uma vez aberta a porta da tecnologia, tem recursos para todos os gostos. O tal do ICQ, que nunca tomei a iniciativa de adotar, permite estar em contato com os amigos o tempo todo, enquanto estamos com o computador conectado. Para quem trabalha on-line, como eu, significa ter sempre companhia, mesmo estando sozinho (talvez por isso eu não me anime com o ICQ: um pouquinho de solidão até que faz bem).
Listas de discussão não chegaram a virar moda, mas são úteis para quem é fã ou especialista em algum assunto, e quer estar informado e conversando sobre ele com outros conhecedores ou simpatizantes. É mais um mecanismo a conectar pessoas distantes no espaço, mas próximas no pensamento. Minha experiência com listas de discussão? Participei de uma sobre o Botafogo, e me sentia em casa para soltar os bichos com outros torcedores fanáticos. Me desliguei pelo excesso de dedicação que a lista exigia. Choviam mensagens diariamente, e eu não tinha condições nem paciência de ler todas, muito menos responder.
O que há de mais recente? Quem tem a tecnologia da Internet via cabo já pode até ver filmes na web, e instalar microfone e câmera de vídeo no computador para falar, ouvir, ver e ser visto por amigos e parentes distantes. O telefone do futuro já chegou. E eu vou fingindo que não me surpreendo para não me tomarem por ultrapassado. A verdade é que somos todos constantemente ultrapassados pela tecnologia: estamos sempre correndo atrás.
Finalmente, há os blogs.
Blogando novas idéias
A mais nova moda na Internet são os blogs. Eles começaram tímidos, funcionando como sites pessoais bem simples. O conteúdo era mais ou menos como o de um diário íntimo (quem já não teve um?): a pessoa revelava seus sentimentos, experiências, pensamentos. A diferença é que este "diário" fica disponível para quem quiser ler. Normalmente, como em quase tudo na Internet, o autor do blog usa um codinome (em internetiquês: nick) para se expor sem receios.
Mesmo nessa primeira fase dos blogs, alguns deles eram bem interessantes. Numa espécie de "big brother" da Internet, até que é divertido acompanhar o dia-a-dia de uma pessoa que não conhecemos, ainda mais se ela escreve bem e tem idéias interessantes. É claro que, à medida que eles se multiplicaram, muita besteira surgiu. Tem gente que usa o seu blog para narrar ações comuns, totalmente sem graça: "Levantei, fui tomar café. Comi pão sem manteiga. Preciso comprar manteiga.", e no dia seguinte "Comprei manteiga. Hoje eu comi pão com manteiga e café com leite". Esta é outra característica dos blogs: eles são sempre atualizados, quase diariamente. Para quem tem o que dizer e para quem quer ler sempre um novo pequeno texto, isto é ótimo.
Graças à facilidade de criá-los e mantê-los, rapidamente os blogs se multiplicaram, e hoje já são milhares no Brasil. Muito mais do que simples "diários", tornaram-se espaços para gente inteligente escrever suas idéias, seus gostos, sua vida. Os blogs costumam também dar a possibilidade para o leitor de comentar o que leu. Os comentários são publicados no blog, e às vezes rendem outras boas conversas. Quem lê constantemente o mesmo blog torna-se "conhecido" do autor (também chamado de blogger).
As possibilidades dos blogs ainda não foram inteiramente exploradas. A Educação, por exemplo, pode abrir novos canais de comunicação entre alunos e professor, incentivando, com isso, o convívio e a aprendizagem das tecnologias envolvidas.
O educador pode convidar os alunos para criarem, juntos, um blog da turma. Todo o processo - escolher o servidor, eleger e editar o visual, inscrever os participantes e decidir o nome e os "objetivos" do blog - pode ser feito coletivamente. Por exemplo: uma turma pode criar o blog "Dúvidas caseiras", e todos os alunos, de casa (se tiverem Internet) ou da escola, vão colocando questões que aparecem em seu dia-a-dia para serem discutidas e solucionadas nas aulas. Um blog feito por várias pessoas tem a vantagem de estar sempre mostrando novos textos, imagens, idéias. Se cada aluno colaborar com o blog uma vez por semana, já serão várias novidades por dia.
(É bom lembrar que os servidores tiram do ar os blogs que ficam muito tempo sem atualizações.)
Também é possível fazer do blog um jornal com as novidades, curiosidades, notícias e fofocas da turma. Grupos de alunos poderiam assumir cada editoria (editorial; notícias da escola; notícias da turma; cultura; esportes; recreio; colunas de opinião; etc.) e o jornal estaria sempre fresquinho e sempre no ar, para quem quisesse ler. Blogs não costumam permitir diagramações muito diferentes. Neste caso, o importante seria mesmo o conteúdo do jornal, e não sua forma. Mesmo assim, não é difícil colocar imagens, fotos e outros recursos visuais no blog.
Os blogs contêm uma área de "arquivos", onde textos antigos (publicados há mais de uma semana, 15 dias ou mês, a critério dos criadores) ficam armazenados e podem ser lidos. Este também é um bom recurso para guardar e deixar disponíveis trabalhos, textos e artigos de alunos e professores.
Outra opção muito interessante seria usar o blog no seu sentido original: uma página pessoal, com os pensamentos do dia-a-dia de cada aluno. Só que a criação dos blogs seria orientada em sala de aula, e todos os endereços ficariam disponíveis para a turma. Usando codinomes, os alunos e alunas colocariam ali suas idéias, suas visões de mundo, comentariam textos uns dos outros, entrariam em contato com outros blogs e sites. Certamente a iniciativa funcionará como um incentivo para que os alunos conheçam melhor a Internet e se deixem seduzir por ela, transformando informação em conhecimento.
E o professor? Ele também teria acesso aos blogs pessoais dos alunos, podendo sempre comentá-los, tirar dúvidas e selecionar bons textos e temas de discussão para levar para a sala de aula. Deixando os alunos livres para criar, sem compromisso de resultado ou nota, o professor obtém o que há de mais valioso nesta relação: passa a conhecer a cabeça de seus alunos, seus sonhos, medos, desejos e interesses.
Seja como for, levar o recurso dos blogs para a escola pode representar um salto na capacidade de comunicação dos alunos. Convidados a se divertir, eles estarão exercitando a leitura, a escrita, o senso crítico e a familiaridade com a informática.
Tudo isso vale também para o professor, que, como eu, já deve estar passando dos 30, e quer correr atrás das novas maravilhas da comunicação. Já provei e posso afirmar: blogar não dói nada, e é uma delícia...
Como criar um blog?
Vários sites oferecem hospedagem gratuita para blogs, e explicam passo a passo como criar e manter o seu. O único cuidado que se deve tomar é hospedar o blog em um site que tenha uma boa estrutura, pois problemas no “hospedeiro” podem fazer seus textos sumirem ou mesmo simplesmente acabar com blog da noite para o dia.
Um dos serviços gratuitos mais usados pelos blogs brasileiros é o Weblogger Brasil.
Entre os internacionais, podemos indicar o Blogger. O site traz instruções simples para a criação e manutenção de blogs. Mas é preciso saber inglês (não mais).
Obs.: O texto acima é bem antigo, apenas postei para mostrar a evolução no entendimento do uso e aplicação dos blogs.
Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materias/0062.html
16 de dez. de 2008
Pedagogia do Fingimento
Nildo Lage
É impossível falar de educação sem voltar os olhos para o passado. É mais impossível ainda fazer educação sem se apossar de heranças filosóficas, tendências... porque, desde os tempos remotos, a história é escrita por aqueles que a determinavam. E narrada por aqueles que tentam fazê-la.
Inácio de Loiola trouxe a novidade com a Companhia de Jesus, alarmado com a expansão do luteranismo na Europa. Não funcionou. A única saída foi a Reforma Pombalina da Educação, que descartou o Sistema Jesuítico... Daí por diante, a história foi se desfigurando, gerando “estórias”. E, há tempos, a sala de aula está perdendo a originalidade, deixando de ser um local de aprendizagem, reflexão, troca de conhecimentos, de experiências... Porque está se convertendo num campo de batalhas: professores desmotivados travam uma guerra com alunos impregnados de armas sociais — violência doméstica, urbana, psicológica, drogas, abandono social — que chegam com o intuito de brincar, se divertir para passar o tempo. O professor, menos preocupado ainda, passa por breves instantes pela sala para dar uma “espiada” e cumprir um contrato de trabalho, sem se incomodar com a aprendizagem e as experiências dos alunos.
Nesse jogo do faz-de-conta, princípios didáticos, filosóficos e éticos estão enfraquecendo no infértil terreno do conhecimento, porque violência, agressões, desrespeito mútuo estão consumindo a espécie-símbolo: o diálogo, que é o elo do relacionamento professor–aluno. A troca, a parceria, a afetividade estão abaladas, cada vez mais ausentes.
Nessa guerra na busca do saber, professores lançam conteúdos frívolos garganta abaixo e não cobram resultados. Alunos digerem o prato do dia e se sentem fartos... Uma avaliação para cumprir o protocolo, e lá se foi um bimestre. Um problema a menos. “Colões” e “decorebas” se dão bem. Os “menos espertos” fazem um “trabalhinho extra” para recuperar a nota, o tempo perdido... e lá se vão... O novo bimestre os espera.
Com tantas veias de escape, aprendizagem, conhecimento e saber nunca se encontram. Treinamento e capacitação trilham caminhos diferentes, e a essência da educação vai se esvaindo, perdendo originalidade pelos rincões do construtivismo, do sociointeracionismo, das tendências pedagógicas que surgem num piscar de olhos: Vygotsky, Piaget, Vallon, Ferreiro, Freire... De filosofia em filosofia, de pensamento em pensamento, a nova tendência “Crítica Social” vai surgindo, com o sonho de chegar para ficar.
Se não for puxado o freio de mão, em breve, teremos que escrever a nova “História da Educação”, porque os grandes pensadores terão as suas idéias ultrapassadas. Perderão espaço para os megaempreendedores que estão fazendo da educação um negócio da China, imbecilizando alunos, assolando a meta de formar cidadãos atuantes, críticos e participantes, convertendo-os em profissionais sem iniciativas, que decoram conteúdos e não são preparados para o mercado de trabalho, para encararem os desafios de um mundo que exige cada vez mais. A escola que temos é repleta de reentrâncias, preenchidas por rupturas, ranços, intrigas políticas, disputas pessoais, inúmeras bifurcações que conduzem analfabetos letrados por caminhos que se perdem nos atalhos para se chegar a uma educação de excelência, cujos condutores julgam estar no caminho certo.
Com isso, o conhecimento está se tornando um animal raro, porque, na educação da era digital, as fontes interdisciplinares da informação jorram, a cada passo, numa velocidade alucinante. E os alunos, na rota de colisão, são bombardeados pelo excesso de informações, muitas fúteis, e mantidos nas dependências da escola do novo tempo, como cobaias bitoladas, onde são polidos para se encaixar nos moldes de uma educação impositiva; aprendem três comandos: Ctrl+T, Ctrl+C e Ctrl+V. Capa, contracapa... Uma breve introdução para dissimular... “A minha pesquisa ficou perfeita”. O professor, mais perfeito ainda, dá um 10. Esse aluno é o CDF. Porque professor investigador — que leva seus alunos a descobrirem o novo, reavaliarem o velho, ampliarem os horizontes do conhecimento — está cada vez mais escasso, um mito nos corredores das escolas. O importante é não reprovar; que, ao final de cada ano, todos passem.
Com essas façanhas, cumpre-se mais uma meta: a estabelecida pela ONU para combater o analfabetismo nos países emergentes; e, sem receio de errar, o governo dispara em todas as direções: Educação a Distância, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), Programa Universidade para Todos (Prouni), Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE)... São tantos caminhos que professores e alunos se chocam, se confundem, se perdem, não se entendem; e a verdadeira educação vem perdendo terreno para a educação burocrática que se agiganta em escolas de muralhas, de grades... De professores virtuais, de alunos onipresentes. O professor, centralizador do conhecimento, foi murchando, obrigado a ceder o espaço para o professor mediador, que, na verdade, medeia o tempo na sala de aula, à espera do passar do próprio tempo.
E o objetivo da verdadeira educação?
Ainda é a aprendizagem? A quem importa?
É hora de repensar os métodos traçados, os moldes pré-fabricados... Destruir a fórmula que determina o que deve ser ensinado e como deve ser aprendido. É hora de tirar a viseira de professores privados de buscar, de trabalhar a realidade de seus alunos e de construir o próprio conhecimento para reavaliar a sua prática e colocar a lente de educador, para ver o mundo além da sala de aula ou de uma janela cibernética.
É hora do negro e do índio terem os seus valores respeitados, a sua história resgatada, pois resgatá-la é resgatar a cultura, a história do País e da própria educação no Brasil. Respeitar as diversidades regionais, etnias, opiniões, culturas, porque, nos pavilhões e nas galerias do presídio do saber, as relações interpessoais estão deixando de existir. Existem apenas regras. E a educação, hoje, escreve uma história com dois finais: um para a minoria que tem recursos financeiros para pagar por uma educação de qualidade e outro para aqueles que são atirados pela janela das escolas públicas e são obrigados a se acomodar em salas superlotadas, sem recursos didáticos, sem carteiras, com professores despreparados, onde o autoritarismo se converteu em lei e está substituindo a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). O eu roubou o espaço do nós, e, se não voltarmos a ser nós, a sala de aula será exatamente o que eu (o sistema) quero: muita informação e pouca aprendizagem.
É hora do Sistema de Ensino voltar-se para o eu desse aluno que sai da favela, do campo... Porque ainda acreditam que a educação é o caminho que leva à realização e é hora de polir esse eu, nos moldes dos sonhos, da vontade de ser e de existir de cada eu.
É preciso estreitar os laços de relacionamento entre escola, ensino, educação e família para que o aluno compreenda o mundo em que vive e se proponha, como cidadão, a mudá-lo. É como já dizia Freire: “Não é na resignação, mas na rebeldia frente às injustiças que nos afirmamos”. Porque professor é um título que se conquista com um diploma comprado ou conquistado, mas ser educador é uma singularidade exclusiva; essência rara que se desprende daqueles que fazem do ofício de ensinar a arte de formar cidadãos. É preciso que leis deixem de ser meros projetos constitucionais, que as camadas conquistem a igualdade e que a educação seja prioridade.
E, então, quando a política deixar de ser uma transição entre a campanha e a eleição, as armas sociais serão recolhidas pelos jovens e pelo professor. O prazer de ensinar se refletirá no de aprender, e aí, sim, haverá melhorias na educação. E a educação cumprirá a sua missão, porque terá uma verdadeira história para contar.