28 de jun. de 2012
REA no II Fórum da Internet no Brasil
22 de set. de 2009
Ser leitor
Celso Antunes
- Não sei ler nem escrever, a vida não me propiciou essas regalias. A ausência desses saberes, entretanto, não impediu a construção de alguma felicidade. Tenho família, tenho emprego e embora o que eu ganhe permita que minha família não passe fome, bem sei que o que posso oferecer aos meus filhos não os impede de cobiçar vitrines, com olhos gulosos. Agora estou freqüentando um curso de alfabetização de adultos e, segundo minha professora, em pouco tempo saberei conhecer as letras, decifrar marcas, saber o que os letreiros dos ônibus falam e, até mesmo, olhar os remédios na prateleira da casa de meu sogro, identificando o nome de um ou de outro. Sabendo ler, creio que ganharei um pouco mais, mas mesmo assim, ainda olharei com inveja o mundo das pessoas que sabem mais, muito mais que eu.
- Eu sou um leitor. Tenho família, tenho emprego e embora o que eu ganhe não permita que minha família passe fome, bem sei que o que posso oferecer os meus filhos não os impede de cobiçar vitrines, com olhos gulosos. Mas, se a riqueza material fica distante de meus sonhos, os livros sempre me fizeram cavaleiro das cruzadas, gladiador de Roma, pescador de almas. Com eles, percorri vielas medievais, viajei em fantásticas naves rumo ao amanhã e como saltimbanco, andei por terras que nunca vi, conversei com pessoas que minha admiração se transformou em amor. Sou amigo íntimo de Bradbary, converso sempre com Conam Doyle, jogo palavras de afeto para Clarice e Machado e, com Castro Alves, até em Navios Negreiros andei. Estou esperando uma promoção, sei que não vou ganhar muito, mas as bibliotecas irei usufruir, pelo doce fascínio de passear pelo ontem e pelo amanhã. Sou feliz em meus sonhos e essa felicidade, divido com todos quantos nesta vida fizeram-se leitor.
Eu tenho um cão, chama-se Negus. Meu cachorro não sabe ler, mas é capaz de pensar. Pode com seus ganidos avisar-me que a hora da comida chegou e pode com seus olhos doces transmitir a afeição que sente por mim. Posso dar um osso e dar afagos a Negus, jamais poderei, entretanto ampliar os limites de seus pensamentos. Escravo de um limite biológico inerente a sua espécie, aprenderá um pouco mais, mas nunca fará desse saber um instrumento para aprender outros aprenderes. Não creio que seja muito difícil adestrá-lo, mostrando-lhe como ficar sentado ou dar-me sua pata dianteira, mas, jamais poderei fazer de Negus um sonhador, jamais minha ação de professor poderá ajudá-lo a ser arquiteto de seus próprios sonhos.
Como professor posso também ensinar uma pessoa a ler. Mostrar-lhe como decodificar símbolos, descobrir sílabas e soletrar palavras. Sei que se assim agir estarei ajudando-o. Estarei fazendo algo não muito diferente do que premiar Negus com um osso.
Mas, sei também que como professor posso fazer de um aluno, um leitor. Ler é bem mais que decodificar símbolos; é atribuir sentido ao texto, é compreender, é interpretar. è também descobrir que a língua, tal como roupa que se usa, pode servir-nos em situações diferentes, assumindo formas alternativas.
Fazer de um aluno um leitor é como lhe mostrar um osso e, aos poucos, vê-lo transformando-se em nave espacial, vagando pelo encanto do imaginário, dançado em uma valsa de Strauss. Fazer de um aluno um leitor é, entre outros, apresentá-lo a Arthur Clark e fazê-lo amigo de Stanley Kulbrich.
Fonte: http://www.celsoantunes.com.br/pt/textos_exibir.php?tipo=TEXTOS&id=23
18 de jul. de 2009
Livro Grátis - Educação e tecnologia: trilhando caminhos
A dica de hoje de de minha amiga Tati Martins do fantástico blog ""Mulher é desdobrável. Eu sou."". Ele recomendou o livro para ler totalmente grátis. Nesse tempo de crise nada melhor de um livro 0800. O livro indicado é da Lynn Rosalina Alves que é Doutora em Educação e Comunicação entre outras coisas e atuando como:
- Professora do Departamento de Educação e Comunicação da UNEB - Campus 1
- Professora do Mestrado em Educação e Contemporaneidade da UNEB - Campus 1, orientando projetos de pesquisa nas áreas de EAD e Educação e Tecnologia.
- Coordenadora do Projeto de Pesquisa Ensino on-line: trilhando novas possibilidades pedagógicas mediadas pelos jogos eletrônicos.
- Coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunidades Virtuais ( CNPq )
- Coordenadora dos Núcleos de Educacao e Tecnologia e Educação a Distância das Faculdades Jorge Amado
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Abraços e Boa Leitura
Equipe NTE Itaperuna
22 de abr. de 2009
Quando a escola é de vidro
![[292160g[5].gif]](http://lh6.ggpht.com/_iau_agITVwY/SdoODatyBCI/AAAAAAAAAWA/EMMM9mza_mk/s1600/292160g%5B5%5D.gif)
Ruth Rocha
Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarrachava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também.
Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!
Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior...
Tinha menino que tinha até de sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo...
Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado...
E os professores não gostavam nada disso...
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós...
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
- Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
- Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro - já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando - SOCORRO! VÂNDALOS! BÀRBAROS!
(pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.
Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
- Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
Seu Hermenegildo não se perturbou:
- Não tem importância. Agente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar...
Obs.: O terceiro conto de Este admirável mundo louco, de Ruth Rocha que pode ser lido aqui
23 de fev. de 2009
A História vai ao Cinema
Filmes nacionais entram na sala de aula
“Minha geração é ‘cinemeira, como dizia minha avó; como Lênin, acho que o cinema foi a arte do século XX, e os filmes agora não são mais vistos no delicioso escurinho do cinema mas também na televisão ou no vídeo. Os intelectuais, mesmo aqueles mais isolados em sua torre de marfim, apreciam cinema. ‘Papos-cabeça, tentando entender e/ou mudar o mundo ou o país (ou mesmo a nós mesmos, o que é tão difícil quanto o resto), se deram muitas vezes a partir de discussões sobre filmes que nos toca(va)m mais profundamente.”
Na “orelha” do livro “A História vai ao Cinema”, a professora doutora Vavy Pacheco Borges, da Universidade de Campinas (Unicamp) já dá uma clara demonstração da importância e da presença do cinema no imaginário coletivo mundial a partir de seu surgimento e consolidação no século XX. Somos todos, de certa forma, “cinemeiros”. Mesmo quando não vamos com a desejada freqüência ao cinema, assistindo filmes a partir da programação da televisão ou vídeo e DVD, consolidamos a presença e a influência da sétima arte sobre a contemporaneidade.
E não há, entre nós, atualmente, pessoa que possa se dizer imune a essa presença tão marcante dos filmes. É certo, em qualquer ambiente que freqüentemos, encontrar pessoas comentando alguma produção recentemente assistida. Sugestões, críticas, dúvidas, artigos lidos, seqüências destacadas, a interpretação dos atores, a criatividade dos diretores e técnicos, os efeitos especiais, a música, tudo isso e muito mais é objeto de comentários por parte de cinéfilos mais fanáticos ou mesmo de cidadãos comuns, influenciados pelo filme apresentado na noite anterior em algum canal aberto.
O mais interessante é perceber que a riqueza e a variedade de informações dos filmes transparece a cada novo comentário incorporado a discussão. Por mais que tenhamos visto um filme diversas vezes, o mais atentamente possível, sempre aparece alguém com uma idéia, imagem ou dado que passou despercebido a nossos olhos.
A história do Brasil, nossa cultura, nossos hábitos e costumes, a política ou a economia podem ser percebidas em produções concebidas por nossos melhores cineastas, atores, produtores e técnicos. Acima vemos os cartazes de três filmes de sucesso de diferentes décadas: “Bye-bye Brasil” (1979), “A Marvada Carne” (1985) e “Carlota Joaquina” (1995).
Outro aspecto deveras marcante dessa relação entre os filmes e as pessoas é a forma como muitas vezes estabelecemos uma relação de amor e ódio com alguns títulos. Sempre temos em nossa mente uma lista de filmes que sugerimos a nossos amigos ou colegas de trabalho. Do mesmo modo, estamos dispostos a aconselhar que não assistam determinados títulos, previamente vistos por nós e que condenamos por uma grande variedade de fatores. Essas análises são tão subjetivas que na maior parte das vezes em que condenamos ou recomendamos uma determinada produção invariavelmente aparece alguém a nos contradizer.
Uma das mais conturbadas relações estabelecidas nesse convívio entre homens e filmes é aquela que se verifica num país tropical, de grandes dimensões territoriais, abençoado por Deus e bonito por natureza. E não me refiro, nesse caso, ao intercâmbio estabelecido com o cinema internacional. A questão é de infinitos amores e ódios dentro das próprias fronteiras tupiniquins, entre público e realizadores do cinema nacional. E não é recente, se arrasta a muitos e muitos anos, praticamente desde o estabelecimento de nossa produção cinematográfica.
Nesse ínterim um dos grandes méritos do trabalho organizado por Mariza de Carvalho Soares e Jorge Ferreira, “A História vai ao Cinema”, consiste em dar ao cinema nacional o destaque que merece. Por esse motivo, os organizadores desse livro valioso reuniram um destacado e prestigiado grupo de historiadores das mais variadas instituições acadêmicas para analisar alguns dos melhores e mais polêmicos filmes produzidos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990.
O fato de contar com o apoio de intelectuais prestigiados, provenientes de seleto grupo de universidades dos quatro cantos do país (UFBA, UFPR, UFF, UFRJ, UFCE, USP, UNICAMP, UFMG, UFPE, UnB, UFRGS) só dá ao livro mais charme, credibilidade e diversidade. São diferentes vozes se articulando a respeito de filmes tão dispares quanto Central do Brasil, Gaijin, Pixote, Guerra de Canudos, Eles não usam black-tie, Lúcio Flávio,...
A repressão da ditadura militar ou a luta dos trabalhadores por seus direitos são temas presentes em filmes de grande sucesso como “Pra Frente Brasil” (1983) e “Eles não usam black-tie” (1981).
Através de suas análises percebemos o quanto o cinema nacional consegue ser atuante, questionador, perturbador, polêmico e culturalmente relevante. Nossos filmes abordam temas como política, violência, nazismo, cotidiano, amor, solidariedade, diversidade, greves e muitos outros assuntos. Utiliza o escurinho do cinema para divulgar causas, consolidar formas de pensar ou questionar posicionamentos. Através de nossos filmes ficamos sabendo que os brasileiros foram, são e continuaram sendo atuantes, participativos e preocupados com o futuro de seu país.
O foco principal dado à história pode, a princípio, esconder a riqueza do trabalho, capaz de atender a um público muito maior que aquele localizado entre os estudiosos da história. Há uma ampla gama de pessoas que poderia ler o livro e tirar proveito do mesmo. Desde estudiosos de cinema, passando por leigos interessados no tema, estudantes em busca de uma maior compreensão do Brasil, professores das mais diversas áreas interessados em diversificar e enriquecer seu trabalho a, até mesmo, políticos, dirigentes sindicais, ONGs ou lideranças comunitárias que pretendam aprender um pouco mais sobre a brasilidade.
Sílvio Tendler, no prefácio, destaca que “a história do século XX será contada com recursos audiovisuais e a partir da produção audiovisual do século XX”, o que reafirma a importância de trabalhos como “A História vai ao Cinema”.
Vivemos imersos numa sociedade onde a imagem é valiosíssima como recurso fomentador de conhecimento e aprendizagem. Não podemos dispor dessa ferramenta tão rica que é o cinema. Uma das colocações iniciais de minha dissertação de mestrado acerca desse poderoso instrumento ponderava que quando vemos um filme temos que nos sintonizar nos mais variados elementos (atores, diálogos, cenografia, sons, música, iluminação, locações, figurinos, fotografia) para podermos entender o que está sendo passado para nós.
Veja o filme, leia o livro. Alguns de nossos melhores filmes surgiram de obras de consagrados escritores ou deram origem a livros muito ricos e interessantes a respeito do tema ou da própria produção cinematográfica.
Realizamos múltiplas leituras quando vemos um filme. Ao utilizarmos o cinema como recurso didático em nossas aulas estamos colocando diante de nossos alunos produções que exigiram o trabalho de um grande número de profissionais; pensadas por diretores e roteiristas de forma exaustiva; surgidas do investimento de grandes somas de dinheiro; fruídas após longos períodos de trabalho (de pesquisa, captação de recursos, pré-produção, produção, marketing, edição e distribuição). Não dá para desperdiçar todo esse esforço simplesmente assistindo aos filmes e esquecendo-os.
E o melhor de tudo é perceber como, ao utilizarmos os filmes em nossas aulas, a resposta por parte de nossos estudantes é positiva, enriquecida. O cinema, aliado aos livros, a Internet, a artigos científicos, a revistas e jornais, a pesquisa de campo e a outros recursos e metodologias de trabalho em educação dá ao professor e a seus alunos uma maior capacidade de argumentação, análise, comparação, síntese e posicionamento perante a vida.
Tenho um bom histórico de práticas relacionadas à utilização de filmes em sala de aula. Sinto que há ainda uma certa resistência por parte de um grande número de professores a utilização regular do cinema na escola. A publicação de um número cada vez maior de livros, artigos e páginas da internet dedicadas ao tema auxilia e muito a conscientização quanto as possibilidades da utilização dos filmes no ambiente educacional. Ressalto, entretanto, que para bons resultados nessa prática é necessário muito planejamento. Temos tentado orientar os professores nesse sentido a partir de nossos artigos da coluna Cinema e Educação.
Leiam mais livros como “A História vai ao Cinema”, assistam novos filmes, conversem com outros educadores sobre a aplicação desse recurso em suas aulas, valorizem a produção nacional (cada vez mais rica, cheia de novas idéias e valorizada internacionalmente) e criem projetos que venham a realizar em suas aulas mesclando o cinema a outros recursos. Seus alunos agradecem. A educação também!
Obs.: Traduzindo as siglas das universidades citadas – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Ceará (UFCE), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=335
6 de fev. de 2009
Leitura Obrigatória
Hoje venho recomendar a leitura do livro “O diálogo entre o ensino e a aprendizagem” de Tema Weisz que foi recomendada pela Revista Nova Escola. O livro uma publicação da editora Ática além de ter um preço excelente é uma leitura obrigatória para todo profissional de educação.
O livro lançado em 2000 faz um convite à reflexão sobre a distinção entre ensino – ação do professor que possibilita meios para o saber – e aprendizagem – a ação do aluno que termina em conhecimento. No livro a autora fala sobre todo o processo entre a intervenção do professor e a materialização do conhecimento pelo aluno, destacando a importância do professor nesse processo.
Há também uma analise sobre a história da educação no Brasil, onde é feita uma analise dos modelos de aprendizagem atuais e o meu preferido que é o ensino por resolução de problemas. No livro ela cita “não existe um processo único de ‘ensino-aprendizagem’, como muitas vezes se diz, mais dois processos distintos: o de aprendizagem, desenvolvido pelo aluno, e o de ensino, pelo professor”.
É isso mesmo um não existe sem o outro, mas são ações interligadas. Para usar TIC o uso da metodologia Aprendizado Baseado em Problemas (Problem-Based Learning - PBL) que destaca o uso de um contexto critico/avaliativo para o aprendizado, promove o desenvolvimento da habilidade de trabalhar em grupo, e também estimula o estudo individual, de acordo com os interesses e o ritmo de cada estudante. O aprendizado passa a ser centrado no aluno, que sai do papel de receptor passivo, para o de agente e principal responsável pelo seu aprendizado é o mais apropriado.
Os professores que atuam como tutores (ou facilitadores) nas salas de aula têm a oportunidade de conhecer bem os estudantes e de manter contato com eles durante toda a aula e fora dela através de emails, enfatiza o aprendizado auto-dirigido, centrado no estudante. O professor não "ensina" da maneira tradicional, mas facilita a discussão dos alunos, conduzindo-a quando necessário e indicando os recursos didáticos úteis para cada situação.
Uma aula PBL inicial trabalha os conhecimentos prévios dos estudantes sobre o assunto apresentado; os problemas são primeiramente identificados e listados, e em seguida são formulados os objetivos de aprendizado, com base em tópicos considerados úteis para o esclarecimento e a resolução do problema, técnica dos sete passos (Esclarecimento dos termos difíceis, Definição dos problemas a serem entendidos e explicados, Análise dos problemas, Dar as possíveis explicações, de acordo com os conhecimentos prévios – "Brain storm", Resumir, Formular os objetivos de aprendizado, Estudo individual baseado no passo n° 5, Relatar ao grupo, Discutir).
Na etapa seguinte os estudantes vão trabalhar independentemente, na busca de informações e na sua elaboração (estudo auto-dirigido) antes da próxima aula, quando as informações trazidas por todos serão discutidas e integradas no contexto do caso-problema.
Baseado nesse conceito o professor/profissional de educação pode ter retorno melhores de seus alunos em suas aulas além de poder utilizar vários recursos áudio visuais e tecnológicos em suas aulas. Para pensar. Recomendamos a leitura.
Abraços
Equipe NTE Itaperuna
5 de fev. de 2009
Biblioteca Digital Camões disponibiliza 1.200 Documentos Online
Com o lançamento de Biblioteca Digital Camões, o Instituto Camões (IC) disponibiliza online cerca de 1.200 documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos. A partir de agora estarão disponíveis online textos literários, pautas musicais e ensaios e estudos científicos, entre outros, perfazendo um conjunto de mais de 1.200 documentos referentes aos últimos cinco séculos da história de Portugal, que antes eram de acesso condicionado. Outra novidade é que os documentos podem ser descarregados para o computador ou para dispositivos móveis, sendo possível, desde já, descarregar "Os Lusíadas" para o celular.
A seção aprender tem uns livro narrados e animados bem legais, olhe aqui neste link ( http://cvc.instituto-camoes.pt/aprender-portugues/a-ler/era-uma-vez-um-rei.html) e vejam se não tenho razão.
A Jenny e a Tati vão amar.
Abraços
Equipe NTE Itaperuna
19 de dez. de 2008
Professor do Futuro e Reconstrução do Conhecimento
Ele fala que a escola é o mais importante caminho para a construção de conhecimento, é nela, que o nosso cérebro é estimulado a trabalhar com o CONHECIMENTO que possuímos anteriormente de freqüentarmos uma instituição escolar, porém, esse processo somente obterá êxito se o aluno realmente compreender o tema e a sua importância, de modo que ele possa tornar-se um não apenas um sujeito integrante, mas também interativo.
O autor ressalta que não é possível promover aprendizagem em sala de aula se o professor não tiver total domínio do conteúdo, sem precisar recorrer constantemente nos livros didáticos que apresentam respostas prontas e únicas para os exercícios, também afirma que: quem estuda com quem não estuda jamais aprenderá estudar.
Demo diz que o livro didático suprime a voz e as inquietudes do aluno não deixando revelar o cidadão que queremos. O poder do livro didático como discurso de verdade, enfatiza o conteúdo a distanciada como um exercício de reprodução e não de formação e/ou criação. Então ele fala que é preciso proporcionar ao aluno atividades que possibilitem estimular seu raciocínio, trazendo as atividades mais perto possível da realidade do educando.
Pedro Demo também faz uma classificação significativa de nove requisitos básicos para que o professor construa o perfil do professor do futuro, ele deve ser:
1) pesquisador;
2) formulador de proposta própria;
3) capaz de por em prática a teoria e teorizar a prática;
4) permanente atualizado em seu conhecimento;
5) aperfeiçoar-se também nos meios tecnológicos;
6) torna-se interdisciplinar;
7) deve ter mestrado;
8) engajado com a cidadania;
9) Professor do futuro é aquele que sabe fazer o futuro.
Estes são os noves requisitos apresentados por Pedro Demo para formar um professor do futuro, e fundamenta suas teorias dizendo que: fizeram futuro as sociedades que souberam pensar, as sociedades que souberam produzir e usar de modo inteligente as energias de conhecimento, a versatilidade autopoética da aprendizagem, a indocilidade da educação.
Fonte: http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_45489.html
12 de dez. de 2008
Multimídia susbtitui livro na sala de aula
Programas substituem o material didático convencional e permitem maior interação do aluno com o conteúdo
Por Karla Spotorno
| Crianças reagem bem às mídias digitais e se tornam protagonistas de seu próprio aprendizado |
Nada de carregar mochilas pesadas cheias de livros de todas as disciplinas. Na escola do futuro, o aluno terá de levar apenas seu caderno ou um pequeno laptop, como o modelo Classmate. As aulas serão dadas com material multimídia, exibido em telões ou lousas eletrônicas. Os exercícios de matemática poderão ser feitos no laboratório de informática da escola, se os alunos não tiverem cada um seu pequeno PC, ou até mesmo em folhas impressas diretamente do kit multimídia.
Essa descrição pode parecer coisa de um futuro distante. Mas não é. A substituição do livro didático em sala de aula é possível hoje mesmo. E num colégio do interior paulista, começará já no próximo ano letivo. “A opção de substituir o material impresso por outras mídias está de acordo com a necessidade da geração de crianças que estão agora na escola”, afirma a psicopedagoga Claudia Alvarenga da Escola Esfera de São José dos Campos (SP). A experiência começará nas turmas do primeiro e segundo anos do ensino fundamental. Nas aulas de matemática e de inglês, as professoras não utilizarão livro-texto ou de exercícios: apenas o software multimídia.
Sem papel
Substituir os livros seria um retorno à transmissão oral do conhecimento, à era pré-livro?
“Definitivamente, não”, responde a coordenadora de ensino fundamental da Escola Esfera. O uso de material multimídia permite maior interatividade do aluno como conteúdo. “Ele se torna protagonista de seu próprio aprendizado”, diz Claudia. O estudante é estimulado constantemente a refletir sobre o conteúdo, percebendo se apreendeu adequadamente ou não. A forma de ensino diferencia-se muito da tradicional, em que o professor fala, o aluno escuta e repete, além de copiar, muitas vezes, o que foi escrito na lousa.
Além disso, ao trabalhar com uma mídia muito semelhante à dos videogames, o aluno tende a se frustrar menos com seus erros e aceita mais facilmente refazer exercícios. “Assim como nos jogos eletrônicos, toda vez que erra, a criança lê a mensagem tente novamente, faça mais uma vez”, diz Claudia. Nos games, a criança repete a mesma fase do jogo diversas vezes a fim de avançar por várias etapas e chegar ao final.
Livros x Multimídia?
O fato de a mídia eletrônica ter condições de substituir o meio impresso não significa que o fim dos livros se aproxima. “Não consideramos os livros obsoletos. Pelo contrário, eles precisam ser mantidos”, diz Claudia.
A Saraiva, uma das editoras que produz e comercializa material multimídia, defende que os meios impresso e digital não são excludentes. “O livro e a sua portabilidade são essenciais ao aluno”, diz Maurício Fanganiello, diretor de Planejamento e de Educação Multimídia da Editora Saraiva. Na editora, cujo faturamento depende majoritariamente do produto impresso, os produtos das duas mídias sequer competem por clientes. “A missão da editora é prover conteúdo, independentemente da mídia”, afirma o diretor.
Conteúdo digital: aluno se frustra menos com erros
Barreiras
A aceitação desse tipo de mídia por escolas ainda não pode ser considerada fácil. Especialmente quando a proposta é substituir o livro didático pelo material digital, a resistência chega em razão de dúvidas e perguntas dos professores diante de uma nova forma de transmitir o conhecimento. A venda do produto pela Editora Saraiva é feita por uma equipe multidisciplinar. “A venda começa com a visita de uma consultora pedagógica à escola”, afirma Fanganiello.
Fonte: http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/1,,EDG85464-16628,00.html
5 de nov. de 2008
Domínio Público

Domínio Público
O Maior Portal de Pesquisa - Aqui você encontra todos os vídeos da TV Escola abordando os mais diferentes temas. São super produções altamente didáticas.
Encontra os melhores textos abordando os mais diferentes assuntos
Você pode baixar os clássicos, literatura de cordel e ler na sua tela. Tudo gratuitamente.
Uma grande variedade de estilos musicais
Uma variedade imensa de imagens sendo através da fotografia, litografia, mapas, pinturas, xilogravuras, recortes, etc
Para que o uso do Portal Domínio Público seja contínuo disponibilizarei o link na barra à direita do blog.
E só clicar e navegar.
Fonte: Educar Já
13 de out. de 2008
O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender
Recentemente reli o livro do Rubem Alves "O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender". Leitura obrigatória para todo educador e profissional de educação o livro é uma das melhores obras do Rubem Alves. Muitas pessoas me perguntam se eu tenho o resumo do livro e eu sempre digo para ler o livro, pois somente a sua leitura poderá dar a você condição de fazer uma analise do livro.
Em tempos de pouca leitura o primordial é primeiro disponibilizar a obra e depois abrir debate sobre a mesma. Então aqui está o livro do Rubem Alves na integra para que você baixe e leia o livro.
Então logo após você ler o livro, venha e comente , pois estamos abrindo aqui um debate e tentando fazer um resumo coletivo do livro.
Leia e Comente.
Abraços
Equipe NTE Itaperuna
9 de out. de 2008
Janusz Korczak: Como amar uma criança...
Rafael F. Scharf
Vice-Presidente da Associação Internacional Janusz Korczak da Inglaterra
A vida de Janusz Korczak é tão tocante que, ao contá-la, é necessário evitar a ênfase patética que se impõe, a fim de permanecer-se fiel àquele sobre o qual falamos.
Ele era, na mais profunda acepção do termo, um homem simples, toda afetação lhe era estranha. É certo que ele não imaginava que seu nome seria célebre, e é por isto que cada vez que o glorificamos publicamente, inaugurando um monumento em sua homenagem, eu me pergunto qual seria o seu comentário se sua boca de pedra pudesse falar.
Sua história foi recontada inúmeras vezes e continuará sendo, porque ela mostra melhor, sem dúvida, não importando o caso particular, o horror inexprimível da última guerra e a exterminação dos judeus poloneses.
Em 5 de agosto de 1942, durante a liquidação do gueto de Varsóvia, os hitleristas ordenaram o agrupamento das crianças do orfanato de Korczak e o envio das mesmas ao campo de morte de Treblinka. O ‘Velho Doutor’ reuniu duzentos pupilos, os fez colocar-se sabiamente em fileiras e, à sua frente, partiu com eles para o ‘Umschlagplatz’, no cruzamento das ruas Stawki e Dzika, onde todos foram colocados em vagões de carga e enviados para os fornos crematórios.
Esta marcha nas ruas do gueto foi vista por algumas centenas de pessoas, e a silhueta pequena de Korczak dirigindo-se para seu calvário, inconsciente de seu heroísmo, fazendo aquilo que lhe parecia evidente, excitava as imaginações. A novidade espalhou-se imediatamente, repetida de boca em boca com a força de detalhes inventados: que Korczak carregava nos braços os dois menores, coisa pouco provável, porque ele mesmo estava doente e tinha dificuldades em andar; que o ‘Jundenrat’ tinha intervindo no derradeiro momento e tinha despachado em seguida um mensageiro atrás da fila, portador de um salvo conduto somente para Korczak, que foi por ele rejeitado com desprezo; que para apaziguar as crianças ele tinha lhes dito que iam em excursão e que eles, confiantes, o seguiam sem choro e sem protesto. Mas nenhum embelezamento é necessário diante dessa verdade nua e crua; não é preciso ajuntar qualquer coisa para torná-la mais eloqüente. A antítese do espírito e das dificuldades é clara e definitiva: um homem sábio por excelência, desinteressado e bom, opondo-se aos covardes, bárbaros obtusos, que se mostravam sob seu aspecto mais satânico.
Entre os milhões de mortes anônimas, a de Korczak tem um grande significado. Nos campos e guetos, ele se tornou para muitos, uma inspiração, pois aí o que mais ajudava a sobreviver era a convicção obstinada e indestrutível que a dignidade humana poderia vencer , embora tudo parecesse provar o contrário.
A imprensa clandestina dos campos mostra bem o quanto esta derradeira caminhada sublime do Velho Doutor foi um reconforto e uma dose de ânimo para seus contemporâneos. A partir daí sua glória tem crescido e o mundo fez de Korczak um símbolo moral.
É preciso que nossa atenção à sua morte não obscureça o caráter de sua vida. Henryk Goldszmit (este era o seu verdadeiro nome – Janusz Korczak foi um pseudônimo tirado de um romance pouco conhecido de Kra Szewski) nasceu em Varsóvia há pouco mais de cem anos numa família abastada. O fato de seu pai ter sido um advogado conhecido e seu avô um médico mostra até que ponto o seu meio foi assimilado. Ele cresceu na solidão, preservado das influências do exterior, sem se dar conta de que era judeu e sem saber o que isso significava. Antes de terminar a escola ele perdeu o seu pai, atingido por uma doença mental. A miséria sucedeu a abundância. O jovem Henryk tomou sobre si, da maneira como pode, o encargo de sua mãe e irmã, e nos anos seguintes, freqüentemente passando fome, estudou medicina com enormes dificuldades. Quando, por fim, obteve seu diploma, as coisas começaram a melhorar, contribuindo também para isso sua reputação de escritor que se afirmava. Mas isto não durou muito tempo. Repentinamente um tipo de necessidade interior mudou completamente seu destino.
Com trinta e quatro anos ele abandonou o exercício da medicina para se ocupar de um orfanato, que do início ao seu fim, permaneceu associado ao seu nome. A idéia fixa de consagrar sua vida às crianças parecia possuí-lo. Ele não era um idealista ingênuo; o que o caracterizava era uma compreensão extraordinária da criança e a convicção da necessidade de lutar pelos seus direitos no mundo governado pelos adultos. Ele não tinha confiança no mundo governado pelos adultos, mas como cada verdadeiro reformador ele julgava que mesmo uma só pequena vela acesa valia mais que lamentar-se de escuridão. Sua intuição não excluía sua sensibilidade e ela está edificada sobre uma observação constante, clínica, poder-se-ia dizer, sobre um estudo minucioso dos fatos. Totalmente absorvido por sua única idéia, não havia lugar nele para tudo que os outros davam tanta importância – dinheiro, a celebridade, um lar, uma família.
Seu orfanato, construído e mantido exclusivamente graças às doações de pessoas caridosas, era destinado às crianças dos bairros pobres de Varsóvia. A obtenção de fundos para fins de caridade tinha então, como hoje, seu aspecto desagradável, que freqüentemente irrita aqueles que dela dependem. Korczak balançava a cabeça em desaprovação perante o preço do material gasto para encerar o assoalho antes de um baile de benemerência e ele se lamentava do tempo que perdia com quem vinha visitar o orfanato. Mas a força de sua personalidade fazia que os doadores considerassem uma honra o financiamento de seu trabalho.
No domínio da educação e da psicologia da criança, ele era um pensador pragmático original e, ao mesmo tempo, um pioneiro de princípios que serviam de modelos para outros. Ele se esforçava constantemente de refazer seu sistema baseado sobre a compreensão das necessidades mais profundas da criança. Sua influência se exercia tanto por sua presença direta quanto pelo que escrevia no jornal do orfanato preparado pelas crianças e destinados à elas mesmas; a leitura em comum dessa publicação era um acontecimento semanal dos mais importantes. Conta-se que ao longo de 30 anos de seu trabalho intenso, ele jamais deixou de fornecer um artigo por semana à redação. As regras do orfanato eram seguidas por um código, cujo parágrafo 1000 previa como a pena mais alta, a expulsão pura e simples. Cada criança que tinha reclamação contra outra tinha o direito de a fazer comparecer perante um tribunal composto por seus colegas. Korczak mesmo, se tivesse sido convocado, teria de se apresentar perante este tribunal e de se submeter a sua sentença.
À noite, após uma ronda em todos dormitórios, o Velho Doutor retornava ao seu quarto no sótão, a única ‘casa’ que ele teve durante toda a sua vida adulta, e lá, até tarde da noite, ele colocava ordem em suas notas e escrevia.
Ele era um escritor fecundo tanto no seu domínio profissional quanto, e antes de tudo, na sua criação para as crianças e sobre as crianças. Seus livros ilusoriamente simples nas suas formas e conteúdos, impregnados na mesma proporção de melancolia e humor, refletindo seus anseios interiores, muitas vezes satiricamente áspero em relação a sociedade, sempre cheios de emoção e compreensão, deixavam traços duráveis na memória de seus leitores jovens e velhos, destinando-se a ficar gravados na história da literatura desse gênero.
Lá pelos meados dos anos trinta Korczak envolveu-se em dois empreendimentos na Palestina. O que ele aí viu o comoveu e o refrescou espiritualmente. Sob o encorajamento de numerosos amigos e antigos discípulos ele começa então a pensar seriamente em fixar-se lá para sempre. Mas havia obstáculos. O que o atormentava sobretudo, era o medo de não encontrar um sucessor adequado para continuar seu trabalho em Varsóvia. Ou seja, o pensamento de se afastar de sua terra natal lhe era insuportável. Nas cartas que ele escrevia aos seus amigos para explicar as causas de suas hesitações ele invocava o ‘seu Vístula’ e ‘sua Varsóvia bem-amada’, das quais ele jamais se consolaria se tivesse que deixar. Além do mais, ele estava sem dinheiro e hesitava em se colocar dependente de qualquer um.
Quando os hitleristas fecharam os judeus de Varsóvia dentro do gueto, o orfanato perdeu sua casa à Rua Kruchmalna, do lado ‘ariano’, e transportou-se para locais provisórios, no interior dos muros do gueto. Naquele momento Korczak já percebia melhor que a maioria das pessoas que a máquina impiedosa os mataria a todos. Mas ele pensava em não renunciar ao seu direito de aliviar os sofrimentos. Alquebrado e doente, cada dia ele reunia as forças que lhe restavam e partia à procura de viveres e de medicamentos para as crianças. Às vezes ele não trazia nada de suas buscas obstinadas, outras vezes ele voltava somente com uma ínfima parte do necessário. Ele não temia solicitar com impertinência, de mendigar, de envergonhar as pessoas que se esquivavam de sua nobre ação. Nos dias em que ele nada encontrava ele não hesitava em dirigir-se mesmo aos piores especuladores e opressores judeus. Apesar de fome incessante cada vez mais insuportável e às doenças sempre mais freqüentes, ele cuidava para que seu orfanato funcionasse normalmente, a fim de que seus alunos pudessem sentir-se bem. Freqüentemente ele trazia dos locais mais distantes uma nova criança encontrada na rua, no fim de suas forças, para quem a bondade do Velho Doutor significava a salvação durante algum tempo ainda.
Nestas condições rigorosas levadas ao extremo e que em tempo normal é difícil de se imaginar, nós temos em Korczak, no seu trabalho cotidiano, um exemplo do que pode fazer um genuíno homem guiado pelo amor.
Sua vida é um modelo e somos tentados a ver nele, nesta silhueta franzina revestida de avental de inspetor que ele usava habitualmente, um exemplo típico de toda uma geração, uma encarnação da ‘idade da criança’. Sua grandeza, que consistia nem mais nem menos em fazer seu dever, podia ser aquela de qualquer um, e mesmo sua morte trágica foi uma coisa comum, lá onde o martírio estava na ordem do dia.
Durante o ‘Ano Korczak’, instituído pela UNESCO para celebrar o centenário de seu nascimento, os escritores, os sábios, as pessoas de boa vontade em todas as partes do mundo, procuraram enriquecer-se com o conhecimento desse homem e de suas idéias, de sua vida e de sua morte, através de livros, de artigos e simpósios.
É de se supor que graças a isto, numerosos são aqueles que tomaram conhecimento do seu nome e do que ele significa. Sem dúvida é na Polônia e em Israel que ele é mais conhecido. Mas, nesse mundo barulhento e apressado de hoje em dia, a lembrança empalidece rapidamente. A despeito de todos os esforços ela desaparece progressivamente, sob uma massa de outros negócios. Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak.
Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto.
É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.
É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.
8 de out. de 2008
O prazer da leitura
Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto“. “Alfabeto“ é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que “abecedário“. A palavra “alfabeto“ é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: “alfa“ e “beta“. E “abecedário“, com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: “a“, “b“, “c“ e “d“. Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que “abecedarizar“, palavra inexistente, pudesse ser sinônima de “alfabetizar“...
“Alfabetizar“, palavra aparentemente inocente, contém uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...
E assim era. Lembro-me da criançada repetindo em coro, sob a regência da professora: “be a ba; be e be; be i bi; be o bo; be u bu“... Estou olhando para um cartão postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina cacheada, deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê “fa“, “fe“, “fi“, “fo“, “fu“... (Centro de Referência do Professor, Centro de Memória, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, MG.)
Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música deveria se chamar “dorremizar“: aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...
Todo mundo sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega o nenezinho e o embala, cantando uma canção de ninar. E o nenezinho entende a canção. O que o nenezinho ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas! Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: minha mãe as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes.
Isso é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a estória. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. “Erotizada“ – sim, erotizada! – pelas delícias da leitura ouvida, a criança se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
No primeiro momento as delícias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o “seio bom“, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professor lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos extasiados. Ninguém falava. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa de leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...
Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem: continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: “Por favor, me ensine! Eu quero poder entrar no livro por conta própria...“
Toda aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontecerá. Há aquele velho ditado: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber“. Traduzido pela Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero é fome“. Metáfora para o professor: cozinheiro, Babette, que serve o aperitivo para que a criança tenha fome e deseje comer o texto...
Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema – aquele poema que eu amava – estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra“ está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretação do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres...) as toca: seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.
Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a prática de “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. Leitura é droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos - gramática, usos da partícula “se“, dígrafos, encontros consonantais, análise sintática –que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura...
Aperitivos
1. “Analfabeta não é a pessoa que não sabe ler. É a pessoa que, sabendo ler, não gosta de ler.“ (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mário Quintana).
2. A menininha de 9 anos me explicou como as crianças na sua escola aprendiam a ler: “Aqui na Escola da Ponte não aprendemos letras e silabas. Só aprendemos totalidades...“
3. Os compositores colocam em suas partituras indicações para orientar o intérprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam fazer o mesmo com seus textos. Há textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente não precisa dessas indicações. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.
4. “Mais valem dois marimbondos voando que um na mão“ (Almanak do Aluá).
5. Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola lhe ensinaram um ditado: “Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém“. Ele repetia o ditado mas ficava com uma dúvida: “Quem será esse ‘Tertião’?“
Publicado no Correio Popular, Caderno C, 19/07/2001.
Fonte: http://www.rubemalves.com.br/oprazerdaleitura.htm