28 de dez de 2008

Os Sem-Floresta - A modernidade em questão

A modernidade em questão

Desenho-de-tartaruga

Desenhos animados inteligentes são aqueles que conseguem trabalhar nas entrelinhas temas importantes sem que isso atrapalhe a diversão da criançada e que, ao mesmo tempo, os tornem conscientes dessas prementes questões do mundo em que vivemos. Trata-se realmente de uma arte conciliar animações com assuntos como meio-ambiente, relação familiar, alimentação, modernidade,...

Esse é, sem dúvida, o caso da produção Os Sem-Floresta, da Dreamworks. O filme dos diretores Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, roteirizado de forma talentosa por Len Blum, Lorne Cameron, David Hoselton e também pela diretora Kirkpatrick, é uma engenhosa e muito animada história envolvendo animais que moram numa pequena floresta e que, depois do período de hibernação, acordam tendo como vizinhos um grande e moderno condomínio.

A partir desse encontro muito provável nos dias em que vivemos (tendo em vista a grande expansão do mercado imobiliário em sua busca incessante por novas áreas agregáveis aos seus interesses financeiros), se estabelece uma relação interessantíssima entre os bichos da floresta e a nova realidade que os cerca. Relação essa pautada em casos verídicos percebidos através de matérias divulgadas pela grande mídia que dão conta de inúmeras situações em que animais selvagens entram em bairros residenciais próximos ao seu habitat natural em busca de alimentos nos lixos das casas ali localizadas...

Entramos aí na primeira das questões cruciais do filme, ou seja, a degradação do meio-ambiente e a deformação do modo de vida dos animais que vivem no entorno desses novos conglomerados humanos. O que é apresentado de forma engraçada no filme pode e deve ativar uma conversa com as crianças no sentido de saber das mesmas se já viram animais como aqueles apresentados no filme nas cercanias de suas residências. Se viram, o que fizeram? Como deveriam proceder em casos como esses? Como eram os animais que eles viram?

Animais-vendo-menino-brincar-dentro-de-casa

Isso tudo poderia desencadear uma conversa/aula bastante esclarecedora de ciências naturais. Ajudaria inclusive a resguardar as crianças em situações nas quais elas encontrassem algum espécime selvagem. Poderia levar ao surgimento de projetos em bairros que tivessem tal característica afim de que veterinários ou biólogos ajudassem a resgatar e resguardar os animais, encaminhando-os a entidades ambientais responsáveis que os pudessem reencaminhar para a natureza... Outra ligação interessante seria entre os animais e o meio-ambiente onde usualmente vivem. Poderia iniciar-se um estudo sobre diferentes paisagens e seus tipos naturais mais comuns. Estaríamos misturando elementos de ciências com geografia.

As questões ambientais nos levam, por sua vez, a discussão da própria modernidade em que estamos inseridos. Para onde vamos? Onde queremos chegar? Quais as conseqüências de nossos atos para o Planeta? Será que não estamos condenando a vida na Terra a extinguir-se? E as futuras gerações, será que elas conhecerão as diversas espécies animais e vegetais que ainda hoje existem nos continentes, oceanos, mares, rios e ar?

Há matérias sendo publicadas e divulgadas com enorme constância (muito maior do que realmente gostaríamos de admitir) nos principais meios de comunicação do mundo. Telejornais, revistas, publicações científicas, jornais de grande circulação, rádios e a própria Internet têm demonstrado que o ritmo voraz de consumo da humanidade exige muito mais do que o planeta Terra é capaz de nos dar. Imaginem então que... se falta para nós, o que irá acontecer com os outros seres vivos que habitam a nave-mãe em que vivemos?

Que modernidade é essa que nos leva a querer sempre mais e mais, numa desenfreada busca pelo conforto e pelo prazer eternos, e que, paradoxalmente nos condena ao ocaso e a destruição dentro de algumas décadas apenas? Como poderemos equilibrar nossa relação com o planeta, diminuindo a destruição, preservando a vida animal e vegetal, sendo mais justos na distribuição das riquezas produzidas (visando estancar a enorme pobreza que abate milhões e milhões de pessoas em vários países, inclusive no nosso) e evitando o futuro caótico que prevê nossa própria extinção?

Animalzinho-em-meio-a-brinquedos

Modernidade essa que já está estremecendo as próprias bases da relação humana, especialmente a família. No desenho Os Sem-Floresta a vida dos animais é retratada como sendo baseada nos moldes familiares dos seres humanos, pelo menos naqueles que retratam uma busca coletiva e cooperativa pela sobrevivência pautados numa relação cordial, fraterna, sincera e amiga entre os personagens. A inserção de um novo membro a essa “família”, onde se respeitam as particularidades e as diferenças, demonstrando-se claramente a idéia de tolerância, altera completamente a relação do grupo...

O novo animal que se junta ao grupo e que por ele é recebido de braços abertos não comunga das idéias que balizam essa comunidade familiar. Ele é mais esperto e, portanto, une-se aos demais com um propósito claro e pré-estabelecido de utilizar-se dos outros em benefício próprio. Não está, portanto, muito distante de tantas e tantas histórias que escutamos e que são próprias das comunidades humanas...

Se não bastassem todas essas temáticas importantíssimas inseridas nessa animação, há ainda espaço para se discutir a própria alimentação dos seres humanos. E é justamente nessa temática que se concentram as maiores ironias e os trechos mais engraçados do filme. Afinal de contas, enquanto os animais selvagens “comem para viver”, os seres humanos “vivem para comer”. Mesmo que sua alimentação siga caminhos que os levem inevitavelmente para problemas de saúde já que não segue critérios ou práticas (de conhecimento público e notório) que garantam sua própria segurança...

E precisa mais? Os Sem-Floresta é um ótimo desenho animado. Daqueles que temos que colocar na coleção e rever várias vezes com nossos filhos, sobrinhos, netos,...

O Filme

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R.J. é um guaxinim faminto que tem a sua frente uma daquelas máquinas onde se colocam moedas e se escolhem salgadinhos. Ele está num local desértico, numa baia que abriga momentaneamente viajantes que passam pela rodovia logo à frente. Apesar de ser um animal selvagem, R.J. colocou uma moedinha na máquina (afinal estamos falando de um desenho animado, não é mesmo!) e teve a infelicidade de ver o seu pacote de salgadinhos Nacho ficar preso e não chegar as suas mãos...

Essa sua infelicidade o leva a tentar matar a fome saqueando os alimentos recolhidos por um grande e perigoso urso que está hibernando. Esse depósito alimentar a ser furtado conta com uma grande quantidade de mercadorias produzidas pelos seres humanos e esquecidas ou jogadas no lixo. Não há alimentos naturais, apenas produtos industrializados...

O problema é que o urso acorda e pega o guaxinim com a “mão na massa”, em flagrante delito... E o pior de tudo é que R.J. ainda deixa que tudo seja destruído num infeliz acidente envolvendo uma enorme carreta. Já que o sono foi interrompido e a comida perdida, cabe a R.J. tornar-se o cardápio do enfurecido urso... a não ser que... tudo possa ser recuperado dentro do prazo máximo de uma semana, exatamente quando surgir a lua cheia!

Esse é o mote inicial do encontro que irá marcar o restante da trama. R.J. irá se juntar a um pequeno e simpático grupo de animais que se depara, ao término de seu longo período de sono de inverno, com um novo e incrível obstáculo, inicialmente inominável para todos eles... uma grande cerca viva. E, para tornar ainda mais doloroso esse despertar, essa barreira os separa de um mundo totalmente novo e assustador para cada um daqueles animaizinhos.

Essa “família” de animais se encontra então com R.J., um esperto e aparentemente amigável guaxinim que se dispõe a ajudá-los a conhecer o mundo que os espera atrás da cerca viva e suas maravilhosas e nada assustadoras novidades. O que os animais não desconfiam é que, na realidade, R.J. quer apenas utilizá-los nessa perigosa empreitada para acertar suas contas com o perigoso urso que o espreita... Certamente uma das melhores e mais inteligentes animações produzidas pela Dreamworks, Os Sem-Floresta é programa obrigatório para as crianças e também para os pais...

Para Refletir

Desenho-de-pessoas-assustadas-vendo-um-animalzinho-em-cima-do-bolo

1 - Proponha a criação de um catálogo de espécies animais próprias da região onde vivem seus alunos. Nessa produção devem constar dados sobre os espécimes retratados e também sobre a geografia local. Para facilitar e tornar o trabalho mais agradável seria interessante legar aos estudantes a responsabilidade sobre certas espécies, como répteis, anfíbios, mamíferos, aves, peixes,... No tocante ao trabalho devem ser conseguidas imagens, informações sobre o modo de vida, as bases alimentares, o espaço onde vivem, como se reproduzem, se correm ou não o risco de extinguir-se,... Ao final a produção de todos os grupos poderia ser reunida para a confecção de um único livro a ser apresentado para os pais, os outros alunos da escola e para a comunidade.

2 - Amplie a discussão sobre o tema anterior levando especialistas como biólogos ou estudiosos da flora e da fauna para falar sobre o assunto com os estudantes. Além disso faça uma pesquisa em locadoras ou em emissoras de televisão aberta e paga (se for possível) para descobrir documentários que retratem os traumas causados pela modernidade ao meio-ambiente. Promova uma semana sobre o assunto contando com o apoio da direção e dos outros professores e funcionários.

3 - Instigue seus alunos a levar suas pesquisas e produções para as autoridades municipais. Divulgue o trabalho através da mídia local. Através de ações como essas, o que se pretende é fazer com que o tema seja debatido em esferas mais amplas e que a preocupação com o assunto se transforme em práticas que ajudem a preservar o meio-ambiente. Ao levar os alunos, desde as séries iniciais do Ensino Fundamental, a participar desse tipo de atividade/ação o que se pretende é fazer com que ele se sinta ativo e responsável pelo mundo em que vive e que, ao mesmo tempo, essas crianças entendam que não adianta ficar de “braços cruzados”, esperando resoluções tomadas por outras pessoas, todos precisamos trabalhar por um mundo melhor!

Ficha Técnica

Os Sem-Floresta
(Over the Hedge)

País/Ano de produção: Estados Unidos, 2005
Duração/Gênero: 83 min., Animação
Direção de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
Roteiro de Karey Kirkpatrick, Len Blum, Lorne Cameron, David Hoselton
Elenco (vozes): Bruce Willis, Garry Shandling, Steve Carrel, William Shatner, Wanda Sykes, Nick Nolte, Thomas Haden Church, Allison Janney, Eugene Levy, Catherine O’Hara.

Links
- http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=11585

- http://www.adorocinema.com.br/filmes/sem-floresta/sem-floresta.asp

- http://www.cineclick.com.br/cinemateca/ficha_filme.php?id_cine=13469

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João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=719

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