30 de dez de 2008

Tenho orgulho de ser professor

João Luís de Almeida Machado

Desenho de um homem ajudando uma mulher a escalar uma montanha

Quando resolvi cursar história recebi o apoio de meus pais apesar de suas evidentes preocupações quanto ao meu futuro. Pensavam eles a respeito da desvalorização profissional pela qual passavam todos aqueles que resolviam trilhar essa carreira ao longo de suas vidas. Percebiam com clareza que os professores já não possuíam a mesma consideração e respeito de outrora e que, também, os salários estavam cada dia mais achatados...

Arrisquei minhas fichas todas nesse caminho e digo, com total certeza, que não me arrependo das opções que fiz. Pelo contrário, afirmo categoricamente que tenho o maior orgulho de ser professor, de atuar na educação. E porque venho a público afirmar a plenos pulmões essa satisfação? Pelas notícias que temos lido nos jornais e que nos contam do abandono da profissão, da baixa concorrência nos vestibulares nas áreas que formam professores e também pela crença geral de que a educação pode e deve semear o futuro de nosso país.

Trabalho a praticamente vinte anos nessa profissão, já tive a oportunidade de lecionar para praticamente todos os níveis e séries (exceto a educação infantil e turmas de primeira a quarta séries do ensino fundamental). Tive experiências marcantes com a terceira idade, educação de adultos, ensino de línguas, crianças, jovens e em especial, adolescentes.

Atualmente estou lecionando apenas na universidade, mas já dei aulas de história, geografia, filosofia, inglês e algumas outras disciplinas que nem mais existem (como OSPB – Organização Social e Política do Brasil – ou EMC – Educação Moral e Cívica).

Tive dificuldades como todos aqueles que trabalham numa sala de aula. Experimentei estratégias, realizei planejamentos, pensei possibilidades para as aulas que desejava desenvolver e, em alguns casos, não fui tão feliz quanto desejava nos resultados obtidos. Apesar disso, posso afirmar com certeza, que se nesses infortúnios não atingi o que objetivava, em tantos e tantos outros fui vencedor. Além de que, com meus erros, pude aprender muitas coisas...

E se fui um vencedor é porque contava com o apoio e o trabalho árduo e dedicado dos alunos com os quais estive. É nesse ponto que me detenho para exaltar o que considero nevrálgico para o sucesso profissional em educação. Temos que formalizar parcerias, conquistar o apoio de nossos estudantes, contar com sua energia positiva para realizar qualquer um dos gols que pretendemos em nosso desempenho profissional.

Imagino que os sucessos na educação derivam de muito esforço, preparação, estudo constante e, sobretudo, dessa necessária parceria com nossos estudantes. Sempre contei com o apoio da maioria dos estudantes para dar vida aos projetos que desenvolvíamos. Não eram meus projetos, pelo contrário, eram nossos. Se era minha competência conceber ou pensar nas alternativas pedagógicas, aos estudantes cabia dar alma, dar vida...

Considero, porém, que nada poderia ter acontecido se não tivesse estudado e me preparado muito. Como poderia ter ajudado alguém a educar-se em qualquer uma das áreas nas quais lecionei se não tivesse lido, feito cursos, criado uma bagagem cultural ou contado com o auxílio de prestimosos mestres que me ajudaram em minha formação?

Acredito, enquanto aluno, que temos que valorizar o trabalho de nossos professores e, além disso, que devemos literalmente fazer a nossa parte. Devemos sacrificar algumas horas de nosso lazer ou de nosso descanso com a finalidade de realizar nossos projetos, trabalhos, tarefas e estudos. Parece fácil dizer isso agora, quando sou o professor, no entanto esclareço que sou também, nesse momento de minha vida, estudante na PUC de São Paulo, no programa de doutorado em Educação: Currículo...

Tive a felicidade de contar com alunos que se mostraram sempre generosos no que tange a trabalhar mesmo quando isso significava abdicar de algumas horas se divertindo. Eles são diferentes de qualquer estudante com o qual você já trabalhou? Não, em absoluto. São adolescentes ou jovens que precisavam apenas de estímulo, respeito e credibilidade.

Queriam escutar nossas orientações, mas também sentiam a necessidade de afirmar seus pensamentos sem que fossem ridicularizados, desprezados ou desdenhados por quem os ouvia. Muitos deles careciam apenas de alguns momentos de atenção durante nossas aulas para que viessem a desabrochar e demonstrar seus talentos e melhores qualidades.

Catalisei muitas energias desses contatos. Cresci e aprendi talvez até mais do que eles podem imaginar a partir de nossos encontros. Penso que vivemos algumas estações do ano em nossos convívios. Mais primaveras e verões do que outonos e invernos. O tempo sempre me pareceu mais quente e aprazível enquanto estivemos juntos do que nublado e chuvoso...

Fui e sou feliz porque sei que de alguma forma contribuo para a formação presente e futura desses adolescentes e jovens. Não me considero melhor do que ninguém e nem ao menos me percebo como exemplo a ser seguido. Apenas acredito que tenho que fazer na minha profissão a diferença a favor de um mundo melhor e que, por isso, tenho que dedicar-me a dar o máximo de mim enquanto estiver numa sala de aula.

Vejo educação nos filmes que assisto, nos livros que leio, nas músicas que escuto, no movimento das marés, na luz do sol, no brilho das estrelas, nos olhos de nossos alunos que nos pedem silenciosamente que façamos algo pela escola para torná-la mais e mais sedutora, interessante e inteligente.

Acredito que a única forma de superar os desmazelos da vida cotidiana, recheada de escândalos e problemas (corrupção, violência, desestruturação familiar, drogas,...), passa pela criação de possibilidades melhores para o amanhã das pessoas. E o melhor caminho para a efetivação dessa vida com perspectivas de crescimento e progresso passa necessariamente pela escola, por nossas salas de aula, pelo nosso trabalho...

É isso tudo que me faz sentir que trabalho na profissão mais importante que existe e que me deixa sempre com um sorriso no rosto quando afirmo que sou, com orgulho, um professor...

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=981

Um comentário:

Marilia disse...

Excelente texto! Vou usá-lo para dar boas-vindas aos meus professores em 2009. Dará um ótimo debate! Valeu!
Um abraço!
Marilia
http://dacoloniaparaomundo.blogspot.com