16 de jul. de 2011
We All Want to Be Young - Um filme que vai fazer você entender a Geração Y
Relaxe, se esparrame na poltrona e separe 10 minutos do seu tempo para assistir o melhor filme sobre a Geração Y. Segundo o que apurei na web, o filme 'We All Want to Be Young' foi realizado pela BOX1824, uma empresa brasileira especializada em pesquisas. É um filme apaixonado sobre a nova geração. Emociona mesmo. Imperdível do início ao fim. Entenda o período em que vivemos através da geração Y.
O filme 'We All Want to Be Young' é o resultado de diversos estudos realizados pela BOX1824 nos últimos 5 anos. A BOX1824 é uma empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo. Este filme possui licença aberta pelo Creative Commons. O Filme tem roteiro e a direção de Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues. Que teve a participação da Zeppelin Filmes.Esse vídeo foi uma indicação da Revista Bula (@revistabula) pelo twitter.
Raphael Primos que é jornalista, editor do Conexão Mercado e atua há três anos na área de Comunicação da TeleListas, escreveu em sua resenha:
"Em uma entrevista 1977 Clarice Lispector disse que todo adulto é solitário, mas outra coisa comum entre os adultos é tentar entender os jovens de sua época, pois somente compreendendo esse grupo é possível desvendar os fenômenos que acontecem em um período. E em qual era vivemos? Quem somos? Bombardeados por informações, maniqueístas do pluralismo e individualidade. Moldados por uma sociedade de consumo que nos educa para sermos globais e homogêneos. Como gritamos e mostramos ao mundo nossas individualidades?
Antes de pertencermos ao mundo ou a qualquer grupo, somos escravos desse universo infinito e incompreendido, nós mesmos. Provavelmente se você é da Geração Y, já viu esse vídeo, que é tão last season (como dizem).Estou fascinado e sinto que começamos a entender o período pelo qual estamos passando e para quais transformações temos passado. Caos? Ansiedade crônica? Tire suas próprias conclusões."
Depois de ver o vídeo, recomendo que você leia Stuart Hall – “Identidades Culturais na Pós-modernidade"
O filme termina com uma frase mágica: "Entender a evolução do mundo é uma busca que pode nos manter jovens para sempre". Acho que é por isso que eu adoro ser professor estar perto dos jovens me faz reviver o que tenho de melhor em mim.
Abraços
Robson Freire
15 de jan. de 2009
O mito do apartheid digital
"A tecnologia da informação começa a ser o caminho mais econômico para o estudante pobre, que não tem dinheiro para comprar livro, e por isso procura ler na tela do computador"
Quando falamos da "brecha digital", separando os pobres dos ricos, é preciso cautela para não generalizar. Há logo um contra-exemplo. Na telefonia é o contrário. O rico tem telefone fixo, que é analógico. O pobre tem o celular, que é digital.
Mas está aparecendo outra inversão que, além de surpreender, é crítica para o futuro da educação. Visitei um curso de tecnólogo em administração na periferia de São Paulo. Dificilmente se encontraria no Brasil um curso superior cuja clientela tenha uma origem social mais modesta.
Em uma sala de aula, com mais de trinta alunos, perguntei quantos não tinham acesso a computador, fosse em casa ou no trabalho. A resposta surpreendeu, pois apenas um não tinha.
| Ilustração Ale Setti |
Discutindo a resposta, os estudantes enfaticamente mencionaram sua importância. Insisti na pergunta: por que o computador seria tão importante? A nova resposta foi ainda mais inesperada. Afirmaram que o computador era vital, pois, sendo eles muito pobres, não podiam comprar livros. As obras requeridas para fazer o curso estavam acima de sua capacidade financeira. Se tirassem cópias dos capítulos que necessitam, fariam alguma economia, mas não tanta.
Em outras palavras, com a disponibilidade crescente de leituras na internet ou em bibliotecas virtuais, o computador está se tornando uma forma de acesso mais viável do que os materiais impressos (além de ter outros usos). Note-se que, segundo o Exame Nacional de Avaliação de Desempenho dos Estudantes (Enade), 92% dos alunos do ensino superior têm acesso a computador (mas só dois terços o possuem).
Os estudantes de maiores posses compram livros e podem tirar fotocópias. Mas os mais modestos não podem se permitir tais luxos. Se tiverem acesso a impressoras, poderão imprimir o que encontram na internet. Entretanto, os cartuchos das impressoras são caros, e eles acabarão gastando o mesmo que em livros ou xerox. Portanto, a solução mais econômica é ler na tela do monitor.
Cada vez mais, torna-se possível encontrar no mundo labiríntico da internet leituras requeridas nos cursos superiores com menor risco de chafurdar e se perder na babel de informações pouco filtradas e de qualidade duvidosa.
Do lado do papel, há um círculo vicioso. Os livros do ensino superior têm tiragens limitadas. Pior: alguns são enormes, grandes demais para ser estudados de ponta a ponta. Por tais razões, os livros são caros. Sendo caros, poucos os compram – nem sequer as bibliotecas possuem recursos para escapar da mediocridade de seus acervos e oferecer um número suficiente de exemplares.
E não há mais de um exemplar na biblioteca dos artigos de periódicos indicados na bibliografia. A solução é a cópia do artigo pelo aluno. Mas é caro. E, para evitar pecados contra os direitos de propriedade intelectual, o leitor tem de ser o próprio copista.
Para os que podem, o papel é o luxo de consumo. Para os que só conseguem acesso a um computador, a solução digital é a mais barata. É a nova brecha, deixando o rico com a solução analógica (papel) e o pobre com a digital. Espontaneamente, a tecnologia da informação começa a ser o caminho mais econômico. Pobre tem de ler na tela. Muitos não acham confortável. Mas é como o transporte coletivo: chega lá, embora seja menos conveniente.
Haveria como baratear os livros. O governo poderia subsidiar sua compra ou negociar preços melhores. Mas, na prática, nem os livros do ensino médio são oferecidos pelo Estado.
Alunos de faculdade, se têm recursos, gastam por ano o mesmo que custa um computador usado (entre 500 e 800 reais). Portanto, uma linha mais imediata e promissora é barateá-los ainda mais, diante do novo desafio da eqüidade. A nova brecha digital é entre os menos ricos que têm computador e os que não o têm. Os mais ricos não precisam de computador, pois podem comprar livros.
Mas talvez a providência mais urgente seja dar acesso aos estudantes às versões digitais de tudo o que precisam ler na faculdade. Hoje se compra na internet, baratinho, música para o iPod. Por que não se podem comprar, também baratinho, capítulos dos livros indicados?
Cláudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
18 de dez. de 2008
O mito da Geração Google
http://palazzo.pro.br
10 de Maio de 2008
Nas férias passadas estava lendo um caderno de classificados de computação quando, de forma completamente imprevista devido aos objetivos daquele caderno, encontrei este pequeno editorial:
Editorial do Caderno de Classificados de Informática do Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 10 de Fevereiro de 2008, página 1.
Pesquisadores britânicos afirmam que a suposta habilidade dos jovens para lidar facilmente com novas tecnologias não se confirma
Os jovens conseguem utilizar novas tecnologias com facilidade e adquirir conhecimento apenas com o uso da internet, certo? Pois um estudo encomendado pela Biblioteca Britânica diz o contrário. A pesquisa, realizada pela University College of London, afirma que a Geração Google - como são chamados os adolescentes nascidos a partir de 1993, depois da popularização do computador - tem sua capacidade supervalorizada.
Conforme o levantamento, feito com o objetivo de esclarecer como o avanço tecnológico afetará as bibliotecas, os garotos de hoje não são necessariamente eficientes em fazer pesquisas pela internet.
Também não permanecem mais tempo online do que as pessoas mais velhas e não destoam do resto da sociedade em priorizar informação rápida e digerida. "Na verdade, já somos a Geração Google: a demografia da internet e do consumo de mídia está erodindo supostas diferenças de gerações", diz o relatório da pesquisa.
O trabalho ressalta ainda que a "alfabetização digital" e a "alfabetização informativa" não caminham conjuntamente, o que se reflete na incapacidade demonstrada por muitos jovens para filtrar o imenso arsenal de dados disponíveis na web. Outro mito que não se confirma, dizem os pesquisadores, é o de que os garotos são mais propensos do que seus pais a buscar informações rápidas e "mastigadas". A preferência por textos resumidos e buscas por palavras-chave é uma norma geral. "A sociedade (como um todo) está se emburrecendo", diagnostica o estudo.
Uma característica que muitos já suspeitavam também foi confirmada: a dita Geração Google é uma forte adepta da prática de "copiar e colar" informações para seus trabalhos escolares, e prefere plataformas interativas de informação ao consumo passivo dos dados. Para tirar suas conclusões, os cientistas utilizaram estudos feitos com jovens nas décadas de 80 e 90 e os compararam com a forma como os adolescentes de hoje pesquisam na Biblioteca Britânica e nos sites educacionais do governo inglês.
O que o estudo não conseguiu responder é se os jovens são mesmo mais capazes do que seus pais de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. "A questão mais ampla é saber se as habilidades seqüenciais, necessárias à leitura, também estão sendo desenvolvidas", observam os pesquisadores.
A ênfase na conclusão apresentada acima é minha e o problema é muito sério mesmo. Há bastante tempo escrevi sobre o plágio acadêmico pois estava começando a ficar preocupado com esta tendência de copiar e não de criar. Este péssimo hábito está esterilizando a criatividade. Precisamos absolutamente da revisão dos conhecimentos passados para poder construir mais alto! Uma frase, atribuída a Isaac Newton, condensa esta posição: “In the sciences, we are now uniquely privileged to sit side by side with the giants on whose shoulders we stand.” Aliás uma parte desta frase foi tomada como mote pelo Scholar Google para balizar o uso correto deste serviço.
O que aconteceu? A citação acima dá o caminho: a "alfabetização digital" e a "alfabetização informativa" não caminham conjuntamente. As pessoas passaram a utilizar a Web de forma natural pois foram "alfabetizadas digitalmente" mas não sabem utilizar a informação obtida. O conjunto de dados disponíveis na Web representa um acervo gigantesco. O grande desafio é acessar, recuperar e organizar estes dados de forma a transformá-los em informação relevante.
A palavra Dados vem do latim datum isto é algo oferecido, dado. Esta é a significação de dados: algo que está disponível que foi oferecido. Em informática consideramos dados como valores que podem ser números, cadeias de caracteres ou imagens sem interpretação. Isto quer dizer que um valor não possui uma significação em si mesmo, por exemplo: 220 podem ser volts ou quilômetros por hora. Este é o primeiro nível na representação do mundo real. Informação é o próximo nível, a informação consiste no significado associado aos dados, no exemplo anterior 220 volts é uma informação associando um valor (dado) a uma grandeza que tem significado físico. Neste caso 220 é interpretado como uma grandeza elétrica, a voltagem. Finalmente no último nível, o Conhecimento, existe a compreensão do significado da informação com a possibilidade de utilizar este conhecimento para algum uso específico. No nosso exemplo o conhecimento associado a 220 volts poderia ser que esta tensão elétrica é perigosa para o ser humano e que devem ser utilizadas ferramentas isoladas para manipular fios submetidos a esta tensão. Para que consigamos entender o significado das informações é necessária a estruturação do conhecimento e a construção de um modelo, uma espécie de mapa, relacionando os diferentes conceitos recuperados. Esta é a parte que está faltando a "alfabetização informativa ou de conhecimento".
O que ocorre parece ser uma tendência para a obtenção de material simples e de fácil aplicação. Para que estudar mais se o simples me garante a subsistência? Para que conhecer os fundamentos se me pagam pelo conhecimento e competência no uso de ferramentas de software? Para que um curso mais longo se três anos bastam para minha colocação no mercado? Estas são as perguntas correntes. Comprovei isto assistindo uma recente entrevista, longa - no padrão francês de uma hora, na TV5 de um líder estudantil de uma grande confederação de estudantes sobre os quarenta anos de Maio de 68. Seu comentário que mais me causou impacto foi: "Os estudantes de 68 queriam mudar o mundo nós só queremos nosso espaço no mercado (de trabalho)"! O problema é que esta posição levada ao limite nos conduz à mediocridade, apenas uma vida mais ou menos estável, nenhum desafio maior, nada a desbravar...
Uma destas conseqüências do utilitarismo do ensino é a visão de Bolonha sobre os cursos universitários; se por um lado há o fator positivo do intercâmbio e da mobilidade há o lado negativo da redução do tempo dos cursos. A visão dos colegas envolvidos neste processo é que o objetivo é criar um modelo de cursos curtos, para inserção rápida no mercado de trabalho, associado a um modelo de long life learning, ou seja o retorno ao estudo para atualização. Eu estou pensando que seria melhor chamar este modelo de long life training - o treinamento de mecânicos para as novas tecnologias. Quem vai desenvolver estas novas tecnologias? A Universidade Européia, que era conhecida por suas qualidades de abstração e de criação conceitual e filosófica no modelo de Universidade Humboldtiana, pode estar se transformando em uma escola técnica superior.
O mesmo se passa com nossos estudantes, se tudo está disponível na Web porque desenvolver? É mais fácil copiar. Para que estudar algoritmos se encontramos libraries para tudo com dois toques de teclado? Este texto, republicado no JC e-mail 3503, de 02 de Maio de 2008, é uma leitura essencial.
Nora Bär (ciencia@lanacion.com.ar) é editora de Ciência e Saúde do jornal argentino "La Nacion", onde publicou este artigo: En los siglos XVI y XVII, Galileo fue astrónomo, filósofo, matemático y físico. En esas épocas, una sola persona -- claro que no cualquiera: ¡Galileo, nada menos! -- podía abarcar el conjunto de los conocimientos de su tiempo. En el mundo globalizado de hoy, la ciencia dejó de ser una empresa individual para convertirse en un aparato gigantesco cuyos engranajes exceden lo puramente académico y cuyos hallazgos impulsan no sólo el avance del conocimiento, sino también la competitividad de los países. A los científicos actuales ya no les basta, como se cuenta que hizo Galileo, con asomarse a la Torre de Pisa, lanzar dos piedras y observar cómo caen. Para alimentar la moderna maquinaria de experimentación, capaz de bucear en el submundo de la materia y de desmontar las piezas de la vida, se necesitan equipos monumentales y cuantiosas inversiones que no suelen estar al alcance de los países en desarrollo. ¿Entonces qué chance les queda a los jóvenes David frente a los superpoderosos Goliat que dominan el escenario científico global? En el discurso de apertura de la última reunión de la Asociación Americana para el Avance de la Ciencia, su ex presidente, David Baltimore, formuló algunas ideas que vale la pena tener en cuenta. Baltimore ganó el Premio Nobel de Fisiología o Medicina en 1975 (junto con Renato Dulbecco y Howard Temin) por el descubrimiento de la enzima que en los virus oncogénicos "traduce" el ARN en ADN. Pero además de ser un científico brillante, fue un administrador exitoso que presidió la Universidad Rockefeller y el Instituto Tecnológico de California, y asesoró a los gobiernos de la India y Ruanda en temas científicos. Contrariamente a lo que podría suponerse, para él la fuerza de un país en materia científica no depende tanto de los equipos e instalaciones como de la calidad de los investigadores. Entre otras cosas, aconseja mantener un alto nivel de excelencia en la selección de recursos humanos, impulsar el desarrollo de instituciones pequeñas, no separar la enseñanza de la investigación y preservar la libertad académica de los científicos. Por otra parte, insiste en que -aun para los países en desarrollo- la ciencia básica (que no tiene un fin definido) es insoslayable. "Incluso si uno tiene la intención de que sus graduados trabajen en las cosas más prácticas, el entrenamiento que reciben en la ciencia básica es el mejor que se les puede ofrecer", afirma durante una entrevista publicada por SciDev.net. "Desarrollar ciencia de primer nivel es difícil -- dice Baltimore --. Sólo se llega a la excelencia después de un proceso largo y trabajoso. Si uno [se limita a comprar] una máquina, produce ciencia estándar. En investigación, son las personas las que hacen la diferencia, haciendo cosas nuevas y formulando nuevas preguntas. La calidad de la gente es la que determina lo que se produce. De modo que uno puede tener máquinas maravillosas, pero a menos que tenga gente extraordinaria, no podrá producir ciencia extraordinaria." En un mundo dominado por el dinero, es reconfortante pensar que Baltimore puede tener razón... (La Nacion, Buenos Aires, 30/4)
Para finalizar uma citação de Albert Einstein:
“Quero opor-me à idéia de que a escola tem de ensinar diretamente o tipo especial de conhecimento e as técnicas que uma pessoa tenha que utilizar mais tarde diretamente na vida. As exigências da vida são demasiadamente múltiplas para permitir que uma preparação tão especializada seja possível como uma ferramenta morta. A escola deveria sempre ter como alvo que o jovem saísse dela como uma personalidade harmoniosa, não como um especialista”.
Acho que temos bastante material para meditar neste Dia do Trabalho.
Fonte: http://palazzo.pro.br/cronicas/028.htm
30 de nov. de 2008
A Escola e a Informação
Robson de Oliveira
Como forma de avaliação, o mestre exigia que seu discípulo lhe trouxesse uma flor num prazo estipulado. Essa era encontrada somente após longos dias de caminhada, em que o garoto precisava procurar e procurar. Desdobrando-se para cumprir a expectativa e ser considerado um bom aluno, ao lhe entregar o pedido na data prevista, percebia seu professor expressar prazer por vê-lo tão cansado e, depois, disfarçadamente, desprezar a flor solicitada.
Na virada dos tempos, um forte vento espalhou as sementes das flores pelos quatro cantos. Um punhado caiu no jardim do menino. E a cada avaliação, ele apenas estendia os braços e alcançava uma flor pela janela de seu quarto. O professor desequilibrou-se. Dizia que não. Tentava explicar que, agora o garoto não podia simplesmente entregar a flor. Conforme antigas/modernas teorias, devia cheirá-la, contar-lhe o que sentira e relacionar essa sensação subjetiva com a de outros.
No entanto, nem o aluno, tampouco o professor sabiam dar sentido à flor.
Inicio esse artigo com um conto que criei com a intenção de metaforizar uma das tensões da educação – sua relação com a informação. Engana-se aquele que acredita ser essa uma angústia nossa e atual. A história revela os desequilíbrios das instituições ao perceberem-se perdendo espaço e poder por razão de revoluções que romperam com os cativeiros da informação. Na escassez de informação, quem tinha uma página era rei. A partir dessa situação, dentre outras, é que a igreja, como a escola, fortaleceu-se como império absoluto.
O educar era concebido como conduzir ou, sendo mais sincero, exigir que as crianças se esforçassem para ter aquilo que era considerado raro: a informação. Aluno bom era aquele que sofria até obtê-la. Esse merecia as honras da casa.
Tal modelo escolar e intenção educativa se perpetuaram, chegando até meus dias de aluno. Permita-me lembrar, com misto de revolta, humor e nostalgia, a dificuldade que era elaborar uma pesquisa escolar nos anos 80. Nem quero considerar a experiência dos meus amigos das décadas de 60 e 70!
Recordo que os alunos dedicados – ou cdfs, conforme as gírias da época – desesperavam-se diante da proposta. As angustiantes falas inundavam a sala de aula: “Onde vou encontrar isso, professor? Não vai dar tempo!”. Já os mais revoltados gritavam que não iam fazer nada. Mas, acabavam conseguindo entrar num grupo e tirar a nota.
Depois do término, a entrega era teatral. Pilhas de almaço sobre a mesa do professor, alunos suspirando de alívio. Se fosse em forma de cartaz, muita purpurina na cartolina e papel celofane. Esse capricho deveria ser mais notável nas pesadas maquetes de isopor que, depois da feira de ciências, eram tacadas fora. Na verdade, tudo era descartado. Muitas vezes, na mesma aula da entrega, para revolta das crianças mais críticas, o professor ou professora mudava o conteúdo a ser trabalhado. Feito o trabalho, podia-se virar a página do livro com o sentimento de tarefa cumprida e iniciar outro tema. Depois, exigir mais alguns trabalhos, mudar novamente o conteúdo, repetidas e repetidas vezes, até o término do ano letivo.
Por mais tristeza que essas propostas nos causaram, podemos encontrar aspectos “positivos” nessas experiências. Não aprendíamos tanto, mas nossas habilidades de comunicação, locomoção e visão eram fortalecidas. Afinal, muitas famílias não tinham enciclopédia e livros em casa, por isso o aluno precisava aprender a “gritar por socorro” e buscar com quem conhecesse o material da pesquisa. A criança tinha que “correr atrás”, até encontrar a informação. O aluno, se tímido, aprendia “na marra” a falar com os outros.
Esse desafio de encontrar o material envolvia também as muitas viagens para pegá-lo. Por fim, aliviado, com o material nas mãos, o aluno olhava com atenção o sumário e as páginas, buscando o título do trabalho que, na maioria das vezes, repetia exatamente os enunciados dos capítulos das apostilas didáticas. E copiava o que havia sido solicitado.
Fico imaginando a algazarra que faria se pudesse voltar à minha antiga escola carregando meu laptop conectado à internet. Tiraria as melhores notas. Naqueles moldes, poderia, com menos de nove anos, até me aventurar em expor alguns conteúdos!
De fato, os ventos modernos chacoalharam as antigas bases escolares. A velha escola tem sido questionada. Hoje, já não mais cabem metodologias para o encontro das informações. Na verdade, esse nunca fora o objetivo escolar. Sempre soubemos (ou não?) que era ineficaz a informação pela informação. Mas o que satisfazia e legitimava as ações era entender como educativo o ato da criança encontrar aquilo que o planejamento já previa. E o verbo – encontrar – é usado com propriedade, pois, de fato, o mérito era totalmente para aquele que, percorrendo exatamente o caminho previsto pelo professor, encontrasse o que também era previsto. Nada de surpresas, novos resultados, inovações. A questão era ordinária: encontrar a flor.
Diante de salas compostas por alunos da geração digital, sobra espaço para didáticas alternativas, reflexão e práticas de novas formas de aprender e ensinar. Se pautarmos as aulas na apresentação e solicitação de informações, é somente isso que os alunos nos trarão. E com toda facilidade que a realidade atual lhes permite. Relembrando o conto, apenas copiarão pelas múltiplas janelas virtuais que estão a sua disposição.
Robson de Oliveira é teólogo, pedagogo e Orientador Educacional do Colégio Interativa em Londrina-PR.
Contato: robson@interativalondrina.com.br