21 de dez de 2008

O capital quer uma nova escola. A atual já não serve

A escola que teve o incentivo dos poderes hegemônicos da sociedade e serviu muito bem a eles durante anos, conforme protestou Paulo Freire, agora dá uma guinada. Os interesses do capital estão mudando.

Por Carlos Nepomuceno

Estive lá no Descolagem #3. Vários blogueiros bateram post. Destaco os do Frederick e do Sergio Lima com textos, fotos e vídeos.

Os palestrantes eram evangelistas. No Wikipedia em português ainda não tem uma definição para o termo. Trata-se da pessoa que incentiva os outros com novas idéias. (Se me lembrar ou alguém puder dar uma arrumada por lá, seria bom.)

Do blog do Sergio Lima tiro os seguintes trechos da palestra da Diretora Pedagógica da Escola Parque Patrícia Konder.

Palestra

(A foto tirei do blog dele.)

Ela diz, “A tecnologia determina, de certo modo, como a sociedade se organiza, mas a Escola ainda é quase a mesma nos últimos 200 anos. A Escola precisa mudar paradigmas, mas isto é muito complicado porque é necessário romper com nossas referências. É dificil, mas é preciso começar do zero”.

Ela defendeu, ainda usando o blog do Sérgio como referência:(…), redesenhar a “geografia da escola”! Nova organização dos alunos (não necessariamente por idade)… organizar os alunos por problemas! (…) espaço para se aprender a problematizar, pensar e resolver problemas (relevantes e significativos)! (…).

Fim.

O que fiquei a pensar sobre essa discussão. Se a escola está aí há 200 anos, perguntaria o professor, por que não vai ficar mais 200 anos do mesmo jeito?

Talvez esta seja uma questão central, pois se tudo nunca mudou por que haveria de mudar “justamente agora que eu estou aqui?”

Tenho percebido nos lugares que vou, que a dimensão das mudanças pelas quais passamos não está suficientemente clara. Tivemos mudanças iguais a essa atual poucas vezes na história!

Quando começamos a escrever e passamos do modo interativo - um-um para um-muitos; quando passamos a publicar livros e jornais - quando expandimos tremendamente o um-muitos, seguido, bem depois pelo rádio e televisão. E agora, com a possibilidade do muitos para muitos.

Leiam Cibercultura do Lévy. Ou o primeiro capítulo do meu livro e do Marcos.

Mudamos nessas rupturas a maneira pela qual produzimos informação, nos comunicamos em escala maior e, portanto, na forma de obter conhecimento.

Concordando e reafirmando o que disse a palestrante: “A tecnologia determina, de certo modo, como a sociedade se organiza”…complemento: ainda mais as ligadas ao conhecimento, que mudam profundamente a sociedade e esta se adapta ao novo modelo.

Note que a escola sempre foi um replicador do status quo.

Servia bem ao sistema, da fase industrial, na qual o aluno deveria sair para apertar parafuso e não pensar.

Ou seja, quem defendia o contrário, queria modificar o sistema.

A grande mudança de paradigma é de que o novo ambiente de conhecimento - no atual modelo de troca de informação cada vez mais rápida - ganha dinheiro em torno das idéias, criatividade e inovação.

A escola que serviu e teve o incentivo dos poderes hegemônicos da sociedade e serviu muito bem a eles durante anos, conforme protestou Paulo Freire, agora dá uma guinada, pois os interesses do capital estão mudando.

Não se quer mais apertadores de botão, mas pensadores.

E justamente por causa disso que a Escola que já era obsoleta vai bater de frente com a demanda das empresas e do mercado de trabalho.

Ou dito de outra forma: do jeito que está, não serve mais aos interesses de ninguém, principalmente do capital cada vez mais intelectual e menos industrial.

Isso vai acontecer de forma gradual e lenta, pois é uma instituição antiga, mas o processo já se iniciou.

Um aluno formado sem criatividade está sendo educado para o século passado e terá dificuldade em se colocar na indústria criativa do século XXI. Vai ser o aluno bumerangue: baterá no mercado de trabalho e voltará para um curso de criatividade na esquina.

Basta ver o ambiente de trabalho hoje do Google e da Microsoft.

Ali, está não só o germe da nova escola, mas das novas empresas, na qual a criatividade é o ar que se respira.

E me parece esse um grande incentivo para que os professores possam parar um pouco para pensar, a despeito dos 200 anos de não-mudança.

Não mudou, mas agora tende a mudar.

O ambiente de conhecimento é outro, repito, o capital que vale agora é a massa cinzenta, para produzir bens intangíveis.

Novas regras, novo jogo.

Assim, do que fica do papo do sábado chuvoso, se a escola muda, mudam as empresas, como muda a sociedade.

Moral do post: a escola vai mudar, não só por que já está velha e caquética, desde que eu me sentei por lá, mas será outra, pois o sistema, agora quer e vai criar fortes demandas para isso.

As escolas inovadoras serão procuradas pelo mercado e incentivadas a se proliferarem.

É o início neo-Paulo Freirismo, revisitado.

O debate da Descolagem foi show, estarei lá nos próximos…

Anotem: o lugar vai ficar pequeno. Alguns pontos que ficam para outras descolagens…ou as questões que ainda me inquietam sobre tudo isso.

Como será esse novo trabalhador do conhecimento diante das injustiças corporativas? Até quando ele terá que pensar e com terá que se conformar? Será ainda empregado ou acionista? Empreendedor ou empreendido?

Que me dizes…

Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/11/26/o-capital-quer-uma-nova-escola-a-atual-ja-nao-serve/

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