28 de fev. de 2009

Projeto Cinema no Caldeirão - 28/02

Olá Amigos

O filme de hoje no Projeto Cinema no Caldeirão é o "Diários de Motocicleta" de Walter Salles, talentosíssimo diretor nacional. O filme em questão foi escolhido como apoio aqueles professores que queriam trabalhar com algum projeto relacionado aos 50 anos da revolução cubana.

O chamado "road movie" tem um atrativo todo especial para o cinema. Está sempre em movimento e, como em um pensamento "zen", geralmente não é o objetivo que importa, mas sim a jornada.

Baseado nos livros Notas de Viaje, de Ernesto “Che” Guevara e Con el Che por Sudamérica, de Alberto Granado, o filme visa contar como foi a viagem do jovem Che Guevara e de seu amigo Alberto pela América Latina, munidos apenas de uns poucos trocados e de uma moto caindo aos pedaços, batizada de La Poderosa.

Diários de Motocicleta começa e termina de forma bem diferente, ambas com muitos pontos positivos. No início do filme, são apenas dois jovens que querem se divertir, conhecendo muitas pessoas, países e culturas diferentes. Nesse ínterim, eles vão passar por vários problemas e confusões, a maioria protagonizada por La Poderosa e descobrir que o mundo é menos justo do que pensavam. Podemos sentir o idealismo dos amigos aflorando aos poucos durante o filme e ambos deixando de ser crianças para, enfim, penetrar no mundo adulto.

Um dos maiores trunfos do filme é o fato de os dois serem caras normais, passando por situações normais. Nada de inverossimilhança. O que acontece com os dois é o que aconteceria comigo ou com você se nos aventurássemos em uma viagem dessas. O tom cômico vem do personagem de Rodrigo de La Serna (Alberto Granado). Sua cara de pau parece não ter fim, bem como as confusões em que se mete.

Um dos momentos mais emocionantes é quando os dois vão para um acampamento de leprosos (Ernesto é estudante de medicina e Alberto é bioquímico). Lá, se deparam com uma situação ridícula onde os próprios médicos não têm coragem de chegar perto dos pacientes e começam sua primeira revolução, quebrando as regras e tratando os pacientes como qualquer ser humano merece ser tratado: com respeito. Os doentes, é claro, retribuem com muito carinho e verdadeiras amizades se formam, transformando até o próprio espectador, que também aprende a ver as pessoas por trás dos rostos marcados por uma das piores doenças da história.

Independente de se tratar da juventude de Ernesto "Che" Guevara, "Diários de Motocicleta" também é um filme sobre um jovem que se torna adulto, um jovem que também busca seu lugar no mundo. E no caso de Guevara, que lugar!

Não vou discutir aqui sobre os aspectos históricos ou míticos envolvendo a figura de Guevara. Afinal, muito já se falou sobre isso. E todos nós, até o mais cínico, não consegue ficar impassível diante de Che, não do homem que ele foi, mas do que ele representa: um sonhador e um rebelde, alguém que ousou lutar por um mundo melhor (independente dos meios que ele usou), morrendo por esse sonho. Che Guevara se tornou algo íconico, quase arquetípico.

Todavia, a proposta de Salles em "Diários de Motocicleta" é buscar o homem, ou melhor, o menino, por trás do mito e o processo que o fez tornar homem. O ponto de partida para conseguir captar isso? Ora, novamente uma viagem. A viagem que Ernesto de La Serna (Gael García Bernal) e seu amigo Alberto Granado (o ótimo Rodrigo de la Serna) fizeram em 1952, cruzando a América do Sul desde a Argentina até o Peru.

"Diários de Motocicleta" é sim o filme poético que prometia ser desde que foi anunciado. É o melhor trabalho de Salles? Certamente não sei dizer.

Contudo não deixa de ser um filme excepcional e tocante, não porque se trata da história de Che Guevara, e não apenas porque nos torna mais próximos de Ernesto de La Serna, mas principalmente pelo motivo que ressaltei: por tratar de forma sincera temas como a busca pela identidade e o amadurecimento pessoal.

Temas essencialmente humanos, tão caros a todo e qualquer sujeito, e capaz de realmente alcançar o menino por trás do mito, tornando-o um de nós.

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

Diários de Motocicleta

"Sem perder a ternura jamais"

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Um filme simplesmente inesquecível. Daqueles que depois de vistos ficam em nossa memória como referência obrigatória. Essa é a sina de “Diários de Motocicleta”, a elogiadíssima e premiada produção internacional dirigida pelo brasileiro Walter Salles. Filme inspirado nos diários de viagem de Alberto Granado e Ernesto ‘Che’ Guevara, experiência essa vivida antes do surgimento do emblemático líder revolucionário que comandou ao lado de Fidel Castro a Revolução Cubana.

E é justamente nesse ponto específico da vida de Guevara que vemos surgir a centelha revolucionária que irá alimentar os sonhos do guerrilheiro que lutou na América Latina e no continente africano. A viagem iniciada em Buenos Aires percorre as trilhas e caminhos belíssimos de um continente pouco conhecido pela maioria das pessoas que mora por aqui, na América do Sul.

Desvela também o acentuado desnível social que assola praticamente todos os países da região. Da Argentina a Venezuela, quase todos os povos recebem a ilustre visita de Guevara, ainda que naquele momento ele ainda fosse apenas um jovem aspirante ao título de medicina e não tivesse a mínima idéia de quem iria se tornar num futuro muito próximo.

O contato com essa realidade díspar, marcada pelos traços sofridos do povo e pela opulência das multinacionais e de seus sócios locais desperta um sentimento incontido de revolta e indignação por parte do jovem Ernesto e de Alberto, seu companheiro de viagem. O que deveria ser uma trilha alegre, típica de mochileiros em busca de aventura, fortes emoções e paisagens deslumbrantes, acaba se tornando a certidão de nascimento de um líder guerrilheiro socialista que iria revolucionar em sua breve passagem por esta terra todas as gerações posteriores.

A “poderosa”, nome dado à motocicleta que utilizaram em parte da viagem se desmantela ao longo do caminho e vira sucata. Parece até uma alegoria, uma figura de linguagem utilizada por Walter Salles para demonstrar o fim do sonho burguês a partir do ponto de vista de Guevara. A história da viagem registrada nos diários de Alberto e Ernesto nos mostra que poeticamente a transformação da “poderosa” em sucata realmente aconteceu e que, a partir desse momento, caminhando pelas rotas traçadas em seu mapa, os viajantes puderam reconhecer e identificar com muito maior clareza o povo latino-americano, nas suas carências e também em suas esperanças.

Por que, se por um lado os sulcos cravados na terra e no rosto desses pobres camponeses ou mineiros demonstram o empobrecimento material e toda a carestia pela qual passavam, por outro, a atitude altiva, a disposição para a luta cotidiana, o brilho incontido dos olhares e a fé inabalável em dias melhores é, igualmente, característica permanente entre chilenos, argentinos, bolivianos, peruanos,...

Filme de cabeceira é o termo que utilizo para falar a respeito da filmografia que inspira minha vida. “Diários de Motocicleta” veio a se incorporar a essa restrita coletânea e abrilhantar os sonhos de todos aqueles que, como o ‘Che’ (e também esse humilde escriba que lhes dirige essas palavras), acreditam que o futuro pode ser muito mais justo, harmonioso e próspero para todos...

O Filme

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Prestes a completar seus estudos na faculdade de medicina, o jovem Ernesto Guevara de La Serna (Gael Garcia Bernal, em atuação memorável) se une ao amigo Alberto Granado (Rodrigo de La Serna, seguro e convincente) para a realização de um sonho, cruzar o território sul-americano com mochilas nas costas, montados numa motocicleta.

Saem de Buenos Aires em direção ao sul da Argentina, para a gélida região da Patagônia, onde irão visitar a namorada de Ernesto e depois cruzar as fronteiras que separam o seu país de nascimento do Chile. As despedidas do casal de namorados tendo ao fundo a belíssima paisagem da região marcam o fim de uma era, tanto para Ernesto quanto para Alberto.

Ficam para trás a comodidade e a segurança de toda uma existência burguesa, na Argentina, um dos países mais desenvolvidos da região (que, como todos os outros também apresenta grandes diversidades e focos de pobreza), e os dois aventureiros passam a ter, a sua frente, apenas o mapa pontilhado de cidades e estradas, pelas quais nem sequer imaginavam o que iriam encontrar.

O tracejado mapa esconde rotas poeirentas, cidades pequenas, regiões de mineração, cidades grandes com seus mercadores espalhados pelas ruas, cinturões agrícolas produzindo para mercados distantes, grandes empresas de capital estrangeiro em busca de altos lucros, governos pouco interessados nos problemas de seus povos e, acima de tudo, uma população carente em termos materiais, mas rica em seus sonhos e esperanças.

O encontro com essa realidade sofrida da população de vários países revela tanto para Ernesto quanto para Alberto a necessidade de uma maior intervenção das classes socialmente esclarecidas em favor de mudanças imediatas e autenticamente radicais. Ao cruzar desertos, estradas, cidades e rios, tanto Guevara quanto Granado se transformam completamente, deixam de lado toda ingenuidade e candura que um dia tiveram e percebem a verdade dos fatos escondidos aos olhos da grande maioria das pessoas.

A percepção da pobreza, da fome e do descaso das autoridades os mobiliza a alterar os rumos de suas vidas...

Filme belíssimo, de história enternecedora, “Diários de Motocicleta” nos convida ao longo de toda a sua projeção a rever nossos sonhos e ideais, nos mobiliza para a luta que prossegue, alimenta a alma e o corpo, justamente como tanto queria o ‘Che’...

Aos Professores

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1- Gosto muito de acreditar que “o sonho não acabou”. Procuro acordar todas as manhãs levando comigo essa convicção, de que é possível tornar o mundo melhor, muito mais justo, íntegro e digno. Tenho minhas referências pessoais em termos de pessoas que se mobilizaram em suas vidas pela construção de ideais de solidariedade, fraternidade, tolerância, paz e amor. Nem tudo que essas pessoas fizeram ou produziram constituem verdades absolutas para mim, procuro pensar nas mesmas como seres humanos, capazes de grandes feitos e também de erros, como eu ou vocês. ‘Che’ Guevara faz parte dessa lista (apesar de não estarmos tão sintonizados politicamente) ao lado de Gandhi, Martin Luther King, Charles Chaplin e, de forma diferenciada, Jesus Cristo. Falamos muito pouco de nossas convicções e de nossos ideais. Parecemos muito mais dispostos a crítica vazia, sem fundamentação e argumentos. Temos que repensar essa postura, apostar em atitudes mais construtivas e práticas, dispor nossos estudantes a reformar o mundo, a renovar o amanhã. Só assim os sonhos se tornarão realidade. Só assim poderemos dormir o autêntico sono dos justos...

2- A Revolução Cubana já foi muito estudada em décadas anteriores. Atualmente ela está um tanto quanto esquecida nos currículos escolares. Não se trata simplesmente de buscar as informações históricas, mas, muito além delas, perceber o que significa o socialismo na prática, com seus problemas e riquezas, suas incertezas e realizações. Que tal recolocar esse tema em pauta para a realização de um projeto?

3- Biografias são significativas para o estudo da história, da sociologia, da filosofia e também para a compreensão da alma e corpo de povos e culturas. Somos herdeiros de ricas heranças legadas por líderes, artistas, esportistas, literatos, cineastas, educadores e cientistas (entre tantas áreas de atuação e realização). Um exame atento da vida desses expoentes pode auxiliar nossos estudantes na compreensão de nossas raízes e matrizes. Que tal organizar uma mostra de filmes com personagens históricos de vulto? O início dessa mostra poderia conter histórias como a de ‘Che’ Guevara, Gandhi, Jesus Cristo, Chaplin, Vargas, Pelé,...

4- A sala de aula é local de construção de conhecimentos. Disso nenhum educador duvida. Só que nosso trabalho vai muito além, atingindo, inclusive, a formação ética, cidadã e de caráter de nossos educandos. Quando trabalhamos a história, a literatura, as artes, a geografia, as ciências ou a matemática com exemplos de vidas dedicadas a essas nobres áreas de estudo, pesquisa e atuação, damos aos estudantes subsídios valiosos para que se consolidem entre eles os valores que almejamos para a sociedade. Poderíamos tentar tornar as aulas ainda mais interessantes se incluíssemos aos nossos conteúdos a vivência desses personagens notáveis. O que acham? Ao falar de física poderíamos contar um pouco da vida de Einstein, em geografia deveríamos lembrar o mestre Milton Santos, em literatura temos que referenciar nossas explicações em expoentes como Machado de Assis, em artes não podemos deixar de lembrar de Monet ou Picasso,...

Obs.: Outro trabalho interessante a ser realizado com o apoio do filme “Diários de Motocicleta” pode ser um mapeamento da rota trilhada por Guevara e Granado e suas peculiaridades geográficas, tanto no aspecto físico quanto econômico e social.

Ficha Técnica

Diários de Motocicleta
(The Motorcycle Diaries)

País/Ano de produção: EUA, 2004
Duração/Gênero: 128 min., Drama
Direção de Walter Salles Jr.
Roteiro de Jose Rivera, baseado nos livros de
Alberto Granado e Ernesto ‘Che’ Guevara
Elenco: Gael Garcia Bernal, Rodrigo de La Serna, Mía Maestro, Susana
Lanteri, Mercedes Morán, Jean Pierre Nohen, Gustavo Pastorin.

Links
- http://www.cinemaemcena.com.br/FICHA_FILME.ASPX?ID_FILME=1543&aba=detalhe
-http://www.adorocinema.com.br/filmes/diarios-de-motocicleta/diarios-de-motocicleta.asp
- http://www.motorcyclediariesmovie.com/sp/home.html (site oficial)

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João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=376

27 de fev. de 2009

O professor está sempre errado


A capacidade de admitir falhas em sala de aula é fundamental para o professor, e ao contrário do que se imagina, pode até melhorar a relação com seus alunos. Um pequeno ensaio sobre a atividade docente e a falibilidade humana.

Por Sthefan Berwanger

Lembro que a alguns anos, logo que comecei a dar aulas nos cursos Superiores de Tecnologia, entrei na sala dos professores, e me deparei com o seguinte texto afixado na parede, cujo título tomei emprestado, e abaixo reproduzo integralmente:

O Professor Está Sempre Errado

Quando…
É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de ‘barriga cheia’.
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta às aulas, é um “Caxias”.
Precisa faltar, é ‘turista’.
Conversa com os outros professores, está “malhando” os alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó dos alunos.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama à atenção, é um grosso.
Não chama à atenção, não sabe se impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala corretamente, ninguém entende.
Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, ‘deu mole’.
É, o professor está sempre errado mas, se
você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!”

(fonte - Revista do Professor de Matemática, no.36,1998.)

Tinha achado sensacional o que tinha acabado de ler! Era dia do professor e alguém ali fixou o texto. Peguei uma cópia e fiz outras tantas cópias, para distribuir entre os meus alunos do curso.

Então um deles me falou: “E aí professor hoje é o seu dia! Vamos tomar uma gelada lá na ‘padoca’ (padaria) depois da aula?”. Por um momento pensei que não seria mal, porém ponderei que, a partir do momento em que me formei e passei a dar aulas, percebi que tinha passado para o outro lado da trincheira. Agora era o profissional, o professor, e tinha que ter algum distanciamento, então capitulei o convite.

No texto supracitado, a primeira sentença já me parecia endereçada: “É jovem, não tem experiência”. Como eram as minhas primeiras aulas na graduação, certamente perceberam que se tratava de um iniciante, estava tenso, hesitante. Não que me importasse sobre o que pensavam, mas que era intimidador encarar pela primeira vez quase 40 alunos, a isso era. Fora o choque de ouvir alguns alunos na casa dos 40 ou 50 anos me chamando de “senhor”. Onde estavam mesmo minhas barbas brancas?

Nem tão racional, nem tão emocional. Nem tão libertário, nem tão autoritário. Cada profissional descobre seu equilíbrio entre cada uma das sentenças em oposição com o passar dos anos. Alguns colegas, talvez por orgulho, não aprendem, de que é preciso se adaptar, ter bom senso, ser flexível.

Mas o que fazer com esta sentença?

“Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de ‘barriga cheia’.”

Talvez nesse caso a solução seja comprar uma bicicleta, não?

Admitir as falhas é o melhor caminho

Desde que iniciei a carreira como docente até os dias de hoje, ocorreram situações constrangedoras onde cometi erros em sala de aula, tanto erros conceituais ligadas à matéria, como por esquecimento de passagens pelo meio do caminho. Muitas vezes eu mesmo percebia o erro e logo corrigia, ou acontecia o caso mais embaraçoso, quando um aluno me corrigia.

Já ocorreu até mesmo de eu ter errado o enunciado de uma prova, e vou dizer aqui: este tema, sobre falhas em sala de aula, por vezes, é encarado como tabu entre nós professores. Pelo menos em minha experiência no ensino superior, nunca se conversou sobre o assunto abertamente, nem mesmo em reuniões pedagógicas como forma de troca de experiências. Os “pecados” em sala de aula, quando muito, são confessados somente aos colegas mais próximos. De certa forma é uma atitude natural, afinal as pessoas preferem se resguardar.

Cada indivíduo tem uma reação diferente quando erra, mas posso dizer por experiência própria que admitir o erro perante os alunos é bem mais nobre, além de reverter o jogo a seu favor. Eles sabem que dentro da sala o professor é a entidade que detém o conhecimento e a experiência, e que devem respeitá-lo por isso. Admitir o erro, neste caso, é uma demonstração de humildade, atenua o constrangimento e reforça sua condição humana sujeita a falhas.

Por outro lado, os erros cometidos pelo docente começam a ser um problema quando passam a ser freqüentes, então chega o momento de refletir se a disciplina é adequada ao seu perfil, se realmente gosta do ofício. Sobrecarga devido ao excesso de atividades gera cansaço, stress e falta de tempo para o planejamento, tornando as falhas constantes no momento de conduzir a aula. Dessa forma, a credibilidade do docente e da instituição que representa, ficam comprometidas.

A necessidade da adaptaçãoOs alunos trocam muitas informações. Qualquer deslize de um professor não tão popular pode ser bastante amplificado. Quando precisam lembrar de seus direitos, eles têm o discurso na ponta da língua: O direito das aulas começarem pontualmente e terminarem no horário determinado, de ter um professor qualificado que não falte, das instalações da instituição estarem em dia.

Então rebato com os seus respectivos deveres de: comparecer pontualmente às aulas, não sair antes que se encerre salvo em casos excepcionais, não enforcar as sextas-feiras no bar, estudar e não bagunçar as aulas, respeitar o professor e demais funcionários da instituição, respeitar os colegas de aula, não depredar a instituição. E eis que surge o silêncio total em sala de aula…

Aproveito para desfazer uma ilusão junto aos que desejam seguir o ofício. Logo que comecei, achava que todas as turmas seriam iguais: haveria uma proporção x% de alunos estudiosos, uma proporção y% de bagunceiros e assim por diante. Ledo engano, cada turma tem seu “DNA”, ou como me disse um colega certa vez: cada turma é como um cafezinho com proporções diferentes de água pó e açúcar. A impressão é de que se forma uma “alma coletiva”, e mesmo turmas do mesmo curso no mesmo Campus podem ser bem diferentes.

Portanto, a capacidade de adaptação a este “DNA”, principalmente em ambientes mais hostis, é o diferencial. Naturalmente não estou falando em facilitar o lado dos alunos nos casos mais difíceis, e nem precisa. Um dos papéis do coordenador de curso é justamente o de auxiliar professores em apuros. Hoje em dia onde tantos ventos sopram ao contrário, é bom ter cautela, faz bem à sua saúde, e ao seu salário no fim do mês.

Reforçando a idéia, cito o educador brasileiro Paulo Freire que em uma de sua obras escreve o seguinte:

“ensinar exige respeito aos saberes dos educandos, ensinar exige bom senso, ensinar exige humildade, tolerância e luta pelos direitos dos educadores, ensinar exige saber escutar, ensinar exige liberdade e autoridade”.

Para finalizar, caros colegas educadores de todos os níveis de ensino, sugiro que distribuam os singelos versos do texto inicial aos seus educandos, adicionando antes duas linhas que acho pertinente:

“O Professor Está Sempre Errado

Quando…
Erra a matéria, é um despreparado
Não erra a matéria, é porque decorou que nem papagaio”

Boa aula!

Sobre o Autor: Sthefan Berwanger (sthefan.berwanger@xporcento.com.br) é responsável pela área de BI da X Porcento e é professor do programa de pós-graduação pela Faculdade Impacta Tecnologia.

Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2008/02/15/o-professor-esta-sempre-errado/

26 de fev. de 2009

Nativos versus Imigrantes Digitais

Antonio Mendes Ribeiro

Marc Prensky, no seu próprio blog, se auto proclama um visionário, um inventor, um futurista, além de consultor, projetista de jogos e aprendizado e um autor (dos livros Digital Games –Based Learning e Don´t Bother Me Mom—I´m Learning!). Ele caracterizou, sem precisar de muita futurologia, o perfil de dois tipos de usuários atuais da Internet: os Nativos Digitais e os Imigrantes Digitais. Esses usuários têm a ver com as diversas gerações que temos atualmente. Em princípio no mundo convivem ao mesmo tempo cinco gerações, sendo que quatro delas normalmente fazem parte ativa da força de trabalho. A experiência de cada elemento dessas gerações influencia a sua visão da vida e do trabalho. A geração mais nova que está chegando agora às empresas é chamada de vários nomes: Geração D (de digital), ou Geração N (de Net), ou ainda, por questionarem tudo, Geração Y (Why?). Veja detalhes das diversas gerações na tabela abaixo.

Os Imigrantes Digitais são membros das gerações mais antigas, são os que conseguiram aprender a usar as tecnologias digitais, uns mais, outros menos. O fazem como os imigrantes, se adaptam ao novo ambiente, mas sem deixar de ter o seu sotaque, isto é, o seu pé no passado. Usam as novas tecnologias, mas de uma maneira diferente das gerações mais recentes. Exemplos dados pelo autor (alguns certamente acham que foi pelo inventor), de como os imigrantes usam as tecnologias:


  • Necessitam mandar imprimir um texto digital quando querem alterá-lo, para depois digitar as modificações registradas no papel;
  • A Internet é sempre a segunda fonte de informação;
  • Lêem os manuais de dispositivos ou de programas em vez de aprenderem com o seu uso;
  • Imprimem os emails recebidos (ou mandam alguém fazê-lo), para depois decidirem que ação tomar;
  • Convidam as pessoas para dar uma chegada à sua sala, para ver no computador um site interessante que acabou de localizar, em vez de mandar-lhes o seu endereço.
Já os Nativos Digitais são da Geração Y, nasceram com a tecnologia, tem-na no sangue. Falam fluentemente a linguagem digital dos computadores, vídeo-games, Internet, MP5 players, máquinas fotográficas. Eles pensam e processam informação fundamental e diferentemente de seus antecessores. Os seus pais, professores e agora chefes não percebem e muito menos entendem essas diferenças e normalmente não tem condições de avaliar as implicações deste fato. O nosso autor (futurista ou realista?) salienta algumas das características de um Nativo Digital:


  • Recebem e passam informação rapidamente, usando várias mídias;
  • Usam várias aplicações ao mesmo tempo, enquanto conversam nos mensageiros, vem vídeos do Youtube;
  • Preferem as imagens antes dos textos, se estes não tiverem imagens certamente serão desconhecidos;
  • Fazem acessos aleatórios, não seqüenciais, nas páginas hipermídia da web;
  • Preferem jogos em vez de trabalho “sério”;
  • Estão constantemente interagindo com os amigos nas redes sociais.
  • Colocam na rede seus próprios textos, fotos, vídeos
Essas características, que os Nativos Digitais adquiriram e aprimoraram através de anos de interação não são muito apreciadas pelos Imigrantes Digitais. Para eles tudo isso é estranho. Preferem fazer as coisas “lentamente, passo a passo, uma coisa de cada vez, individualmente, e acima de tudo seriamente”. Acham que o trabalho, o aprendizado não pode e não deveria ser divertido. Já os nativos, que nasceram numa nova cultura, aprendem com facilidade a nova linguagem digital. Apesar de que seus pais, professores e chefes tentem forçá-los insistentemente em aprender a linguagem do passado, eles resistem bravamente em fazê-lo. Um dia, para a satisfação de nosso autor projetista de jogos e aprendizagem, aprenderão novos e antigos conteúdos se divertindo, com ou sem a ajuda de seus professores Imigrantes Digitais.

As diversas gerações existentes no mundo de hoje são caracterizadas na tabela abaixo, baseada no artigo de Jane Hart: Understanding Today´s Learner. É uma classificação baseada em fatos verificados em países ocidentais e desenvolvidos. Para países em desenvolvimento, como o Brasil, podemos fazer algumas correlações, ou verificar que em algumas de suas regiões mais prósperas, onde o acesso às tecnologias é mais difundido, a classificação é válida. Algumas estatísticas tem mostrado que nesses países o número de Nativos Digitais, de todas as gerações e em especial da Geração Y, está crescendo de forma acelerada, muitas vezes com apoio do próprio governo.

Gerações e Características de seus membros

VETERANOS
Nascidos de 1925 a 1945
Geração Silenciosa
Características de seus membros
  • Nasceram em tempos de crises econômicas, o que os fez disciplinados e saber que devem se sacrificar
  • Colocam o dever antes do prazer
  • Acreditam que a paciência é auto-gratificante
  • Vêem o trabalho como uma obrigação
  • Como trabalhadores são leais, dedicados e trabalham pesado
  • Respeitam a autoridade, trabalham segundo regras existentes
  • Alguns ainda estão na força de trabalho, na ativa


BABY BOOMERS

Nascidos de 1946 a 1964
Numa fase de explosão de nascimentos, em função do desenvolvimento econômico do pós-guerra
Características de seus membros

  • Nasceram numa época de prosperidade econômica, num ambiente fortemente familiar, com a mãe presente o tempo todo em casa
  • São competitivos,otimistas e focam nas realizações pessoais
  • São viciados no trabalho, vivem no mesmo, levando-o muitas vezes para casa
  • São definidos por seu trabalho ou profissão
  • Gostam de se sentir valorizados e necessários
  • Não compatibilizam a vida pessoal com o trabalho, considerando um malabarismo fazê-lo
  • Muitos sacrificam a vida pessoal em detrimento da carreira profissional
  • Dominaram a força de trabalho por muito tempo, hoje detém postos significativos na hierarquia das empresas


GERAÇÃO X

Nascidos de 1965 a 1979
Características de seus membros
  • Nasceram em circunstâncias diversas, muitos com pais divorciados ou separados, a mãe no trabalho era uma norma
  • Isso fez com que se tornassem resistentes, independentes e adaptáveis
  • Assumem o emprego de forma séria
  • Tem uma maneira pragmática de fazer as coisas
  • Trabalham para viver, não vivem para trabalhar
  • Saem e entram nos empregos em função das necessidades da família


GERAÇÃO Y

Nascidos de 1980 a 1995
Geração NET

Geração D

Geração do Milênio

É a geração mais numerosa

Características de seus membros
  • São filhos dos Baby-Boomers, que os mimaram e deram-lhes muita atenção, o que fez com que apresentem alto grau de auto-confiança
  • Nasceram em tempos de prosperidade, por isso não temem o desemprego
  • Gastaram maior tempo em educação de tempo integral
  • São independentes e muito sociais
  • Questionam qualquer coisa
  • No emprego não temem mudanças
  • O trabalho é um meio não um fim
  • Gostam de horas flexíveis de trabalho, para trabalhar em casa e para ter tempo de viajar
  • Saem felizes do emprego se ele não está de acordo com suas expectativas
  • Ficam no trabalho se é algo que desejam

GERAÇÃO Z
Nascidos a partir de 1996
Características de seus membros
  • Começarão a aparecer na força de trabalho daqui a aproximadamente cinco anos
    Como a Geração Y, a tecnologia e em especial a Internet será um fator de influência significativa nas suas vidas
Questões necessitando de respostas imediatas:

  • Como os alunos da Geração Y estão se saindo na Escola atualmente?
  • As teorias educacionais, as metodologias de ensino e aprendizagem adotadas normalmente pelas nossas Escolas são adequadas aos alunos Nativos Digitais?
  • Como os professores Imigrantes Digitais conseguirão criar ambientes de aprendizagem adequados aos seus alunos Nativos Digitais?
  • Como as empresas receberão seus funcionários Nativos Digitais?
  • O que acontecerá às empresas quando os Nativos Digitais assumirem postos significativos?

25 de fev. de 2009

Pedagogias para a Web 2.0

Antonio Mendes Ribeiro

Hoje existe um descompasso entre a geração de jovens que nasceram com a Internet (chamados nativos digitais ou geração Y) e a escola convencional (com seus professores imigrantes digitais). Veja em Nativos versus Imigrantes Digitais. Alguns estudos e observações mostram que esses novos alunos não estão se dando bem na sua vida escolar. Veja uma discussão sobre esse assunto aqui no Peabirus: A Internet educa? .


Fica claro que a nossa escola não está preparada para lidar com essa geração e trazê-la para o “ bom caminho”. O desafio para os pais e professores no mundo de hoje é se apropriarem das tecnologias existentes e criarem condições para que os jovens dominem as diversas linguagens necessárias, não somente a digital. Como as tecnologias podem contribuir nesse sentido se elas nos fazem ficar perdidos num mundo de informação, nos induzem a ações rápidas e superficiais?



A experiência da nova geração na Internet, favorecendo o relacionamento com os amigos, a utilização de ferramentas fáceis de usar, deu-lhes uma habilidade que está acima do simples domínio da tecnologia. Além da facilidade de comunicação, eles têm a abertura para enfrentar e resolver problemas de uma forma diferente, mais experimental (sem ler os manuais, sem se achar incapaz de fazê-lo). Essas características são essenciais no mundo de hoje e fazem falta a todas as gerações. A maior parte das pessoas e principalmente os professores, tem muito a aprender com eles.

Para a viabilização de processos de capacitação mais abertos, mais voltados para a realidade de nosso mundo, que contribuam para trazer os imigrantes digitais para o mundo dos nativos digitais ( e vice-versa), temos um caminho longo pela frente, capaz de permitir que alcancemos as respostas a questões como:

Como mapear as diversas tecnologias, sejam ambientes de colaboração (blogs, twitter, wiki) ou ferramentas pessoais (editores de texto, vídeo), de forma a viabilizar posturas e participações adequadas ao meu processo de aprendizagem?

Como as teorias de aprendizagem atuais contribuem para que a viabilização de participações efetivas nas redes digitais?

Quais são as estratégias de aprendizagem que permitem a efetivação de práticas pedagógicas adequadas à realidade de meu processo de capacitação desenvolvido através do uso das tecnologias atuais?

Os especialistas e as pessoas envolvidas com a Educação precisam verificar o que as diversas teorias da área têm a ver com as práticas possíveis na web atual. Como as tecnologias podem ser utilizadas baseadas no que se pode chamar de “ boas pedagogias”. A autora Gráinne Conole, da Open University da Inglaterra, no seu artigo New Schemas for Mapping Pedagogies and Technologies, nos oferece alguns esquemas que podem nos ajudar nesse sentido. As teorias de aprendizado mais atuais enfatizam mais os benefícios do social e do aprendizado situado, em detrimento do aprendizado individualizado, voltado para resultados, mais valorizado pelas teorias como o comportamentalismo. A nova era da Internet, a web 2.0, caminha também nesse sentido, permitindo práticas mais coletivas e colaborativas em rede. Em algumas áreas os efeitos dessas tecnologias já são bastante visíveis, como no caso do Marketing. Na Educação certamente esses efeitos ainda levarão algum tempos para serem sentidos de forma significativa.

As tecnologias atuais permitem a criação de ambientes de aprendizado baseados em pedagogias que valorizam princípios básicos cada vez mais importante no mundo de hoje, como abertura, conexão, autonomia, contextualização e diversidade. Veja em Aprendizado Aberto: uma possibilidade atual . Processos de capacitação contínuos, que não retirem as pessoas adultas de seu ambiente de trabalho são possíveis de serem realizados baseados nesses princípios com apoio das tecnologias da web 2.0. Veja o curso Connectivism & Connective Knowledge sendo realizado na Universidade de Manitoba no Canadá que está sendo chamado de um curso aberto online para as massas.

Fonte: http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=14378

24 de fev. de 2009

O papel das novas tecnologias

Autor: Antônio Mendes Ribeiro

Ao escolher uma tecnologia educacional temos vários problemas envolvidos, entre os quais podemos citar:



O espaço que ela propicia

Cada tipo de tecnologia tem suas funcionalidades próprias, seja para distribuir conteúdos (Powerpoint), permitir interação(correio eletrônico), colaboração ou conexão (redes sociais), até mesmo a administração da participação dos alunos num curso (relatórios de atividades realizadas no Moodle). O ambiente criado pela tecnologia, que permite a realização das atividades de aprendizado, caracteriza o seu espaço, que pode ser, por exemplo, aberto e coletivo (wiki) ou fechado e individual (Powerpoint), de acordo com as estruturas existentes.

Um aspecto importante que devemos considerar é o criador do espaço, aquele que em última instância define as regras do jogo no ambiente, libera ou restringe as estruturas ou os mecanismos disponibilizados pela tecnologia. Aquele que exerce o poder sobre o ambiente. Cada tipo de espaço tecnológico tem associada, de forma explícita ou implícita, uma pedagogia, podendo no mesmo serem adotadas ou integradas abordagens comportamentalistas, cognitivistas, construtivistas, conectivistas. Alguns espaços são mais próprios para adoção, por exemplo, de abordagens comportamentalistas (Powerpoint), que normalmente colabora para que um professor exerça todo o poder na sua aula.

A estrutura existente

Como agir num espaço tecnológico é definido por suas estruturas, que podem ser hierárquicas ou flexíveis, abertas ou fechadas, livres ou administradas, promovidas ou criadas. Elas é quem definem, em última instância o controle sobre o espaço: se as atividades ou recursos são centrados num autor, nos leitores, em grupos ou comunidades (sejam professores ou alunos). A estrutura do Powerpoint ( conteúdos seqüenciais, a serem apresentados por um autor para muitos leitores), favorece de forma significativa aulas centradas no professor. As estruturas em rede (não hierárquicas) favorecem a autonomia dos alunos, na medida em que permitem que eles assumam por conta própria o controle de suas atividades de aprendizagem, conseguindo assumir uma identidade própria e coletiva no seu ambiente de trabalho.

As tecnologias com suas estruturas e mecanismos específicos favorecem de forma explícita as diversas possibilidades de controle.Mesmo com o uso de tecnologias mais flexíveis muitas vezes os alunos individualmente ou em grupos não conseguem assumir o controle do ambiente, pois ele pode ser exercido de forma implícita pelo professor (o dono do espaço). Neste caso é mais um controle cultural, pois podemos levar para os espaços abertos, todas as posturas e hábitos que estamos acostumados a vivenciar na nossa prática convencional de ensinar e aprender. Num fórum colocado num LMS pelo professor, para que os alunos discutam livremente sobre um certo tema, os alunos não se comportam da mesma forma como se estivessem, por exemplo, interagindo com seus amigos na sua comunidade do Orkut.

O nível de conhecimento possível de se alcançar

Nem toda tecnologia favorece a construção de um conhecimento de forma plena. O Powerpoint, por exemplo, voltado para apresentações, com uma estrutura normalmente linear e seqüencial, é mais adequado para a transferência de conhecimentos. É o que acontece numa aula expositiva com o professor fazendo uso dessa tecnologia. Dependendo do Powerpoint os alunos são meros receptores das mensagens do professor ( qualquer coisa mais rica do que isto, teria que ser feita com outro tipo de tecnologia, ou através de contatos diretos pessoais). Já outras tecnologias auxiliam mais na aquisição de habilidades, permitindo que o aprendiz acomode novos conhecimentos, relacionando-os com os já existentes. É o caso de um navegador da internet, que ao permitir a transferência de conhecimentos de uma página para o aluno, permite que o mesmo navegue em outros sites, na medida que este dê significado aos links existentes. Tutoriais com estruturas ramificadas também auxiliam a aquisição deste nível do conhecimento. Para a aquisição de novos conhecimentos por um aluno, a partir dos conhecimentos existentes, a tecnologia tem que ser mais social, favorecer a sua interação com os demais integrantes de seu grupo de pares. É o caso dos e-grupos ou fóruns fechados. Para adquirir de forma plena um conhecimento precisamos contextualizá-lo e validá-lo junto a especialistas na área ou outras pessoas com os mesmos interesses, o que pode ser feito conectando-se em redes sociais.Na medida que participamos de uma comunidade de prática, interagindo com colegas mais experientes em algum assunto de interesse comum, temos a chance de acessar novas informações, socializarmos as nossas visões, expor, refletir, reconstruir e desenvolver de forma plena nossos conhecimentos.

Hoje temos condições de organizarmos um processo de aprendizagem de forma diferente, utilizando ferramentas pessoais e software social, que com seus espaços e estruturas inovadores, permitirão que os nossos alunos construam e referendem seus conhecimento de forma mais efetiva. Podemos ter ecologias de aprendizado, abertas e em rede, de modo a dar poder aos mesmos para que exerçam uma identidade própria, necessária para a resolução de problemas, por conta própria e em parceria com seus colegas. É a forma que se tem para permitir a individualização do aprendizado, em função das necessidades específicas de cada aluno, através da criação de um ambiente no qual possa exercer de forma criativa sua autonomia, em colaboração com colegas, professores e especialista dos assuntos em questão.
O autor Christian Dalsgaard, no seu artigo Social Software: E-Learning Beyound Learning Management Systems, advoga o uso separado das ferramentas pessoais e das redes sociais, em outros espaços, fora dos LMS. A ecologia de aprendizado proposta é baseada nas estratégias pedagógicas abaixo:



· UM ESPAÇO PRÓPRIO SOMENTE PARA OS ASPECTOS ADMINISTRATIVOS (Sistemas de Gerência de Aprendizado), com suas estruturas mais formais, onde o professor pode disponibilizar seus materiais, as tarefas a serem desenvolvidas pelos alunos e efetuar o acompanhamento e avaliação das mesmas

· UTILIZAÇÃO DE FERRAMENTAS (INDIVIDUAIS E COLETIVAS) PARA A CONSTRUÇÃO, APRESENTAÇÃO DE MÍDIAS, REFLEXÃO E COLABORAÇÃO COM SEUS PARES, acessadas em diversos espaços específicos da internet ( servidores online)

· FACILITAÇÃO NAS REDES SOCIAIS, VISANDO A CONEXÃO ENTRE ALUNOS NUM MESMO CONTEXTO DE APRENDIZADO, PARA TRABALHO COLABORATIVO DE RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS, em espaços abertos e não hierárquicos, criados e vivenciados pelos próprios alunos


Fonte: http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=13309#cPost

23 de fev. de 2009

A História vai ao Cinema

Filmes nacionais entram na sala de aula

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“Minha geração é ‘cinemeira, como dizia minha avó; como Lênin, acho que o cinema foi a arte do século XX, e os filmes agora não são mais vistos no delicioso escurinho do cinema mas também na televisão ou no vídeo. Os intelectuais, mesmo aqueles mais isolados em sua torre de marfim, apreciam cinema. ‘Papos-cabeça, tentando entender e/ou mudar o mundo ou o país (ou mesmo a nós mesmos, o que é tão difícil quanto o resto), se deram muitas vezes a partir de discussões sobre filmes que nos toca(va)m mais profundamente.”

Na “orelha” do livro “A História vai ao Cinema”, a professora doutora Vavy Pacheco Borges, da Universidade de Campinas (Unicamp) já dá uma clara demonstração da importância e da presença do cinema no imaginário coletivo mundial a partir de seu surgimento e consolidação no século XX. Somos todos, de certa forma, “cinemeiros”. Mesmo quando não vamos com a desejada freqüência ao cinema, assistindo filmes a partir da programação da televisão ou vídeo e DVD, consolidamos a presença e a influência da sétima arte sobre a contemporaneidade.

E não há, entre nós, atualmente, pessoa que possa se dizer imune a essa presença tão marcante dos filmes. É certo, em qualquer ambiente que freqüentemos, encontrar pessoas comentando alguma produção recentemente assistida. Sugestões, críticas, dúvidas, artigos lidos, seqüências destacadas, a interpretação dos atores, a criatividade dos diretores e técnicos, os efeitos especiais, a música, tudo isso e muito mais é objeto de comentários por parte de cinéfilos mais fanáticos ou mesmo de cidadãos comuns, influenciados pelo filme apresentado na noite anterior em algum canal aberto.

O mais interessante é perceber que a riqueza e a variedade de informações dos filmes transparece a cada novo comentário incorporado a discussão. Por mais que tenhamos visto um filme diversas vezes, o mais atentamente possível, sempre aparece alguém com uma idéia, imagem ou dado que passou despercebido a nossos olhos.

Imagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-Joaquina

A história do Brasil, nossa cultura, nossos hábitos e costumes, a política ou a economia podem ser percebidas em produções concebidas por nossos melhores cineastas, atores, produtores e técnicos. Acima vemos os cartazes de três filmes de sucesso de diferentes décadas: “Bye-bye Brasil” (1979), “A Marvada Carne” (1985) e “Carlota Joaquina” (1995).

Outro aspecto deveras marcante dessa relação entre os filmes e as pessoas é a forma como muitas vezes estabelecemos uma relação de amor e ódio com alguns títulos. Sempre temos em nossa mente uma lista de filmes que sugerimos a nossos amigos ou colegas de trabalho. Do mesmo modo, estamos dispostos a aconselhar que não assistam determinados títulos, previamente vistos por nós e que condenamos por uma grande variedade de fatores. Essas análises são tão subjetivas que na maior parte das vezes em que condenamos ou recomendamos uma determinada produção invariavelmente aparece alguém a nos contradizer.

Uma das mais conturbadas relações estabelecidas nesse convívio entre homens e filmes é aquela que se verifica num país tropical, de grandes dimensões territoriais, abençoado por Deus e bonito por natureza. E não me refiro, nesse caso, ao intercâmbio estabelecido com o cinema internacional. A questão é de infinitos amores e ódios dentro das próprias fronteiras tupiniquins, entre público e realizadores do cinema nacional. E não é recente, se arrasta a muitos e muitos anos, praticamente desde o estabelecimento de nossa produção cinematográfica.

Nesse ínterim um dos grandes méritos do trabalho organizado por Mariza de Carvalho Soares e Jorge Ferreira, “A História vai ao Cinema”, consiste em dar ao cinema nacional o destaque que merece. Por esse motivo, os organizadores desse livro valioso reuniram um destacado e prestigiado grupo de historiadores das mais variadas instituições acadêmicas para analisar alguns dos melhores e mais polêmicos filmes produzidos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990.

O fato de contar com o apoio de intelectuais prestigiados, provenientes de seleto grupo de universidades dos quatro cantos do país (UFBA, UFPR, UFF, UFRJ, UFCE, USP, UNICAMP, UFMG, UFPE, UnB, UFRGS) só dá ao livro mais charme, credibilidade e diversidade. São diferentes vozes se articulando a respeito de filmes tão dispares quanto Central do Brasil, Gaijin, Pixote, Guerra de Canudos, Eles não usam black-tie, Lúcio Flávio,...

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A repressão da ditadura militar ou a luta dos trabalhadores por seus direitos são temas presentes em filmes de grande sucesso como “Pra Frente Brasil” (1983) e “Eles não usam black-tie” (1981).

Através de suas análises percebemos o quanto o cinema nacional consegue ser atuante, questionador, perturbador, polêmico e culturalmente relevante. Nossos filmes abordam temas como política, violência, nazismo, cotidiano, amor, solidariedade, diversidade, greves e muitos outros assuntos. Utiliza o escurinho do cinema para divulgar causas, consolidar formas de pensar ou questionar posicionamentos. Através de nossos filmes ficamos sabendo que os brasileiros foram, são e continuaram sendo atuantes, participativos e preocupados com o futuro de seu país.

O foco principal dado à história pode, a princípio, esconder a riqueza do trabalho, capaz de atender a um público muito maior que aquele localizado entre os estudiosos da história. Há uma ampla gama de pessoas que poderia ler o livro e tirar proveito do mesmo. Desde estudiosos de cinema, passando por leigos interessados no tema, estudantes em busca de uma maior compreensão do Brasil, professores das mais diversas áreas interessados em diversificar e enriquecer seu trabalho a, até mesmo, políticos, dirigentes sindicais, ONGs ou lideranças comunitárias que pretendam aprender um pouco mais sobre a brasilidade.

Sílvio Tendler, no prefácio, destaca que “a história do século XX será contada com recursos audiovisuais e a partir da produção audiovisual do século XX”, o que reafirma a importância de trabalhos como “A História vai ao Cinema”.

Vivemos imersos numa sociedade onde a imagem é valiosíssima como recurso fomentador de conhecimento e aprendizagem. Não podemos dispor dessa ferramenta tão rica que é o cinema. Uma das colocações iniciais de minha dissertação de mestrado acerca desse poderoso instrumento ponderava que quando vemos um filme temos que nos sintonizar nos mais variados elementos (atores, diálogos, cenografia, sons, música, iluminação, locações, figurinos, fotografia) para podermos entender o que está sendo passado para nós.

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Veja o filme, leia o livro. Alguns de nossos melhores filmes surgiram de obras de consagrados escritores ou deram origem a livros muito ricos e interessantes a respeito do tema ou da própria produção cinematográfica.

Realizamos múltiplas leituras quando vemos um filme. Ao utilizarmos o cinema como recurso didático em nossas aulas estamos colocando diante de nossos alunos produções que exigiram o trabalho de um grande número de profissionais; pensadas por diretores e roteiristas de forma exaustiva; surgidas do investimento de grandes somas de dinheiro; fruídas após longos períodos de trabalho (de pesquisa, captação de recursos, pré-produção, produção, marketing, edição e distribuição). Não dá para desperdiçar todo esse esforço simplesmente assistindo aos filmes e esquecendo-os.

E o melhor de tudo é perceber como, ao utilizarmos os filmes em nossas aulas, a resposta por parte de nossos estudantes é positiva, enriquecida. O cinema, aliado aos livros, a Internet, a artigos científicos, a revistas e jornais, a pesquisa de campo e a outros recursos e metodologias de trabalho em educação dá ao professor e a seus alunos uma maior capacidade de argumentação, análise, comparação, síntese e posicionamento perante a vida.

Tenho um bom histórico de práticas relacionadas à utilização de filmes em sala de aula. Sinto que há ainda uma certa resistência por parte de um grande número de professores a utilização regular do cinema na escola. A publicação de um número cada vez maior de livros, artigos e páginas da internet dedicadas ao tema auxilia e muito a conscientização quanto as possibilidades da utilização dos filmes no ambiente educacional. Ressalto, entretanto, que para bons resultados nessa prática é necessário muito planejamento. Temos tentado orientar os professores nesse sentido a partir de nossos artigos da coluna Cinema e Educação.

Leiam mais livros como “A História vai ao Cinema”, assistam novos filmes, conversem com outros educadores sobre a aplicação desse recurso em suas aulas, valorizem a produção nacional (cada vez mais rica, cheia de novas idéias e valorizada internacionalmente) e criem projetos que venham a realizar em suas aulas mesclando o cinema a outros recursos. Seus alunos agradecem. A educação também!

Obs.: Traduzindo as siglas das universidades citadas – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Ceará (UFCE), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=335

22 de fev. de 2009

Aprendizado ao Longo da Vida, Aberto e Voltado para Competências

Antonio Mendes Ribeiro

As características atuais do conhecimento, como ele é trabalhado (a sociedade do conhecimento) aliadas a outras tendências como a globalização, a evolução das tecnologias da informação, a explosão demográfica, a individualização em coletivos conectados, colocam desafios nunca antes vivenciados em termos educacionais. Os conhecimentos em redes e as competências são cada vez mais essenciais para a evolução do nosso mundo. Em vários países e em especial na comunidade européia ocorrem grandes discussões e têm sido feitos investimentos significativos na chamada Aprendizagem ao Longo da Vida, que é vista como um componente básico de seu modelo social. Existe uma grande dificuldade de sua implantação, principalmente considerando a necessidade de integração da educação formal inicial, da educação de adultos e da formação no trabalho, num único enquadramento político, relacionado com objetivos comuns, não só educacionais, mas também econômicos e sociais.


Aprendizagem ao Longo da Vida

Toda a atividade de aprendizagem em qualquer momento da vida, com o objetivo de melhorar os conhecimentos, as aptidões e competências, sejam formais, não formais ou informais, no quadro de uma perspectiva pessoal, cívica, social e/ou relacionada com o emprego

Uma pessoa em qualquer tipo de situação na sua vida, uma ocupação, um hobby, um esporte, necessita de um número diferente de competências. Muitas pessoas depois de um período longo da vida precisam até readquirir e aprimorar competências básicas, como se alimentar correta e saudavelmente, como se sentar adequadamente. Um conjunto de capacidades diferentes e necessárias, num contexto da realidade de uma pessoa, é chamado de perfil de competências. Durante a nossa vida desenvolvemos e mantemos diferentes perfis de competência, em vários níveis de proficiência, para cada uma das situações enfrentadas.



Competência

A capacidade e o potencial de uma pessoa, grupo ou organização para agir de forma efetiva de forma que permita que esteja disposta para enfrentar e dê conta de certos problemas, eventos ou tarefas numa situação do seu dia a dia

Classes de Competência

Cognitiva (conhecimento)
Funcional (habilidades)
Atitudes (ética, visão crítica, ..)
Pessoal (inteligências múltiplas, abertura,autonomia,..)

A competência é por natureza contextualizada (situada), corresponde a um relacionamento entre um indivíduo, uma equipe, ou uma organização e os eventos e práticas no seu ambiente. Outra característica é que ela não é mensurável. O que se consegue ver são as atividades que uma pessoa é capaz ou não de realizar e os artefatos desenvolvidos a partir das mesmas. A sua definição deve ser determinada pelos envolvidos regularmente com o exercício dessa competência, isto é, por uma comunidade de prática, virtual ou não. Qual é o perfil de competência de um mediador de comunidades virtuais? Por mais que existam especialistas e professores no assunto capazes de defini-lo, esse perfil deve ser validado e consolidado pelos próprios mediadores, pela experiência nessa prática. Não existem perfis globais das profissões, cada situação, cada país, cada região, tem características próprias, mesmo que sejam usados os mesmos instrumentos ou realizadas os mesmos tipos de tarefas.

Uma das competência que precisamos assumir no mundo de hoje é a própria admistração de competências. Elas precisam ser administradas em vários níveis, desde um jovem, tentando progredir na vida, até órgãos de representação profissional, tentando manter a qualidade dos serviços profissionais de seus filiados. Essa é uma tarefa complexa, normalmente as metodologias e ferramentas disponíveis para essa tarefa não estão na mão das pessoas diretamente interessadas, mas de instituições voltadas para exames de certificação, organizações profissionais ou educacionais, empresas que dominam tecnologias específicas, departamentos de RH de empresas, agências de emprego. Isso faz que para uma pessoa seja muito difícil ou mesmo impossível administrar o seu próprio processo de desenvolvimento de competências. O projeto TenCompetence da Comunidade Européia tenta reverter a situação atual, criando recursos de informação para o desenvolvimento de competências (perfis, caminhos, atividades) e ferramentas adequadas que coloquem na mão das pessoas a possibilidade de administrar o desenvolvimento de seu próprio perfil de competência.

Processo pessoal de Administração de Competências

Achar um local que defina o perfil de competência na área de atuação desejada

Mapear o seu perfil atual no perfil de competência identificado e desejado

Identificar as oportunidades de desenvolvimento de sua competência existentes na sociedade

Selecionar e realizar o conjunto necessário de programas de desenvolvimento

Apresentar para a sociedade, professores e empregadores o seu perfil de competência alcançado

A educação formal existente atualmente no nosso mundo, não somente no nosso país, está muito distante e insensível à necessidade de criar competências voltadas para a aplicação dos conhecimentos por ela transmitidos em situações de prática, que tragam benefícios para o sistema produtivo e a empregabilidade. A competência deve se tornar o foco para o desenvolvimento de currículos e processos de capacitação, principalmente em áreas técnicas e ciências exatas. Na medida em que o nosso mundo se caracteriza pela abertura, flexibilidade, mudanças constantes e necessidade de respostas rápidas, essa tendência se amplia para as áreas humanas e sociais, e para o próprio ensino superior. Os perfis de competência podem auxiliar os professores nos seus cursos, serão uma fonte de reflexão e direcionamento para os alunos, além de facilitar a interação entre instituições educacionais e o mercado de trabalho no processo de aprendizado ao longo da vida.



A realidade do mundo de hoje tem feito que as pessoas desejem e necessitem estudar em qualquer lugar, no tempo e no ritmo de sua escolha, de acordo com suas necessidades e competências. As pessoas estão cada vez mais envolvidas com as tecnologias da informação e sem tempo para se afastar de suas atividades do dia a dia do trabalho. A palavra de ordem é flexibilidade, cursos pré-planejados, com conteúdos programáticos rígidos têm cada vez menos sucesso.Os alunos desejam que as suas competências existentes sejam consideradas e que os cursos se adaptem às mesmas. Para isso devemos ter um processo de aprendizado aberto, ao longo da vida e voltado para competências, onde é oferecido uma versão de curso (caminho) diferente para cada aluno, centrada no desenvolvimento do perfil de competência do mesmo, e disponível sob sua demanda, de acordo com suas necessidades imediatas no trabalho ou no estudo. Por outro lado esse ambiente de aprendizado exige um aluno com suficiente autonomia, com potencial de auto-direção, de se envolver ao mesmo tempo em atividades formais e informais. Essas atividade de aprendizado devem ocorrer em diferentes domínios do conhecimento humano, em ambientes populados por participantes com diferentes níveis de competência, sejam iniciantes ou especialistas de alto nível, com focos diferentes, sejam voltados para a prática , para pesquisas acadêmicas ou para o desenvolvimento de produtos para o mercado.



A utilização das últimas tecnologias da informação permitem a criação de espaços mais adequados para esse novo tipo de ecologia do conhecimento e aprendizado. Ambientes de colaboração (redes sociais, blogs, wikis), ambientes de comunicação interativa (chamadas de áudio e vídeos, mensageiros), ferramentas pessoais (editores multimídia, de escritório) tem características adequadas às demandas do aprendizado aberto ao longo da vida e voltado para competências. A nossa sociedade caminha de forma acelerada para esses ambientes, as crianças hoje já nascem vivenciando-os no seu dia a dia, o que é uma das justificativas para o seu perfil de maior autonomia, na medida que facilita a comunicação com seus amigos e a publicação de seus próprios conteúdos. Não se trata somente de um processo de apropriação de tecnologias. São desafios para todos nós, ambientes onde se podem viabilizar mudanças educacionais e profissionais, baseadas em abertura, autonomia, conexão, contextualização e diversidade.

Fonte: http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=14571

21 de fev. de 2009

Projeto Cinema no Caldeirão - 21/02

Olá Amigos

O filme de hoje no projeto Cinema no Caldeirão é o filme " O Enigma de Kaspar Hauser ". O filme foi uma indicação do Professor Ancarlos Araujo editor do blog Profº Ancarlos Araujo, o qual eu recomendo a visita. O filme é lindo, é tocante e real, Kaspar Hauser é uma personagem cativante, com toda sua pureza e ingenuidade.

Cada um por si e Deus contra todos" é o título original que o diretor Werner Herzog tirou de "Macunaíma", de Mario de Andrade, e fala mais sobre o filme do que o neutro título nacional, "O Enigma de Kaspar Hauser".

Herzog, um dos grandes nomes do cinema alemão, usou a história real de Kaspar Hauser, infeliz rapaz afastado da sociedade (supõe-se que tivesse origem nobre e que havia sido escondido por problemas de sucessão ou bastardia) e que tenta desajeitadamente compreende-la, para refletir sobre a incerteza de tudo diante dos golpes do destino e sobre a artificialidade do que chamamos de normalidade.


Hauser enfrenta com perplexidade as convenções sociais, os dogmas religiosos, as certezas científicas, vendo tudo com olhos virgens e puros e, portanto, desabituados a enxergar como normal o que assim foi estabelecido. Daí surgem momentos geniais, como seu embate com o professor de lógica, com os clérigos, a discussão sobre a vida das maçãs, o circo de aberrações.

Herzog, que gosta de personagens que não se sentem à vontade no mundo e procuram mudá-lo, conduz o filme no limite entre o cômico e o trágico, muito ajudado pela peculiar interpretação de Bruno S., que não era ator profissional. Ele passou toda sua juventude em instituições para doentes mentais e foi visto por Herzog em um documentário. Fez apenas mais um filme, "Stroszek", novamente com o diretor (que tinha um infinito trabalho para fazê-lo interpretar), e um curta-metragem obscuro.

Talvez por isso seu Kaspar Hauser é tão digno e seguro, um ser humano puro e sonhador. Sua atuação marcante, o clima onírico e atemporal criado por Herzog e as idéias que o filme discute tornam-no uma pequena obra-prima, imperdível. Ganhou o prêmio especial do júri em Cannes.

O pianista cego é interpretado por Florian Fricke, líder do grupo Popol Vuh, habitual colaborador de Herzog.Em seu leito de morte, Kaspar diz que quer contar uma história que ele inventou, mas que ele só sabe o começo, não sabe como termina. Ele então conta a história, que resumo agora. “Uma caravana atravessa um deserto em direção a uma cidade, mas se depara com várias montanhas. O líder da caravana, um cego, pega um pouco de areia e come. Ele diz então aos outros que aquelas montanhas são uma ilusão, que elas não estão ali. Eles continuam o caminho, e chegam à cidade.” Kaspar, então, finaliza dizendo (com outras palavras): “eu não sei o final da história, só sei até quando eles chegam na cidade. O que acontece na cidade, eu não sei.” O enigma de Kaspar Hauser, mesmo depois de sua morte, continua, mas o que acontece depois que ele morre não interessa. A história não acaba, mas não precisa continuar a ser contada.

Mas para mim, que me senti um pouco Kaspar, o que mais chama atenção é o fato de quererem te enquadrar, classificar e rotular a todo momento e o pior: muitas vezes somos nós quem buscamos este enquadramento.

Queremos ser incluídos na sociedade, ser aceitos em grupos, ser rotulados como cool ou hype ou cult ou in, bi, hetero, homo, de direita, de esquerda, ultra-esquerda, super-ultra-mega-master-super-esquerda, agnóstico, crente, ateu, atoa, marxista, trotiskista, reformista, feminista quando no fundo, de verdade mesmo, somos todos pseudos...

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

O Enigma de Kaspar Hauser

'O Enigma de Kaspar Hauser'
“Vocês não conseguem ouvir esses gritos amedrontadores que habitualmente chamam de silêncio?"

Qual é a verdadeira essência da natureza humana? Este questionamento vem intrigando os estudiosos das ciências humanas e inicialmente a Filosofia, desde os tempos mais remotos. Fazendo uma menção que tomo de empréstimo da Sociologia, esta assevera que o homem somente se constitui como tal quando interage com o meio social, ou seja, a sociedade é determinante na formação do indivíduo, dando-lhe os referenciais necessários para uma vida completa.

E se o ser humano é desprovido da convivência social? Como se constituirá a sua vida? Mesmo vivendo isolado do contato com outras pessoas, seria possível o desenvolvimento das potencialidades e habilidades ditas humanas? Partindo destes e de outros questionamentos que vão surgindo ao longo das pretensas respostas é que colocamos como fruto de análise do caso real de Kaspar Hauser. Um menino que apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg (Alemanha), em 26 de maio de 1828.

O fato da população de uma cidade ter encontrado um jovem abandonado já é motivo de espanto, uma vez que ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Mas, alguns sinais iam revelando aos poucos quem era aquele estranho. O menino trazia uma um pequeno livro de orações, entre outros itens que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Mas, numa carta de apresentação anônima para o capitão da cavalaria local causou perplexidade o detalhe de que ele fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um cavaleiro como fora seu pai.

Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O caso foi mostrado no filme de Werner Herzog, "Jeder für sich und Gott gegen alle" (em língua portuguesa, “Cada um por si e Deus contra todos”), de 1974, lançado no Brasil com o título "O Enigma de Kaspar Hauser". O filme mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.

Acolhido na casa de um professor que se ocupou de iniciar sua socialização, que não foi tão fácil, pois o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: "quero ser cavaleiro" e não sabia andar direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um "garoto selvagem," apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas do filme, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.

Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa. Kaspar Hauser tornou-se uma espécie de atração por sua história de vida diferente. Todas as pessoas da cidade queriam vê-lo. O filme de Herzog mostra, em uma das cenas, K. Hauser junto com outros indivíduos, tidos como anormais (um anão, um índio e uma criança autista), em exposição num circo.

Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. "Como pode ser isto?" pergunta. Kaspar Hauser se sente confuso, pois não tem a mínima noção de que a distância de onde observava criara uma perspectiva que fazia com que a torre parecesse menor do que realmente era.

Quando seu tutor aproxima-se com ele da torre, vem a observação: "Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!”.

A paisagem em que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia verbalizar o conteúdo pensado.

Tudo parecia ser complexo para Kaspar Hauser, mas, como ele poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendesse a representatividade dos signos? Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não da forma como esperavam que ele compreendesse. A socialização e o processo de conhecimento da realidade é regulado por uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem. Como Kaspar Hauser foi desprovido de tais práticas ele não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca.

Percebemos ao longo do filme que Hauser enfrenta com perplexidade as convenções sociais, os dogmas religiosos, as certezas científicas, vendo tudo com olhos virgens e puros e, portanto, desabituados a enxergar como normal o que assim foi estabelecido. O filme reflete sobre a influência da linguagem e do histórico cultural na percepção da realidade. Isto é, as coisas que aprendemos (gramática, lógica matemática, religião, conhecimentos históricos, comportamentos culturais etc.) afetam a nossa capacidade de compreender os fenômenos que nos circundam.

Isto acontece pois, ao associarmos uma idéia a uma palavra ou a uma imagem, estamos limitando o significado da idéia em função de uma definição restrita. As idéias passam a expressar só o que as palavras e imagens conseguem expressar, e não sua abrangência original (antes de serem aprisionadas por palavras e imagens). É como se as idéias fossem coloridas, mas nós só conseguíssemos expressá-las em preto e branco, sacrificando sua integridade original.

Diante de tantas tentativas de entender “O enigma de Kaspar Hauser”, seja como for, ele é incompreendido pela sociedade, que enxerga nele uma anormalidade, tentando até procurar em seu cérebro (após sua morte) uma resposta neurológica para sua condição.
Hauser foi assassinado com uma facada no peito, em dezembro de 1833, nos jardins do palácio de Ansbach. As circunstâncias e motivações ou autoria do crime jamais foram esclarecidas, apesar da recompensa de 10.000 Gulden (c. 180.000,00 Euros) oferecida pelo rei Luís I da Baviera.


O FILME

Em 1828, em Nuremberg, o misterioso jovem Kaspar Hauser é deixado em uma praça após passar toda a vida trancado em uma torre. Aos poucos, ele tenta se integrar à sociedade e entender sua complexidade.

Para a ciência, vale a premissa de que nada seria a prática se não fosse a observação. Tudo nasce de uma observação, inclusive a capacidade humana de andar. E baseado na história de Kaspar Hauser, ocorrida na Alemanha do século XIX, que o filme “O Enigma de Kaspar Hauser” serviu de contribuição para tornar essa premissa verdadeira.

Baseado em fatos, o filme “o enigma de Kaspar Hauser” conta a história de um rapaz, Kaspar Hauser, que passou grande parte da sua vida enclausurado num quarto escuro, desprovido de contato com o mundo que acontecia do lado de fora.

Depois de muito tempo, quando Kaspar já estava com quinze anos, fora abandonado na praça Unschlittplatz, em Nuremberg, portando um livro de orações, uma carta endereçada ao capitão da cidade, explicando a sua história, e alguns objetos que o caracterizou oriundo da nobreza.
Segundo a carta que fora encontrada junto a Kaspar Hauser, o rapaz desde que era um bebê estivera mantido em um quarto, basicamente a pão e água, sem nenhum contato com a sociedade. Kaspar não falava e não andava.

A vida de kaspar mudou a partir do momento que fora encontrado. Aprendeu a falar (fato que o propiciou a contar o que havia acontecido com ele no período de clausura), a andar e a se comportar diante da sociedade. Devido aos anos de solidão vividos, Kaspar não fora acostumado a comer carne e a beber álcool, tais hábitos o acompanharam por toda a sua vida.

Em 1833, nos jardins do palácio de Ansbach, Kaspar Hauser fora assassinado com uma facada no peito. O rei vigente da época havia oferecido uma considerável recompensa para quem se acusasse ou denunciasse o autor do crime, porém, este se tornou um mistério até os dias de hoje.
Depois da morte de Kaspar Hauser, seu corpo e seu comportamento serviu como objeto de estudo, onde descobriram que seu cerebelo, que é responsável pela coordenação motora do corpo humano, era a parte mais desenvolvida do seu cérebro, depois vinha o lado direito do cérebro como mais desenvolvido, o que lhe deu habilidade para a música.

E, de acordo com o comportamento de Kaspar, chegou-se a conclusão que o ser humano para saber andar e falar, precisa do contato com outro ser humano, aprendendo, assim, uma língua e os movimentos motores. Pois somente copiando outras pessoas, que o homem, na sua primeira infância, aprende o básico para portar-se numa sociedade, que é o andar e o falar, o que será moldado no decorrer da sua vida.



PARA REFLETIR:

O filme pode ser utilizado nas aulas de Filosofia ou Sociologia no que se refere aos seguintes temas:

* O que é o homem?
* Qual é a natureza humana?
* Qual é a relação do homem com a sociedade?

1 - Inicialmente comece debatendo com os alunos a hipótese de como seria o ser humano se ele fosse criado isolado da sociedade. Isso é possível? Quais seriam as suas características? Peça-os que escrevam textos sobre as mais variadas possibilidades;

2 - Solicite aos alunos que leiam para a sala as suas histórias e confronte-as em busca de uma idéia comum;

3 - Apresente o filme aos alunos, pedindo-lhes que fiquem atentos as cenas que mostram o processo de apreensão dos conceitos por parte do personagem central e a forma como ele interpreta o mundo;

4 - Após o filme, reacenda a discussão acerca da importância da linguagem, das palavras e dos signos lingüísticos para a criação do pensamento que posteriormente vai formando o ser humano. Proponha uma pesquisa sobre outros casos que tiveram características semelhantes ao de Kaspar Hauser e socialize estes casos com os alunos em momento posterior, pedindo-lhes que opinem acerca dos fatos.

Fonte:
Maria Clara Lopes Saboya. O Enigma de Kaspar Hauser (1812?-1833): Uma Abordagem Psicossocial. Psicol. USP. vol.12 no.2 São Paulo 2001
Gabriel Borba: /writers/gabriel-borba/

FICHA TECNICA

Título original: Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle (Alemanha, 1974)
Diretor: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Michael Kroecher, Hans Musaeus, Willy Semmelrogge, Florian Fricke
Extras: Biografia de Herzog e trailer
Idioma: Alemão
Legendas: Português
Gênero: Drama
Duração: 109 min. Cor
Distribuidora: Versátil



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