Em 1960 o Brasil tinha, aproximadamente, 14 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar. Deste total, apenas 50% conseguia ter acesso à educação... A publicidade oficial da época, ciente do fato, criou propaganda através da qual falava da necessidade deste contingente de excluídos da escola chegar às salas de aula e como isto melhoraria a vida do país... Acreditava-se piamente que o caminho mais certo para o desenvolvimento político, social e econômico passava pelas vias escolares...
"Pro Dia Nascer Feliz", documentário de João Jardim, produzido entre os anos de 2005 e 2006, procura dar uma visão do que ocorreu mais de 40 anos depois, quando os dados oficiais nos dizem que 97% das crianças e adolescentes em idade escolar estão tendo a oportunidade de estudar. Para tanto, o diretor e sua equipe de produção se propuseram a acompanhar a realidade de seis unidades educacionais, localizadas em diferentes estados brasileiros, todas equiparadas apenas pelo fato de serem escolas públicas.
Este "retrato" da educação brasileira, com apenas três anos, constitui documento de valor inestimável para entendermos um pouco da realidade das escolas do país, de suas carências materiais às dificuldades de trabalho dos professores, da impossibilidade de chegar às escolas por falta de transporte à arcaica e ideologizada metodologia de ensino.
Ao assistirmos ao filme, o que salta aos olhos é, a princípio, a carência material e infraestrutura precária das escolas (exceto no caso da escola de São Paulo). Em quase 2 mil unidades educacionais do país (num universo de 210 mil escolas), conforme dados do MEC/INEP (2004), não há água encanada. Se não bastasse este dado alarmante, há ainda 13,7 mil escolas em que não há banheiros... Paredes sujas, carteiras jogadas no pátio ou nos cantos e ausência de qualquer tipo de instalação de apoio, suporte ou incentivo ao estudo - como quadras, laboratórios e salas de computação, além de grades por todos os lados dão uma ideia do descalabro da educação.
O que era para ser um ambiente acolhedor, motivador, que criasse uma experiência instigante, interessante e desafiadora para os alunos em seu processo de construção do conhecimento torna-se, então, um espaço que, ao contrário, rechaça, dificulta e acaba, na realidade, promovendo a evasão, o desinteresse, a vontade de não estudar...
Há também o descompromisso dos pais e da comunidade... As escolas não lhes apetecem, não são vistas por eles como parte primordial do núcleo onde residem... Os filhos devem frequentá-la, pois há um compromisso social assumido e, ainda, persiste a ideia de que isto pode lhes ser útil no futuro. A ilusão de que tudo mudará a partir da educação não existe mais, pelo menos não da forma como foi trabalhada há 40 anos pelos governos da época.
Como a comunidade está ausente, abre-se espaço para que outras forças se façam presente. É o que se vê no Rio de Janeiro (e em regiões periféricas de cidades de médio e grande porte), onde quem dá as cartas é, muitas vezes, o traficante local. A força destes marginais oprime os professores e dá demonstrações aos adolescentes e jovens de que o estudo, por si só, não lhes garante nada, enquanto a venda de drogas e a manipulação de armas de fogo podem lhes conferir poder, dinheiro, respeito, temor por parte de seus pares...
O documentário igualmente prima por nos colocar em contato com a fala dos alunos e dos professores. Dos estudantes percebemos a violência e a rudeza que surgem da necessidade de sobreviver em ambiente no qual não há espaço para a candura, a inocência ou a bondade e o respeito pelo próximo. Quanto mais urbana é a escola, maior é a competição feroz e o medo que acaba por se estabelecer - a exceção é a escola paulistana, na qual os pais de classe média, com melhor situação social, dão a seus filhos melhores condições e estímulo quanto ao estudo (o que é corroborado pelo mercado de trabalho competitivo e seletivo que encontrarão depois de formados).
A fala dos estudantes, quanto mais pobre e sem perspectivas é a escola, demonstra o quanto sua educação é fraca, desprovida de maiores elementos culturais, pautada apenas em bases primárias. Há exceções, é claro, como a garota que se encantou desde cedo com os livros de Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade... O que, de certo modo, demonstra o quanto a leitura faz diferença na vida de uma pessoa...
Quanto aos professores, nos rincões do país, faltam-lhes melhor formação e condições de trabalho. Seus salários são baixos, seus equipamentos de trabalho são escassos, sua motivação é igualmente rara e, se não fosse a necessidade de se manter, é possível que muitos viessem a desistir. Mas, como dizia Euclides da Cunha "o sertanejo é um forte", o que vale tanto para estes professores quanto para seus alunos.
Nas áreas urbanas, por sua vez, novamente excetuando a escola de classe média paulistana, o que se percebe muito forte é o descontentamento, a falta de perspectivas, as condições pouco apropriadas para o trabalho e a perda de engajamento e amor à profissão... Muitos professores faltam de forma abusiva (contabiliza-se, segundo dados da rede estadual paulista para o Ensino Médio, até 30 faltas por docente a cada ano), tantos outros daqueles que vão cumprem o básico (batem o cartão, literalmente) e há ainda, felizmente, os heróis da resistência que continuam a acreditar na educação e trabalham com afinco. Não deixaram de ser críticos, demonstram algum ceticismo, mas não bateram em retirada e tampouco esmoreceram...
De qualquer modo, "Pro Dia Nascer Feliz" deveria ser obra obrigatória nas escolas, comunidades e, também, pré-requisito para todos os políticos brasileiros que estão exercendo mandato ou que futuramente estarão... Quem sabe assim eles não criam vergonha na cara e realmente se mexam para que as escolas deste país não apenas tenham suas salas cheias de alunos, mas que também possam oferecer educação de qualidade!
Ficha Técnica Pro dia nascer feliz
País/Ano de produção: Brasil, 2006 Duração/Gênero: 88 min., Documentário Direção de João Jardim Roteirode João Jardim
João Luís de Almeida MachadoDoutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Toda mudança tecnológica é uma mudança de geração. Todo o poder e todas as conseqüências de uma nova tecnologia só se tornam visíveis depois que aqueles que cresceram com ela se tornam adultos e começam a empurrar seus pais antiquados para a periferia. À medida que as gerações mais velhas morrem, levam consigo o conhecimento do que foi perdido quando a nova tecnologia chegou, e fica só a impressão do que foi ganho. É dessa forma que o progresso disfarça suas pegadas, refazendo perpetuamente a ilusão de que o lugar onde estamos é aquele onde devíamos estar. [Nicholas Carr, em seu livro “A Grande Mudança – Reconectando o mundo, de Thomas Edison ao Google”, da Editora Landmark]
Faça uma viagem breve no tempo. Retorne para o mundo de 15 anos atrás. Se esforce para recordar o seu cotidiano. Lembre-se dos detalhes. Como era o início de seu dia. Hábitos de estudo e/ou trabalho. Alimentação. O que fazia nas horas de lazer. Como se relacionava com as pessoas. Quantos ambientes freqüentava regularmente. Como eram os utensílios e máquinas que usava então. Se praticava atividades esportivas...
Faça estas perguntas para pessoas da geração anterior a sua e peça a elas que retornem 20 ou 30 anos no tempo. Anote todas as respostas. Se possível, peça aos amigos e conhecidos que respondam questões semelhantes. Quanto às pessoas de outras gerações, faça o mesmo e se preocupe sempre em anotar as respostas.
As respostas obtidas vão fazê-lo dar alguns passos na direção da história recente da humanidade. Mais especificamente você estará recordando a vida cotidiana dos brasileiros e, para ser mais exato ainda, do contexto em que vive e mora.
Perceberá que, por exemplo, a alimentação mudou muito. Se antes as mães passavam mais tempo em casa e não estavam tão integradas ao mercado de trabalho, tornando-se fonte de renda complementar [ou principal] ao orçamento doméstico, hoje as mulheres estão cada vez mais emancipadas e, conseqüentemente, a praticidade tomou conta das cozinhas e da alimentação...
Nunca as pessoas se alimentaram tanto em restaurantes ou se utilizaram de alimentos pré-preparados como hoje em dia. As indústrias agradecem. A saúde lamenta. Os feirantes e produtores agrícolas também sentem as perdas... Mas quem há de lamentar, é a prosperidade batendo as nossas portas...
Até muito recentemente era comum que as pessoas se relacionassem literalmente “ao vivo e em cores”, ou seja, se encontrando para bater papo, namorar, se divertir, desabafar, aprender, coexistir... Hoje em dia há um fenômeno mundial chamado “cocooning” [que quer dizer encasulamento, numa tradução livre]. Este termo originário da língua inglesa refere-se às pessoas, na grande maioria dos casos adolescentes ou jovens entre 12 e 30 anos, que estabelecem relações com amigos e namorados apenas a distância.
Seu elo de comunicação são os moderníssimos celulares ou a Internet, através dos quais trocam mensagens, fotografias, filmes ou ainda se falam [pois é... os celulares também servem como telefone!] a distância. Muitos deles demonstram dificuldades para criar vínculos nas escolas, empregos ou mesmo nas famílias às quais pertencem... Aquele negócio de pegar na mão, sair para dançar, convidar para um café ou almoço, dar uns beijos e namorar pra valer está mesmo ficando fora da moda...
Outra coisa que se fazia antigamente e que está caindo em desuso é reunir a turma para jogar bola, andar de bicicleta ou praticar atividades esportivas em grupo. É melhor jogar futebol nas telinhas... Os lances são mais espetaculares... Ronaldinho Gaúcho teve que, outro dia, esclarecer que não é o jogador que faz “chover” no Playstation... Até para ele que é um dos maiores jogadores do mundo o que está acontecendo no mundo virtual está ficando fora de cogitação... Imagine então para os reles mortais, pernas de pau de final de semana... Para que passar vergonha... A Techno Geração resolveu o problema ao simplesmente deixar de jogar no real e adotar o virtual como a sua praia, quadra, campo, estrada...
E o estudar... Mudou? Claro, antes o tempo da reflexão, pesquisa, elaboração de projetos e tarefas, produção textual e/ou leituras era outro, muito mais lento... Basicamente falando, era como se no passado tudo fosse feito a ritmo de tartaruga e, hoje em dia, turbinados pelas tecnologias, as novas gerações andassem como os velozes coelhos... Na fábula da lebre e da tartaruga, no final, quem era o vencedor mesmo?
Precisa saber o que é fotossíntese? Pesquise no Google e em alguns segundos terá respostas, desenhos, infográficos, dados... Equações matemáticas? Não tenha dúvidas, procure auxílio através da web, há professores online que podem auxiliar você... Quer maiores informações sobre os atentados as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001?... Os arquivos dos jornais da época estão todos digitalizados e são facilmente acessíveis... É só descobrir onde estão, copiar e colar... Cadê a reflexão? Onde está o rigor científico? Que tipo de formação é esta? Aonde chegarão estes garimpeiros da Web?
Mas, como nos diz Nicholas Carr, à medida que todas estas maravilhas se incorporam ao cotidiano e as gerações passadas que vivenciaram outras realidades se vão, suas lembranças, bases, parâmetros, recursos, relações e padrões vão sendo não apenas abandonados... caem no esquecimento... E se antes seu destino era “mofar” nas páginas de livros de história... hoje estão em algum canto da rede mundial de computadores... Abandonados à própria sorte... prestes a serem “deletados” como arquivos mortos, sem utilidade, desprovidos de valor...
O filme de hoje do Projeto Cinema no Caldeirão é o "Felicidade não se Compra" do fantástico diretor Frank Capra com James Stewart e Donna Reed (1 Globo de Ouro de 1946). Além de ser um dos grandes clássicos do cinema mundial e ser um filme constante em qualquer relação dos melhores filmes de todos os tempos o filme tem uma qualidade que está esquecida um pouco nesses tempos de crise mundial: Amor e esperança.
Atualmente há lições mais importantes a serem dadas em qualquer aula, escola ou momento que não aquelas que falem direto ao coração sobre solidariedade, fraternidade e humanidade. O corre corre do dia a dia em sala de aula faz com que esqueçamos um pouco disso. Precisamos resgatar esses valores que são esquecidos um pouco por causa das exigências que recaem sobre o profissional de educação.
Levar valores imprescindíveis para a formação de nossos estudantes e não somente conteúdos programados são sim atribuições do profissional de educação. Devemos ser mestres não apenas da matemática, da geografia ou do inglês, temos que aperfeiçoar também as qualidades humanas, dar mais valor e realce, sobretudo a capacidade de se doar, de ser fraterno, de ser sincero. Tudo em favor de um mundo mais justo e melhor, onde a felicidade seja mais que um sonho...
Como fazer isso? Segundo diz o João Almeida faça assim: "Incorpore a sua prática profissional o hábito de estimular leituras que relatem momentos e realizações solidárias, mesmo que isso signifique “sacrificar” alguns momentos por semana ou quinzena. Aproxime esses temas de suas aulas. Quantifique se for em exatas, compare com a história, forneça como temática para projetos, utilize como tema para redações ou leitura de clássicos. Essas ações serão lembradas para sempre por seus alunos e, se devidamente trabalhadas, irão se incorporar a suas vidas, a seu cotidiano."
Perfeito. Agora uma dica: o filme vai passar na SKY ou NET no Telecine Classic canal 65 no domingo dia 03 de maio as 7:50 da manhã, vale a pena acordar mais cedo para assistir. Imperdível
Poucas pessoas percebem, ao longo de suas vidas, qual é a maior de todas as riquezas que possuímos. O cinema também tem trabalhado muito pouco o tema, priorizando muito mais as desgraças e desventuras que a felicidade e as realizações. É por isso que “A Felicidade Não Se Compra”, filme de 1946, realizado por Frank Capra (um dos maiores cineastas de todos os tempos), se eternizou na memória de muitos apreciadores da sétima arte e também daqueles que de forma incessante buscam uma vida mais pródiga e feliz.
James Stewart e Donna Reed protagonizam uma história que muitos de nós gostaríamos de viver. Não, nem tudo são rosas. Há turbulências, desvios, erros e problemas como na vida de qualquer um de nós. O fundamental, porém, é que impera a humanidade nas relações entre as pessoas em detrimento de interesses pessoais mesquinhos. A ambição, que costuma envenenar ambientes familiares ou profissionais, dá espaço para relações mais fraternas e solidárias a partir da ação de pessoas comuns, como eu ou você.
E o mais impressionante para muitos é perceber que o verdadeiro “amor ao próximo” não precisa de embalagens vistosas para deslumbrar. Essa forma poderosa de ação pode ser efetivada a partir das ações que desempenhamos em nosso cotidiano. Adicionar um pouco de esperança e otimismo ao dia a dia de cada um de nós pode representar muito para as pessoas que se sentam ao lado na mesa do jantar ou no escritório em que trabalhamos.
Já ouvi muitas pessoas dizerem que reconhecem uma pessoa pelo semblante, pelas linhas que marcam seu rosto. Concordo com elas. Sou capaz de perceber quando meus filhos, esposa, amigos ou mesmo alunos e colegas de trabalho não estão vivendo um bom momento apenas pela expressão de seus rostos. Garanto que muitas pessoas que estão lendo esse artigo também podem fazer isso.
A alegria, a capacidade de superação, a fé e a valorização da vida e de tudo aquilo que somos e representamos para outras pessoas tem que ser a tônica de nossas vidas. Uma das mais poderosas lições do filme “A Felicidade Não Se Compra” reside justamente na idéia de nossa importância pessoal, ou seja, de como nossa existência pode afetar de modo positivo a vida de outras pessoas.
É claro que não somos anjos, nem mesmo de 2ª classe (quem assistir o filme entenderá essa colocação). Somos seres humanos, de carne e osso, fadados a errar (e com os erros também podemos e devemos aprender) e, do mesmo modo, destinados a acertar tantas outras vezes. O importante é que queiramos sempre fazer o melhor, dividir com as outras pessoas aquilo que podemos dar que represente nossos sentimentos mais puros e genuínos de humanidade, justamente a solidariedade, a compaixão, a fraternidade, a paz e o amor...
O Filme
Um sonho acompanha a trajetória do jovem George Bailey (James Stewart, um dos maiores ícones do cinema americano) desde seus anos de infância, viajar e conhecer o mundo para ajudar a melhorá-lo com grandes construções como pontes e edifícios. Sua vida, entretanto, marcada por inúmeros percalços não irá permitir que suas aspirações se concretizem. Desde cedo, quando ainda era menino, George consolida sua vida como a de uma pessoa que está por perto para ajudar ao próximo. Não de forma totalmente consciente do valor dessa participação fraterna e solidária. Desprovido de qualquer busca de valorização ou reconhecimento em função de suas ações, movido somente pelo bom coração que possui.
Por esse motivo, George é capaz de ajudar pessoas como seu primeiro patrão a não cometer um grave erro como farmacêutico manipulador de remédios ou ainda salvando a vida de seu irmão mais novo. Sua grandeza é realçada na defesa de pessoas pobres que com dificuldade tentam construir o grande sonho de suas humildes vidas, ter uma casa própria. Nesse sentido, apesar do desconforto dessa situação, George assume a firma de seu pai. É do pai, inclusive, que ele herda a noção de justiça e compaixão, abdicando dos lucros em favor de uma vida modesta desde que isso lhe garanta um sono dos mais tranqüilos.
Suas alegrias, apesar de alguns contratempos causados pela falta de dinheiro ou ainda pela deslealdade do homem mais rico da cidade, o senhor Potter (Lionel Barrymore), são ainda maiores a partir de seu casamento com a bela Mary (Donna Reed) e com o nascimento dos filhos. Nesse momento tudo parece caminhar para um final dos mais felizes. É quando o acaso resolve lhes pregar uma peça e faz com que o dinheiro que garantiria os saldos e o cumprimento dos contratos de sua firma simplesmente desaparece...
Acuado pelas dívidas e pela possibilidade de ser preso, George fica desesperado e pensa em tirar sua vida para resgatar um seguro de vida que poderia assegurar a sobrevivência de sua firma e o nome de sua família. O que fazer quando sua vida parece não ter valido a pena? E se eu não tivesse nem ao menos existido, tudo seria muito melhor, não seria? Será que a minha vida foi de alguma forma importante para alguém?
Partindo dessa premissa, a de que nossa existência é fundamental para o equilíbrio e para a felicidade de muitas outras vidas, que Frank Capra consolida um dos mais celebrados clássicos do cinema mundial. Imperdível!
Aos Professores
• Não há lições mais importantes a serem dadas em qualquer aula, escola ou momento que não aquelas que falem direto ao coração sobre solidariedade, fraternidade e humanidade. Temos nos esquecido disso. Os conteúdos têm exigido tanto de nós, professores, que deixamos de agitar bandeiras imprescindíveis para a formação de nossos estudantes. E não apenas como discursos vazios, desprovidos de significado, de sentido. Até mesmo pelo fato de que nossa existência perde completamente o sentido se nós mesmos não realizamos tais atitudes, se não incorporamos o sentido do auxílio, se não vivenciamos a humanidade que se espera de nós. Somos os mestres não apenas da matemática, da geografia ou do inglês, temos que aperfeiçoar também as qualidades humanas, dar mais valor e realce, sobretudo a capacidade de se doar, de ser fraterno, de ser sincero. Tudo em favor de um mundo mais justo e melhor, onde a felicidade seja mais que um sonho...
• Como fazer isso? Incorpore a sua prática profissional o hábito de estimular leituras que relatem momentos e realizações solidárias, mesmo que isso signifique “sacrificar” alguns momentos por semana ou quinzena. Aproxime esses temas de suas aulas. Quantifique se for em exatas, compare com a história, forneça como temática para projetos, utilize como tema para redações ou leitura de clássicos. Essas ações serão lembradas para sempre por seus alunos e, se devidamente trabalhadas, irão se incorporar a suas vidas, a seu cotidiano.
• Que tal trabalhar o mote principal do filme com seus alunos, ou seja, realizar uma atividade de reflexão em torno da questão central que é: como seria o mundo se você não estivesse por aqui? Para isso é necessário que os estudantes vejam o filme e depois discutam em sala as repercussões da existência pessoal sobre a instância coletiva. O que se pretende é que eles percebam que nossas atitudes e ações influenciam a vida de muitas e muitas pessoas. E que, a partir daí, revejam suas vidas para fazer com que de suas existências floresça a felicidade...
• O que acham de tentar criar um projeto solidário a partir da escola e consolidá-lo como uma prática regular na vida da cidade? Que tal estabelecer um projeto, de comum acordo com os outros professores e com a direção da escola, para que sejam feitas doações de alimentos, agasalhos, remédios ou mesmo de tempo e carinho para pessoas que realmente precisam muito disso?
Ficha Técnica
A Felicidade Não Se Compra (It`s a Wonderful Life)
País/Ano de produção: EUA, 1946 Duração/Gênero: 129 min., Drama Direção de Frank Capra Roteiro de Frank Capra, Albert Hackett e Frances Goodrich Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Fayden, Ward Bond, Gloria Grahame.
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Imaginem uma sala de aula convencional, como tantas que conhecemos, podendo ser tanto àquela em que você estudou quanto outra qualquer, independentemente do contexto em que aconteça, neste caso sendo possível pensar ainda naquela que foi utilizada na formação de seus pais e avós ou na de seus filhos. O que lhe vem à cabeça? Uma mesa de professor tendo às costas um quadro negro ou lousa? Fileiras de carteiras de alunos? O andamento da aula, com os alunos voltados para o professor, prestando atenção naquilo que é por ele ensinado? Atividades e tarefas sendo colocadas na lousa para que os alunos trabalhem individualmente e em silêncio?
Pois esta é a escola de ontem e que continua sendo aquela que está em uso nos dias de hoje na maioria das redes e escolas brasileiras e em várias partes do mundo. E, creiam, continuará ainda a ser a dura realidade pela qual terão que passar milhares, ou melhor, milhões de estudantes em seus processos formativos. Sua perspectiva continuará sendo retilínea (a olhar para a lousa e para a cabeça de seu companheiro instalado a sua frente), individualista, pautada naquilo que o professor (o detentor dos conhecimentos) estiver a ensinar e, em grande parte dos casos, reprodutivista de conteúdos.
Faltam então as inovações tecnológicas? Computadores e Internet seriam a resposta necessária e adequada a esta situação? Precisamos equipar as escolas com modernos “gadgets” (termo utilizado pelos especialistas em tecnologia para falar sobre os recursos eletrônicos incorporados regularmente ao cotidiano) como câmeras digitais, netbooks, redes wireless, scanners e tantos outros instrumentos de alta tecnologia para que surja a escola do futuro?
Ou será que carecemos de novos e revolucionários métodos de ensino que estimulem e realmente promovam o processo de ensino-aprendizagem gerando verdadeiro interesse e participação dos estudantes? Neste caso, seriam necessários também materiais didáticos inovadores e o preparo dos professores para seu uso, não é mesmo?
Talvez a resposta esteja na melhoria das relações entre professores e alunos... Quem sabe um aprofundamento em psicologia e relações humanas para os docentes acabe promovendo um intercâmbio e uma ponte bem constituída para a efetivação da educação nas salas de aula brasileiras.
Outra possibilidade pensada por muitos se refere à ideia de que para tudo modificar é preciso melhorar a qualidade do trabalho dos gestores das redes e escolas brasileiras. Se tivermos por parte destes profissionais maior foco e cobrança (tanto em relação a eles quanto deles sobre os professores e demais profissionais que atuam nas escolas), planejamentos e execução meticulosa de projetos educacionais, iremos obter melhores resultados em nossas salas de aula.
Há também aqueles que pensam ser indispensável inserir e estimular mais a participação das famílias na vida escolar de seus filhos. Os pais devem acompanhar mais de perto não apenas a questão das notas e do rendimento escolar nas disciplinas, mas conhecer os professores, participar também de eventos de outra natureza nas escolas, acompanhar as mudanças que estão sendo promovidas nas redes e na legislação...
Existem também pessoas que acreditam que a escola precisa estar mais atenta às mudanças da clientela que atende, ou seja, de seus alunos. Os estudantes do século XXI têm outro perfil, são mais ligados na informação, mas não sabem transformar todos os dados aos quais têm acesso em conhecimento, como lidar com isto? E outra, de que forma tornar as escolas palatáveis aos olhos desta geração tão plugada e íntima das tecnologias? Desprezar esta realidade significa, na visão destes especialistas, sacrificar qualquer tentativa de melhorar a qualidade da educação no país...
Outra corrente advoga a ideia da aproximação entre a educação e a cultura como sendo o meio através do qual seriam criadas condições para efetivar um aprendizado lúdico, diferenciado, interessante e verdadeiramente estimulante aos olhos dos estudantes e mesmo dos professores. Cinema na escola, teatro, artes plásticas, música, dança, literatura e todos os recursos da arte e da cultura disponíveis poderiam e deveriam ser colocados em pauta e transformados em meios e recursos para tornar nossas salas de aula locais em que a aprendizagem realmente acontece.
Não podemos nos esquecer dos esforços que já estão sendo realizados para “mensurar” a educação e permitir que, através de dados e informações coletadas possamos entender os dilemas de nosso sistema educacional e resolver seus problemas com a escolha dos melhores e mais adequados “remédios”. Há pessoas que acreditam que este esforço inicial de compreensão dos problemas educacionais a partir da mensuração de seus gargalos com exames nacionais, estaduais ou municipais das redes, escolas, professores e alunos já é mais de meio caminho andado rumo à solução das dificuldades da educação...
A formação e atualização dos conhecimentos e práticas educacionais utilizadas pelos educadores é outra forte vertente sempre colocada em pauta quando se discutem as soluções educacionais preconizadas para as escolas brasileiras. Discussões sobre salários melhores, reconhecimento do esforço individual e coletivo de redes e escolas, gratificações e bonificações constitui outra seara que sempre é colocada em pauta quando se fala em resolver os “nós” que estrangulam e impedem a educação de qualidade no país.
Investimentos em laboratórios de ciências, bibliotecas, quadras esportivas e projetos relacionados a esporte e ciência também estão sempre sendo colocados como alternativas importantes para a qualidade da educação. Até mesmo o ensino religioso e as disciplinas que trabalham a filosofia, a sociologia, as relações humanas, a ética, a moral e a cidadania são pensados como projetos importantes para a educação.
Mas, como podemos realmente efetivar transformações que modifiquem a visão inicialmente apresentada neste artigo e que evidencia uma triste e dura realidade vivida em nossas escolas – semanalmente apregoada pela imprensa através de artigos e mais artigos que demonstram as dificuldades de nossos estudantes até mesmo para as mais básicas ações educacionais, como ler, escrever e fazer cálculos matemáticos?
Quem tem razão neste emaranhado de soluções que estão sendo propostas e realizadas de forma isolada em escolas e redes brasileiras, por iniciativas individuais, governamentais ou privadas? Seria possível apontar um destes caminhos como sendo a chave que irá desencadear a imprescindível revolução pela qual nossa educação precisa passar para alcançar a tão sonhada qualidade?
Tive a preocupação de enumerar toda esta série de ideias que estão sendo discutidas e colocadas em prática em nosso país e também fora dele porque na realidade acredito que a escola de nossos sonhos só irá surgir a partir do momento em que conseguirmos concatenar e realizar todas as ações aqui listadas (além de outras tantas a serem sugeridas). Tenho consciência que isso só acontecerá após planejamento e intercâmbio de experiências, com o apoio decisivo de todos os setores da sociedade e vontade política para tal, com os devidos e calculados investimentos e, principalmente, num contexto de confiança, solidariedade e disposição real para que esta transformação realmente ocorra.
Creio, sinceramente, que a educação de qualidade é o elemento decisivo para completar a transição que o Brasil precisa rumo à justiça social, ao desenvolvimento econômico e a superação de suas mazelas e incongruências. Não é preciso enumerar as vantagens que decorreriam desta revolução, mas apenas como exercício complementar e de finalização deste texto, podemos destacar que a educação de qualidade poderia legar ao país, por exemplo: maior qualificação da mão de obra, preparação para o exercício pleno da cidadania, diminuição dos índices de violência, maior preocupação e ações em prol do meio ambiente, redução dos casos de doenças e gastos com saúde, combate sistemático a corrupção, aumento dos índices de produtividade, inserção mais rápida ao mundo tecnológico...
João Luís de Almeida MachadoEditor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Phillip K. Dick é, com certeza, um dos maiores nomes da ficção científica contemporânea.
Pouco conhecido de muitos, seus trabalhos se tornaram, no entanto, obras produzidas e dirigidas por diretores do calibre de Steven Spielberg, Paul Verhoeven e Ridley Scott. Os filmes derivados de seus contos e histórias geraram bilheterias fabulosas e, com certeza, deram origem a discussões acerca de assuntos complexos (e polêmicos) e da visão nebulosa do futuro, freqüentes na obra do escritor.
O texto "Do Androids Dream of Eletric Sheep?", por exemplo, deu origem a um dos filmes mais cultuados dos últimos 25 anos, "Blade Runner" do diretor Ridley Scott (o mesmo de "Os Duelistas", "1492 - A Conquista do Paraíso" e "Gladiador", entre outros grandes sucessos do cinema).
Motivos para que o filme viesse a ser cultuado podem ser vistos desde o princípio da exibição:- visual futurista de grande impacto (onde se destacam grandes construções moderníssimas, caracterizadas pela utilização exagerada de vidro e ligas metálicas), a névoa que aparece ao longo de todo o decorrer da história e o tom escuro que nos dão a sensação de estarmos presenciando um filme noir (aqueles filmes policiais dos anos 1940-1950, com detetives usando sobretudo e tendo um grande mistério para resolver, tudo dentro dessa atmosfera cinza, escura, sombria), a presença de grandes estrelas do cinema (Harrison Ford, Sean Young, Daryl Hannah e Rutger Hauer), a fantástica trilha sonora de Vangelis,...
A despeito de todas essas variáveis que tornam o filme um grande sucesso, o maior mérito reside na história de Phillip K. Dick. Ao nos defrontarmos com o dilema dos replicantes (andróides feitos a imagem e semelhança dos homens), verdadeiros escravos desse futuro previsto em "Blade Runner", é difícil não pensarmos nas transformações que vivenciamos nos últimos anos, promovidas a partir de pesquisas e projetos desenvolvidos nas áreas de robótica, bioengenharia, biotecnologia, eletrônica e sistemas operacionais.
Que futuro nos aguarda? A prosperidade e a felicidade prometidas ao homem pela ciência e pela tecnologia desde o século XIX? O sucateamento e a destruição dos recursos naturais que nos levarão ao fim da humanidade? O confronto entre os homens e os sistemas e vidas artificiais por eles criados?
O Filme
Rick Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner, nome dado a uma unidade especial da polícia, no ano de 2019, especializada na captura ou na destruição dos replicantes (andróides tão aperfeiçoados que não apenas se parecem com os seres humanos, também tem sentimentos, sangram e, em alguns casos, tem memórias implantadas para que possam ter uma história de vida).
Inativo e, pouco disposto a sair dessa condição, Deckard é obrigado a voltar ao trabalho em virtude da fuga de modelos Nexus (os mais avançados entre os replicantes) de uma colônia de trabalho em outro planeta. Esses replicantes se destacam por sua grande força, sua notável habilidade e mobilidade e por suas personalidades marcantes. Além de tudo isso, são ainda muito inteligentes.
Como todo o detetive que se preza, Deckard inicia suas investigações pela corporação Tyrell, onde foram fabricados os replicantes. Descobre que há uma replicante trabalhando diretamente para o dono da empresa. Trata-se de Rachel (Sean Young), em cuja memória foram implantadas as lembranças de uma falecida sobrinha de Tyrell.
O problema do detetive, no entanto, são os outros replicantes, que soltos na grande metrópole constituem um perigo eminente de violência e mortes. O que torna ainda pior a história é que eles estão atrás de uma solução para o seu mais grave dilema, ou seja, o curto tempo de vida de que dispõe (estão programados para viver somente quatro anos). Para resolver essa situação, não colocam empecilhos para sua ação...
Obs.: O filme "Blade Runner" tem duas versões, a original lançada em 1982 pela Warner Brothers e renegada pelo diretor Ridley Scott (que não gostava da narração em "off" do personagem de Harrison Ford que foi colocada no trecho final do filme e que fez severas críticas aos cortes e a edição da película) e uma outra, lançada em 1993, batizada de versão do diretor (feita dentro dos conformes propostos por Scott). Procure e assista a versão lançada originalmente nos cinemas em 1982, ela é mais densa, profunda e reflexiva.
Aos Professores
1- Dilemas existenciais atormentam o homem desde seu surgimento no planeta. Essas dúvidas aumentaram muito com o advento do período contemporâneo, de bases industriais, num mundo sem fronteiras e tomado pela tecnologia. Não são poucas as pessoas que constantemente se perguntam o que acontecerá com a humanidade dentro em breve. Há visões otimistas, algumas que pretendem ser realistas e outras um tanto quanto pessimistas. De que forma entendemos o mundo em que vivemos? Que perspectivas temos daquilo que irá acontecer no futuro? O que gostaríamos de legar para as gerações futuras? De que forma contribuímos com as mudanças que estão acontecendo no mundo e determinam o nosso futuro? Pergunte-se sobre o amanhã e faça com que seus alunos também o façam; Inicie um debate acerca das possibilidades que nos esperam.
2- As dúvidas lançadas no final do filme pelo personagem de Rutger Hauer nos fazem pensar a respeito do destino que a humanidade reserva para algumas de suas criações, como os clones e a inteligência artificial. Clones podem ser considerados da mesma forma que seres humanos? Serão tratados de que forma pela sociedade? Terão assistência da lei em caso de preconceito? Qual a motivação real para a pesquisa e a busca incessante da inteligência artificial? A inteligência artificial substituirá o homem em suas atividades? O que caberá ao homem depois do surgimento dessas criações? Muitas outras dúvidas podem surgir e devem alimentar esse debate crescente, que tende a ser cada vez maior e mais presente em nosso cotidiano...
3- Por que a escola estimula em demasia o estudo da lógica, da linguagem e das ciências humanas e naturais e praticamente despreza qualquer trabalho em termos daquilo que nos faz genuinamente humanos, nossos sentimentos? Quantas vezes paramos para nos perguntar quem são nossos alunos, de onde vem, como vivem, com quem se relacionam e tantas outras dúvidas essenciais para a compreensão de nossa clientela? Pouco ou nada sabemos sobre eles, o que aumenta a possibilidade de termos dificuldades em nosso relacionamento em aula. Não seria isso a comprovação de que carecemos de um trabalho a se realizar na área dos sentimentos? Até que ponto sabemos realmente lidar com isso? Será que, ao menos, nos conhecemos e damos a devida atenção a nossos próprios anseios?
Ficha Técnica
Blade Runner - O Caçador de Andróides (Blade Runner)
País/Ano de produção:- EUA, 1982 Duração/Gênero:- 117 min., Ficção Disponível em VHS e DVD Direção de Ridley Scott Roteiro de Hampton Francher e David Webb Peoples Elenco:- Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, Joanna Cassidy, M. Emmet Walsh .
João Luís de Almeida MachadoEditor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Jim Carrey é realmente um sujeito surpreendente. Começou sua carreira como um comediante que tinha tudo para ser uma reedição atualizada do grande Jerry Lewis (para conferir isso basta ver "O Máscara", "Ace Ventura" e "Debi e Lóide). Seu destino cinematográfico pareciam ser as comédias escrachadas, um tanto quanto apelativas em seu senso de humor. Dizia-se dele que era um grande "careteiro", que suas "gags" e malabarismos eram sua grande arte, sua garantia de sucesso e de boas bilheterias.
Por melhores que sejam os roteiros e as histórias contadas nos filmes, esse tipo de interpretação se esgota, cansa os espectadores e, acaba fazendo com que um artista de grande sucesso de repente se torne um retumbante fracasso. Talvez ciente dessa possibilidade, Jim Carrey resolveu enveredar por caminhos um tanto quanto diferentes e, verdadeiramente autênticos. A primeira grande prova desse novo desafio de Carrey foi o bem-sucedido "O Show de Truman".
Em "Truman", o astro de cachês vultosos conseguiu fazer com que sua verve cômica fosse agregada a um surpreendente talento para o drama. Essa tendência continua e, o reconhecimento ao trabalho de Carrey tem crescido em todos os lugares, seja de público ou de crítica.
"Cine Majestic" é uma nova oportunidade de verificar o aperfeiçoamento de Jim Carrey. Trata-se de uma história ambientada nos Estados Unidos dos anos 1950, no auge do Mcartismo. Fenômeno dos mais aterrorizantes esse tal de Macarthismo, principalmente para as pessoas que prezam e lutam pelas liberdades individuais, pela democracia. No início da Guerra Fria, movidos por uma grande histeria, parlamentares americanos liderados pelo senador Joseph Mcarthy iniciaram uma grande "caça as bruxas". As bruxas a que me refiro não foram queimadas na fogueira mas, na prática, a perseguição a que foram submetidos deixou-os chamuscados para sempre.
As vítimas de toda a arbitrariedade contida nessas perseguições foram os pretensos comunistas que estariam em ação nos Estados Unidos. Muitos deles nem ao menos sabiam os ditames da ideologia marxista, como imaginar então que participavam de grupos simpatizantes dessa linha política. Esse era o caso do personagem Peter Appleton (Carrey), roteirista de filmes de segunda linha, em início de carreira e ávido por chances ainda melhores no disputado mercado hollywoodiano.
A capital do cinema foi, a propósito, um dos grandes alvos dos agentes do Macarthismo. Diretores, roteiristas, produtores e artistas foram alvos de investigações e, em muitos casos, foram a tribunais públicos para se defender das acusações de que eram comunistas. Muitos tiveram que se retratar publicamente por erros que nem ao menos haviam cometido. A intolerância desse período beira as raias da insanidade. Nada poderia justificar tal histeria e permitir que, utilizando-se de expedientes e agências governamentais, se agisse de tal maneira.
Voltando ao filme. Perseguido, Appleton acaba por sofrer um acidente que o leva a perder a memória. Acaba indo parar numa pequena cidade interiorana e é confundido com um jovem (chamado Luke Trimble) daquela localidade que havia partido para a guerra e nunca regressara. As semelhanças entre ambos são muito grandes e, a partir desse momento, as pessoas da cidade tentam reintegra-lo ao cotidiano local.
O pai do jovem (vivido pelo experiente e competente Martin Landau) decide reabrir o cinema que pertence a família desde os anos 1920. Esperava o retorno de Luke para que pudesse fazer isso. Com o apoio da comunidade e da prefeitura, que lhes dão suporte material e humano para as reformas necessárias, ressurge o Cine Majestic. Tudo parecia ir muito bem, inclusive o romance reatado entre Luke/Appleton e sua antiga namorada/noiva, até o FBI rastrear os passos do desaparecido roteirista, acusado de simpatizante dos "vermelhos"...
Os grandes méritos do filme para o trabalho nas escolas residem na solidariedade da comunidade ao unir forças para a reconstrução de um símbolo da cidade (o Cine Majestic) e o calor com que receberam Luke/Appleton, a reconstituição de um fenômeno histórico de grande repercussão na história americana (o macarthismo) e, principalmente, na firmeza e decisão do personagem de Carrey ao enfrentar os tribunais que o perseguiam injustamente.
Ao lembrar-se dos artigos da constituição americana que exaltavam o direito as liberdades individuais, como a liberdade de culto religioso, o direito de expressar suas opiniões e a oportunidade de veicular as informações através da imprensa, Appleton (Carrey) traz a tona um pouco do sonho de todos nós (e não apenas dos norte-americanos), de que as leis sejam muito mais que apenas pedaços de papel sem valor. Confira!
Obs.: Sobre o macarthismo vale conferir o filme de Woody Allen chamado "Testa de ferro por acaso" e a participação de Robert De Niro em "Acusado por suspeita".
Ficha Técnica
Cine Majestic (The Majestic)
País/Ano de produção:- EUA, 2001 Duração/Gênero:- 153 min., drama Disponível em vídeo e DVD Direção de Frank Darabont Roteiro de Michael Sloane Elenco:- Jim Carrey, Martin Landau, Laurie Holden, Allen Garfield, Amanda Detmer.
João Luís de Almeida MachadoEditor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
O Projeto Cinema no Caldeirão apresenta hoje o filme "O Show de Truman - O Show da Vida", dirigido pelo consagrado Peter Weir (de "Mestre Dos Mares" e "Sociedade dos Poetas Mortos"). A escolha do filme em questão se deu atraves de um debate sobre privacidade e realtys shows que assolam a TV brasileira com os seus BBB e derivados.
O filme para mim, trata-se de um filme altamente poético, fantasiosamente improvável e realisticamente palpável. Ele dá margem à inúmeras abordagens, suscita muitas perguntas, enfim, nos faz pensar.
Os reality shows têm um espaço significativo na televisão atualmente. É um tipo de programa que atrai grandes audiências, o que faz com que produtores invistam cada vez mais nesse formato. Mas afinal, o que eles têm de especiais para tamanho sucesso? Será o espectador tão curioso assim pela vida alheia, ou será que eles somente gostam de assistir a algo real, sem a dramatização dos filmes ou das novelas?
De acordo com "O Show de Truman – O Show da Vida" (EUA – 1998), a resposta para isso é uma junção dessas duas teorias. A mídia é mostrada no filme de forma manipuladora, usando o seu poder para seduzir e iludir massas, além de vender produtos. A propósito, "O Show de Truman" satiriza a publicidade na televisão, com os personagens fazendo propaganda de produtos de uma forma bastante artificial.
Outra questão levantada no filme é sobre a veracidade e ética dos reality shows. No Brasil, programas como Big Brother e Casa dos Artistas são conhecidos justamente por mostrarem a vida real, e são divulgados como programas sem roteiro. Entretanto, assim como em "Show de Truman", discute-se a questão de que há sim um roteiro por trás desses programas de realidade, afinal, há dinheiro envolvido no processo, e os produtores não podem correr o risco de terem prejuízo com histórias enfadonhas, que não atrairiam o público.
Isso é abordado logo no início do filme, quando Cristof diz que "Não há roteiro. Não há intromissões. Não é sempre Shakespeare, mas é genuíno". Percebe-se posteriormente no filme que isso é mentira, já que é ele mesmo que monta o roteiro da vida de Truman. Através dessa prática, o filme critica a mídia e seu poder sobre a população.
Com isso, "O Show de Truman" é um filme ousado e ambicioso, e mostra uma característica louvável para qualquer produto audiovisual atualmente: a originalidade.
Muito antes dessa onda de shows televisivos que invadem a privacidade de pessoas anônimas ou de celebridades (refiro-me a Casa dos Artistas e ao Big Brother) tomarem conta da televisão foi lançado um filme nos cinemas (que fez grande sucesso) cuja temática explora, justamente essa questão tão essencial a todos nós, a privacidade.
Era "O Show de Truman", do competente diretor Peter Weir (o mesmo de "A Testemunha" e "Sociedade dos Poetas Mortos", filmes que merecem ser conferidos), estrelado pelo careteiro Jim Carrey (em seu melhor papel até aquele momento).
Truman (Jim Carrey), o sujeito do tal show, é um inocente, cuja vida tem sido transmitida ao vivo e em cores para os Estados Unidos inteiro em canal de TV paga. Desde o seu nascimento, até o momento em que a história se desenvolve, tudo o que se refere ao personagem de Carrey aparece na TV 24 horas por dia.
O problema é que ele é o único personagem dessa novela da vida real que não sabe o que está acontecendo, tudo o que ocorre ao seu redor é fictício, seu emprego é uma criação, seu casamento uma farsa (assim como foram o romance, a sedução e o namoro com sua esposa), seus amigos estão junto dele por estarem cumprindo um contrato como atores da rede que transmite o "Show de Truman".
Todos e tudo que o cerca são, literalmente, artificiais. Cenários compõe a cidade da vida de Truman, os carros são sempre os mesmos, cumprindo o ritual de rodar a cidade e dar a impressão de que a vida segue seu rumo, sua normalidade. Quando vai ao supermercado e adquire um produto, as imagens de Truman segurando e comprando determinados produtos viram marketing para as mercadorias adquiridas.
Nesse ambiente de mentiras, Truman desperta ao quase ser acertado por uma câmera que despenca do alto dos cenários. Seria Deus tentando alertá-lo ou seria apenas um acidente dos "deuses" da mídia televisiva que o colocam no ar todos os dias?
A partir desse incidente, sua relação com o mundo que o cerca muda completamente, ele passa a desconfiar de tudo e de todos, inicia uma procura incessante pelos olhos eletrônicos que estão a monitorá-lo todo o tempo, começa a duvidar da seriedade dos amigos e da esposa, percebe que o mundo ao seu redor repete-se com uma insistência irritante!
Numa época como a nossa, quando a discussão acerca dos direitos das pessoas é uma constante nos cenários nacional e internacional, a questão da privacidade sendo invadida por câmeras de televisão merece uma discussão acalorada em sala de aula. Muitos se perguntam os motivos que levam pessoas a enfrentar, conscientemente, o desafio de serem vistos diariamente por milhões de pessoas como o que ocorre com os já citados programas veiculados por canais abertos e fechados. Alguns, cedem a tentação da fama instantânea, conseguida graças a superexposição na mídia mais procurada por todas as classes sociais, a TV. É um tiro certeiro, as pessoas são reconhecidas nas ruas, tornam-se familiares a milhões de desconhecidos por invadirem seus lares através das telinhas e, com maior ou menor habilidade, conseguem ficar em evidência por mais alguns meses mesmo depois do programa terminar. Outras pessoas arriscam o espaço, a individualidade e, em muitos casos, correm o sério risco de se exporem ao ridículo movidas pelos prêmios milionários dados aos vencedores dessas verdadeiras maratonas.
Mas, e no caso de Truman, levado ao estrelato sem consulta prévia, na mais pura inocência, desconhecedor de sua própria história de vida? Não há dinheiro movendo suas ações, assim como, no seu cotidiano ele não consegue imaginar a repercussão de seus atos e o montante de popularidade por ele obtidos junto ao grande público que acompanha sua "novela da vida real".
Os direitos aos quais temos acesso não terminam quando começam os dos outros? A manipulação da rede de televisão que controlava o "Show de Truman" não consistia portando um desrespeito a um dos direitos essenciais da cidadania? Em que consiste a cidadania senão na consideração pelos outros e por suas dignidades? Não deve existir (e pelo que sei, já existe) por parte das emissoras de televisão um código de ética que não os faça lesar a integridade física e moral das pessoas que são apresentadas em seus programas? O próprio conceito de ética, foi criado para ser violado ou tem valor real e deve, por isso ser respeitado?
Discussões como essas podem nos levar a fomentar aulas interessantes em história, relacionando com o surgimento das Declarações dos Direitos Humanos em diferentes contextos, como no da Revolução Francesa ou no do final da 2ª Guerra Mundial (na época da criação da ONU); pode alimentar interessantes debates para a área de redação, com o adendo de que, o professor pode se utilizar de textos extraídos de jornais ou revistas que façam um contraponto, um termo de arguição e aprofundamento; pode servir como indicador de caminhos para aulas de filosofia e pode gerar o questionamento da questão da própria ética na sociedade em que estamos inseridos.
Por outro lado, o filme nos lança uma situação das mais interessantes ao afirmar a vida cotidiana como o maior dos espetáculos. Momentos tão desprezados de nossas existências quando realçados pelo brilho dos refletores das câmeras de TV parecem ganhar em vigor, fôlego e graça. Um abraço numa criança, a reunião com os amigos depois do expediente, ler um livro ou dar um beijo na mulher amada ganham contornos de grandes acontecimentos. Será que nós não estamos deixando essas cenas da vida real passarem sem dar a elas o verdadeiro reconhecimento e valor que elas merecem?
Ficha Técnica
O Show de Truman (The Truman Show)
Direção: Peter Weir Produção: País: EUA Ano da Produção: 1998 Duração: 102 minutos Gênero: Drama Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone.
João Luís de Almeida MachadoEditor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres escolhi um filme que retrata todo amor que somente as mulheres podem ter ou dar : o amor de uma mãe, um amor incondicional, passional beirando o irracional e a sua luta para saber o destino de seu filho. O filme escolhido para o Projeto Cinema no Caldeirão Especial é " Zuzu Angel".
Filme dirigido por Sérgio Rezende, Zuzu Angel é uma cinebiografia de uma estilista que impulsionou a fama do Brasil na moda internacional. O filme mostra o drama vivido pela estilista mineira (Patrícia Pillar), cujo filho, Stuart Edgard Angel Jones (Daniel de Oliveira), desapareceu durante a Ditadura Militar, nos anos 70, envolvido com a guerrilha que combatia o sistema, Stuart Angel foi preso em 14 de maio de 1971 pelos agentes do Centro de Informação da Aeronáutica.
Zuzu Angel é um filme forte e, ao mesmo tempo, delicado, pois fala do direito à liberdade e, principalmente, dos bastidores da ditadura militar. A cinebiografia não retrata o momento de sucesso da vida da estilista, e sim a luta de uma mãe pelo corpo de seu filho - sendo, posteriormente, declarado como desaparecido político.
No período da ditadura, enquanto Zuzu Angel tornava-se sinônimo de moda brasileira, Stuart envolvia-se cada vez mais nos movimentos estudantis contra a ditadura. As mulheres davam seus primeiros passos de individualidade e ela foi um grande exemplo: separada do marido, sustentou seus três filhos exportando moda brasileira.
O filme Zuzu Angel se transforma numa importante peça histórica que lembra um tempo em que as pessoas eram perseguidas por defenderem seus ideais. A luta de Zuzu Angel foi semelhante à de muitas outras mães que também perderam os seus filhos nos porões da ditadura militar brasileira; a diferença é que Angel tinha os meios – e os contatos – disponíveis para conseguir ser ouvida.
Em 14 de abril de 1976, o corpo de Zuzu Angel foi encontrado na saída do Túnel Dois Irmãos na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro. A causa de sua morte foi dada como acidental, sendo reconhecida como assassinato somente nos anos 90.
Um filme forte, tocante e que mostra toda a força que somente as mulheres tem. Meus parabéns a Zuzu, a Maria, a Joana, a Paula, a Valéria, a Sandra, a Lúcia, a Laura, a Carmem, a Antônia, a Josefina enfim a todas as mulheres do nosso Brasil que construíram e fizeram a historia dessa nação.
Sérgio Rezende é um dos mais respeitados e bem-sucedidos cineastas brasileiros dos últimos tempos. Seu prestígio não tem o mesmo alcance de Fernando Meirelles ou Walter Salles já que suas produções acabam tendo mais visibilidade dentro do mercado interno brasileiro e não alcançam a mesma repercussão além das fronteiras de seu país de origem.
E qual é o motivo para essa restrição a obra de Rezende fora do Brasil?
A pouca penetração da obra cinematográfica desse nosso cineasta em terras americanas, européias ou de qualquer outro continente acontece em virtude da temática principal escolhida por Sérgio Rezende para os seus filmes, ou seja, a história de nosso país. Sendo ainda mais específico, os filmes de Rezende não apenas focam nossa história, marcada por dramas e histórias de superação dignas de realmente serem contadas para todos, mas procuram enfatizar nossos personagens e dar ao grande público a possibilidade de conhecer cada um deles.
Nesse sentido, vale lembrar que “Guerra de Canudos”, “Lamarca” e “Mauá”, obras anteriores de Rezende, focam o olho eletrônico das câmeras e traduzem a leitura que o diretor e sua equipe têm sobre homens marcantes para a história do país que não apenas registraram seus nomes nos anais e livros que relatam os caminhos e descaminhos do Brasil como também criaram padrões de comportamento, estimularam ações de inúmeros outros brasileiros, questionaram a ordem estabelecida, confrontaram-se com as dificuldades inerentes a vida num país atrasado,...
Vale também lembrar que Rezende não parece interessado em especializar-se num determinado contexto histórico, tanto que trabalhou nas obras anteriormente mencionadas o messianismo nos sertões do Nordeste propagado por Antônio Conselheiro, as façanhas econômicas do Barão de Mauá (o maior expoente do pensamento capitalista no Brasil do século XIX, um dos mais ricos e poderosos empresários do mundo em sua época) e também aventurou-se pelos dramas vividos pelos guerrilheiros urbanos comandados pelo capitão Carlos Lamarca em sua luta contra a ditadura militar brasileira vigente na década de 1960 e início dos anos 1970...
“Zuzu Angel”, sua última produção, retorna ao angustiante e sufocante período de chumbo da história brasileira, tendo portanto como contexto a ditadura militar que se estabeleceu a partir do famigerado Golpe de 1964. Apesar da semelhança quanto ao contexto histórico escolhido entre essa nova produção e “Lamarca” (o que rende uma brincadeira/homenagem no novo filme com a participação relâmpago de Paulo Betti como “Lamarca”), o enfoque é diferenciado, mesmo porque a “pedra de toque” dessa nova história é a relação entre Zuzu Angel (Patrícia Pillar) e seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), desaparecido por obra dos militares e de seus porões onde a tortura comia solta...
Não há mais a intenção libertária que move os sonhos de um líder carismático a guiar um pequeno grupo de jovens idealistas rumo a uma revolução contra o autoritarismo e em favor do socialismo como em Lamarca... O que vemos em “Zuzu Angel” é a intensa relação entre mãe e filho que leva uma estilista famosa e consagrada internacionalmente a superar a alienação em que vivia quanto ao regime de exceção estabelecido no país para tentar salvar o filho ou ainda recuperar o seu corpo...
Não há mais o heroísmo e nem o altruísmo de produções como “O que é isso, companheiro” ou mesmo de “Lamarca”. Zuzu Angel vivia, antes do desaparecimento de seu filho, como se nada o que acontecia ao seu redor existisse. O que lhe importava eram apenas sua carreira, o sucesso de suas coleções, desfiles consagradores e a criação de novos padrões e estilos para o mercado internacional da moda.
Na verdade ela não diferia muito de milhões de outros brasileiros que preferiram apenas tocar suas vidas mesmo sabendo das barbaridades cometidas nos porões do regime contra as liberdades individuais, o direito de expressão e a própria democracia. Sua história modifica-se, porém, com o desaparecimento prematuro de Stuart, o que a leva a perambular pelos quartéis e atrás de autoridades para conseguir informações sobre o paradeiro de seu filho...
Trata-se de um filme para um público amplo, que deve ser assistido para que possamos compreender melhor como ocorre o cruzamento do individual e do coletivo, do privado e do público na história da humanidade e, principalmente para comprovar o quanto é forte o amor de uma mãe, capaz até mesmo de confrontar o mais hostil dos regimes políticos para tentar salvar o filho...
O Filme
Stuart Jones Angel (Daniel de Oliveira) participa de passeatas, enfrenta os policiais e soldados da ditadura nas ruas e está envolvido com um grupo de guerrilheiros que quer derrubar a ditadura militar brasileira estabelecida a partir de 1964. Para que seu engajamento com a causa seja ainda maior, sua namorada (e depois esposa), Sônia (Leandra Leal), também é uma entusiasta do movimento e participa ativamente de todos os conflitos e planos do grupo “terrorista” (de acordo com o governo da época) de Stuart, o MR-8.
A mãe de Stuart, por outro lado, é destaque das colunas sociais do Rio de Janeiro e ganha a cada novo dia mais fama e sucesso a nível nacional e internacional em virtude de seu inovador trabalho como estilista. Zuzu Angel tem uma vida intensa, com a agenda lotada de compromissos, dentro e fora do país, através do qual consolida o seu trabalho e arregimenta novos fãs e clientes para os seus vestidos, saias, camisas e demais vestimentas com temáticas bem brasileiras.
Os universos distintos em que vivem mãe e filho praticamente nunca se cruzam. A ausência do jovem por longos períodos e algumas esporádicas visitas realizadas por Stuart para rever a mãe e as irmãs, sempre parecendo preocupado e tenso em relação a sua presença num lugar público demais, são apenas indícios de que alguma coisa não está certa na vida de seu filho, pensa Zuzu.
O ponto de convergência entre os mundos paralelos de Zuzu e Stuart acontece quando o jovem desaparece e, através de um telefonema anônimo, a mãe é informada de seu paradeiro e do provável local de seu cativeiro. É apenas o início de uma jornada de muitos destinos e diversos interlocutores que se inicia na vida de Zuzu Angel. Indo de um quartel a outro, conversando com generais, almirantes ou brigadeiros, apelando para amigos políticos ou indo aos tribunais em busca de seu filho, a vida da estilista sofre uma mudança considerável...
E não é apenas o seu cotidiano que muda, tornando-se sombrio, tenso, sempre prestes a explodir... A concepção de mundo e a visão que Zuzu tinha em relação ao Brasil modificam-se de forma considerável, com o progressivo abandono da crença no sonho brasileiro e a superação da alienação em que vivia, típica do mundo das passarelas e das celebridades das colunas sociais...
Surge então uma nova mulher, endurecida pelos fatos, mas ainda forte para lutar por seu filho... Com atuações destacadas de Patrícia Pillar como Zuzu Angel, Daniel de Oliveira no papel de Stuart Angel e contando ainda com elenco de apoio de grande talento, “Zuzu Angel” é mais um filme de destaque da nova fase do cinema nacional. Assistam!
Para Refletir
1 - Já se passaram mais de 20 anos desde o final da ditadura militar brasileira, mas os estragos provocados durante aquela etapa de nossa história ainda se fazem sentir. Os responsáveis pela tortura e por todos os atos atrozes que levaram ao desaparecimento de inúmeros brasileiros e que sufocaram a consciência nacional não foram punidos por seus desmandos e excessos, a história militar nacional não considera o que aconteceu como um golpe de estado, mas sim como uma revolução legítima, os torturados e as famílias dos desaparecidos não foram indenizados pelo estado e nem ao menos tiveram acesso a todos os arquivos e informações sobre suas vidas ou a de seus familiares. E o pior, criou-se uma realidade em nosso país em que o engajamento político e a necessária consciência de direitos e deveres não são mais a tônica. As novas gerações abominam a política, que ficou a encargo de dirigentes políticos da velha guarda ou de aventureiros de última hora, sendo que a maioria deles está apenas interessada em obter vantagens e privilégios para si mesmos... Faz-se necessária uma revisão da educação brasileira e a proposição de novas bases que se atrevam realmente a politizar as futuras gerações de brasileiros que irão ser formadas...
2 - Que outras histórias e personagens daquela fase de nossa história podem ser resgatados? Wladimir Herzog, o deputado Rubens Paiva, o cardeal arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, o delegado Sérgio Paranhos Fleury,... Cada um deles viveu (ou desapareceu) dentro do momento nebuloso da história de nosso país durante a ditadura militar vigente entre 1964-1984. Desenvolva projetos com seus alunos para a produção de textos, jornais, rádio-novelas, cartas, websites (blogs ou fotoblogs), filmes ou outras formas de expressão através das quais falem sobre essa história e personagens como aqueles que sugerimos.
3 - Zuzu Angel e seu filho Stuart também podem ser focados num estudo coordenado pelos professores de história, artes, redação, sociologia ou filosofia. Informações adicionais sobre os dois, comparando-se o que foi apresentado no filme com o que está escrito nos livros ou disponível na Internet para a produção de um debate a ser realizado após a apresentação do filme na escola ou para a comunidade pode ativar a discussão sobre a ditadura e também levar a uma análise da criativa e produtiva obra da estilista.
Ficha Técnica
Zuzu Angel País/Ano de produção: Brasil, 2006 Duração/Gênero: 110 min., Drama Direção de Sérgio Rezende Roteiro de Marcos Bernstein e Sérgio Rezende Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Luana Piovani, Alexandre Borges, Ângela Vieira, Ângela Leal, Paulo Betti, Nelson Dantas, Regiane Alves.
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).