23 de fev de 2009

A História vai ao Cinema

Filmes nacionais entram na sala de aula

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“Minha geração é ‘cinemeira, como dizia minha avó; como Lênin, acho que o cinema foi a arte do século XX, e os filmes agora não são mais vistos no delicioso escurinho do cinema mas também na televisão ou no vídeo. Os intelectuais, mesmo aqueles mais isolados em sua torre de marfim, apreciam cinema. ‘Papos-cabeça, tentando entender e/ou mudar o mundo ou o país (ou mesmo a nós mesmos, o que é tão difícil quanto o resto), se deram muitas vezes a partir de discussões sobre filmes que nos toca(va)m mais profundamente.”

Na “orelha” do livro “A História vai ao Cinema”, a professora doutora Vavy Pacheco Borges, da Universidade de Campinas (Unicamp) já dá uma clara demonstração da importância e da presença do cinema no imaginário coletivo mundial a partir de seu surgimento e consolidação no século XX. Somos todos, de certa forma, “cinemeiros”. Mesmo quando não vamos com a desejada freqüência ao cinema, assistindo filmes a partir da programação da televisão ou vídeo e DVD, consolidamos a presença e a influência da sétima arte sobre a contemporaneidade.

E não há, entre nós, atualmente, pessoa que possa se dizer imune a essa presença tão marcante dos filmes. É certo, em qualquer ambiente que freqüentemos, encontrar pessoas comentando alguma produção recentemente assistida. Sugestões, críticas, dúvidas, artigos lidos, seqüências destacadas, a interpretação dos atores, a criatividade dos diretores e técnicos, os efeitos especiais, a música, tudo isso e muito mais é objeto de comentários por parte de cinéfilos mais fanáticos ou mesmo de cidadãos comuns, influenciados pelo filme apresentado na noite anterior em algum canal aberto.

O mais interessante é perceber que a riqueza e a variedade de informações dos filmes transparece a cada novo comentário incorporado a discussão. Por mais que tenhamos visto um filme diversas vezes, o mais atentamente possível, sempre aparece alguém com uma idéia, imagem ou dado que passou despercebido a nossos olhos.

Imagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-JoaquinaImagem-de-cartaz-de-respectivamente-Bye-bye-Brasil-A-Marvada-Carne-e-Carlota-Joaquina

A história do Brasil, nossa cultura, nossos hábitos e costumes, a política ou a economia podem ser percebidas em produções concebidas por nossos melhores cineastas, atores, produtores e técnicos. Acima vemos os cartazes de três filmes de sucesso de diferentes décadas: “Bye-bye Brasil” (1979), “A Marvada Carne” (1985) e “Carlota Joaquina” (1995).

Outro aspecto deveras marcante dessa relação entre os filmes e as pessoas é a forma como muitas vezes estabelecemos uma relação de amor e ódio com alguns títulos. Sempre temos em nossa mente uma lista de filmes que sugerimos a nossos amigos ou colegas de trabalho. Do mesmo modo, estamos dispostos a aconselhar que não assistam determinados títulos, previamente vistos por nós e que condenamos por uma grande variedade de fatores. Essas análises são tão subjetivas que na maior parte das vezes em que condenamos ou recomendamos uma determinada produção invariavelmente aparece alguém a nos contradizer.

Uma das mais conturbadas relações estabelecidas nesse convívio entre homens e filmes é aquela que se verifica num país tropical, de grandes dimensões territoriais, abençoado por Deus e bonito por natureza. E não me refiro, nesse caso, ao intercâmbio estabelecido com o cinema internacional. A questão é de infinitos amores e ódios dentro das próprias fronteiras tupiniquins, entre público e realizadores do cinema nacional. E não é recente, se arrasta a muitos e muitos anos, praticamente desde o estabelecimento de nossa produção cinematográfica.

Nesse ínterim um dos grandes méritos do trabalho organizado por Mariza de Carvalho Soares e Jorge Ferreira, “A História vai ao Cinema”, consiste em dar ao cinema nacional o destaque que merece. Por esse motivo, os organizadores desse livro valioso reuniram um destacado e prestigiado grupo de historiadores das mais variadas instituições acadêmicas para analisar alguns dos melhores e mais polêmicos filmes produzidos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1990.

O fato de contar com o apoio de intelectuais prestigiados, provenientes de seleto grupo de universidades dos quatro cantos do país (UFBA, UFPR, UFF, UFRJ, UFCE, USP, UNICAMP, UFMG, UFPE, UnB, UFRGS) só dá ao livro mais charme, credibilidade e diversidade. São diferentes vozes se articulando a respeito de filmes tão dispares quanto Central do Brasil, Gaijin, Pixote, Guerra de Canudos, Eles não usam black-tie, Lúcio Flávio,...

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A repressão da ditadura militar ou a luta dos trabalhadores por seus direitos são temas presentes em filmes de grande sucesso como “Pra Frente Brasil” (1983) e “Eles não usam black-tie” (1981).

Através de suas análises percebemos o quanto o cinema nacional consegue ser atuante, questionador, perturbador, polêmico e culturalmente relevante. Nossos filmes abordam temas como política, violência, nazismo, cotidiano, amor, solidariedade, diversidade, greves e muitos outros assuntos. Utiliza o escurinho do cinema para divulgar causas, consolidar formas de pensar ou questionar posicionamentos. Através de nossos filmes ficamos sabendo que os brasileiros foram, são e continuaram sendo atuantes, participativos e preocupados com o futuro de seu país.

O foco principal dado à história pode, a princípio, esconder a riqueza do trabalho, capaz de atender a um público muito maior que aquele localizado entre os estudiosos da história. Há uma ampla gama de pessoas que poderia ler o livro e tirar proveito do mesmo. Desde estudiosos de cinema, passando por leigos interessados no tema, estudantes em busca de uma maior compreensão do Brasil, professores das mais diversas áreas interessados em diversificar e enriquecer seu trabalho a, até mesmo, políticos, dirigentes sindicais, ONGs ou lideranças comunitárias que pretendam aprender um pouco mais sobre a brasilidade.

Sílvio Tendler, no prefácio, destaca que “a história do século XX será contada com recursos audiovisuais e a partir da produção audiovisual do século XX”, o que reafirma a importância de trabalhos como “A História vai ao Cinema”.

Vivemos imersos numa sociedade onde a imagem é valiosíssima como recurso fomentador de conhecimento e aprendizagem. Não podemos dispor dessa ferramenta tão rica que é o cinema. Uma das colocações iniciais de minha dissertação de mestrado acerca desse poderoso instrumento ponderava que quando vemos um filme temos que nos sintonizar nos mais variados elementos (atores, diálogos, cenografia, sons, música, iluminação, locações, figurinos, fotografia) para podermos entender o que está sendo passado para nós.

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Veja o filme, leia o livro. Alguns de nossos melhores filmes surgiram de obras de consagrados escritores ou deram origem a livros muito ricos e interessantes a respeito do tema ou da própria produção cinematográfica.

Realizamos múltiplas leituras quando vemos um filme. Ao utilizarmos o cinema como recurso didático em nossas aulas estamos colocando diante de nossos alunos produções que exigiram o trabalho de um grande número de profissionais; pensadas por diretores e roteiristas de forma exaustiva; surgidas do investimento de grandes somas de dinheiro; fruídas após longos períodos de trabalho (de pesquisa, captação de recursos, pré-produção, produção, marketing, edição e distribuição). Não dá para desperdiçar todo esse esforço simplesmente assistindo aos filmes e esquecendo-os.

E o melhor de tudo é perceber como, ao utilizarmos os filmes em nossas aulas, a resposta por parte de nossos estudantes é positiva, enriquecida. O cinema, aliado aos livros, a Internet, a artigos científicos, a revistas e jornais, a pesquisa de campo e a outros recursos e metodologias de trabalho em educação dá ao professor e a seus alunos uma maior capacidade de argumentação, análise, comparação, síntese e posicionamento perante a vida.

Tenho um bom histórico de práticas relacionadas à utilização de filmes em sala de aula. Sinto que há ainda uma certa resistência por parte de um grande número de professores a utilização regular do cinema na escola. A publicação de um número cada vez maior de livros, artigos e páginas da internet dedicadas ao tema auxilia e muito a conscientização quanto as possibilidades da utilização dos filmes no ambiente educacional. Ressalto, entretanto, que para bons resultados nessa prática é necessário muito planejamento. Temos tentado orientar os professores nesse sentido a partir de nossos artigos da coluna Cinema e Educação.

Leiam mais livros como “A História vai ao Cinema”, assistam novos filmes, conversem com outros educadores sobre a aplicação desse recurso em suas aulas, valorizem a produção nacional (cada vez mais rica, cheia de novas idéias e valorizada internacionalmente) e criem projetos que venham a realizar em suas aulas mesclando o cinema a outros recursos. Seus alunos agradecem. A educação também!

Obs.: Traduzindo as siglas das universidades citadas – Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Ceará (UFCE), Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=335

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