7 de mar de 2009

Zuzu Angel

O amor de uma mãe em luta contra a ditadura

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Sérgio Rezende é um dos mais respeitados e bem-sucedidos cineastas brasileiros dos últimos tempos. Seu prestígio não tem o mesmo alcance de Fernando Meirelles ou Walter Salles já que suas produções acabam tendo mais visibilidade dentro do mercado interno brasileiro e não alcançam a mesma repercussão além das fronteiras de seu país de origem.

E qual é o motivo para essa restrição a obra de Rezende fora do Brasil?

A pouca penetração da obra cinematográfica desse nosso cineasta em terras americanas, européias ou de qualquer outro continente acontece em virtude da temática principal escolhida por Sérgio Rezende para os seus filmes, ou seja, a história de nosso país. Sendo ainda mais específico, os filmes de Rezende não apenas focam nossa história, marcada por dramas e histórias de superação dignas de realmente serem contadas para todos, mas procuram enfatizar nossos personagens e dar ao grande público a possibilidade de conhecer cada um deles.

Nesse sentido, vale lembrar que “Guerra de Canudos”, “Lamarca” e “Mauá”, obras anteriores de Rezende, focam o olho eletrônico das câmeras e traduzem a leitura que o diretor e sua equipe têm sobre homens marcantes para a história do país que não apenas registraram seus nomes nos anais e livros que relatam os caminhos e descaminhos do Brasil como também criaram padrões de comportamento, estimularam ações de inúmeros outros brasileiros, questionaram a ordem estabelecida, confrontaram-se com as dificuldades inerentes a vida num país atrasado,...

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Vale também lembrar que Rezende não parece interessado em especializar-se num determinado contexto histórico, tanto que trabalhou nas obras anteriormente mencionadas o messianismo nos sertões do Nordeste propagado por Antônio Conselheiro, as façanhas econômicas do Barão de Mauá (o maior expoente do pensamento capitalista no Brasil do século XIX, um dos mais ricos e poderosos empresários do mundo em sua época) e também aventurou-se pelos dramas vividos pelos guerrilheiros urbanos comandados pelo capitão Carlos Lamarca em sua luta contra a ditadura militar brasileira vigente na década de 1960 e início dos anos 1970...

“Zuzu Angel”, sua última produção, retorna ao angustiante e sufocante período de chumbo da história brasileira, tendo portanto como contexto a ditadura militar que se estabeleceu a partir do famigerado Golpe de 1964. Apesar da semelhança quanto ao contexto histórico escolhido entre essa nova produção e “Lamarca” (o que rende uma brincadeira/homenagem no novo filme com a participação relâmpago de Paulo Betti como “Lamarca”), o enfoque é diferenciado, mesmo porque a “pedra de toque” dessa nova história é a relação entre Zuzu Angel (Patrícia Pillar) e seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), desaparecido por obra dos militares e de seus porões onde a tortura comia solta...

Não há mais a intenção libertária que move os sonhos de um líder carismático a guiar um pequeno grupo de jovens idealistas rumo a uma revolução contra o autoritarismo e em favor do socialismo como em Lamarca... O que vemos em “Zuzu Angel” é a intensa relação entre mãe e filho que leva uma estilista famosa e consagrada internacionalmente a superar a alienação em que vivia quanto ao regime de exceção estabelecido no país para tentar salvar o filho ou ainda recuperar o seu corpo...

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Não há mais o heroísmo e nem o altruísmo de produções como “O que é isso, companheiro” ou mesmo de “Lamarca”. Zuzu Angel vivia, antes do desaparecimento de seu filho, como se nada o que acontecia ao seu redor existisse. O que lhe importava eram apenas sua carreira, o sucesso de suas coleções, desfiles consagradores e a criação de novos padrões e estilos para o mercado internacional da moda.

Na verdade ela não diferia muito de milhões de outros brasileiros que preferiram apenas tocar suas vidas mesmo sabendo das barbaridades cometidas nos porões do regime contra as liberdades individuais, o direito de expressão e a própria democracia. Sua história modifica-se, porém, com o desaparecimento prematuro de Stuart, o que a leva a perambular pelos quartéis e atrás de autoridades para conseguir informações sobre o paradeiro de seu filho...

Trata-se de um filme para um público amplo, que deve ser assistido para que possamos compreender melhor como ocorre o cruzamento do individual e do coletivo, do privado e do público na história da humanidade e, principalmente para comprovar o quanto é forte o amor de uma mãe, capaz até mesmo de confrontar o mais hostil dos regimes políticos para tentar salvar o filho...

O Filme

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Stuart Jones Angel (Daniel de Oliveira) participa de passeatas, enfrenta os policiais e soldados da ditadura nas ruas e está envolvido com um grupo de guerrilheiros que quer derrubar a ditadura militar brasileira estabelecida a partir de 1964. Para que seu engajamento com a causa seja ainda maior, sua namorada (e depois esposa), Sônia (Leandra Leal), também é uma entusiasta do movimento e participa ativamente de todos os conflitos e planos do grupo “terrorista” (de acordo com o governo da época) de Stuart, o MR-8.

A mãe de Stuart, por outro lado, é destaque das colunas sociais do Rio de Janeiro e ganha a cada novo dia mais fama e sucesso a nível nacional e internacional em virtude de seu inovador trabalho como estilista. Zuzu Angel tem uma vida intensa, com a agenda lotada de compromissos, dentro e fora do país, através do qual consolida o seu trabalho e arregimenta novos fãs e clientes para os seus vestidos, saias, camisas e demais vestimentas com temáticas bem brasileiras.

Os universos distintos em que vivem mãe e filho praticamente nunca se cruzam. A ausência do jovem por longos períodos e algumas esporádicas visitas realizadas por Stuart para rever a mãe e as irmãs, sempre parecendo preocupado e tenso em relação a sua presença num lugar público demais, são apenas indícios de que alguma coisa não está certa na vida de seu filho, pensa Zuzu.

O ponto de convergência entre os mundos paralelos de Zuzu e Stuart acontece quando o jovem desaparece e, através de um telefonema anônimo, a mãe é informada de seu paradeiro e do provável local de seu cativeiro. É apenas o início de uma jornada de muitos destinos e diversos interlocutores que se inicia na vida de Zuzu Angel. Indo de um quartel a outro, conversando com generais, almirantes ou brigadeiros, apelando para amigos políticos ou indo aos tribunais em busca de seu filho, a vida da estilista sofre uma mudança considerável...

E não é apenas o seu cotidiano que muda, tornando-se sombrio, tenso, sempre prestes a explodir... A concepção de mundo e a visão que Zuzu tinha em relação ao Brasil modificam-se de forma considerável, com o progressivo abandono da crença no sonho brasileiro e a superação da alienação em que vivia, típica do mundo das passarelas e das celebridades das colunas sociais...

Surge então uma nova mulher, endurecida pelos fatos, mas ainda forte para lutar por seu filho... Com atuações destacadas de Patrícia Pillar como Zuzu Angel, Daniel de Oliveira no papel de Stuart Angel e contando ainda com elenco de apoio de grande talento, “Zuzu Angel” é mais um filme de destaque da nova fase do cinema nacional. Assistam!

Para Refletir

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1 - Já se passaram mais de 20 anos desde o final da ditadura militar brasileira, mas os estragos provocados durante aquela etapa de nossa história ainda se fazem sentir. Os responsáveis pela tortura e por todos os atos atrozes que levaram ao desaparecimento de inúmeros brasileiros e que sufocaram a consciência nacional não foram punidos por seus desmandos e excessos, a história militar nacional não considera o que aconteceu como um golpe de estado, mas sim como uma revolução legítima, os torturados e as famílias dos desaparecidos não foram indenizados pelo estado e nem ao menos tiveram acesso a todos os arquivos e informações sobre suas vidas ou a de seus familiares. E o pior, criou-se uma realidade em nosso país em que o engajamento político e a necessária consciência de direitos e deveres não são mais a tônica. As novas gerações abominam a política, que ficou a encargo de dirigentes políticos da velha guarda ou de aventureiros de última hora, sendo que a maioria deles está apenas interessada em obter vantagens e privilégios para si mesmos... Faz-se necessária uma revisão da educação brasileira e a proposição de novas bases que se atrevam realmente a politizar as futuras gerações de brasileiros que irão ser formadas...

2 - Que outras histórias e personagens daquela fase de nossa história podem ser resgatados? Wladimir Herzog, o deputado Rubens Paiva, o cardeal arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, o delegado Sérgio Paranhos Fleury,... Cada um deles viveu (ou desapareceu) dentro do momento nebuloso da história de nosso país durante a ditadura militar vigente entre 1964-1984. Desenvolva projetos com seus alunos para a produção de textos, jornais, rádio-novelas, cartas, websites (blogs ou fotoblogs), filmes ou outras formas de expressão através das quais falem sobre essa história e personagens como aqueles que sugerimos.

3 - Zuzu Angel e seu filho Stuart também podem ser focados num estudo coordenado pelos professores de história, artes, redação, sociologia ou filosofia. Informações adicionais sobre os dois, comparando-se o que foi apresentado no filme com o que está escrito nos livros ou disponível na Internet para a produção de um debate a ser realizado após a apresentação do filme na escola ou para a comunidade pode ativar a discussão sobre a ditadura e também levar a uma análise da criativa e produtiva obra da estilista.

Ficha Técnica

Zuzu Angel
País/Ano de produção: Brasil, 2006
Duração/Gênero: 110 min., Drama
Direção de Sérgio Rezende
Roteiro de Marcos Bernstein e Sérgio Rezende
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Luana Piovani, Alexandre Borges, Ângela Vieira, Ângela Leal, Paulo Betti, Nelson Dantas, Regiane Alves.

Links

www.zuzuangelofilme.com.br (site oficial)

http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=11593

http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/zuzu-angel/zuzu-angel.asp

http://www.cinemaemcena.com.br/cinemacena/crit_editor_filme.asp?cod=4696

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João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=760

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