22 de nov de 2008

Meu Nome não é Johnny

Um mergulho no universo dos “malucos”

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A trajetória de João Guilherme Estrela se parece muito com a de inúmeras pessoas que conheci ao longo de minha vida. Todos eles faziam parte do chamado “Expresso da Fumacinha”, ou seja, eram usuários de drogas. Começavam com a maconha, usavam anfetaminas, migravam para a cocaína, experimentavam até mesmo ácidos e alguns poucos conseguiam chegar a heroína... Morreram jovens. Creio que há um ou outro sobrevivente. Tenho sérias dúvidas quanto ao estado de saúde real dessas pessoas...

Fui tachado por eles durante o ápice de uso de drogas pelos mesmos como sendo “careta”. Ainda bem! Com muito orgulho. Esse termo designava todos aqueles que não eram fãs do produto, pessoas que nem ao menos se arriscavam a dar um “tapinha”. Havia um ar de esperteza em todos eles, que julgavam ter encontrado um atalho para o Olimpo, normalmente associado a uma carreira de cocaína, a um cigarro de marijuana ou ainda a algumas pílulas de ecstasy...

Os caretas, por sua vez, eram apenas os ingênuos e tolos de plantão que, pobres coitados, desconheciam os caminhos para o prazer supremo. Afinal de contas, era isso o que diziam sentir aqueles que ingeriam todos aqueles tóxicos. Pareciam estar em transe, vivenciando cada qual o seu mantra particular, inebriados pelas drogas consumidas, flutuando nas nuvens sem nem ao menos terem saído do chão...

Suas festas e encontros eram invariavelmente regados a muita bebida, alguma comida, libertinagem e, certamente, drogas à vontade. A clientela, como no filme de Mauro Lima, era formada por pessoas de classe média ou alta. Filhos da elite local, que estudavam nas melhores escolas e faculdades, freqüentavam os clubes da cidade, saíam na coluna social dos jornais e que tinham sempre algum dinheiro no bolso para pagar pela “viagem”.

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Essa gente começou relativamente cedo nas drogas e na noite. Foram precoces no sexo, no cigarro, na bebida e também na maconha. Depois de terem experimentado tudo isso, queriam emoções mais fortes e partiram para aventuras mais ousadas. Encontraram com facilidade os fornecedores locais e com eles estabeleceram o seu “pacto do diabo”. A promessa era a alegria eterna. A dívida era o corpo, a alma, a paz de espírito, os bens materiais...

Envolveram-se com pessoas perigosas e também se tornaram gente da pesada. Foram fichados pela polícia que já sabia muito bem qual era a daqueles cabeludos, com ar de pouco caso, óculos escuros e um cigarrinho na mão. Não foram poucos os que dormiram algumas noites no xadrez... Não eram maltratados pelos policiais, que sabiam das relações familiares e do poderio econômico e social de suas famílias... Até mesmo os bandidos pé-de-chinelo, aqueles que roubam “galinhas”, tinham respeito e medo dos “malucos”...

Como já disse antes, vários ficaram no caminho bem cedo... Morreram antes dos 25 anos, muitos deles nem chegaram a completar duas décadas de existência... Transformaram seus corpos em laboratórios de química completos, onde toda e qualquer substância foi testada... Envelheceram rapidamente a olhos vistos e creio que, se estivessem vivos nos dias de hoje, pareceriam muito mais velhos do que realmente seriam...

Os caretas sobreviveram. Alguns “malucos” ainda estão por aí, para contar a sua saga maldita. João Guilherme Fiúza (ou Estrela, como queiram) é apenas um deles. Que sua história e a de tantos outros jovens que perderam suas vidas ou sacrificaram suas saúdes ajudem as novas gerações a não cair na tentação do vício, da droga que promete o céu... E entrega o inferno.

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O Filme

As imagens se alternam. Vemos uma jovem família feliz e, ao mesmo tempo, um jovem encarcerado. Em alguns momentos é Natal. Outras vezes estamos numa sala com grades e móveis velhos. Um menino, querido e celebrado pelos pais, ganha seus presentes e vibra de contentamento. Um jovem abre suas cartas e vê mensagens que falam da busca pelo verdadeiro ser...

Essa seqüencia de abertura do filme “Meu Nome não é Johnny” nos deixa tontos, inebriados, como se o propósito fosse nos fazer sentir por breves momentos o turbilhão que assola a mente de um dependente químico... Ficamos nos perguntando como o menino feliz se tornou o usuário de drogas e traficante internacional que vai parar atrás das grades...

E como tudo começou? Da forma mais tradicional possível... Numa roda de amigos, todos adolescentes (ou pré-adolescentes), livres para voar, sem qualquer acompanhamento da família, a beira-mar... Que tal um divertimento mais audacioso que as ondas que embalam as manobras do surfe? O que, não quer? Sempre achei que você era fraco mesmo... Vai experimentar... Bom, é só um “tapinha”... E como diz o refrão de uma conhecida música de apelo popular... “Um tapinha não dói”... Ou pelo menos foi isso o que pensou João Guilherme...

Da adolescência para a juventude é “tiro curto” e os atalhos da “estrada de Santos” já eram de conhecimento de todos aqueles com quem o garotão Estrela circulava. Entre eles tinha até mesmo um que ia buscar o produto nas bocas... Mas o “esporte” era perigoso e o cara tirou o corpo fora... Quem vai ao morro buscar mais mercadoria para a turma? Que tal o João?

E lá foi João Guilherme, o Estrela, encontrar com os “caras”, marcar ponto, virar referência, iniciar a carreira, tornar-se de uma vez por todas, o fornecedor. Boa pinta, simpático, inteligente, bom com números, negociante nato... Tinha todas as credenciais para se tornar uma “estrela” (sem trocadilhos) do ramo. E por aí vai, a história do Fiúza, o tal João Guilherme Estrela, que virou celebridade, ganhou e gastou muito dinheiro com as drogas, cheirou pequenos picos do “Everest” de cocaína e freqüentou as manchetes policiais cariocas...

O filme de Mauro Lima é mais uma obra de referência do novo cinema brasileiro. Tecnicamente bem produzido, com atuações marcantes de Selton Melo (um dos melhores atores brasileiros) e da bela Cléo Pires, com pontas de nomes conhecidos do cinema e televisão brasileiros, como Cássia Kiss, André de Biasi, Júlia Lemmertz e a veterana Eva Todor, “Meu nome não é Johnny” é um filme de grandes e dolorosas lições. Não deixem de assistir!

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Para Refletir

1. A pré-adolescência e a adolescência são fases cruciais do crescimento e da maturação dos seres humanos. Quase todos nós sabemos disso ou pelo menos já ouvimos alguém falar isso. Mesmo assim, é bastante comum que os pais relaxem os cuidados que tinham com seus filhos quando ainda crianças quando eles atingem os 12, 13 ou 14 anos. Pensam que eles devem se virar em tudo, ou seja, que já sabem ou conseguem distinguir os melhores caminhos a seguir apesar da pouca idade... É claro que não advogo aqui a idéia de que nessa faixa etária esses adolescentes devam ser tratados como crianças, mas a transição para as responsabilidades e compromissos do mundo jovem e adulto é gradual. Nesse sentido a presença, o monitoramento e a cobrança dos pais ainda são de fundamental importância. Se nos desligamos e abrimos mão de um acompanhamento das atividades e relacionamentos de nossos filhos, não é difícil que novas histórias como a de João Guilherme Estrela venham a acontecer...

2. O papel da escola no que se refere às drogas é de essencial importância. Cabe aos educadores informar e trabalhar com responsabilidade as informações sobre o uso das drogas e os malefícios que isso acarreta para o organismo humano. Projetos de pesquisa sobre o tema devem prever o contato com profissionais da saúde especializados que possam dar orientações, agentes de segurança pública que possam informar sobre as conseqüências, ex-viciados para narrar suas histórias nesse inferno revolto... O trabalho das escolas deve ser realizado em parceria com as famílias e, de preferência, ter o apoio de instituições de saúde. Além da prevenção, compete às escolas informar os pais em caso de constatação de mudança de hábitos que indiquem o possível uso de drogas por parte de qualquer aluno.

3. Prevenir e informar sobre as drogas são ações importantes, mas compete também às autoridades públicas, aos educadores e aos familiares promover o surgimento de atividades culturais, esportivas e de lazer que sirvam como opções para que as crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens não fiquem ociosos e que, dessa forma se tornem alvo da ação de traficantes. Oficinas culturais, escolinhas de esporte, clubes de leitura, aulas de música, cursos de dança e qualquer atividade dessa natureza dão aos participantes melhor saúde, mais conhecimento, disciplina e os afastam dos perigos dos tóxicos.

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Ficha Técnica

MEU NOME NÃO É JOHNNY

País/Ano de produção: Brasil, 2008
Duração/Gênero: 128 min., Drama
Indicação Etária:14 anos
Direção de Mauro Lima
Roteiro de Mariza Leão e Mauro Lima, baseado em livro de João Guilherme Estrela
Elenco: Selton Mello, Cléo Pires, Julia Lemmertz, Cássia Kiss, André de Biasi, Eva Todor, Rafaela Mandelli, Ângelo Paes Leme, Giulio Lopes, Orã Figueiredo, Flávio Bauraqui.

Links
http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=13674
http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_Filme.aspx?id_filme=5850&aba=detalhe
http://www.adorocinema.com/filmes/meu-nome-nao-e-johnny/meu-nome-nao-e-johnny.asp

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João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1204

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