22 de nov de 2008

Maria Cheia de Graça

“Mulas” carregadas de drogas chegam aos EUA

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Como entrar nos Estados Unidos se você é nascido num país latino-americano? De que forma atingir o sonho de cruzar as fronteiras que separam a vida pobre e sem perspectivas das atrasadas nações da América do Sul e a prosperidade e riqueza do modo de vida americano? Quantas pessoas não pensam cotidianamente em deixar para trás as desilusões de suas vidas simples para se fixar em definitivo nas terras do Tio Sam?

E do que seriam capazes pessoas que alimentam desejos como esse? É pouco provável que você desconheça histórias de imigrantes ilegais que tentaram cruzar as linhas divisórias que separam o México e os Estados Unidos e acabaram presos em cadeias americanas ou deportados para seus países de origem.

Há também relatos de indivíduos que tentaram atingir a costa da Flórida a partir de suas pátrias caribenhas em pequenas e improvisadas embarcações, principalmente provenientes da ilha de Cuba e da ditadura socialista de Fidel Castro.

Outra forma comum de conseguir alçar vôo e chegar aos aeroportos das grandes cidades norte-americanas é a partir da associação feita entre jovens sem perspectivas em seus países e traficantes de drogas.

Nessa “parceria” os “chicos” e “chicas” de países como a Colômbia, a Venezuela, o Equador ou qualquer outra pátria cucaracha oferecem seus corpos como invólucro onde serão depositadas algumas dezenas de embalagens contendo cocaína ou outros tóxicos em troca de passagens e algum dinheiro para ingressarem nos States...

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Esses jovens são conhecidos internacionalmente como “mulas”. Arriscam-se a serem capturados e aprisionados para ganhar dinheiro fácil ou então um “visto” de entrada ilegal emitido pelos traficantes rumo a cidades como Nova Iorque, Los Angeles, San Francisco ou Chicago.

Transformam seus corpos em perigosas bombas-relógio já que os pacotinhos que contém as drogas podem estourar a qualquer momento. Não são incomuns os casos em que isso aconteceu e que as pessoas acabaram morrendo muito rapidamente.

Os traficantes, por sua vez, perpetuam esse ciclo alternando apenas as pessoas que realizam esse intrincado intercâmbio internacional de mercadorias ilícitas. Para evitar maiores suspeitas trocam também os aeroportos de onde embarcam as “mulas”, modificam os locais de entrada (trocando as cidades para onde se destinam as drogas) e, em alguns casos, trocam os jovens rostos usualmente utilizados por pessoas mais velhas.

Dessa forma sacrificam não apenas seus cúmplices no tráfico internacional de entorpecentes, mas também mantém mercados cativos de escravos do vício abastecidos e promovem a deterioração da qualidade de vida dessas pessoas e de suas famílias. O tráfico de drogas não apenas trucida os viciados, as conseqüências e seqüelas se estendem aos seus familiares e a toda a sociedade.

Maria Cheia de Graça é mais um ótimo filme produzido pela recente safra de cineastas latino-americanos. Através dessa produção nos é apresentada a saga de Maria, uma jovem colombiana que se torna “mula” ao ser iludida pelos ganhos rápidos e “fáceis” que poderia obter ao levar cocaína para os Estados Unidos.

O contraponto as fraquezas e ao fracasso de Maria e de tantos jovens que se unem ao tráfico é justamente o sucesso e o vigor que vemos no novo cinema latino-americano. O que se espera é que num futuro muito próximo possamos atestar a vitória da criatividade, da inteligência e do trabalho honesto nos países latinos sobre a contravenção, a dor e os dólares ilícitos obtidos pelos traficantes e suas pobres mulas...

O Filme

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Maria (Catalina Sandino Moreno) é uma jovem funcionária de uma firma que produz, embala e vende flores em seu país. A firma em que trabalha é um negócio pequeno, numa cidade interiorana de pouca expressão, onde a principal atividade econômica é justamente a produção de flores. Suas perspectivas quanto ao futuro são pouco promissoras...

Para piorar ainda mais sua situação, Maria fica grávida e em seguida briga com seu chefe, sendo despedida. Seu namorado não aceita a gravidez e sua família a pressiona quanto ao salário que deixou de ganhar e que ajudava a manter as contas e o orçamento doméstico em dia.

Diante desse quadro, Maria resolve conseguir um novo emprego. Em suas andanças acaba conhecendo um jovem motoqueiro que se interessa por ela. Ao saber de seu infortúnio no emprego ele se oferece para ajudá-la a conseguir um emprego onde poderá auferir bons rendimentos sem fazer muito esforço...

Através desse contato Maria conhece um traficante que a convida para trabalhar com ele. Ele oferece a Maria um bom dinheiro e uma passagem para os Estados Unidos. Em troca ela teria que engolir algumas embalagens contendo cocaína, agüentar algumas horas de viagem sem ir ao banheiro (para não expelir a droga) e entregar a carga para os contatos do traficante em Nova Iorque.

Dinheiro fácil por um serviço que oferece alguns riscos. Embalada por essa ilusão ela aceita e parte para uma aventura que todos os dias se repete em vários aeroportos do mundo. Será que ela conseguirá? Qual poderá ser o seu destino? Sobreviverá a essa trágica rota que a vida lhe reservou?

Maria Cheia de Graça conseguiu prêmios internacionais, conquistou a crítica e o público e traz a tona um dos grandes dramas dos pobres países latino-americanos. Espero que também conquiste você...

Para Refletir

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1 - Que tal iniciar uma discussão sobre o filme Maria Cheia de Graça a partir do cartaz de divulgação dessa obra cinematográfica. Faça isso antes mesmo de apresentar o longa-metragem aos alunos. Por que estou sugerindo isso? Basta dar uma boa olhada no pôster e perceber que há uma jovem moça (Maria, a protagonista do filme) a olhar para cima onde se vê uma mão que está lhe dando um objeto branco que a primeira vista pode ser confundido com uma hóstia. A fotografia em questão nos induz a pensar, a princípio, como também pode se supor a partir do título, que a temática do filme gira em torno da religiosidade cristã. O que será que pretendem os produtores com essa proposição? Provoque seus alunos com essa proposta inicial e veja quais são as respostas, pode ser um belo início de trabalho...

2 - Proponha na escola que seja feito um projeto envolvendo professores de diferentes disciplinas acerca da questão das drogas. Procurem informações a respeito dos efeitos provocados pelo uso de entorpecentes no organismo humano, façam um levantamento das leis de combate ao tráfico, verifiquem as rotas internacionais de venda de drogas, descubram histórias verídicas que comprovem a desgraça das drogas, assistam outros filmes (como o já clássico Christiane F.), leiam livros e artigos sobre o tema e, depois de tudo isso, proponham uma discussão com a comunidade sobre esse assunto. Precisamos buscar soluções. Temos que vencer essa guerra...

3 - Promovam palestras e encontros com profissionais da saúde, pessoas que trabalhem em clínicas de apoio e recuperação de drogados ou ainda viciados que tenham conseguido superar o drama em que viviam. Relatos e experiências são retratos vívidos que ajudam os jovens alunos a entender melhor as duras, cruéis e tristes repercussões dos tóxicos na vida das pessoas.

4 - Não deixem de trabalhar também com os jovens as chamadas drogas lícitas e socialmente aceitas, ou sejam, o álcool e o tabaco. Sempre que falamos de tóxicos imediatamente voltamos nossos olhares para a maconha, a cocaína, a heroína ou o crack (entre outras) e nos esquecemos de ressaltar que muitas vezes os vícios são estimulados a partir de nossas próprias casas e exemplos, com o consumo de bebidas alcoólicas ou o uso de cigarros...

Ficha Técnica

Maria Cheia de Graça
(Maria, Llena eres de Gracia)

País/Ano de produção: Colômbia/EUA, 2004
Duração/Gênero: 101 min., Drama
Direção de Joshua Marston
Roteiro de Joshua Marston
Elenco: Catalina Sandino Moreno, Yenny Paola Vega,
Virginia Ariza, Johanna Andrea Mora, Wilson Guerrero,
John Alex Toro, Guilied Lopes, Patrícia Rae.

Links

http://www.adorocinema.com.br/filmes/maria-cheia-de-graca/maria-cheia-de-graca.asp

http://www.cinemaemcena.com.br/cinemacena/crit_editor_filme.asp?cod=4018

http://parceiros.cineclick.com.br/criticas/index_texto.php?id_critica=9012

http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=9916

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João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=586

Um comentário:

Clodomiro disse...

Excelente análise, parabéns. O filme realmente é muito bom e retrata não só a história de Maria, mas sim a de várias Marias.