O filme de hoje no Projeto Cinema no Caldeirão é o " Crianças Invisíveis" que é uma produção encomendada pela Unicef e realizada pelas mãos hábeis de oito diretores consagrados de diferentes nacionalidades. Nomes como os do inglês Ridley Scott e de sua filha Jordan Scott, da brasileira Katia Lund (co-diretora de Cidade de Deus), do norte-americano Spike Lee, do chinês John Woo, do italiano Stefano Veneruso, do bósnio Emir Kusturica e do argelino Mehdi Charef emprestam sua visão para essa obra imperdível.
Esse filme é uma ode ao otimismo! O filme “Crianças Invisíveis” é um misto de documentário, com romance, com motivação e denúncia. Tudo junto! Realmente um filme que nos coloca em várias realidades vividas por crianças de várias parte do mundo. Realidades de Guerra Civil, de abandono, de injustiça social e de inocência. Ele não é um filme piegas que fica colocando a criança como coitadinha, mas é um filme que nos leva a ver como a criança tem grandes vantagens sobre nós adultos!
Vocês tem que assistir este filme para entender como enfrentar demandas cotidianas com a inocência de uma criança! No entanto, as crianças (principalmente as deste documentário) tem uma enorme vantagem sobre nós: como elas não tem capacidade de planejar o futuro elas vivem o presente intensamente. Elas não se rendem aos desafios do presente. Elas resistem e reinam sobre o presente porque não pensam nas coisas do futuro. Vivem um dia de cada vez. Não se lamentam, mas reagem para viver. Incrível! Este vídeo me deixou muito empolgado e creio que vai deixar você também!
Crianças Invisíveis é uma produção encomendada pela Unicef e realizada pelas mãos hábeis de oito diretores consagrados de diferentes nacionalidades. A realidade dos continentes tem recortes de suas crianças transpostos para as telas a partir do olhar sensível e diferenciado de nomes como os do inglês Ridley Scott e de sua filha Jordan Scott, da brasileira Katia Lund (co-diretora de Cidade de Deus), do norte-americano Spike Lee, do chinês John Woo, do italiano Stefano Veneruso, do bósnio Emir Kusturica e do argelino Mehdi Charef.
Há, evidentemente, para cada diretor uma produção. O filme é, então, uma colcha de retalhos que nos coloca a cada momento num paralelo específico, a observar o que está acontecendo, nesse exato momento, com algumas crianças em seus respectivos países/continentes. A qualidade dos trabalhos é marcada pela instabilidade. Mesmo levando-se em conta o currículo recheado dos cineastas que estão envolvidos no projeto, alguns filmes são melhores e mais tocantes enquanto outros parecem carecer de um pouco mais de brilho e empenho de seus realizadores.
Há histórias que nos atingem mais profundamente e nos fazem sentir a dura realidade das crianças ali retratadas como se estivéssemos no lugar delas. Outras são um pouco mais frias e distantes, mas também se prestam a denunciar irregularidades, erros, descaminhos e problemas que abreviam a infância e forçam muitas e muitas crianças a amadurecer prematuramente às custas de grandes sofrimentos.
Sem patriotadas é possível definir o filme de Kátia Lund como a melhor realização entre os curta-metragens que compõem Crianças Invisíveis. Parecemos caminhar pelas ruas de São Paulo ao lado das crianças que protagonizam o filme. Cada detalhe das ruas paulistanas parece muito familiar aos espectadores brasileiros, mesmo para aqueles que moram no Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte ou Recife.
O episódio de John Woo confronta a infância rica e a pobre da China contemporânea.
A decepção maior fica por conta do trabalho do oscarizado Ridley Scott, em parceria com sua filha Jordan Scott. A Grã-Bretanha dos Scott não nos parece real, como também as crianças que ali aparecem. O projeto poderia ter uma resposta melhor se a questão das minorias étnicas fosse o foco do projeto de cineastas europeus como Scott. Questões primordiais relativas a esse tema têm sido discutidas em nações prósperas e socialmente bem estabelecidas como a França, a Alemanha e a própria Inglaterra e seriam enriquecedoras caso incluídas no filme.
O filme sobre a Itália também decepciona e se mostra frágil em seus argumentos ao destacar a marginalidade dos adolescentes e seu envolvimento com cigarros e drogas ilícitas. Seria possível explorar dentro do universo europeu o envelhecimento de sua população e a solidão das crianças que vivem em países com PIB elevado e seguridade social garantida. Que infância têm esses meninos e meninas?
A inclusão da África e de suas guerras civis, o episódio norte-americano falando sobre a exclusão a que estão submetidos os aidéticos (com um olhar particularmente devotado a comunidade negra, bem ao estilo de Spike Lee), os reformatórios na Bósnia-Herzegovina e na Sérvia a nos colocar em contato com as crianças marginalizadas e violentas (o que pode nos fazer lembrar da Febem...) e o contraste da infância rica e da pobre na China dos novos tempos (num ótimo trabalho de John Woo) nos permitem uma ampla e interessante visão global da infância perdida.
Ficamos órfãos, no entanto, de uma voltinha pela Oceania, pelos cantos do Oriente Médio, de tão competentes cineastas, e pelas cercanias da Índia (e sua prolífica Indústria Cinematográfica, que poderia nos legar capítulos interessantes nesse volume). Quem sabe essas histórias não ficaram para uma nova e necessária versão do filme, uma continuação que valeria a pena fazer...
Precisamos abrir os olhos e dar mais atenção a essa infância desperdiçada, violentada e desesperançada. Tem nos faltado a devida sensibilidade para que essa nobre causa ganhe mais e mais defensores em todo o planeta. O filme certamente queria abrir não só os nossos olhos, mas também os nossos corações,...
Ao desnudar São Paulo e seus caminhos tortuosos acompanhamos as crianças que vivem pelas ruas das metrópoles brasileiras ao lado da cineasta Kátia Lund num belo e sensível retrato da infância perdida em nosso país.
O Filme
Os morros africanos nos introduzem nas mazelas das crianças e nos transportam para as disputas políticas que geram as guerras civis africanas. Crianças travestidas de soldados que se escondem no meio de plantações à espreita de soldados que representam ditadores e opressores que controlam tudo a mão de ferro. O medo não parece acompanhar os meninos. O ódio, por sua vez, é ingrediente que nutre cada um de seus passos sem lhes dar um só instante de trégua...
Como num passe de mágica, que só o cinema nos permite, viajamos milhares de quilômetros e atravessamos o Atlântico para chegar às ruas da Grande São Paulo. Acompanhamos os passos de duas crianças pelas ruas da opressora metrópole. Catadores de papelão, latinhas e sucatas em geral, os irmãos João e Bilú, sofrem com o trânsito, a disputa por espaço em seu “mercado de trabalho”, a violência e o desdém com que são tratados por tantas pessoas e até mesmo com o clima e a poluição. Tudo isso sem perder a esperança, a fé e o bom humor...
Do norte do continente migramos para os bairros de Nova Iorque. Não é o lado rico e charmoso da cidade que nos acolhe. São os bairros mais simples, que para muitas cidades do mundo pobre seriam considerados até mesmo privilegiados diante da tamanha miséria em que vivem. Dentro de um desses apartamentos acompanhamos a triste realidade de uma menina aidética e de seus pais viciados. Há luz no fim do túnel para essas pessoas?
Da América vamos para a Europa, chegamos num reformatório Bósnio. Meninos que burlaram a lei estão todos reunidos sob a tutela de um pretenso educador/diretor de instituição correcional. Será possível reverter a história desses meninos marginalizados pela sociedade e pelos desmandos de suas próprias famílias?
A África das guerras civis que transformam meninos em soldados também está presente em “Crianças Invisíveis”. Onde está o Oriente Médio? E a Índia?
Ainda na Europa passeamos pela Inglaterra e os traumas das crianças que sobrevivem às guerras na orfandade. Com os pais mortos nos conflitos e a economia de seus países arruinada pelas bombas lançadas dos céus, que destino existe para essas crianças e adolescentes?
Na Itália o nosso foco passa a ser o desvio provocado pelos vícios e pela desestruturação familiar. Crianças, pré-adolescentes e adolescentes que perambulam pelas ruas atrás de vítimas distraídas que possam ter suas carteiras furtadas ou relógios caros roubados. De suas rápidas desventuras surge o necessário dinheiro para pagar os vícios do cotidiano...
O episódio mais tocante fica, porém, para o final. Para tanto migramos para a China. A opulenta economia chinesa e seus altos índices de crescimento nos colocam em contato com uma emergente parcela de sua sociedade que tem automóveis de luxo, casas amplas e dinheiro suficiente para comprar muitos brinquedos para suas crianças. Do outro lado da cidade, em casebres lúgubres que nos lembram os cortiços de Aluísio de Azevedo, vivem milhões de pessoas que lutam somente para sobreviver. Sua busca não é pela riqueza, mas pelo pão de cada dia. Entre elas há muitas crianças...
Cada história traz várias imagens fortes. A tristeza no rosto das crianças é uma das mais marcantes. Nos diferentes países há uma evidente amargura expressa na face desses menores. Apesar disso o que mais me tocou com profundidade foram as lições de esperança dos protagonistas das histórias brasileira e chinesa. Seus exemplos e otimismo parecem nos dizer que ainda dá tempo de virar o jogo.
Apesar da irregularidade dos episódios, Crianças Invisíveis é um gol de placa da Unicef. Pena que a distribuição do filme nos cinemas e nas locadoras tenha sido tão restrita. Temos que levar a produção para as salas de aula e despertar nossos alunos para o flagelo que devora as infâncias de tantas e tantas crianças mundo afora...
A aids que atinge as crianças em virtude da contaminação de seus pais viciados ou promíscuos também é tema de“Crianças Invisíveis”. O que está sendo feito para resgatar essas crianças?
Para Refletir
1- Apresente o filme a seus alunos. Depois disso inicie uma discussão com os estudantes sobre a infância. O que é? Como deve ser vivida? De que forma pode ser feliz? Quais são as histórias da infância de cada um deles? O que foi inesquecível (pontos positivos e negativos)? Faça gravações das conversas e debates para criar um arquivo. Transforme esses depoimentos em textos. Promova o surgimento de um Site, Blog ou Fotoblog sobre o tema.
2- Leiam a declaração universal dos direitos das crianças e adolescentes. Comparem com o filme. Façam uma atualização dos itens previstos nessa declaração. O que poderia ser reformulado? Como melhorar esse documento? Elaborem um documento da escola sobre o assunto.
3- Estimule os alunos a conhecer projetos de ONGs que se articulam em favor de crianças desfavorecidas. Verifiquem com as autoridades públicas o que está sendo feito em favor dessas crianças abandonadas a própria sorte em sinais de trânsito, sem escola, a mendigar ou que são exploradas no trabalho escravo. Mexam-se, não há tempo a perder...
4- Depois de discutir o tema, busque fomentar ações que modifiquem a triste realidade da infância, ao menos em sua comunidade. Arregimente seus alunos e crie forças-tarefa para visitar bairros menos favorecidos ou orfanatos; arrecadem alimentos, roupas ou remédios para doar; cedam parte de seu tempo para ajudar essas crianças/adolescentes. Muitas vezes a presença, as palavras e a atenção são os ingredientes vitais para que vidas possam ser salvas...
Ficha Técnica
Crianças Invisíveis (All the invisible children)
País/Ano de produção: Itália, 2005 Duração/Gênero: 116 min., Drama Direção de Kátia Lund, Spike Lee, Ridley Scott, Jordan Scott, Stefano Veneruso, John Woo, Mehdi Charef e Emir Kusturica Roteirosde Mehdi Charef, Diogo da Silva, Stribo Kusturica, Kátia Lund Cinqué Lee, Joie Lee, Spike Lee, Qiang Li, Stefano Venerusco, Jordan Scott Elenco: Francisco Anawake, Maria Grazia Cucinotta, Damaris Edwards, Vera Fernandez, Hazelle Goodman, Hannah Hodson, Zhao Ziann, Wenli Jiang, David Thewlis, Jake Ritzema, Kelly Mcdonald, Rosie Perez, Andre Royo, Qi Ruyi, Lanette Ware.
João Luís de Almeida Machado Editor do Portal Planeta Educação; Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Bela Crônica Extraída do Jornal Metro Point, São Paulo, terça, 27 de janeiro[ link ]
À Paulista
Carroças
A carroça para ao lado do carro. Restos de ferro velho retorcido, papelão, latinhas de alumínio. Um cavalo e o ágil condutor, camisa do futebol espanhol modelo piratão do camelódromo e a coragem desafiando o trânsito urbano em algum subúrbio do Rio de Janeiro. Uma imagem perdida no tempo. Carroças puxadas por um cavalo ou até mesmo um jumento.
Carroças que andam por entre veículos moderníssimos e seus quatro airbags e DVD embutido. Carroças como as de antigamente, andando pelas ruas cheias de monóxido de carbono. Estamos no século 21 e as carroças também. Pode ser na quebrada de alguma marginal, pode ser perto do Ceagesp, carroças carregadas de frutas. Em extinção. Mas elas ainda estão por aí, pelas cidades. Não é cena corriqueira, mas no Rio, na zona norte e na oeste, a gente ainda vê. Em São Paulo, me digam vocês.
Podem estar pelas ruas do Recife ou de Juiz de Fora. Li no jornal dia desses que em alguma metrópole se não me falha a memória, Porto Alegre o governo pretendia criar regras para abolir, em uma década, todas as carroças do trânsito da cidade. E assim, triste e melancolicamente, todos os carroceiros também.
Neste final de semana, li uma crônica de Jorge Luis Borges sobre inscrições em coches - nossas carroças - na antiga Buenos Aires, parte das memórias do seu bairro de infância. E aqui reproduzo um pequeno trecho, se me permitem. Importa que meu leitor imagine um coche.
Não custa imaginá-lo grande, as rodas traseiras mais altas que as dianteiras, como se fosse reserva de força, o cocheiro crioulo robusto como a construção de madeira e ferro em que esta, os lábios distraídos num assobio ou com ordens paradoxalmente suaves aos cavalos puxadores as parelhas seguidoras e a montaria dianteira (proa insistente para os que precisam de comparação).
Carregado ou não dá no mesmo, salvo que voltando vazio está menos preso a seu uso e mais entronizada à boléia, como se a conotação militar que os coches tiveram no império de Átila permanecesse nele. no mesmo final de semana rural, revi “Crianças Invisíveis” ( >> trailer AQUI ), filme composto de pequenos curtas sobre a infância em diversos países.
Entre eles, o nosso, com um delicado (e um dos melhores) episódio de Kátia Lund, que conta a história de duas crianças em São Paulo catadoras de material para reciclagem. Bilu e João, que decidem alugar uma carroça e sair por aí, recolhendo tudo. Sem cavalo, nem jumento. Só eles mesmos e a carroça. E a cidade de São Paulo, toda ali, toda linda, toda confusa, toda cruel. Jô Hallacké jornalista e escritora. Ama São Paulo, mas ainda prefere morar no Rio.