7 de fev de 2009

Os Invisíveis da Modernidade

Bela Crônica Extraída do Jornal Metro Point,
São Paulo, terça, 27 de janeiro [ link ]

À Paulista

Carroças

A carroça para ao lado do carro. Restos de ferro velho retorcido, papelão, latinhas de alumínio.
Um cavalo e o ágil condutor, camisa do futebol espanhol modelo piratão do camelódromo e a coragem desafiando o trânsito urbano em algum subúrbio do Rio de Janeiro. Uma imagem perdida no tempo. Carroças puxadas por um cavalo ou até mesmo um jumento.

Carroças que andam por entre veículos moderníssimos e seus quatro airbags e DVD embutido.
Carroças como as de antigamente, andando pelas ruas cheias de monóxido de carbono. Estamos no século 21 e as carroças também. Pode ser na quebrada de alguma marginal, pode ser perto do Ceagesp, carroças carregadas de frutas. Em extinção. Mas elas ainda estão por aí, pelas cidades.
Não é cena corriqueira, mas no Rio, na zona norte e na oeste, a gente ainda vê. Em São Paulo, me digam vocês.

Podem estar pelas ruas do Recife ou de Juiz de Fora. Li no jornal dia desses que em alguma metrópole se não me falha a memória, Porto Alegre o governo pretendia criar regras para abolir, em uma década, todas as carroças do trânsito da cidade. E assim, triste e melancolicamente, todos os carroceiros também.

Neste final de semana, li uma crônica de Jorge Luis Borges sobre inscrições em coches - nossas carroças - na antiga Buenos Aires, parte das memórias do seu bairro de infância. E aqui reproduzo um pequeno trecho, se me permitem. Importa que meu leitor imagine um coche.

Não custa imaginá-lo grande, as rodas traseiras mais altas que as dianteiras, como se fosse reserva de força, o cocheiro crioulo robusto como a construção de madeira e ferro em que esta, os lábios distraídos num assobio ou com ordens paradoxalmente suaves aos cavalos puxadores as parelhas seguidoras e a montaria dianteira (proa insistente para os que precisam de comparação).

Carregado ou não dá no mesmo, salvo que voltando vazio está menos preso a seu uso e mais entronizada à boléia, como se a conotação militar que os coches tiveram no império de Átila permanecesse nele. no mesmo final de semana rural, revi “Crianças Invisíveis” ( >> trailer AQUI ) , filme composto de pequenos curtas sobre a infância em diversos países.


Entre eles, o nosso, com um delicado (e um dos melhores) episódio de Kátia Lund, que conta a história de duas crianças em São Paulo catadoras de material para reciclagem. Bilu e João, que decidem alugar uma carroça e sair por aí, recolhendo tudo. Sem cavalo, nem jumento. Só eles mesmos e a carroça. E a cidade de São Paulo, toda ali, toda linda, toda confusa, toda cruel.

Jô Hallack é jornalista e escritora. Ama São Paulo, mas ainda prefere morar no Rio.

" MEU TRABALHO É HONESTO, E O SEU ? "

[ Link Foto ]


Fonte: http://metropoint.metro.lu/20090127_MetroSaoPaulo.pdf

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