7 de mar de 2009

Projeto Cinema no Caldeirão - 07/03

Olá Amigos

O filme escolhido hoje para o projeto Cinema no Caldeirão é o "Encontrando Forrester" do fantástico, polêmico e talentosíssimo diretor Gus Van Sant, o mesmo diretor de outros filmes igualmente polêmicos como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de Programa" entre outros.

O papel Sean Connery como mestre norteador e F. Murray Abraham como o professor preconceituoso e arrogante já valem a indicação do filme. O enredo do filme está basicamente estruturado sobre três personagens.

O primeiro é Jamal Wallace, um negro de dezesseis anos que mora no Bronx e que se dedica a jogar Basquete. Aluno de escola pública, Jamal recebe uma bolsa para estudar em um colégio freqüentado pelas elites, em Manhattan.

O segundo é William Forrester, escritor consagrado pela crítica e pelo público após publicar seu primeiro e único livro. Desiludido com a incompreensão da sua obra, Forrester desenvolve uma fobia social, isola-se em seu apartamento, também no Bronx, onde divide espaço com os livros que lê.

O terceiro é Crawford, professor de literatura na escola de Manhattan, e escritor frustrado. Destes três personagens, o único negro é Jamal; Forrester e Crawford são brancos.

Jamal Wallace, como já dissemos, é negro, pobre e mora no subúrbio de Nova York. Seus amigos são também negros e pobres, identificados com a cultura do Bronx e empregam o tempo ocioso jogando basquete de rua, esporte em que se destaca Jamal. No filme a bola de basquete parece imantada às mãos de Jamal, e serve como elo entre este e sua cultura de origem. No entanto, o personagem é profundo conhecedor de literatura e língua inglesa, e deseja também ser um escritor de qualidade. Sua postura identitária é permanentemente conflituosa: da mesma forma como se reconhece um negro pobre do Bronx, necessita se fazer aceito junto aos brancos. Jamal deseja ser reconhecido como igual entre os brancos.

No outro extremo temos o professor de literatura Crawford, um escritor frustrado e reconhecido pelos seus alunos como autoritário e vingativo. Crawford assumirá para si a função de preservar uma suposta pureza cultural, representada no filme pela literatura.

Como outro personagem temos o escritor William Forrester. Forrester publicou apenas um romance, no entanto, é um autor consagrado pelo público e pela crítica. Apesar de todo o seu sucesso, resolve se recolher a uma vida solitária em seu apartamento, no alto de um velho prédio, também no Bronx. Seu único contato com o mundo exterior é através do seu secretário, e da janela do seu apartamento, Forrester tem a visão da quadra onde Jamal e seus amigos jogam basquete. O filme retrata o escritor através de um clássico clichê: o artista anti-social e quase inatingível. É este o caso de William Forrester: o escritor amargurado que despreza seus leitores e escreve para suprir uma necessidade pessoal, alcoólatra, sociofóbico e que mora no alto de uma torre.

A discussão que o filme propõe a respeito da literatura e da figura do escritor é vasta, e não há espaço para discutirmos aqui. Cabe-nos sim observar que a despeito de toda a sua introspecção, Forrester tem a função de facilitar o diálogo entre Jamal e a cultura do "outro", representada, neste caso, pela literatura e pela aceitação plena no colégio em Manhattan. É o escritor que convida Jamal para entrar em seu apartamento, é ele que propõe o diálogo através da leitura crítica dos textos do adolescente que almeja escrever bem; sua função é mediar dois mundos, tornando possível o trânsito de Jamal por estes, ou seja, cabe a William Forrester o papel de mestre.

Ao contribuir com a resolução do impasse entre Jamal Wallace e Crawford, entre protagonista e antagonista, Forrester também se transforma, também cede em suas posições, também recicla sua subjetividade. Tanto Jamal quanto Forrester, por aceitarem o diálogo, posicionam-se em áreas fronteiriças. No caso destes dois personagens, a identidade pode ser compreendida enquanto fronteira, o que não acontece com o professor Crawford; que está enraizado em seus preconceitos e, assim, este personagem é o único que não se desenvolve, terminando ultrapassado e desmoralizado.

Assim, o que o filme Encontrando Forrester propõe é justamente a importância do diálogo interétnico, e a compreensão de que identidades são constituídas na mobilidade, e móveis devem permanecer. Proposta interessante para um tempo de pouco dialogo entre os seres humanos e aos fantasmas da xenofobia, sempre presentes.

A relação entre criador e criatura não é nada profunda, no começo. Os diálogos dos dois são o forte do filme. "Essa não é uma pergunta sobre sopa" é o código usado por eles, quando a pergunta era de cunho mais pessoal. O mais rico do filme “Encontrando Forrester” parte de uma relação entre dois indivíduos antagônicos, que dividem o amor pela literatura e pela arte de escrever. Jamal vê seus trabalhos revisados pelo ilustre autor e a medida em que os encontros entre mestre e aprendiz ocorrem, tanto se desperta uma amizade inusitada, na qual Jamal encontra um guia para ajudá-lo a desenvolver seu talento, como Forrester também encontra ajuda para se libertar da sua condição de ermitão.

A produção realça a amizade dos personagens, a importância da presença de Jamal na reclusão de Forrester. Ele acreditava que tudo já estava definido em sua vida, que não havia mais nada a ousar. Por isso, ''Encontrando Forrester'' emociona. E como.

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

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