15 de jan de 2009

O mito do apartheid digital

"A tecnologia da informação começa a ser o caminho mais econômico para o estudante pobre, que não tem dinheiro para comprar livro, e por isso procura ler na tela do computador"

Quando falamos da "brecha digital", separando os pobres dos ricos, é preciso cautela para não generalizar. Há logo um contra-exemplo. Na telefonia é o contrário. O rico tem telefone fixo, que é analógico. O pobre tem o celular, que é digital.

Mas está aparecendo outra inversão que, além de surpreender, é crítica para o futuro da educação. Visitei um curso de tecnólogo em administração na periferia de São Paulo. Dificilmente se encontraria no Brasil um curso superior cuja clientela tenha uma origem social mais modesta.

Em uma sala de aula, com mais de trinta alunos, perguntei quantos não tinham acesso a computador, fosse em casa ou no trabalho. A resposta surpreendeu, pois apenas um não tinha.

Ilustração Ale Setti


Discutindo a resposta, os estudantes enfaticamente mencionaram sua importância. Insisti na pergunta: por que o computador seria tão importante? A nova resposta foi ainda mais inesperada. Afirmaram que o computador era vital, pois, sendo eles muito pobres, não podiam comprar livros. As obras requeridas para fazer o curso estavam acima de sua capacidade financeira. Se tirassem cópias dos capítulos que necessitam, fariam alguma economia, mas não tanta.

Em outras palavras, com a disponibilidade crescente de leituras na internet ou em bibliotecas virtuais, o computador está se tornando uma forma de acesso mais viável do que os materiais impressos (além de ter outros usos). Note-se que, segundo o Exame Nacional de Avaliação de Desempenho dos Estudantes (Enade), 92% dos alunos do ensino superior têm acesso a computador (mas só dois terços o possuem).

Os estudantes de maiores posses compram livros e podem tirar fotocópias. Mas os mais modestos não podem se permitir tais luxos. Se tiverem acesso a impressoras, poderão imprimir o que encontram na internet. Entretanto, os cartuchos das impressoras são caros, e eles acabarão gastando o mesmo que em livros ou xerox. Portanto, a solução mais econômica é ler na tela do monitor.

Cada vez mais, torna-se possível encontrar no mundo labiríntico da internet leituras requeridas nos cursos superiores com menor risco de chafurdar e se perder na babel de informações pouco filtradas e de qualidade duvidosa.

Do lado do papel, há um círculo vicioso. Os livros do ensino superior têm tiragens limitadas. Pior: alguns são enormes, grandes demais para ser estudados de ponta a ponta. Por tais razões, os livros são caros. Sendo caros, poucos os compram – nem sequer as bibliotecas possuem recursos para escapar da mediocridade de seus acervos e oferecer um número suficiente de exemplares.

E não há mais de um exemplar na biblioteca dos artigos de periódicos indicados na bibliografia. A solução é a cópia do artigo pelo aluno. Mas é caro. E, para evitar pecados contra os direitos de propriedade intelectual, o leitor tem de ser o próprio copista.

Para os que podem, o papel é o luxo de consumo. Para os que só conseguem acesso a um computador, a solução digital é a mais barata. É a nova brecha, deixando o rico com a solução analógica (papel) e o pobre com a digital. Espontaneamente, a tecnologia da informação começa a ser o caminho mais econômico. Pobre tem de ler na tela. Muitos não acham confortável. Mas é como o transporte coletivo: chega lá, embora seja menos conveniente.

Haveria como baratear os livros. O governo poderia subsidiar sua compra ou negociar preços melhores. Mas, na prática, nem os livros do ensino médio são oferecidos pelo Estado.

Alunos de faculdade, se têm recursos, gastam por ano o mesmo que custa um computador usado (entre 500 e 800 reais). Portanto, uma linha mais imediata e promissora é barateá-los ainda mais, diante do novo desafio da eqüidade. A nova brecha digital é entre os menos ricos que têm computador e os que não o têm. Os mais ricos não precisam de computador, pois podem comprar livros.

Mas talvez a providência mais urgente seja dar acesso aos estudantes às versões digitais de tudo o que precisam ler na faculdade. Hoje se compra na internet, baratinho, música para o iPod. Por que não se podem comprar, também baratinho, capítulos dos livros indicados?

Cláudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

Um comentário:

Professor Zeluiz disse...

O assunto é palpitante. Não sei quando foi escrito o artigo - deve ser recente -; entretanto, a afirmativa "Mas, na prática, nem os livros do ensino médio são oferecidos pelo Estado." não condiz com a verdade. Há mais de três anos que o PNLD contempla o Ensino Médio. É preciso dizer ainda que a aditiva - nem - grifada por mim na frase do Cláudio é completamente intempestiva.
Viva o debate!
Um grande abraço