3 de fev de 2009

Ensino Médio: MEC quer implodir a escola quadrada

O Brasil será apresentado, esta semana, a um novo modelo de escola pública. A proposta é criar um ambiente capaz de articular conhecimento, ciência e cultura e aproximar a linguagem dos livros do cotidiano. O novo formato do ensino médio será apresentado, depois de amanhã, por uma comissão da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC) e da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo aos ministros Fernando Haddad (Educação) e Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos), em Brasília.

Pelo projeto, o aluno terá a chance de formatar a própria grade de estudos, escolher disciplinas e deixar para trás o método único de aprendizado imposto a todos, que não leva em conta características e aptidões individuais. A idéia é contemplar as necessidades reais dos estudantes e não somente a preparação para o vestibular. Para isso, uma das primeiras providências é deixar os estudantes mais tempo nas salas de aula.

As novas diretrizes curriculares nacionais promoverão, em primeiro lugar, a ampliação da carga horária para além das quatro horas diárias atuais. O ensino em tempo integral é uma das alternativas. A segunda conseqüência é a flexibilização do currículo. A exemplo de outros países, haverá uma base obrigatória, composta por português, matemática, história e literatura, mas será permitido aos alunos escolher o restante das matérias, de acordo com o perfil e as aspirações profissionais, considerando as normas definidas pelos estados, que têm autonomia para estabelecer as próprias bases.

O terceiro ponto, segundo a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, é uma provocação ao país: os deputados não poderão mais aprovar disciplinas obrigatórias à revelia, como foi feito recentemente com música e educação sexual. “Cada sistema deve ter uma base nacional comum, mas, cada vez que o Congresso Nacional torna obrigatória nova matéria na grade, agrega algo mais no ensino médio e, com certeza, o conhecimento fica mais superficial”, afirma.

Experiências com o novo modelo já estão em curso em Pernambuco, Paraná e Tocantins. A implantação em todo o país deve ocorrer gradativamente. O objetivo do ministério é superar as duas vertentes atuais do nível médio. A primeira tem enfoque na formação geral e é considerada um degrau para o curso superior, uma espécie de preparatório para o vestibular. A outra tem ênfase na capacitação profissional e visa à formação técnica no nível médio para o ingresso imediato no mercado de trabalho.

A medida em estudo propõe que as últimas séries da educação básica sejam integradas: formar profissionais a partir de uma carga horária ampliada, articulando conhecimentos voltados para os aspectos generalistas. Assim, o estudante terá assegurada uma base clássica para o vestibular e, ao mesmo tempo, conhecimento direcionado a uma prática profissional à sua escolha. O aluno garantirá a conclusão de uma etapa e avaliará qual é a sua necessidade: continuar os estudos na universidade ou entrar no mercado de trabalho. Maria do Pilar ressalta a importância de não cair na armadilha de fazer uma escola profissional para jovens pobres e a outra para a classe média.

O RAP DO ENSINO

Para ela, também não se pode perder de vista a relação do contexto do aluno com outras áreas do conhecimento. “Se o menino só ouve rap, ele deve continuar escutando (a música) e a escola deve respeitar isso. Deve explicar a origem da música, a ligação dela com o movimento negro nos Estados Unidos, que é um movimento chamado ritmo e poesia e uma expressão de jovens. O rap tem a ver com a cultura urbana e com o protesto. Se o aluno entende isso, o professor pode ensinar sobre outros movimentos de protesto, como a tropicália nos anos 1960 e a luta contra a ditadura”, diz. “Ampliar o universo cultural significa entender o que ele trouxe, saber as raízes, aí a aula de história faz sentido. Eu não consigo trabalhar rap sem trabalhar literatura, que se envolve com o português, nem discutir urbanização sem entrar no conceito de geografia. E, nesse sentido, se a escola for fragmentada por disciplinas que não conversam, a gente não pode fazer esse trabalho com outras áreas”, ressalta.

Fonte: http://www.uai.com.br/em.html

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