19 de out de 2008

Os segredos da cinematerapia

Terapia com poltrona e escurinho
Muito além do entretenimento, o simples fato de assistir a um bom filme pode ajudar a trabalhar emoções, como a ansiedade, a tristeza, a baixa auto-estima e até mesmo a depressão

Foto: Getty Images

Quem nunca se surpreendeu ao se ver irado na sala de cinema, torcendo pelo castigo do vilão? E quem nunca se debulhou em lágrimas quando, finalmente, a mocinha conseguiu se casar com o mocinho no final da trama? Você já teve a estranha sensação de que a história contada nas telas de cinema retratava alguns dilemas da sua vida?

O fato de nos emocionarmos com a trama retratada nas telas é extremamente comum e, atualmente, o cinema é visto pelos psicólogos como um importante instrumento no es
tudo das emoções e tem sido adotado com um auxílio no estudo da psicoterapia.

Mensalmente, o Hospital e Maternidade São Cristóvão, localizado no bairro da Mooca, em São Paulo, realiza uma sessão de cinematerapia em que discute com os participantes alguns aspectos psicossociais, como os comportamentos emocionais e físicos, adoecimentos, tratamentos e até os relacionamentos entre pacientes, familiares e profissionais de saúde.

O psico-oncologista do Hospital e Maternidade São Cristóvão, doutor e
m psicologia da educação e especialista em luto Marcelo Gianini já participou da exibição de 18 filmes, que somam um total de mais de 600 participantes. Os temas abordados variam entre questões familiares, conflitos de geração, envelhecimento, perdas, mudanças e até o luto, o adoecimento, os preconceitos e a espiritualidade.

Desenvolvo essa estratégia para que as pessoas trabalhem cognitivamente sobre uma situação. Elas aprendem a pensar em novas maneiras de agir e isso ajuda na reflexão sobre os padrões comportamentais adotados na atualidade .

Para a psicóloga Walnei Arenque, a técnica é eficaz na medida em que o paciente e o terapeuta discutem no divã quais os pontos do filme marcaram ou revelaram algo de novo no comportamento. A pessoa deve estar atenta às sensações e aos sentimentos que foram despertados ao assistir ao filme. , avisa.

Ela costuma receitar diversas obras cinematográficas a seus pacientes. Com tantas questões de relacionamentos que percebo em meu consultório, recomendo muito o filme Perdas e Danos, dirigido por Louis Malle. No filme, por conta de uma paixão, um homem transforma a sua vida, antes sem graça e estabilizada, trabalhando a figura mítica do pai.

Outra indicação da psicóloga é O Advogado do Diabo, dirigido por Taylor Hackford e estrelado por Keanu Reeves e Al Pacino. Esta obra é uma verdadeira metáfora sobre o excesso de vaidade, tão presente nos tempos atuais , aconselha a psicóloga.

Foto: Getty Images

Muito utilizada nos Estados Unidos, a cinematerapia traz um processo de identificação com o personagem ou com a história e tem por finalidade um encontro do momento visto na tela com o momento vivido na realidade. Ao pôr o agente da história como telespectador, o cinema atua como terapia ao auxiliar pessoas a se distanciarem do fato na vida real, podendo analisar melhor as suas dificuldades e examinar a melhor maneira de superá-las.

O princípio da cinematerapia foi inspirado no teatro grego que, por meio da representação dramática, é capaz de proporcionar uma espécie de libertação emocional. Segundo o filósofo grego Aristóteles, a catarse é o processo no qual o espectador sofre uma descarga de desordens emocionais obtidas através da jornada do herói nas telas e liberta-se de seus conflitos pessoais, revivendo suas experiências e atingindo um estado de tranqüilidade perante a vida.

Para o doutor em psicologia Jacob Goldberg, autor do livro Psicologia em Curta-metragem, assistir a um filme é muito mais do que uma simples distração . Na obra, o autor faz uma análise comportamental de diversos filmes, como Matrix, Dois Filhos de Francisco, O Segredo de Brokeback Mountain, Meu Nome Não é Johnny e Tropa de Elite.

Foto: Getty Images
Goldberg afirma que, ao assistir a uma história contada por meio de um filme, o telespectador deixa o seu mundo repleto de problemas pessoais para viver uma outra realidade, navegando por meio de novas emoções. Desta forma, as pessoas acabam incorporando um personagem em seu dia-a-dia e seguem um roteiro inconscientemente, passando a ser atores de sua própria história. Todo mundo constrói seu filme e ninguém consegue escapar do script , afirma do psicoterapeuta.

No livro Cinematerapia para a alma, da Verus Editora, as autoras Nancy Penske e Beverly West apresentam um novo olhar sobre diversos títulos do cinema clássico e moderno. Dividido em dez partes, o livro traz, em capítulos, uma relação de filmes para você brilhar, para você se reerguer, para encontrar a alma gêmea, entre outros temas, com títulos que vão de Harry Potter a Filadélfia, passando por Frida, O Mágico de Oz e Silêncio dos Inocentes.

Ao assistir a uma obra cinematográfica, a psicóloga Mariza Jorge aconselha o telespectador a ficar atento às suas reações durante a sessão de cinema, observando se fica muito tenso, se chora, ou se fica deprimido ao término do filme. Confira abaixo algumas obras recomendadas pelos psicólogos:

Terapia na telona

As obras cinematografias podem ser úteis ao lidar com emoções como:

Tristeza - o filme Duas vidas, com Bruce Willis no elenco, mostra uma nova maneira de avaliar as escolhas tomadas ao longo da vida, dando motivação para que as pessoas ajam de acordo com seus sonhos.
Outra recomendação é Em Busca da Felicidade, estrelado por Will Smith. Na trama o personagem passa por diversas dificuldades até atingir o seu objetivo, dando um exemplo de perseverança e força de vontade.

Ansiedade - a obra Cidade dos Anjos, com Nicolas Cage e Meg Ryan, apresenta uma trama repleta de romantismo, na qual um homem não mede esforços para viver um amor verdadeiro.

Solidão - vencedor do Oscar de melhor roteiro original Telma e Louise, com Susan Sarandon e Geena Davis, ressalta o valor da amizade, através da aventura de duas amigas que decidem passar um fim de semana nas montanhas do centro-oeste norte-americano. Outra opção é Antes de Partir, com Jack Nicholson, Morgan Freeman e Sean Hayes no elenco. O filme retrata a amizade entre pessoas de personalidades opostas que encontram o valor da vida, ao perceberem que estão com os dias contados.

Baixa auto-estima - também vencedor do Oscar de melhor roteiro original, o filme Pequena Miss Sunshine mostra, com muito humor, como os padrões de comportamento e beleza impostos pela sociedade são efêmeros e ressalta a união de uma família formada por diferentes personalidades que se complementam.


Colaboraram:

Marcelo Gianini
Walnei Arenque
Mariza Jorge
Fone: (21) 3298-9066

Fonte: http://yahoo.guiadasemana.com.br/yahoo/iframe/channel_noticias.asp?ID=15&cd_city=1&cd_news=44836&YAH=1

Um comentário:

Conceição EJA disse...

Ôpa, nenhum comentário para este artigo?! Que pena! Pois é super interessante. Tanto que vou postar algumas reflexões subjacentes lá no Cultura da Escola... Vi a maioria dos filmes aqui citados,e já pretendi, algumas vezes, trabalhar a questão da auto-estima ao reconhecer-se na história ou em um personagem. Cito aqui mais um filme, que utilizei para trabalhar a questão do preconceito religioso: O Último Grande Guerreiro, da Disney (é sim, da Disney!!!). Funcionou. Foi gratificante ouvir depois da exibição, na voz de um dos alunos, o sinal de aceitação:"É professora, cada um reza do jeito que sabe!"