24 de out de 2008

Refletindo sobre a linguagem do cinema

Laura Maria Coutinho1

Cinema é espetáculo. Ou seja, tudo o que chama a atenção, atrai e prende o olhar. Se não, não é cinema, na sua mais pura acepção. O cinema criou os grandes planos e as panorâmicas e, da mesma forma, espetacularizou o ínfimo, o detalhe, com tal nitidez e de uma forma tal, que nenhuma outra linguagem é capaz de criar. Revela até o que, perfeitamente presente, é apenas pressentido, não se ouve, nem se vê. “O espectador identifica-se, pois, menos com o representado – o próprio espetáculo – do que com aquilo que anima ou encena o espetáculo, do que com aquilo que não é visível, mas faz ver, faz ver a partir do mover que o anima – obrigando-o a ver aquilo que ele, espectador, vê, sendo esta decerto a função assegurada ao lugar (variável – de posições sucessivas) da câmera”2. O cinema seria, então, o espetáculo visto, proposto pela câmera, numa revelação direta olho e máquina.

Esta série quer trazer para a discussão os principais elementos da linguagem cinematográfica que se revelam e se escondem nas narrativas que cada filme, a seu gosto e a seu modo, apresenta. Apreender o que os filmes dizem e o que cada espectador, ao ver o filme, quer dizer, talvez seja a experiência educativa mais profunda que o cinema possa proporcionar. Cinema pode ensinar, para muito além do conteúdo que os filmes parecem apresentar à primeira vista. Ir ao cinema, ver filmes em vídeo ou na tevê são sempre ações que se confundem em um mesmo processo de fazer emergir pressentimentos e atribuir sentidos ao que se desenrola nas telas, em linguagem feita de imagens e sons. São as imagens e os sons que primeiro se apresentam, mas a linguagem audiovisual, movimento, cor, é composta de muitos elementos e muitas nuanças, sintetizados em uma narrativa. Os elementos que compõem o cinema estão, desde há muito, partilhando da vida de todos os que habitam este planeta girante. Assim, ver filmes, mesmo aqueles mais banais, pode ser uma experiência profundamente humana.

Cinema é também a primeira arte em movimento e para grandes públicos, sem pré-requisitos. Todos podem, rápida e minimamente, compreender um filme, ainda que a língua do cinema exija, sim, estudos talvez muito mais profundos e complexos do que a língua escrita. Contar histórias em imagens e sons é parte do modo de viver do homem contemporâneo. Hoje, estamos no mundo das imagens, é o que alardeiam especialistas, ou não. Todas as histórias, mesmo as mais antigas, contadas em filme, trazem nelas aquele certo gosto de atualidade que lhes confere o fato de emergir das telas, sempre de novo e pela primeira vez.

A história que um filme conta é a história do filme, mas também a que cada espectador assiste. A história de cada um, espectadores e personagens, é parte da história de todos; em meio a uma enormidade de fios, se entrelaçam novos enredos em muitos plots, sejam eles reais ou ficcionais. Desvelar o que isto representa para a formação, para a educação e para a aprendizagem deste homem contemporâneo é um desafio para todos, educadores ou não. A linguagem audiovisual atua em uma esfera que conjuga espaço e tempo, locação e deslocamento, o passado, presente e futuro em permanente transformação.

Luis Buñuel, no seu livro biográfico, O último suspiro, refere-se a Eugênio d’Ors como “autor de uma frase que cito freqüentemente contra aqueles que buscam a originalidade a qualquer preço: Tudo o que não é tradição é plágio.” E completa: “Algo sempre me pareceu profundamente verdadeiro nesse paradoxo.” Paradoxal ou não, tradição, no seu sentido etimológico, é o “ato de transmitir ou entregar” e original é “princípio, precedência.” Assim, histórias e narrativas, conteúdo e forma, originalidade e tradição parecem fundir-se em uma mesma e sempre outra experiência humana, que o cinema tão bem retrata. E sugere que toda história é uma tradução, uma vez que está baseada, copiada, inspirada, em muitas outras, numa seqüência espiralada, descontínua e infinita.

Toda arte é, antes de tudo, uma maneira de percepção. Quando expressa essa percepção por meio da visão e da audição, traduz um conceito artificial, um artifício, um artefato. No caso do cinema, o artefato é uma película sensibilizada pela luz, revelada e novamente impressionada pela luz, no momento da projeção. Das nostálgicas lanternas mágicas às modernas técnicas de projeções digitais, cinema é, na tela, luz e sombra. E é também a confluência de muitos mistérios.

Vejo o mistério, em muitos filmes, a partir da luz. Não há mistérios sem que os elementos dramáticos estejam muito bem encadeados. Amaranta César3, em análise dos filmes de David Lynch4, diz que “regras cambiantes e ambigüidades espaço-temporais constituem o universo narrativo dos filmes de David Linch tornando-os, paradoxalmente, muito bem definidos. Suas histórias se constroem sobre um terreno móvel e desconcertante, configurado pela convivência de figuras, personagens, cenários e situações que não respeitam um princípio pronto e reconhecível de ordens, situados nas fronteiras dos gêneros, além das clivagens tradicionais (entre elas as que separam o natural do sobrenatural, o sublime do grotesco). Há, portanto, uma ambigüidade narrativa, proveniente de um mistério que nunca é totalmente esclarecido, e que, por sua vez, envolve o espectador numa situação de desconforto e incômodo”.

Penso que o cinema de David Lynch tem a capacidade de trazer, para o cosmo de um filme, o universo narrativo que ultrapassa as tramas que envolvem o próprio homem contemporâneo e não apenas os personagens que transitam por suas histórias cinematográficas, configurando assim um processo interativo razoavelmente complexo. Nesse sentido, seu cinema é identificado como pós-moderno5. Mas, talvez, extrapole, em muito, o âmbito de abrangência que esse conceito pretende ter.

Cinema é arte contemporânea, síntese poética, alegoria e realidade. Tempo e espaço. Portanto, compreender cinema é também compreender o tempo no seu transcorrer, na sua duração que, muitas vezes, se desvincula do tempo físico da projeção. Talvez, por isso, o estranhamento que muitos filmes causem a seus espectadores. Cada filme, com o estilo cinematográfico que adota, cria um tempo que lhe é peculiar, além do tempo que a história pretende relatar. Além das paisagens privativas que o tempo histórico dos filmes expressa – em locações, estúdios e cenários exclusivos –, as narrativas cinematográficas falam, ainda, de um tempo que transcorre de maneira própria, sendo somente daquele filme. O tempo na narrativa cinematográfica está na ação que imprime o ritmo, assim como está no verbo nas linguagens escritas6. O tempo, no filme, vai além das palavras ditas pelas personagens, não se restringe ao descrito pela ação da câmera. Está no que é falado pelos personagens, mas está também na paisagem, na arquitetura, nas roupas, nos gestos, nos enfeites de corpo e de ambientes. Sempre, pelo menos, dois tempos que, em fragmentações constantes, vão revelando uma escultura de muitas faces. Para lembrar Tarkoviski, para quem cinema é esculpir o tempo7.

O cinema é cultura e entretenimento, tem hora e local próprios para acontecer e, se visto nessas salas apropriadas, pode proporcionar espetáculos de rara emoção e beleza. No entanto, pode ir aonde a imaginação e a energia elétrica permitirem. Cinema é, assim, uma arte popular; fitas cassete e DVD, mais que as películas, transportam imagens e sons para todos os lugares e todas as pessoas. E há muito o cinema já foi pensado para se aproximar da educação e da escola, em vários projetos e em vários momentos, ainda que, “como sujeitos separados, a educação e a cultura falam de si e entre si coisas distintas. A educação, para dentro de suas paredes, organizada por séries, etapas, fases, especialidades, traz a cultura – ciência, artes – oficial ou oficiosamente embalada pela pergunta: é adequada para que nível? (...) A cultura das artes e das ciências – poucas vezes produzida em escolas e muitas vezes produzida fora delas – leva em conta a tradição e o aprendizado técnicos, mas não os níveis, os programas rígidos, a divisão etária, a tradição escolar dos pré-requisitos8”. A escola e as disciplinas percebem o cinema como o receptáculo de um conteúdo próprio para uma aula, seja de História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática. Dessa forma, os alunos-espectadores se aproximam dos filmes com certa reserva, ficando muito aquém das possibilidades que este meio – o cinema – oferece. O desafio, então, para educadores e professores que se interessam por cinema como método de trabalho, poderia ser o de estudar esse artefato cultural, indo além do enredo, a partir da decomposição de seus dois elementos básicos – imagens e sons – abordados de várias formas, seja no grande plano-sequência em que se constitui o filme – do momento em que acende a luz ao instante em que se apaga. Ou, nos pequenos planos – cortes para mudança de imagens – que vão se somando pouco a pouco para constituírem a totalidade do filme. Walter Benjamin9 diz que “a arte contemporânea será tanto mais eficaz quanto mais se orientar em função da reprodutibilidade e, portanto, quanto menos colocar em seus centros a obra original”. Os meios eletrônicos e portáteis de cópia e projeção, a multiplicação de cópias, o controle remoto, o retorno e o avanço de imagens e sons, de certa forma, desmistificaram a arte cinematográfica que já surgiu para ser reproduzida e tornaram as histórias, os personagens, os lugares dos filmes ainda mais próximos de nós.

Estes são os programas dessa série, que será apresentada no Salto para o Futuro/TV Escola, de 4 a 8 de abril de 2005:

PGM 1 - Luz e sombra (iluminação)

Este programa trata dos elementos luz e sombra nos seus muitos aspectos expressivos. E de como, no filme, o suporte, película de celulóide, impressionado pela luz, dá início ao processo fotográfico,que se realiza nos inúmeros fotogramas que, justapostos, vão se constituir um filme com história própria, ainda que multiplicado em inúmeras cópias. Luz e sombra são elementos dramáticos, ou seja, concorrem para a construção das narrativas que falam diretamente ao emocional, podendo levar ao riso ou às lágrimas, comover.

Filme – O carteiro e o poeta.

PGM 2 – Som, silêncio e fala (trilha sonora)

Tendo como referência o filme Abril despedaçado, o programa apresenta os aspectos que estão embutidos no filme, sobretudo, nos momentos de silêncio. Procura ressaltar a eloqüência do vazio, na linguagem cinematográfica, e suas possibilidades expressivas. Estes aspectos são observados nessa vendeta nordestina que o filme retrata, mas poderiam também ser na Albânia, onde foi escrito o livro em que o filme se baseou, ou na Córsega, onde teve origem a palavra vendeta: espírito de vingança, entre famílias, provocado por um assassinato ou uma ofensa.

Filme – Abril despedaçado.

PGM 3 – Editando a realidade (montagem)

Nesta série, em que estamos refletindo sobre as diferentes linguagens do cinema, ou dito de outra maneira, sobre o que faz do “cinema” cinema, vamos nos deter na análise do processo de edição. A escolha do filme Nenhum a menos, do diretor Zhang Yimou, deveu-se à possibilidade de pensar a edição por meio de um universo tão familiar na educação: a relação professor-aluno. A partir da narrativa fílmica, buscaremos compreender e refletir sobre o sentido desse elemento constitutivo do cinema, que é a edição. Partindo da premissa de que o que sustenta esse trabalho é sempre uma interrogação: Que história queremos contar? O que, por analogia, se aproxima do trabalho dos professores, que ao fazer e refazer os planejamentos, precisam ter sempre em mente que alunos querem formar.

Filme – Nenhum a menos.

PGM 4 – A origem dos enredos

Estudiosos de literatura, escritores, roteiristas de cinema e de TV sabem que o número de histórias originais é limitado. Alguns falam em 40 histórias. Por isso, os indianos dizem que a história que não estiver contida no Mahabharata não existe! De certa forma as histórias sempre se repetem e, quanto mais repetidas, mais interessantes se tornam, retratando sob os diversos ângulos as mais variadas faceta da vida humana.

Filme – O Senhor dos Anéis.

PGM 5 – O real, a linguagem da realidade, o cinema

Aspectos da linguagem cinematográfica serão tratados neste programa, tendo como referência o filme Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini. É um filme que emerge da realidade, ou seja, tudo nesse filme é para ser visto como real. Em meio à história da prostituta romana que, pela relação com o filho, deseja deixar a vida que leva, cenário (subúrbios de Roma) e personagens fundem-se numa narrativa contundente.

Filme: Mamma Roma.

Referências bibliográficas

Benjamin, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Almeida, Milton José de. Cinema arte da memória. Campinas-SP: Autores Associados, 1999.

Duarte, Rosália. Cinema e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

Teixeira, Inês A. de Castro e Lopes, José de Sousa Miguel (orgs.) A escola vai ao cinema. Belo Horizonte: Autêntica.

Salto para o Futuro. Boletim Diálogos: cinema e escola. Rio de Janeiro, TV Escola/Salto para o Futuro, 2002

Notas:
[1] Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Consultora dessa série.
[2] Baudry, Jean-Louis. “A tela-espelho: espetacularização e dupla identificação”. In: Xavier, Ismail (org.) A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal/Embrafilme, 1983, p. 397.
[3] Cesar, Amaranta. “Esse estranho mundo: um estudo poético do cinema de David Linch”. In: Ramos, F.P. Estudos de Cinema 2000-Socine. Porto Alegre: Sulina, 2001.
[4] Diretor americano de A cidade dos sonhos, 2001; A história real, 1999; Coração Selvagem, 1990;Veludo Azul, 1986; O homem elefante, 1980.
[5] Ver Anderson, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
Jameson, Fredric. Pós-modernismo, a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997.
[6] “Não são poucas as línguas que incorporam ao conceito de palavra temporal o verbo. Verbo é a palavra que exprime um fato representado no tempo. E o tempus, por sua vez, é variação que indica o momento em que se dá o fato expresso pelo verbo. (Coroa, Maria Luiza Monteiro. O tempo nos verbos do português: uma introdução à sua interpretação semântica. Brasília, Thesaurus, 1985.)
[7] Tarkoviski, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
[8] Almeida, Milton José. Imagens e Sons – a nova cultura oral. São Paulo: Cortez, 1994, p. 13.
[9] Benjamin, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas, vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1987.


Fonte: http://www.tvebrasil.com.br/SALTO/boletins2005/rslc/index.htm

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