24 de jul de 2008

A Sociedade em Rede

Jésus Beltran Ller


Para entender o que é a sociedade em rede, a sociedade da informação, convém ter claro o que era a sociedade anterior, a sociedade industrial. Enquanto nesta última a ação do homem sobre o meio é direta, se dá em espaços delimitados e em concordância temporal e física, na sociedade da informação rompem-se as barreiras espaço-temporais e é possível atuar à sua margem.

A sociedade em rede se caracteriza pela globalização das atividades econômicas decisivas e sua organização em redes; pela flexibilidade e instabilidade do trabalho bem como por sua individualização; pela chamada cultura da “virtualidade real”; e pela transformação das bases materiais da vida: o espaço e o tempo mediante a constituição de um espaço de fluxos e de um tempo atemporal (Castells, 1999).

Uma expressão resumida dessas mudanças ecológicas, até agora desconhecidas e ainda por explorar, é a que reflete seis grandes dimensões bipolares – já clássicas – que apontam o antes e o agora, o conhecido e o que ainda está para ser revelado: produto-sistema; matéria-energia; codificação analógico-digital; proximidade-distancialidade; espaços-redes, sincronia-assincronia. A primeira das pontas de cada um dos pares representa o passado; a segunda, a nova ordem.


AS COMUNIDADES VIRTUAIS

O tema das comunidades é ventilado, mas é também delicado e levanta todo tipo de suspeitas, ironias e perigos. A verdade é que a Internet é apenas um instrumento que estimula, e não muda, certos comportamentos; ao contrário, é o comportamento que muda a Internet (Castells, 1999). Os estudos de Wellman também mostram que as comunidades virtuais na internet geram sociabilidade, relações e redes de relações humanas, ainda que não seja exatamente da mesma forma que as comunidades físicas. A sociabilidade está se transformando em nova maneira de relação pessoal, por meio da qual se formam laços eletivos diferentes daqueles formados no trabalho ou no ambiente familiar, como andar de bicicleta ou jogar tênis (Castells, 1999).

Natureza

Em linhas gerais, comunidades virtuais são grupos de pessoas que se comunicam, compartilham experiências e temas afins e se esforçam para atingir objetivos comuns.

Traços básicos das comunidades virtuais

Ainda que não haja um padrão definido para as comunidades virtuais, é possível apontar alguns traços comuns aplicáveis a todas elas: a interação se estabelece por meio de máquinas; são comunidades flexíveis tanto do ponto de vista temporal quanto do espacial; há intercâmbio de informação; seus membros compartilham linguagens e interesses afins; a comunicação se estabelece com o uso de diferentes instrumentos tecnológicos: correio, chat, bate-papo, etc.; é uma comunicação multidirecional e mais regular que a do cara-a-cara.

Vantagens das comunidades virtuais


São muitas as vantagens das comunidades virtuais, haja vista sua multiplicação em todos os âmbitos geográficos, culturais e profissionais do planeta. Eis algumas delas: possibilidade de comunicação sincrônica e assincrônica; possibilidade de rever a comunicação estabelecida; comunicação entre pessoas de diferentes áreas geográficas e culturais; interatividade ilimitada e complexa a partir do computador; comunicação livre, sem nenhuma ligação espacial; acesso a uma grande quantidade de textos e gráficos.

Tipos de comunidades

Jonassen e outros (1998) propõem a seguinte divisão: a) comunidade de debate: intercâmbio de idéias e opiniões; b) comunidades pragmáticas: grupos de trabalho sobre temas relacionados à compreensão da vida real; c) comunidades de construção do conhecimento: ajudar o aprendizado; e d) comunidades de aprendizagem.

A seguir, vamos tratar das comunidades de aprendizagem.


COMUNIDADES DE APRENDIZAGEM


São organizações sociais criadas por pessoas que compartilham metas, valores e práticas sobre a experiência da aprendizagem. O potencial da Webno desenvolvimento da aprendizagem colaborativa não possui precedentes ou limitações.

Contexto geral da inserção das novas tecnologias

As comunidades de aprendizagem surgem no contexto da explosão das novas TICs e da insatisfação com o sistema educativo, que não parece oferecer respostas adequadas aos próprios agentes do sistema, alunos e professores.

São três as mudanças mais marcantes que configuram o nosso atual contexto pedagógico no âmbito das comunidades de aprendizagem: educativa, psicológica e tecnológica. A primeira mudança fez com que a educação passasse do paradigma da “instrução”, que acentua o ensino e o professor, a um paradigma “pessoal”, centrado na aprendizagem e no aluno que aprende. Aliás, o importante é que o aluno aprenda, e é esse o processo que deve condicionar todos os elementos do sistema educativo, incluindo professores e ensino.

Outra mudança que nos cabe analisar é a psicológica e conceitual daquilo que significa aprender. A psicologia cognitiva estabeleceu três concepções de aprendizagem: aquisição de respostas, aquisição de conhecimento e construção de significado. A terceira mudança é também a dominante, mesmo que o problema continue sendo a forma como esta construção é entendida, uma vez que os especialistas apontam até sete concepções construtivistas diferentes (Beltrán, 1993).

Por fim, deparamos com a mudança tecnológica. A interpretação da tecnologia como instrumento a serviço da aprendizagem passou por três estágios: aprender sobre tecnologia; aprender pela tecnologia e aprender com tecnologia (Beltrán, 2003). Interessa-nos a terceira. Aprender “com tecnologia”, o que significa dizer que a tecnologia, em geral, e os computadores, em particular, são utilizados como instrumentos cognitivos. O que subjaz a esta nova denominação é uma concepção construtivista de tecnologia a serviço de uma aprendizagem significativa. Segundo Jonassen (2000), os instrumentos cognitivos servem fundamentalmente para ampliar, potencializar e reorganizar as capacidades dos estudantes, transcendendo as limitações da mente. Os instrumentos cognitivos podem cumprir adequadamente as funções de arcabouço, porque guiam os processos de pensamento do aluno enquanto aprende.

É no interior deste contexto pedagógico que situamos nossa consideração sobre as comunidades de aprendizagem.

Os grandes desafios da comunidade de aprendizagem

Uma forma de eliminar o caráter subjetivo de qualquer inventário é identificando os desafios e atendo-se aos elementos essenciais da dinâmica de uma dada comunidade de aprendizagem no contexto tecnológico. Tais elementos são: sujeito, comunidade, objetivo, instrumentos, divisão de tarefas e regras. Da combinação de todos esses elementos, surgem cinco grandes desafios: eleger os elementos adequados para cada tarefa; eleger os elementos adequados para trabalhar em comunidade; conciliar os objetivos pessoais e comunitários; dividir as tarefas em função das capacidades pessoais e dos objetivos almejados; e estabelecer regras adequadas para manter um clima favorável, tudo para que se consigam os objetivos propostos.

Contribuição das comunidades de aprendizagem

Dentro de uma valoração global das comunidades de aprendizado, eis aqui algumas de suas contribuições mais visíveis no âmbito das transformações educativas.

Cultivar a pedagogia da imaginação sobre a pedagogia da reprodução

É preciso que se distingam duas pedagogias. A pedagogia da reprodução e a pedagogia da imaginação. A primeira consiste na apresentação e no desenvolvimento dos conhecimentos que devem ser fielmente reproduzidos. A segunda, ao contrário, utiliza estratégias adequadas para relacionar, combinar e transformar os conhecimentos. Responde ao novo modelo de verdade, centrado na busca, na indagação, na curiosidade e na imaginação.

Nas comunidades virtuais se pode encontrar, pela primeira vez, não apenas o que se vai estudar em um determinado curso, mas tudo aquilo que já foi estudado até o momento e também aquilo que ainda se pode estudar ao longo de toda a vida.

Além disso, a flexibilidade e a versatilidade da Internet nos permite realizar uma verdadeira utopia – sempre sonhada –, a de relacionar dois mundos: o da mente e o do coração. A comunidade de aprendizagem permite aos professores definirem seus trabalhos nas duas linguagens, de modo que se podem transpor as fronteiras entre jogo e trabalho, à medida que cada estudante e cada professor está completamente debruçado no ato de aprender, descobrir e criar, assumindo riscos; os estudantes experimentam sem limites sua paixão pelo conhecimento, as emoções são reconhecidas como parte da vida acadêmica e não se reprime sem sentido; a harmonia e a expressão artística ocupam um lugar privilegiado, e cada membro da comunidade educativa pode compartilhar com os demais a responsabilidade de viver e transmitir esses
mesmos ideais.


Desenvolver a tecnologia mental

A segunda contribuição constitui um projeto de grande interesse e de longo prazo. Trata-se de utilizar as novas tecnologias concretamente, utilizar as comunidades de aprendizagem para desenvolver a tal “tecnologia mental”; ou seja, esse conjunto de habilidades estratégicas que constituem a base do comportamento inteligente. São quatro as chaves estratégicas da nova arquitetura esboçada por meio da Internet:

Pensamento analítico: É o que nos permite analisar e conhecer a realidade. Em nenhum outro meio como a Internet podemos exercitar tão bem estas grandes alavancas da inteligência analítica.

Pensamento dialético: O pensamento dialético ilumina o mistério da vida. É um pensamento flexível, ponderado, distante de dogmatismos. É possível encontrar um espaço intelectual tão diverso, multifocal e contraditório quanto o da Internet?

Pensamento pragmático: É importante resolver os problemas. Mas é muito mais importante saber quais deles merecem ser resolvidos. E é possível exercitar este tipo de pensamento na Internet, porque a história do pensamento e da conduta humana ao longo dos tempos está ao alcance das mãos.

Pensamento conciliador: Faz referência ao pensamento que se propõe a conciliar nossos desejos e os desejos dos outros. O pensamento conciliador nos ajuda sempre a buscar caminhos de entendimento, a aproximar posições e a utilizar estratégias de ganhar-ganhar, em que todos esperam obter algum benefício. Dentro de uma comunidade virtual de aprendizagem, as possibilidades de exercitar o pensamento virtual são inúmeras, com a vantagem de que os conflitos, sobretudo os pessoais, são vividos, virtualmente, de outra maneira.

Redefinir a aprendizagem

Após anos de estudos, os especialistas ainda não chegaram a um acordo sobre a natureza complexa da aprendizagem humana. O que arriscam dizer é que a aprendizagem é uma construção. Aprender é selecionar a informação ou, segundo a linguagem poética de Tagore ao ouvir seu professor que tocava violino, roubá-la. Em nenhum outro lugar melhor que a Internet o aluno pode “roubar” o conhecimento, já que ela é o maior armazém (de informação) que jamais existiu antes.

Aprender também pode ser entendido como forma de organizar a informação; em linguagem coloquial, poderíamos chamar isso de mobiliar. “Mobiliar” quer dizer colocar os móveis adequados em cada parte da casa; analogamente, aprender é colocar cada idéia ou cada conhecimento em seu lugar, e utilizá-los como se utilizam os móveis quando a casa está devidamente habitada.

Aprender é elaborar. Seleciono algo a partir de uma informação recebida (roubar) e o organizo em minha cabeça (mobiliar). Em seguida, é preciso elaborar tudo isso; ou seja, colocar essas informações em contato com os conhecimentos que já tenho e, com base nessa massa de informação, fazer minha própria construção: transformar a informação em conhecimento.

Mas aprender é, sobretudo, experimentar e aplicar os conhecimentos ou habilidades aprendidas. Ao deslocarmos do âmbito da comunidade de aprendizagem esta característica do ensino, deparamo-nos com as possibilidades que a tecnologia oferece para recuperar o sentido lúdico e utilitário do conhecimento aplicado.

A aprendizagem e a construção do conhecimento significam, sobretudo, capacidades; ou seja, poder fazer algo com aquilo que foi aprendido: relacionar, explicar, comparar, criticar e, de maneira especial, mudar e transformar a realidade a que este mesmo conhecimento se refere. A cada conhecimento apreendido, adquirimos uma capacidade que antes não tínhamos. Por isso, agora se diz, acertadamente, que conhecer é poder.

Essas cinco metáforas ou aspectos da aprendizagem não são nada mais do que formas distintas de se descreverem as atividades da inteligência humana. As três primeiras metáforas e atividades da aprendizagem (selecionar, organizar e elaborar) são as grandes habilidades ou componentes da inteligência analítica,de acordo com o modelo de Sternberg (1985, 1993; Beltrán, 1993, 1996). A metáfora do aprendizado, este entendido como experimento e aplicação, corresponderia à inteligência prática ou aplicada; e a aprendizagem, como forma de avaliar ou ponderar, coincidiria com a inteligência sintética, na qual encontramos a criatividade e o pensamento crítico. Em síntese: aprender é pensar, colocar a inteligência em contato com a informação para transformá-la em conhecimento.

Construção do conhecimento coletivo

No contexto das comunidades virtuais, a construção do conhecimento já é uma atividade social e não meramente individual. A ênfase no aprendizado individual é compreensível dado que o último valor da escolaridade se julga por aquilo que os estudantes realizam individualmente e distantes dela. A idéia de conhecimento como uma existência primariamente social não está presente no pensamento educativo. No entanto, esta idéia tem se destacado na filosofia e na sociologia da ciência. Karl Popper fez uma aguda distinção entre o conhecimento existente nas mentes individuais (mundo 2) e o conhecimento como abstração que (à maneira da economia de uma nação ou do clima de uma classe) existe acima do nível individual (mundo 3). Ele percebeu que o sentido da ciência era melhorá-lo e avançar em direção ao
mundo 3.

Por isso, o objetivo das comunidades de aprendizagem deixou de ser a promoção da aprendizagem individual para apoiar a construção coletiva do conhecimento público (mundo 3). A idéia é que os processos cognitivos invocados para articular as idéias e crenças nas interações sociais estejam, depois, disponíveis para a auto-reflexão.

Visualização estratégica do pensamento

O êxito das comunidades deixa claro que este enfoque funciona e melhora a aprendizagem dos alunos. A razão fundamental é que o contexto de interação social e o diálogo permanente permitem que os professores demonstrem estratégias e tornem visível o pensamento, possibilitando, por sua vez, que os alunos estejam conscientes de seus próprios processos mentais e possam controlá-los ao longo da aprendizagem. Usando a terminologia de Bereiter e Scardamalia, pode-se dizer que trabalhar o mundo 3 torna visível o mundo 2.

Construção social do conhecimento

Para os seres humanos, aprender é adquirir cultura na prática e participar das negociações continuas do conhecimento ou da construção do discurso. Tal hipótese está contribuindo para uma revalorização das teorias de Vygotsky, quando este diz que o pensamento é a internalização das condutas sociais e das práticas da fala.

Cazden (1988) apontou quatro grandes valores na utilização das tutorias dos iguais no interior de uma comunidade: o discurso pode atuar como catalisador de outras idéias, à medida que ao debater com outros estudantes tem-se acesso a uma série de pensamentos e perspectivas.

Ao funcionar em rede, a comunidade preenche-se de múltiplas zonas de desenvolvimento proximal por meio das quais os participantes navegam por rotas e limites distintos. Professores e estudantes criam zonas de desenvolvimento proximal, semeiam no ambiente idéias e conceitos valorizados por eles, e cultivam as que se enraízam na comunidade. As idéias semeadas por membros do grupo migram para outros participantes e perduram através do tempo. Apropriação mútua (Brown e Campione, 1996).

Desafios inteligentes

No interior das comunidades de aprendizagem já é tradicional a celebração de alguns desafios inteligentes. Os desafios incorporam traços da avaliação sistemática e dinâmica relacionada com os currículos baseados em certos problemas. Os desafios são elemento substancial da aprendizagem, sobretudo no âmbito da motivação. As possibilidades que oferecem os desafios no interior da Internet não se comparam às de uma sala de aula convencional.

Distribuição da carga cognitiva

As interações comunitárias permitem que os estudantes compartilhem e distribuam a carga cognitiva do pensamento. O grupo torna possível que o conhecimento de cada participante estruture-se de maneira diferente na memória a longo prazo. O que alivia a memória individual, especialmente na hora de recorrer aos conhecimentos. O grupo também tem uma maior memória coletiva de trabalho, de forma que as possibilidades do grupo superam a de cada um dos membros em particular.

Alguém poderia perguntar se as comunidades virtuais de aprendizagem são compatíveis com as comunidades presenciais. A resposta é sim. E mais: são complementares. Os especialistas chegam a dizer que quanto maior a participação virtual dos membros da comunidade, mais presença se deseja.

No sentido contrário, percebe-se que as comunidades virtuais de aprendizagem podem se complementar com as classes presenciais, nas quais se podem encontrar o contraponto das oscilações de voz, entonação, silêncio, gesto corporal (mãos, rosto, olhar), a resposta e a contra-resposta imediata, o controle do processo de pensamento e não apenas do produto, como na aprendizagem
virtual, etc.


CONCLUSÃO

As comunidades de aprendizagem se transformaram no mecanismo mais eficaz que conhecemos para alcançar a adaptação e a mudança no ensino. A mudança adaptativa, hoje em dia, segue o rumo de uma certa estrutura descentralizada, complexa e dinâmica, que permite que os estudantes trabalhem de maneira independente ou colaborativa. E ao trabalhar assim, é possível desenvolver inovações, perspectivas e soluções aos problemas assumidos e compartilhados pela comunidade.

As vantagens são evidentes: entre alunos e professores, a oportunidade de encontrarem-se; aos membros, que pensem e reflitam com tempo, antes de responderem; torna visível e acessível o arcabouço dos professores, ao mesmo tempo em que permite seguir o caminho do raciocínio dos alunos. Enfim, os membros das comunidades julgam seus companheiros pelo que dizem, não pelo que aparentam ser.

Fonte: EducaRede

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