1 de nov de 2007

Por detrás daquela porta

César Augusto Dionísio

Uma frase de Mark Twain, que não me sai da cabeça desde que conheci, aceita uma breve tradução como “Aparentemente, não existe nada que não possa acontecer hoje”. O escritor americano deposita, assim, em nossas mãos, nosso próprio destino. Já que aparentemente tudo pode acontecer hoje, devo descobrir qual a minha contribuição nas coisas que comigo acontecem. Lembro ainda que a rota de uma vida inteira se relaciona indireta e intimamente às decisões que tomamos no cotidiano. Um dia por uma vida e uma vida por um dia. E neste mapa de incertezas, acertar ou errar pode ser uma questão de ponto-de-vista, uma questão entre fazer ou não fazer, aceitar ou não aceitar, uma questão bem localizada no dilema de reclamar ou lamentar. O mesmo dilema entre abrir ou não portas.

Observando bem de perto as palavras ‘reclamar’ e ‘lamentar’, uma distinção clara me chega à mente depois de uma reflexão que surgiu como uma faísca de pensamento. ‘Reclamar’ e ‘lamentar’ são duas palavras muito distintas em sua aplicação e uso e que podem definitivamente mudar o cotidiano de muita gente por aí.

Reclamamos quando achamos que está errado e queremos mudança. Lamentamos quando não tem mais conserto ou solução. Não tem mais jeito. Para quem reclama, ainda existe um jeito. Para quem lamenta, não mais. ‘Reclamar’ é buscar uma solução. Uma, pelo menos. ‘Lamentar’ acontece quando todas as soluções já se foram e se encontram esgotadas. Ou melhor, nem se encontram mais. ‘Reclamar’ é procurar e não achar. ‘Lamentar’ é nem tentar achar. Lamentações servem como ponto final. Reclamações são vírgulas, à procura de um texto melhor. Reclamamos justamente para não termos que lamentar no futuro. Reclamar com educação é um grande e forte traço de consciência do reclamante. Importante mesmo é aprendermos a reclamar de nós mesmos. Um consumidor consciente reclama. Mas um consumidor consciente é, acima de tudo, um consumidor educado. Educação, consciência e reclamações são conceitos relacionados em cadeia.

Mas até para fazer auto-crítica é preciso ter educação, no sentido mais trivial das boas maneiras. Ser rude consigo mesmo não vale. Não vale arrombar portas. Reclamar educadamente traz a boa oportunidade de se perguntar: ‘E agora?’. Nessa possibilidade de transformação, está a possibilidade de melhoria. Reclamamos com nossos filhos na tentativa de educá-los. Não desistimos deles. Senão, restaria apenas lamentar. Feliz daquele que reclama com educação. Feliz daquele que reclama de si próprio para si próprio. Feliz daquele que consegue abrir ou fechar portas conscientemente e provar que é mestre de si. Triste daquele a quem só resta lamentar porque não foi educado. A Educação nos revela que reclamar da inexistência de portas é como lamentar. Os óculos mágicos da educação nos fazem, pelo menos, ver portas que nem estavam lá e, se estavam, mais nos pareciam grades.

E não vale reclamar da vida. Aí é só lembrar de Mark Twain e de sua frase. “Tudo pode acontecer hoje”. É preciso viver intensamente para que não precisemos nem reclamar da vida, nem lamentar a vida. Reclamar polidamente sobre o produto não-conforme que não está bem polido, reclamar carinhosamente para nosso par que não nos tem dado carinho, reclamar com o amigo que amigavelmente esquece de nos ligar. Reclamar é buscar a solução do produto quebrado, do carinho enrolado e da amizade amassada. Mas, ao reclamar, queremos dizer à empresa, ao nosso par e ao amigo que ainda queremos dar a eles todos uma chance. Ainda os queremos. Reclamo e clamo por um mundo reclamante e educado. Isso lembrará a todos de suas funções. Funcionários e chefes, colaboradores e colaborados, casais e pares, amigos e amigas, alunos, alunas e mestres.

Espero que meus pupilos e minhas pupilas ajam com sobriedade ao utilizar o conhecimento que herdei para eles e por eles. Não quero nem desejo que usem o que eu ensino a eles para puxar o tapete nem o saco de ninguém. Coisa feia. Puxar o saco dói e puxar o tapete machuca. Olhar pela fechadura vale apenas para aguçar a vontade de saber mais. Desejo que meus alunos e alunas conquistem as recompensas que se escondem por detrás de portas impregnadas de virtude. Qual é o prêmio que se obtém quando se escolhe uma porta virtuosa de talentos? Portas existem para proteger o que por detrás delas está contido ou para testar aquele que ousa entrar.

Li uma vez num escrito de meu pai que ‘todo homem público deve estar sujeito a qualquer tipo de provocação’. Sou professor particular, sou professor universitário, sou arte-educador, sou educador, sou pesquisador. Nada disso me livra de ser um ‘homem público’. Aquilo que dizemos em público se torna público para o público. Mas nossa opinião pode ser facilmente distorcida por um aluno sonolento.

Não compete a mim saber o que meus alunos farão com aquilo que ensino a eles. Será? Fico cheio de dúvidas pois a ação de professores faz eco na alma e na memória. Na memória da alma. Preciso repensar. Já estou convencido de que a educação não é uma porta, mas uma chave. Chave-Mestra.

O que mais me fascina é que na dinâmica de um só dia e de uma vida inteira, todos nós sempre vamos dormir sabendo algo mais do que quando levantamos na manhã do mesmo dia. Todos os dias de nossas vidas acumulam saber. Acumulam saber em nós. Mesmo sem sabermos quem somos. Mesmo sem saber como será o dia.

Isso é educação: saber que um dia pode ser a diferença visível mais invisível entre não-saber e passar a saber. Um dia, assim como uma porta, pode esconder a sabedoria de uma vida inteira. Ou uma vida inteira pode passar a ter sentido pela sabedoria de um simples dia. Uma simples vida, e um dia inteiro. Só para saber. Portas escondem aquilo que protegem. Portas protegem aquilo que escondem. Portas nos desafiam. E tudo isto está por detrás de uma porta que sequer sabemos, muitas vezes, abrir. Nem todos possuem a chave. E mesmo aqueles que possuem a chave, muitas vezes não sabem como abrir tais portas. Portas que abrimos poderão, um dia em que soubermos mais, serem fechadas. Mas fechadas por nós mesmos. Esta é a diferença: ter consciência de que somos cárcere e carcereiro de nosso próprio saber.

Por detrás daquela porta, talvez esteja a possibilidade de um futuro sem cara de passado. Futuro passado à limpo. Não passado passado à limpo. Afinal, só é possível passar o passado a limpo no futuro. Infinitas possibilidades nos aguardam. Aparentemente, a educação pode acontecer hoje.

É economista e professor e autor do livro Mais Textos: uma visão sobre a Educação

Fonte: http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=3455

Nenhum comentário: