13 de nov de 2007

O dia em que descobri que nasci professora

Rosemary dos Santos
Professora de Informática Educativa da Escola Municipal Professora Olga Teixeira de Oliveira, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Hoje acordei pensando em desistir de ser professora. Sei lá, fazer outra coisa. Chega! Disse para mim mesma quando o relógio despertou: pronto decidi, vou ser secretária, atendente, camelô, qualquer coisa, menos professora. Analisando as minhas opções, a idéia de fazer outra coisa agrada-me. Já sentiram isso? Vontade de não ser mais professor? Quanta cobrança. Pressão. Trabalho extra. Rouquidão. Alergia. Calos na garganta e nos pés. Tendinite.

Secretária: belas curvas, vários idiomas. Não tenho curvas e arranho no inglês. Não, não dá pra mim. Camelô: essa idéia me anima. Caminhar. Pegar sol. “Esta blusa está linda na senhora, combina com seu perfil (atriz também, pois preciso dissimular bem as gordurinhas da “freguesa”).” Acho que também não, mas ainda tenho várias opções.

“Não sei porque os alunos gostam tanto deste laboratório de informática, aula boa era no meu tempo, não tinha essa coisa de tecnologia não, besteira isso”. Dizia um professor em tom de ironia na hora do recreio, olhando-me de soslaio. Fito-o furiosa. Agora mais decidida ainda: vou largar o magistério. Quanta falta de companheirismo!

Lembro do meu juramento há alguns anos. Bom, deixemos pra lá este negócio de data, pois o que estou falando agora é sobre minha indignação em ser professora.Voltemos ao meu juramento. Jurei honrar minha profissão e zelar pelo bem estar dos meus alunos, torná-los críticos e conscientes, mediar seu conhecimento. Nada tinha sobre querer desistir, se cansar, horas extras, indignação, choro, carregar livros, ouvir injúrias, ver alunos desistindo, reprovados. Cansei de ver escolas sendo espaço de tristeza e exclusão. Nosso diploma deveria ter prazo de validade e selo do INMETRO.

Advogada. Chega de muita gente ao meu redor. Jovens ansiosos demais. Quanta energia. Quero um escritório bem decorado. Um “paciente” por vez. “Um cafezinho?” “Pois não?” “Qual o seu problema”. Fico remoendo essa idéia a manhã toda. Hoje é dia de pagamento. Contas. Luz, água, telefone.“Cafezinho?” “Aqui está o meu cartão”. Terninho cinza, sapato bico fino. Sacudo a cabeça. Olho para meu jeans desbotado e meu tênis que há muito deixou de ser branco. Lembro que tenho que pagar a faculdade da filha, o aluguel. Penso no que vai sobrar: pouco.

O dia passa. Chega à noite e com ela os alunos da EJA. Cada um se dirige para um computador. Interrompem meus pensamentos.Uns falam alto, eufóricos. Eu, olhar cansado peço para abrirem o site da Caixa Econômica Federal, já sabem como navegar, mesmo sendo alunos da Alfabetização, peço que esperem a página abrir sem me mover.

Seu Oberlande, olhos vivos e muito falante, aposentado, tem 68 anos, uma alma extremamente grandiosa. Grita lá da máquina 10. “Ô Dona Rose, não vai conversar com a gente antes, não? A senhora sempre diz que temos que bater um papo antes de começar as pesquisas. Sabe como é? Será que dá pra ver aqui o FGTS do meu filho? caramba!!! não preciso mais enfrentar aquele filão.” Pergunto molemente sobre o que ele deseja conversar. E ele responde: “ahhhhh sobre o que nós vamos pesquisar, né?Gostei desse negócio de não ter mais que enfrentar fila. Quero cadastrar meu CPF, sou isento, é assim que fala professora, isento? ou insento?” Balanço a cabeça. Silêncio. Olha para mim. Cala-se. Percebe que hoje não estou professora. Compreende. Eles sempre nos compreendem. Todos quietos visitando os links dos assuntos que os interessam mais. Discutem, conversam. Autonomia.

A aula acaba. Todos caminham para a porta. Beijam-me. Retribuo. Saio à rua feliz da vida. Olho o céu. A escola fica para trás, que alegria. Acho que vou ser fiscal da natureza. Penso nas contas e acordo para a realidade. Fico triste de novo. Mau humor total. Quero jogar na loteria. Carros, viagens, sol, praia.

Atravesso a rua alguém grita: Rosemary! Dona Lourdes. Minha professora da 4ª série. Nossa! faz tanto tempo! Aceno com um sorriso de alegria. Nunca me esqueci de seus olhos verdes. De como me fazia sentir importante em suas aulas. Fico olhando-a tentando lembrar algum traço daquele tempo. Ela continuava a mesma. Irradiava alegria e confiança. Alguns fios brancos caiam-lhe na testa. Existe algo melhor do que ser reconhecida na rua por sua professora do primário? Agora não é mais primário, eles mudam os nomes a cada governo. Ela sempre sabia o nome de todo mundo. Fazia a chamada e dizia nome e sobrenome de todos. Eu a olhava com admiração e respeito. Tratava a todos com carinho. Abraça-me. Pergunta-me sobre a vida. Respondo sorrindo: “Vou indo”. Pergunta o que faço da vida e digo que sou professora também. Ela agita os braços e diz “eu tinha certeza que você seria, você nasceu professora, e deve ser das boas. Você demonstrava tanta intimidade com as letras. Falava de poesia como se bebesse as palavras. Somos colegas de profissão com muito orgulho.” Diz que sente falta dos alunos, pois eles eram sua fonte de vida. Abraça-me novamente e convida-me para ir um dia a sua casa. Está aposentada. Despede-se.

Paro numa lanchonete, peço um pastel e um caldo de cana.Começo a pensar em Dona Maria de Lourdes (Pequeno Príncipe “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”).

Encontro alguns alunos, cadernos nas mãos, andar apressado. Fico observando como eles são bonitos. Não importa a idade, nem a cor, nada. Alunos são todos iguais: têm mágica, luz. É isso mesmo. Alunos, uniformes, sorrisos, tênis, alegria, encantamento. Características comuns.

Não vejo indisposição, nem tristeza.Gostam da escola.

Esta é uma pergunta que sempre faço e para a qual não tenho resposta ainda: Por que ficam reprovados? Por que desistem? Talvez seja para nos mostrar que estamos errando em alguma coisa, para mostrar que ainda é possível fazer algo por eles.

Na minha frente pára uma senhora, parece evangélica, bolsa encardida com rabiscos de caneta que mostravam seu nome. Vinha de mãos dadas com um senhor. Os dois eram nossos alunos. Marido e Mulher. Mãos dadas. Os ombros suportam a bolsa, o mundo.O mundo em seus cadernos e sonhos.

Quero vê-los mais amiúde. Investigar o que os fazem encantadores. Começo então a observar todos os alunos que passam no meu trajeto.Como eles são bonitos!

Sentir esta beleza, entretanto, depende do contexto. Por isso, as pessoas têm diferentes apreciações do que vêm. Cada um vê a partir de seu contexto. A cabeça pensa onde os pés pisam. O contexto fornece a ótica que penetra mais ou menos na riqueza da cena que se observa. Observo-os, enfim, para extravasar meu "sentimento de mundo", descrever o mistério e exercer, como professora, minha vocação. Só sei dizer o mundo através do que sinto.Vejo estes alunos e todos os outros que perpassam a minha vida, como dádivas de Deus. Desejo que um dia lembrem-se de mim. Não deve existir algo pior para um professor do que passar por aluno na rua e ele não reconhecê-lo. Reflito sobre eles. Suas vidas. Seus mistérios. É minha forma de oração para que possa tornar-me uma professora mais coerente com o que faço e digo.

Não importa de onde eles vêm. Da favela, da casa humilde, nem que dores carregam consigo, nem suas mágoas e marcas. Nada importa, nada tira sua beleza imaculada de aluno. Estou há dois dias escrevendo esta crônica. Pensando no que me faz achá-los tão bonitos caminhando pelas ruas. Uniformes variados pela cor e desbotamento, loiros, morenos, negros. Singulares. Quando o que eu queria mesmo era um motivo para desistir.

Acredito que levem consigo as dúvidas dos filósofos. Quem somos? De onde viemos? Para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões deve ser o motivo que os levem à escola.

Ainda assim, prossigo perguntando-me qual seria o mistério que nos envolveu quando éramos alunos e nos sentávamos num banco escolar. E tenho ânsias de confessar que, no fundo, o que gostávamos mesmo era de tentar impedir que curassem a loucura que, por trás de nossa aparente normalidade, fazia de nós pessoas extremamente felizes só por sermos tão somente alunos.

Entre uma mordida e outra sinto meu humor melhorar. Decido que preciso pensar em algo diferente para a próxima aula. Nasci professora. Nascer professora deve também, às vezes, desistir de sê-lo sem na verdade querê-lo. Como sou importante na vida deles, quanto carinho eles têm por mim. Nada é mais importante do que isso. Penso no Seu Oberlande. Marinalva, Nelson, Dona Terezinha, 77 anos. Sorrio novamente.Vocação, trabalho, dom, serão bons assuntos para a próxima aula, eles precisam de perspectivas. Sinto-me viva novamente. Renasci professora. Morro e renasço a cada dia mais professora do que nunca. E cada vez mais me dou conta de que sem isso a minha vida não teria o menor sentido.

Publicado em 10/10/2006

Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/sv75.htm


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