20 de out de 2007

Testamos o XO da OLPC. Bom demais.

Tem cara de brinquedo mas é matador: uma fascinante ferramenta para alfabetização e inclusão digital.

Por Guilherme Coelho

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O laptop de U$ 100 da OLPC (One Laptop Per Child), aquele do Negroponte, chamado de XO por ter o formato de uma criança, deve ter sua primeira versão comercial lançada até o final desse ano.

Algumas peças de demonstração já rodaram o mundo e uma delas caiu em minhas mãos (e consequentemente de meus filhos…) esse mês, gentileza de Rodrigo Mesquita da Rede Peabirus, um dos colaboradores da OLPC no Brasil.

Aqui vai um pouco de minha breve experiência com o XO durante esses dias.

A atração das crianças pelo visual do aparelhinho é magnética! Parece mesmo um brinquedo, com uma alça enorme, todo de plástico duro resistente e um verde cítrico bem cheguei. Após abrí-lo, as antenas do wifi o deixam com uma simpática cara de robô-marciano-tranformer! Claramente o objetivo de ser convidativo para crianças foi atingido.

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Quando ligamos, o Linux Fedora (sistema operacional livre e gratuito) é carregado rapidamente e uma interface gráfica muito simples é apresentada. Essa nova interface se chama Sugar, e é a primeira desenvolvida com foco nas possibilidades de trabalho ou construção de conhecimento em rede.

Alguns aplicativos básicos para desenho, textos, jogos, entre outros, estão disponíveis e são bem simples de usar. Ícones grandes e cursor enorme são ótimos para movimentos finos não refinados das crianças.

Destaque para o aplicativo que utiliza a webcam e microfone embutidos do XO (quase imperceptíveis ao lado da tela LCD) para capturar vídeos, fotos e sons de forma muito fácil. No wiki da OLPC na web é possível ter mais informações sobre todos os aplicativos, todos livres, e você também descobrirá que o Python é uma das linguagens mais usadas para desenvolver novos aplicativos para o XO.

O teclado é de borracha contínua, sem deixar espaços nas laterais das teclas, o que o torna bem resistente a água, suor, sucos e afins. O touchpad também é protegido e possui um desenho mais largo. A tela LCD é pequena, mas com ótima resolução. Ela pode girar, possui alto-falante embutido, entrada e saída de som e 3 entradas USB, onde podem ser ligados, por exemplo, mouse e teclado para facilitar a utilização por parte de um adulto.

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E não possui entrada de rede… com fio. Bye-bye RJ-45. A grande estrela do XO é mesmo a rede sem fio.

Com uma interface única, simples e divertida, você é capaz de enxergar graficamente todos os pontos wifi próximos. Nesse momento pude ver como as tais anteninhas “orelhas de marciano” são poderosas… enquanto meu notebook de trabalho detecta aproximadamente quatro ou cinco pontos, no mesmo local o XO me mostra mais de dez pontos wifi próximos.

Com a rede automaticamente detectada, em segundos o laptop está pronto para navegar com um Firefox light. E uma vez na web, já se tem aquela aquela sensação de abstração do computador. Testei alguns novos serviços em AJAX, verifiquei e-mails no Gmail e documentos no Google Docs, entrei em minha agenda do Aprex e postei um vídeo para o Youtube, tudo sem problemas.

Só não consegui assistir os vídeos do Youtube no XO; o plugin de Flash para o Linux ainda não é compatível. Ainda.

E a grande atração do XO em termos de rede é que ele se torna também um propagador de sinal (mesmo desligado!). Assim outros computadores podem se conectar a ele para utilizar sua conexão de internet. Essa é a chamada rede Mesh.

Além disso, um XO enxerga outro via wi-fi sem necessidade de rede local ou internet; assim qualquer arquivo criado ou editado em um XO pode ser compartilhado com outros XO locais para colaboração. Imagine isso em sala de aula, mesmo sem rede local ou internet…

E por aí vai… uma surpresinha atrás da outra: a tela LCD gira e se encaixa para virar um aparelho de game; a bateria pode durar mais de 12 horas; pode ser usado até debaixo de sol e a tela continua visível…

É compreensível que muitos achem estranho que o novo laptop não tenha disco rígido, nem leitor de CD/DVD e não rode Windows, o sistema oficial e pirata mais utilizado no mundo. Mas você verá que isso, na verdade, não importa tanto para quem nunca pegou num computador. O XO deve ser encarado como uma fascinante ferramenta para alfabetização e inclusão digital, um trampolim para uma nova fase. Espere para tirar suas conclusões quando, em breve, tiver um XO em suas mãos. Aproveite que vai estar se sentindo uma criança com brinquedo novo, e comece sua análise desse ponto de vista mesmo: de uma criança.

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O foco da OLPC (One Laptop Per Child) com o laptop XO parece estar longe das regras comerciais estabelecidos pela indústria atual. O foco claramente está na rede, no software livre, no cloudware, na colaboração, na educação, nas crianças, e acima de tudo na simplicidade. O laptop é apenas uma parte dentro de todo um programa que busca novas formas sustentáveis de disseminar a inclusão digital pelo mundo.

Mas o caminho para o sucesso não será fácil… A OLPC com seu XO e outros programas de inclusão digital terão que vencer muitas barreiras para avançar, desde a resistência da indústria de informática estabelecida, até governos mal-estruturados e mal-intencionados.

Na última semana de setembro pude participar do Fórum Internacional de Inclusão Digital Sustentável em Campinas, e vi muitas iniciativas caminhando, em todos os setores (Governo, ONGs e empresas privadas). Lá foi falado que o Governo já anunciou a compra de 1 milhão de laptops XO para escolas públicas, mas pretende adquirir somente 150 mil unidades no lançamento, pois não possui um programa adequado para absorção de 1 milhão de máquinas em um primeiro momento.

O motivo principal é que os próprios professores ainda não possuem competência suficiente para o ensino digital, então teríamos uma indigestão de XOs. Também me chamou a atenção o deputado federal Julio Semeghini, indignado, apontar que o FUST, fundo criado pelo Governo que obriga as teles a doar 1% anuais de suas receitas para projetos de inclusão digital, já possui mais de U$ 700 milhões arrecadados e nada ainda foi investido em quatro anos…

Falta de projetos? Um programa de capacitação digital para professores teria sido um dinheiro bem investido, para agora rapidamente disseminar a utilizacao dos XOs nas escolas. Quatro anos (ou mais) de atraso na era digital podem nos custar muito caro daqui a alguns anos no mercado mundial. [Webinsider]

Guilherme Coelho (coelho@zeroum.com.br) é diretor da ZeroUm Digital.

Fonte: http://webinsider.uol.com.br/index.php/2007/10/08/testamos-o-xo-da-olpc-bom-demais/

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