9 de out de 2012

Artistas-educadores e Educadores-artistas

 João Luís de Almeida Machado

Acredite ou não, entre os maiores mestres que tenho na vida estão expoentes como Charles Chaplin, Pablo Picasso, Machado de Assis, Elis Regina e tantos outros grandes artistas. Nestas linhas os chamarei de Artistas-educadores.

Impossível não aprender, por exemplo, escutando o Bêbado e a Equilibrista, de nosso saudoso Tom Jobim, em performance inesquecível da Elis. A história está lá, a ditadura militar que nos oprimiu, os exilados, a abertura política iminente, a anistia ampla, geral e irrestrita... Toda a oportunidade para que nos transformemos em nossas aulas em Educadores-artistas. Há aqueles que talvez até se sintam instados a soltar a voz e cantar, acompanhado por um CD ou pen-drive espetado no computador, ao lado de Elis, a chamar os alunos, a lhes mostrar o engajamento e a luta dos estudantes de então...

Ao ver Tempos Modernos, em outro caso de lições trazidas por estes artistas-mestres, artesãos da palavra, do celuloide, das canções e dos pincéis, percebemos rindo a linha de produção, o sistema capitalista, suas contradições, seus objetivos primordiais e o homem como mais uma engrenagem, mola-mestra (ou não) de todo o ciclo produtivo, descartável, passível de troca e substituição a qualquer momento. Chaplin capturou como ninguém, num clássico indiscutível, da década de 1930, o que hoje ainda não conseguimos ver, perceber e se libertar, quebrar as correntes...

E a guerra, seu terror, seus dramas, sua destruição material e de tudo aquilo que é maior para o ser humano (a alma, o sentimento, o cérebro, o corpo). Visualizar Guernica, de Picasso, é entrar com profundidade naquilo que seus pincéis traduziram em relação a tragédia da Guerra Civil Espanhola e como aquilo prejudicou cada um e todos os envolvidos. Quem ganhou? Alguém ganhou? Para quem foram os lucros da indústria bélica e da reconstrução do país depois de tantas lágrimas, de tanto sangue, de tantos corpos?


E Machado, com suas obras, a nos trazer o cotidiano, as mazelas, os relacionamentos, a alma humana capturada por seus sagazes olhos e traduzida em contos e romances que o tornaram um dos maiores entre todos os mestres da língua portuguesa? Qual mestre, como ele e tantos escritores sagazes de então ou de outras épocas foram tão felizes em nos colocar no olho do furacão da vida como ela é?

Arte e educação conversam o tempo todo. Não há como separar, distinguir ou tentar de algum modo macular a relação. Buscar o diálogo, a interface, o relacionamento continuado entre ambas, ainda mais agora, neste universo globalizado e plugado, em que museus, obras literárias, filmes e músicas (entre outras produções artísticas) estão tão próximas, ao nosso alcance por um simples clique do mouse ou toque na tela do celular ou de um tablet.

Pensar a educação e a arte, neste mundo virtual conectado, em que tudo pode estar conversando e próximo, respeitando os artistas e produtores culturais mas fazendo-os perceber também o quanto suas realizações educam e, no sentido inverso, mostrando para todos os professores, de diferentes áreas do sabe, o quanto esta integração é fundamental, é referencial para o mundo em que vivemos hoje.

Sobre o autor: João Luís de Almeida Machado, CGerente de Tecnologia Educacional do Sistema de Ensino Poliedro, Doutor em educação pela PUC-SP, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie (SP), é autor dos livros "Na Sala de Aula com a Sétima Arte" e "O Prazer de Aprender" e membro da Academia Caçapavense de Letras. Twitter: @joaoluis28; Facebook: https://www.facebook.com/joaoluis28 ; Blog: www.vithais.com.br ; e-mail: joaoluis28@gmail.com 

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