17 de out de 2010

As transformações que queremos na escola

Rubem Saldanha

ARede nº 62 setembro de 2010 - Após a revolução liderada pela chamada ‘Geração Y’ no mercado de trabalho, a ‘Geração Z’- jovens nascidos após a metade da década de 1990 e durante os anos 2000 - veio certamente para trazer mudanças profundas ao ambiente escolar e, principalmente, aos professores. Criados com as facilidades da conectividade da internet e da telefonia móvel, o perfil desses jovens não se adapta mais ao modelo unilateral de ensino professor/aluno.

Com essas bruscas mudanças de geração em geração, nos perguntamos cada dia mais quais são as transformações que queremos para o trabalho das escolas e dos professores. Quanto às escolas, principalmente no que tange à questão de infraestrutura, apesar de ainda haver muito o que fazer, várias iniciativas já consolidadas garantem que a maior parte das escolas disponha de laboratórios de informática e de acesso à internet. Tanto o governo federal quanto os estaduais se mobilizaram, na última década, para aumentar a cobertura dos seus programas de informatização das escolas, e muitas já conseguem não trancar seus laboratórios, apesar do medo de mau uso.

Mas o que se sabe há muito tempo é que computadores e internet sozinhos não geram resultados. Alguns fatores importantes precisam ser levados em conta: a atual divisão dos tempos das aulas, a falta de conexão entre as disciplinas e destas com a realidade do aluno não só desmotivam, como fazem qualquer investimento em tecnologia virar um grande elefante branco. A entrada da tecnologia nas escolas deve estar associada a mudanças no atual formato do aprendizado, que já não atrai mais o aluno conectado.

Se reeditarmos na escola a reserva de mercado que foi imposta ao Brasil no início da década de 1980, estaremos fadados a um atraso na nossa educação comparado ao atraso que tivemos na área de tecnologia e inovação que experimentamos naqueles tempos. E tenho certeza de que não é isso que queremos.

Para pensarmos em formas de integração do currículo com a realidade do aluno, sem dividir a vida escolar em matemática, português e geografia, e para refletirmos também na integração de tudo isso com os recursos tecnológicos que os alunos têm à disposição fora da escola, precisamos, entres outras coisas, pensar e trabalhar por políticas públicas de capacitação de professores para o uso das tecnologias. E, neste caso, o encontro da iniciativa pública com a privada pode unir forças e realizar a junção entre anseios e recursos. Se a plataforma governamental já oferece a estrutura, a iniciativa privada dispõe da tecnologia e do conhecimento necessário, podendo assim auxiliar os estados a preparar profissionais para a capacitação dos professores.

É preciso pensar em fechar mais alianças e traçar soluções conjuntas que aproveitem o potencial da tecnologia para efetivar mudanças que estão inclusive previstas nos Parâmetros Curriculares Nacionais, mas que não conseguem, na maior parte das vezes, sair do papel. A introdução de computadores e internet nas escolas pode auxiliar esse movimento, desde que venha vinculada à capacitação de professores e à vontade de fazer com que a escola fique cada vez mais próxima dos anseios e do mundo dos alunos, oferecendo aos jovens maior inclusão social e o preparo que o mundo digital vem demandando.

Rubem Saldanha é gerente de Educação na Intel para o Brasil


Geração Y
Conceito de sociologia que caracteriza os nascidos após 1980, segundo alguns autores, ou a partir de meados da década de 1970, até meados da década de 1990, segundo outros.


Fonte: http://www.arede.inf.br/inclusao/edicoes-anteriores/169-edicao-no-62-setembro2010/3378-opiniao

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