17 de out de 2009

Twitter na escola ajuda?

Existem múltiplas formas de fazer do nanoblog um assistente divertido e eficaz, em sala de aula.

Sergio Amadeu da Silveira

ARede nº51,setembro 2009

O Twitter pode ser uma boa ferramenta para a Educação? Como um nanoblog com 140 caracteres pode apoiar o processo de ensino-aprendizado? O Twitter usado em sala de aula garantirá a múltipla atenção dos estudantes ou simplesmente gerará um processo de dispersão? Quais outras possibilidades de uso educacional do Twitter?

Essas questões são cada vez mais importantes. Isso porque o Twitter não é mais uma atividade de nerds e super-usuários da internet. O Twitter já ultrapassou 1 milhão de participantes, somente no Brasil. A tendência é crescer ainda mais. Além disso, o Twitter permite uma grande versatilidade de uso. Alguns dizem que se presta mais a divulgação de ideias e dicas. Na realidade, o Twitter pode ter usos muito mais variados. Algumas pessoas usam para expressar sentimentos, outras para cobrir eventos e algumas até para denunciar políticas ou políticos que consideram nefastos.

Para aprofundar um pouco as possibilidades de uso do Twitter no ensino formal, traduzi algumas ideias das pesquisadoras romenas Gabriela Grosseck e Carmen Holotescu, que em 2008 escreveram um documento intitulado “Can we use Twitter for educational activities?”, ou, “Podemos usar o Twitter para atividade educaionais?” Gabriela e Carmen exploraram questões pragmáticas sobre o potencial do Twitter como ferramenta educacional, baseando-se em suas próprias experiências. Uma primeira possibilidade é a criação de comunidades de alunos. A ideia é twittar em sala de aula ou fora dela sobre temas de interesse da disciplina.

Explorando a escrita colaborativa, é possível promover atividades de busca de conteúdo na rede e dispor as descobertas para os colegas. Tais buscas podem ser divertidas e as dicussões no próprio twitter podem ser bem proveitosas, mesmo que não sejam realizadas em tempo real. Os alunos podem realizar as suas postagens (twittar), endereçadas aos seguidores do perfil da sua turma, para perguntar e esclarecer dúvidas sobre o tema da pesquisa proposta pelo professor. Também podem refletir conjuntamente sobre a pertinência ou a compreensão coletiva de determinados fatos.

Minha sugestão é trabalhar com as #hashtags ou hashtags, quando se está pesquisando um tema. O processo é bem simples. A turma decide que todos que escreverem sobre aquele tema no início ou no final da postagem coloquem um identificador do assunto, ou seja, uma hashtag. Por exemplo: todo mundo que estiver participando da pesquisa sobre Machado de Assis deve incluir na frase a hashtag #machado. Com isso, depois basta clicar na hashtag para obter as postagens de todo mundo que escreveu algo sobre o autor. Assim, é possível resgatar toda a discussão, dicas, dúvidas e declarações realizadas.

A turma pode, inclusive, usar as postagens feitas no Twitter para editar um blog com um novo ordenamento das informações coletadas. Assim, dá para fazer uma análise crítica de todo o processo e requalificá-lo. A definição do tagueamento ou etiquetagem das postagens pode ser muito útil não só para recuperar informação, mas para definir exatamente o que a turma está procurando. Discutir o nome mais adequado da tag é, em si, um exercício não somente escolar, mas também que ajuda as pessoas a entenderem a importância da web semântica.

De volta às proposições das pesquisadoras romenas, o Twitter serve também para a classe debater com um cientista, personagem ou professor que está em outra cidade. Usando uma hashtag combinada com o convidado, que está à distância, a turma pode transformar o Twitter em “uma sala de conferência”. A dificuldade é coordenar o debate para que não seja uma “gritaria digital”. Mas essa é uma das situações que fazem parte do aprendizado do uso da ferramenta. Depois do debate online, em tempo real, os alunos podem recuperá-lo a partir da hashtag para uma análise posterior mais profunda.

Outro exercício bem interessante e divertido é levar a turma para a sala de internet e combinar que cada um deve imediatamente escrever a continuidade do texto do outro. Mas o tema deve ser aquele que está sendo estudado. Assim, é possível avaliar a compreensão e o desempenho de modo participativo. As sentenças devem fazer sentido para a correta compreensão do problema que está sendo estudado. O professor pode incentivar, postando uma frase ou pergunta inicial e as pessoas têm trinta segundos para escrever, seguindo uma ordem previamente combinada.

Entre as várias possibilidades de uso educacional do Twitter, coloco a do estudo do meio com o uso de celulares que têm câmera fotográfica e envio para o twitpic (http://twitpic.com/) – aplicação que permite expor as imagens que os twitters captaram. Aulas de geografia e jogos narrativos, tais como a história da sua rua ou do bairro, podem ser realizadas pela turma, que irá participar e analisar conjuntamente o processo.

Enfim, o uso do Twitter ou do identi.ca, um microblogging livre, no processo de ensino e aprendizagem, pode melhorar a integração dos alunos e incentivar a autonomia de pesquisa na rede e o compartilhamento de soluções. Sem dúvida, o uso da rede e do próprio nanoblogging
em sala de aula pode gerar dispersão e baixo aproveitamento se não for planejado e bem orientado. Por isso, o professor deve cada vez mais assumir a posição de um navegador experiente. É preciso superar o ensino verticalizado, centrado exclusivamente na hierarquia e encontrar novas formas de aprendizado em rede.

Sergio Amadeu da Silveira é sociólogo, considerado um dos maiores defensores e divulgadores do software livre e da inclusão digital no Brasil. Foi precursor dos telecentros na América Latina e presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.

Fonte: http://www.arede.inf.br/inclusao/edicao-atual/2268-twitter-na-escola-ajuda

3 comentários:

historiadigital.org disse...

É, rapaz, já estava com saudade das suas postagens educacionais. O Caldeirão, enfim, voltou a ferver...

É importante discutir dois pontos aí. O primeiro, e tema da postagem, é a necessidade cada vez maior de integrar estas ferramentas para uso em sala de aula. É mais que necessário, é urgente!

Tenho visto a gurizada usando estas ferramentas (Twitter, MSN, Orkut, e afins) para falar bobagens atrás de bobagens. Isto está gerando emburrecimento da galerinha e, a escola, infelizmente, é culpada por este "fracasso mental".

Em segundo, vinculado ao primeiro ponto, a necessidade de haver uma mudança curricular radical, agregando um ensino voltado para o uso destas ferramentas e, obviamente, formando o professor para que possa ser agente mediador neste processo.

Valeu a postagem. Vou escrever sobre o Twitter no blog também. Cara, é tanta coisa que acho que vou pirar :)

Um grande abraço,
Prof_Michel

Fátima Campilho disse...

Ahhhh!
Então, é por isso que ninguém respondeu a minha pergunta idiota sobre hashtag?
Gostei da aula!
Abraços

Robson Freire disse...

Olá Professor Michel e Fatima

Que prazer enorme ver vocês aqui no Caldeirão contribuindo para elevar o debate sobre o uso de novas ferramentas na educação.

Integrar as novas ferramentas para usa-las em sala de aula é o maior desafio que temos no momento.

Twitter, MSN, Orkut, Facebook e afins somente são realmente usados para falar nada que preste, mas se eles estão ficando mas burros com isso é por causa do mal uso dos recursos disponíveis.

Quando não se tem nenhum ganho educacional no uso dessas ferramentas é por que não direcionamos ou ensinamos o uso correto das ferramentas a eles. Não somente a escolas e os professores tem culpa, mas todos ,inclusive a família, tem culpa no cartório neste "fracasso mental".

Quanto a "necessidade de haver uma mudança curricular radical, agregando um ensino voltado para o uso destas ferramentas e, obviamente, formando o professor para que possa ser agente mediador" neste processo é uma das minhas batalhas pessoais junto ao meu NTE e professores de minha região.

Criar uma nova mentalidade requer tempo, dedicação e vontade politica de todos envolvidos, mas nada sairá do lugar se o professor não ver a tecnologia como sua aliada e não um inimigo a ser combatido.

Isso tá ficando bom.

Abraços