21 de out de 2008

Os professores e a regra de três

Claudio de Moura Castro

"Nossos professores não aprenderam a ensinar e, como conseqüência, nossos alunos não aprendem o que deveriam aprender"


Ato I. Oitocentos professores no auditório. Peço que levantem a mão aqueles que aprenderam a ensinar "regra de três" na faculdade de educação. Surpresa! Nem uma só mão levantada. Ou seja, não aprenderam como ensinar a mais útil das ferramentas matemáticas.

Ilustração Atômica Studio


Ato II.
Três mil professores no auditório. Falo com eles sobre a importância de receberem material didático bem detalhado, de forma a melhorar suas aulas e facilitar sua vida. Sou aplaudido de pé. Choram de decepção, ou de raiva, os fundamentalistas antilivros presentes ao evento. Para eles, o professor precisa inventar sua aula em vez de usar o bom material existente.

Ato III. Eu em conversa com algumas professoras. Como elas não aprenderam na faculdade a dar aula, admitem que seus alunos servem de cobaias, enquanto elas aprendem – processo que pode durar até cinco anos. É como se num curso de cirurgia os alunos estudassem apenas a psicogênese do ato cirúrgico. Ao se formarem, teriam de inventar maneiras de operar seus pacientes, já que não as haviam aprendido no curso. Pouco a pouco, aumentaria o número de sobreviventes entre seus pacientes.

Os exemplos acima não têm foros de evidência científica. Contudo, refletem a direção tomada pelos cursos que formam nossos professores. Alguns diretores de escolas públicas falam com nostalgia do velho curso Normal, no qual se aprendia a dar aula. Foi substituído por faculdades de Educação, para formar orientadores nas escolas, e pelos Institutos Normais Superiores, para formar os professores de sala de aula. Mas essas últimas instituições não eram do agrado dos gurus da nossa pedagogia. Usando seus potentes decibéis, conseguiram o seu bloqueio pelo MEC.

O resultado é trágico. Hoje são formados nas faculdades de Educação não apenas os orientadores, mas a esmagadora maioria dos que vão ser professores de sala de aula. Nessas faculdades eles ouvem falar dos livros de muitos autores, vivos e defuntos, nenhum dos quais ensina a dar aula. Em compensação, estudam as mais exaltadas teorias, tais como a luta de classes, a exploração do homem pelo homem, o imperialismo cultural, os intelectuais orgânicos e a psicogênese do conhecimento. É como se a inclusão de algum fragmento de sapiência fosse condicionada a não ter nenhuma aplicabilidade na sala de aula. Piaget não ensina a alfabetizar. Portanto, isso não se aprende nessas faculdades. Resultado: os professores se sentem perdidos diante dos seus alunos.

O educador chileno Ernesto Schiefelbein diz que um médico pode abrir um livro de cirurgia e ficar sabendo dos procedimentos aconselhados para uma apendectomia. Um educador deveria ter também um livro que pudesse consultar quando quisesse saber como ensinar a regra de três. Só que há resistência a livros tão específicos. Para nossos gurus, é errado explicitar como se ensinam tais detalhes, embora haja ampla pesquisa mostrando que isso dá bons resultados.

Entalado na controvérsia está o construtivismo, uma formulação teórica acerca da epistemologia do aprendizado. Aceitemos ou não as suas formulações, elas nada dizem sobre como os livros devem ser nem como usá-los. A subsecretária de Educação da cidade de Nova York é construtivista ferrenha e confessa. E insiste nos materiais escritos que especificam, nos mínimos detalhes, como conduzir a sala de aula. No Brasil, dizem-se construtivistas os gurus furiosos contra livros detalhados. Ou seja, o uso do livro nada tem a ver com o construtivismo. Mas tem muito a ver com o bom aprendizado. A receita é simples, precisamos de livros detalhados, em mãos de professores que aprenderam a usá-los e a dar aula. Assim se faz no mundo inteiro.

O resultado de não preparar professores para dar aula e fazer campanha contra livros é que nem a metade dos alunos da 4ª série é funcionalmente alfabetizada (todos deveriam saber ler ao final da 1ª série). O Pisa (uma prova internacional de aproveitamento escolar) nos mostrou que 23% dos nossos alunos nem sequer atingem o nível 1, o mais baixo. No total, 86% estão abaixo do mínimo esperado. A lógica é inapelável: como os professores não aprenderam a ensinar, os alunos não aprendem o que deveriam aprender.

Fonte: http://arquivoetc.blogspot.com/2008/10/claudio-de-moura-castro-os-professores.html

7 comentários:

Tati Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tati Martins disse...

Oi, Robson!
Excelente postagem. Gostaria de acrescentar que não só as faculdades de Educação, mas também as faculdades de Letras, Matemática, Biologia etc. etc. etc., em que os estudantes precisam fazer algumas matérias da Licenciatura para se tornarem professores de Ensinos Fundamental e Médio, formam maus professores.
Eu mesma defino os meus primeiros três anos de magistério como "Daniel na cova dos leões" ou um bombeiro em meio a uma queimada enorme. Precisei apagar vários incêndios, para adquirir experiência. Meus alunos, com certeza, foram verdadeiras cobaias.
Hoje, 12 anos depois, é que me sinto PROFESSORA PLENA. (Só comecei a me sentir segura enquanto professora, uns cinco anos depois, como vc mesmo apontou.)
O pior são aquelas pessoas que terminam a graduação e vão direto para uma Especialização, depois um Mestrado, às vezes até Doutorado, sem o dia-a-dia, a labuta, o reme-reme, ora desesperador, ora de beleza inexprimível da sala de aula.
É triste constatar tudo isso.
Beijinhos!

Conceição EJA disse...

Sei não, toda vez que vejo os escritos deste senhor lembro-me daquela frase do início do século XX: "os operários, que deixem os cérebros nos armários". Não precisamos estudar teorias? Basta seguir livros didáticos bem detalhados para conduzir uma boa aula? É seguindo um livro didático bem detalhado que os professores vão saber como ensinar? Os cursos das faculdades não incluem qualquer "fragmento de sapiência que possa ter alguma aplicabilidade em sala de aula"? Bom mesmo era o curso normal? Então que tipo de estudos deveriam ser extintos, e quais deveriam ser implementados nas faculdades para que os professores aprendessem a dar aula de verdade? Que autores e que editoras produziriam estes livros/escola maravilhosos, capazes de tornar os professores mais aptos a conduzir uma aula? Radicalismos à parte, não quero deixar meu cérebro no armário, pois precisaria dele para escrever um livro didático bem detalhado...

Anônimo disse...

Sobre a autora do comentário acima pela sua tese acredito piamente que a mesma faz parte dos fundamentalistas que habitam a educação. Críticos dos livros didáticos que me pergunto como podem criticar se nunca escreveu nenhuma. Adoradores das Teorias de Piaget que nunca foram concebidas e comprovadas no ambiente escolar. Entretanto se o construtivismo é tão bom os números da educação deveriam evoluir de forma positiva ano a ano.
Se tais teorias promovem tanto sucesso no ato de ensinar a ler Estas escolas, que seguem tais métodos, deveriam aparecer entre as melhores escolas do país. Na verdade a pedagogia para se justificar como ciência se abraçou em teorias não comprovadas , testadas em laboratório e que nunca em nenhuma parte do mundo demonstrou eficiência . Enquanto isso a velha e boa didática foi enterrada. Parabéns ao Professor Cláudio por ser uma das únicas almas sabias neste universo de mediocridade que se transformou a educação brasileira. Afinal é muito mais fácil filosofar, criar projetinhos enganosos do que ensinar a velha e boa tabuada e principalmente ensinar a ler e escrever
PS: A faculdade ensina a discutir o mundo, as elites, as classes dominantes, inclusão , projetos factóides, mas muito pouco a ensinar as matérias especificas .
Plauto Mendes

Anônimo disse...

Puxa, Plauto, que P.S. mais original.

BABI, BI, GABI, ISA E LILI disse...

Sim, precisamos de mais prática, mas exemplos, mais opiniões nas aulas. Mas não podemos deixar de lado toda a formação PARA O PENSAR que algumas poucas e boas faculdades têm. Isso nos mostra que precisamos sim recorrer à teoria e (o mais importante) que a tarefa de educar vem junto com uma visão do mundo, do homem, das relações. Por isso que estudamos tanto sociologia, filosofia, relação de gênero, etc. Do contrário, que voltem os cursos de magistério!
Como disseram por aqui: operários, deixem seus cérebros no armário, hora de obedecer!
Mas o texto é pertinente, ótimo...
Isa

BABI, BI, GABI, ISA E LILI disse...

HAHAHAHA! Só mais uma coisinha... O senhor Plauto Mendes está completamente enganado. Deve ter esquecido seu cérebro no armário!
A teoria construtivista não dá certo no Brasil (especialmente na rede pública e em muitos colégios PRIVADAS, digo, privados) porque não foi entendida, estudada e não é aplicada corretamente.
Quem se dedica a estudar a teoria construtivista sabe muito bem que o que estas escolas fazem é uma tremenda mentira: elas não levam o construtivismo a sério. Nem sequer entenderam o que este significa.
Isto só se dá porque muitas faculdades ruins (e são muuuuitas em pedagogia) formam um profissional limitado. Apostilinha, provinha, trabalhinho e ponto final. Ninguém pensa, ninguém discute, ninguém oferece bibliografia. Ninguém vai atrás. Todo mundo deixa o cérebro no armário (hahaha, adorei essa frase!).
Falta formação!!!! E formação teórica, deste tipo que o autor fala mal.
Ou, já sabem: que volte o magistério!
Isa