20 de ago de 2008

A Metodologia de Projetos de Aprendizagem e o Desenvolvimento de Competências para a Vida

Eduardo Chaves - Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Consultor do Instituto Ayrton Senna

1) A metodologia de projeto de aprendizagem contempla os princípios e propostas apresentados nos PCNs? Qual sua visão sobre isso?

A própria metodologia de projetos está contemplada nos PCNs... Logo, a resposta à primeira parte da pergunta é claramente afirmativa.
Quanto à minha visão desse fato, gostaria de salientar que, em linhas gerais, concordo com a filosofia inovadora dos PCNs: ênfase em competências e habilidades, metodologia de projetos de aprendizagem, contextualização, temas transversais, etc. Minha principal crítica aos PCNs não está naquilo que eles trouxeram de novo - os elementos que acabo de ressaltar - mas naquilo que eles mantiveram de velho: basicamente a estrutura curricular centrada em disciplinas e,
conseqüentemente, o ensino dos conteúdos disciplinares.
Os PCNs tentaram compatibilizar duas visões da educação que me parecem incompatíveis e, portanto, incompatibilizáveis:
a) De um lado, a visão de que a educação tem que ver com a aprendizagem, a vida, e, portanto, o desenvolvimento do aluno, e, por isso, deve centrar-se no desenvolvimento de suas competências e habilidades, deve fazer isso permitindo que ele aprenda o que lhe parece importante e/ou interessante em projetos de aprendizagem de sua escolha, etc.
b) De outro lado, a visão de que a educação tem que ver com a transmissão, por professores, e a absorção, pelos alunos, de certos conteúdos disciplinares, que, assim se supõe, reúnem a herança cultural da humanidade (ou da sociedade ocidental), deve centrar-se no ensino e no professor, o aluno tendo um papel passivo de consumidor (não-voluntário) daquilo que a escola tem a transmitir, etc.
Concordo com a primeira dessas duas visões - e discordo da segunda.
Como os PCNs tentaram fazer o que me parece impossível, compatibilizar as duas, virou, a meu ver, um Frankenstein. Mas é um Frankenstein que introduziu elementos positivos na pauta de discussão da educação brasileira.

2) Como os projetos de aprendizagem dos alunos podem oportunizar o desenvolvimento de competências? Na prática, como isso acontece?

Aquilo que é mais importante na metodologia de projetos de aprendizagem não é o que o aluno, ao desenvolvê-los, aprende sobre vários conteúdos disciplinares. Exemplifico. Digamos que uma aluna quer estudar, como seu projeto de aprendizagem, num determinado período, a questão do homossexualismo entre os animais. Imaginemos que ela optou por essa questão porque tem um animal qualquer - digamos, um papagaio - que ela suspeita ser gay. Pronto: o projeto de
aprendizagem dela está contextualizado na sua vida. Ela vai estudar a questão, pesquisar a literatura, entrevistar pessoas (especialmente veterinários), observar o comportamento de animais, organizar todo o material coletado, refletir sobre o assunto, e, tudo dando certo,
chegar a uma conclusão.
Nesse processo todo, ela vai aprender uma grande quantidade de coisas sobre comportamento animal que pertencem à disciplina Biologia, mais especificamente à área de Zoologia (embora esses assuntos interessantes raramente façam parte do programa de Biologia previsto na maioria das escolas).

É importante que ela aprenda esses conteúdos disciplinares, porque está interessada nelas. Para outros, porém, que não estão interessados nessas questões, esse aprendizado não é importante.

Mas mais importante do que esse aprendizado de certos conteúdos disciplinares é o fato de que, para chegar a eles (visto que eles não lhe estão sendo "transmitidos"), ela tem de adquirir uma série de competências e habilidades. Ela tinha uma questão: papagaio pode ser gay? Ela não sabia a resposta a essa pergunta. O que ela aprendeu, de mais importante, ao buscar a resposta, foi a competência de responder, ela mesma, a uma pergunta cuja resposta ela não sabia...
Aprendeu a pesquisar em fontes bibliográficas, aprendeu a entrevistar pessoas, aprendeu a observar fenômenos relevantes, aprendeu a reunir e organizar tudo isso, aprendeu a inferir uma resposta dessa massa de materiais, aprendeu a apresentar sua resposta de forma aceitável, aprendeu a defender a resposta que encontrou contra críticas, etc.

Esse aprendizado de competências e habilidades através do trabalho com projetos vai lhe valer durante a vida toda, em relação a qualquer outra pergunta que despertar a sua curiosidade.

Na verdade, esse aprendizado vai estar lhe valendo até mesmo se ela, um dia, se esquecer de qual foi a resposta específica que deu à sua pergunta inicial - ou mesmo que tenha se esquecido de qual foi essa pergunta...

3) O que muda no trabalho com projetos de aprendizagem?

A meu ver, muda tudo...

A educação deixa de ser centrada em conteúdos disciplinares (conteudocêntrica) e passa a ser centrada no desenvolvimento de competências e habilidades. A educação deixa de ser centrada no ensino (didatocêntrica) e passa a ser centrada na aprendizagem. A educação deixa de ser centrada no professor (magistrocêntrica) e passa a ser centrada no aluno. A educação deixa de ser algo passivo para o aluno e passa a ser algo no qual ele ativamente participa.

Em outras palavras: a introdução da metodologia de projetos de aprendizagem é condição "sine qua non" para uma educação que tem como objetivo criar as condições objetivas que permitam que as crianças se transformem, das criaturas incompetentes e dependentes que são ao nascer, em seres humanos adultos competentes e autônomos, capazes de escolher e definir um projeto de vida e transformá-lo em realidade.

Na realidade, a metodologia de projetos de aprendizagem é, a meu ver, a única compatível com uma visão de educação e aprendizagem que encara o aluno como protagonista, como parte da solução e não do problema.

Não consigo ver como é que se pode promover uma educação para o desenvolvimento humano apoiando a educação tradicional, centrada no ensino dos conteúdos das disciplinas curriculares tradicionais. Ainda que o aluno aprenda tudo aquilo, não terá se desenvolvido em nada em decorrência daquela aprendizagem.

Para mim, professar adesão à noção de que educação tem que ver com desenvolvimento humano, e, no entanto, ficar batalhando para que os alunos aprendam os conteúdos disciplinares tradicionais, é se concentrar em supostos meios e não nos verdadeiros fins da educação. Em suma, perda de tempo.

4) Como é possível avaliar as mudanças pedagógicas e os impactos que estão surgindo na escola com o trabalho por projetos de aprendizagem?

Como avaliar se o aluno vem desenvolvendo competências e habilidades em decorrência do trabalho com projetos?

A única forma é observando o seu comportamento. O desenvolvimento de competências e habilidades não se avalia através de testes escritos de múltipla escolha.

Vamos dizer que o projeto de aprendizagem de uma determinada aluna é dominar a língua inglesa, de modo a poder ler, escrever e conversar nela. Só se pode avaliar se essa aluna adquiriu a competência desejada conversando com ela em Inglês, pedindo que ela leia alguns textos em Inglês e discutindo os textos com ela, pedindo que ela redija algumas coisas em Inglês (seja lá o que for) e analisando o que ela redigiu... Não há outro jeito.

Vamos dizer que o projeto de aprendizagem de um determinado aluno é se tornar um nadador capaz de nadar em diferentes estilos. Só se pode avaliar se esse aluno adquiriu a competência desejada observando-o nadar. Não há outro jeito.

Na escola de hoje usamos testes porque queremos saber se os alunos absorveram os conteúdos disciplinares que tentamos lhes transmitir.

Na escola voltada para o desenvolvimento humano, não devemos usar testes. Devemos acompanhar o desenvolvimento dos alunos - sabendo o quanto cada um já alcançou dos objetivos de aprendizagem a que se propôs naquele período.

Fonte: http://www.escola2000.org.br/comunique/entrevistas/ver_ent.aspx?id=10

Nenhum comentário: