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2 de jun. de 2010

Saber pensar

"Aprender é a maior prova de maleabilidade do ser humano, porque, mais que adaptar-se à realidade, passa a nela intervir. Sendo atividade tipicamente reconstrutiva de tessitura política, é também a maior prova do sujeito capaz de história própria. Saber aprender é fazer-se oportunidade, não fazer oportunidade. Deixa-se de lado a condição de massa de manobra, objeto de manipulação, para emergir como ator participativo, emancipado.
Retomamos aqui o sentido de autonomia, que precisa ser todo dia conquistada e reconstruída. (...)

Na verdade evita-se estudar. Estudar significa dedicar-se a atividade sistemática de estilo reconstutivo, com base em constante elaboração própria, lendo autores para nos tornarmos autores. Não é absorver passivamente conhecimento alheio, muito menoscolar”. Estudar para a prova é o que há de menos importante na sala de aula, porque retrata artificialidade total as situações concretas da vida. Nem adianta inventar prova com consulta, porque ainda é prova. Faz-se necessário afastar a prova e avaliar de outros modos, sobretudo acompanhando a produção constante de conhecimento, com devida orientação e tendo o aluno sempre o direito de refazer enquanto houver tempo hábil. Ao mesmo tempo, estudar implica outra forma de ler.

Trata-se contra-ler, no
sentido de saber questionar o autor, interpretar seus argumentos centrais e refazê-los com mão própria, compreender seu contexto e suas bases teóricas e metodológicas, passar por dentro do livro e não pelas orelhas. Não se faz isso com todo livro, mas com aqueles que são centrais para a nossa aprendizagem. Ao ler um livro, é fundamental fazer-se sujeito, porque lemos autores para nos tornarmos autores.”

(Pedro Demo) Arte: Lacey Terrel

Fonte: http://307.to/lqL

23 de jan. de 2009

Ensinar exige estética e ética

Paulo Freire

A necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita à distância de uma rigorosa formação ética ao lado sempre da estética. Decência e boniteza de mãos dadas. Cada vez me convenço mais de que, desperta com relação à possibilidade de enveredar-se no descaminho do puritanismo, a prática educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decência e de pureza. Uma crítica permanente aos desvios fáceis com que somos tentados, às vezes ou quase sempre, a deixar as dificuldades que os caminhos verdadeiros podem nos colocar.

Mulheres e homens, seres histórico-sociais, nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso, nos fizemos seres éticos. Só somos porque estamos sendo. Estar sendo é a condição, entre nós, para ser. Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar.

Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado. De testemunhar aos alunos, às vezes com ares de quem possui a verdade, um rotundo desacerto. Pensar certo, pelo contrário, demanda profundidade e não superficialidade na compreensão e na interpretação dos fatos . Supõe a disponibilidade à revisão dos achados, reconhece não apenas a possibilidade de mudar de opção, de apreciação, mas o direito de fazê-lo. Mas como não há pensar certo à margem de princípios éticos, se mudar é uma possibilidade e um direito, cabe a quem muda - exige o pensar certo - que assuma a mudança operada. Do ponto de vista do pensar certo não é possível mudar e fazer de conta que não mudou. É que todo pensar certo é radicalmente coerente.


Referência bibliográfica
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 15. ed. São Paulo : Paz e Terra, 2000. p 36-37

Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.

Fonte: http://www.centrorefeducacional.com.br/paulo.html