23 de ago de 2010

Léa Fagundes: "O professor deve tornar-se um construtor de inovações"

Pioneira do uso da informática em sala de aula e com quase 60 anos de magistério, a gaúcha Léa da Cruz Fagundes é coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde nasceu o Projeto Amora, em parceria com os professores do Colégio de Aplicação. Presidente da Fundação Pensamento Digital e consultora de programas federais de inclusão digital em escolas públicas, Léa também é coordenadora pedagógica do projeto Escola, Conectividade e Sociedade da Informação (ECSIC). Inspirado no Amora, o projeto atingiu 10 mil alunos de 25 escolas municipais de Porto Alegre. Nesta entrevista, ela fala sobre as transformações profundas que as tecnologias digitais estão operando nos processos de aprendizagem e na reinvenção da escola.”Na cultura da sociedade conectada a aprendizagem se dá no contexto de vida, e o cidadão precisa ser um aprendiz permanente”.

MIDIATIVA - Qual a relação conceitual entre o projeto Amora e o Escola, Conectividade e Sociedade da Informação?

LÉA FAGUNDES - A concepção do AMORA explicita a busca da interdisciplinaridade, a substituição da organização hierárquica e repressora, que mantém a dependência e a submissão, pela organização heterárquica, que estimula a participação cooperativa e solidária, promove a autonomia e a responsabilidade da autoria.

Assim, o AMORA foi concebido pela comunidade de professores do Colégio de Aplicação e de pesquisadores da UFRGS em 1996/97 e passou a servir como experimento piloto do Projeto EducaDi/CNPQ 97/98. Neste último, 10 escolas públicas de quatro cidades, Fortaleza (CE), São Carlos (SP), Porto Alegre e Novo Hamburgo (RS), iniciaram o uso da Informática conectadas pela Internet aplicando os subsídios da experiência do AMORA, em diferentes aspectos e em diferentes níveis de transição. Os resultados do AMORA serviam como referência tanto para a metodologia de uso da Internet quanto para as novas definições das funções dos professores e as produções dos alunos. Nele delineamos uma metodologia social - a metodologia dos Projetos de Aprendizagem.

O Projeto Escola, Conectividade e Sociedade da Informação tem a mesma concepção do AMORA, acrescentando-se a dimensão da comunicação colaborativa e efetiva entre as comunidades das outras escolas do sistema municipal de ensino amplamente conectadas à rede digital.


MIDIATIVA - Qual é o objetivo deste projeto?


LÉA FAGUNDES - O objetivo principal do ECSIC (Escola, Conectividade e Sociedade da Informação) é disseminar e testar a aplicação dos resultados das pesquisas do LEC (Laboratório de Estudos Cognitivos) e do CAP (Colégio de Aplicação) no sistema de ensino de uma cidade inteira. Procuramos respostas aos problemas: “Escolas públicas que atendem às populações carentes e discriminadas de uma grande cidade podem encontrar novos e poderosos recursos para melhorar seu atendimento aos alunos com o uso das tecnologias digitais? Como reestruturar seus espaços, a distribuição dos tempos, a grade curricular para facilitar a prática de novas concepções de ensino?”

A concepção do AMORA e do Escola e Conectividade segue uma outra lógica. Não é mais a lógica do individualismo e da competição em que os mais fortes são privilegiados e os fracos são excluídos. Não é a lógica do atendimento de massa em que uma sala abriga uma classe organizada como se fosse “homogênea”, considerando apenas “idade e nível de escolaridade”, a quem é ensinado o mesmo conteúdo, da mesma forma, ao mesmo tempo, a todos os alunos, no mesmo espaço. O conteúdo é o centro do processo, é ordenado em seqüências lineares, de modo compartimentalizado e descontextualizado. O suporte da produção é o plano estável do papel e a comunicação e as trocas são restritas.

No AMORA, e nas tentativas do Escola e Conectividade, busca-se o atendimento à atividade do aluno, como sujeito integrando o coletivo no centro do processo. Os espaços e os tempos precisam ser flexíveis para que os alunos se organizem em pequenos grupos e se reorganizem continuamente em função de seus interesses e necessidades. As condições de espaços e tempos são planejadas semanalmente pelos professores para facilitar o atendimento a pequenos grupos por diferentes especialistas. O suporte da produção dos alunos é o meio digital, dinâmico, em que a comunicação ampla e as trocas recíprocas são naturais, facilitadas e estimuladas. A própria concepção dos projetos é realimentada e reconstruída continuamente na dinâmica de seus desenvolvimentos e das trocas entre os pares, internas e externas, em constante reconstrução.

MIDIATIVA - Como funciona a parceria com as 25 escolas municipais de Porto Alegre? Quantos alunos ela atende?

LÉA FAGUNDES -A Prefeitura de Porto Alegre tem 54 escolas de ensino fundamental e 2 de ensino médio. O critério para integrar o projeto é a adesão espontânea da Escola. Neste primeiro ano de 2003, 25 escolas foram aderindo durante o ano. A parceria está baseada num Convênio oficial celebrado entre a Secretaria Municipal de Educação (SMED) de Porto Alegre e o LEC/UFRGS.

O BNDES concede à Prefeitura de Porto Alegre fundos para bolsas de Iniciação Científica, Mestre e Doutor. Estas bolsas garantem a formação de equipes de orientadores, tutores e monitores que acompanham o trabalho em cada uma das escolas, apoiando os professores em serviço. Ao mesmo tempo recursos em software, ambientes virtuais interativos de aprendizagem, recursos de comunicação e repositórios das produções estão disponíveis no servidor da rede, em tempo integral.

A SMED oferece uma Coordenação pedagógica de Informática na Educação e uma equipe de 5 assessores, com equipamentos conectados a Internet para articular as interações entre a Universidade e as Escolas parceiras. Neste ano de 2003 conseguimos atingir 10 mil alunos. Mas atingir não quer dizer atender. O atendimento dedicado depende da conquista dos gestores das escolas e da confiança dos professores na necessidade das mudanças. Depende da paixão que o processo suscita nos professores para que superem seus medos e incertezas, despertem a consciência sobre o condicionamento milenar que sofreram, comecem a sonhar e tomem decisões de correr riscos em busca das transformações da Escola.

MIDIATIVA - De que forma o uso das novas tecnologias, principalmente a Internet, está mudando as formas de aprendizado e as relações entre alunos e professores?

LÉA FAGUNDES - Com o uso das novas tecnologias digitais, a atividade humana muda. E muda numa velocidade nunca antes imaginada pelo homem. Na verdade é uma mudança de cultura que está constituindo a sociedade conectada, a sociedade do conhecimento. A quantidade de megabytes de informação produzidos só nos últimos dois anos supera a quantidade de informação produzida em toda nossa história.

Já as “formas de aprender” são desconhecidas pela maioria dos educadores por falta de estudos sobre ciência cognitiva e conhecimentos sobre as relações mente, cérebro e sentimentos. Mas, em nossos estudos ao longo dos últimos 20 anos no LEC, com o uso das tecnologias temos conseguido conhecer melhor as “formas de aprender”, isto é, as formas como a inteligência humana naturalmente constrói o conhecimento. Só as estudando podemos ir acompanhando os efeitos do uso dessas tecnologias e, sobretudo da Internet. No entanto não podemos afirmar que sejam “novas formas”, porque pode ser o enriquecimento das possibilidades e um desenvolvimento efetivo que as formas naturais de aprender apresentam, mas que não são consideradas pelo tratamento do ensino tradicional.

Em resumo, uma nova inteligência está aparecendo na criança desta cultura e o homem dos próximos tempos disporá de novas formas de “pensar”. O funcionamento cognitivo é sistêmico, dinâmico e complexo e só se desenvolve na e pela interação. As condições de interação são determinantes tanto para o funcionamento atual quanto para a potencialização da genética de um aprendiz. Nas concepções da Escola e dos sistemas de ensino as “relações entre professores e alunos” são determinantes para o processo interativo de desenvolvimento de um novo aprendiz.

Na cultura da sociedade conectada a aprendizagem se dá no contexto de vida e o cidadão precisa ser um aprendiz permanente. A formação é continuada. Não existe mais “conclusão” e formatura. O papel do professor que detém a autoridade do saber e decide o que, como e quando o aluno deve aprender está superado. O professor precisa ser também um aprendiz, com todas as incertezas, um formulador de dúvidas tal como seus alunos, um parceiro. Suas novas funções, no entanto, são exigentes: ele precisa tornar-se o orientador confiável, um negociador nas buscas, na problematização e testagens das informações disponíves nas fontes da rede mundial e, sobretudo, nas buscas de novas respostas. As novas relações necessitam se constituir em respeito mútuo, considerações de reciprocidade que garantam a cooperação e a solidariedade na escolha dos conteúdos a estudar, e nas tomadas de decisões sobre como estudá-los para também produzir novas informações.

MIDIATIVA - Que dificuldades enfrentam os professores na capacitação para o uso de tecnologias de informação em sala de aula?

LÉA FAGUNDES - Trata-se de uma mudança de cultura, mudanças de concepções, de um novo paradigma! Esta situação provoca instabilidade e muitas incertezas. Toda a formação dos professores tem sido feita em cima de certezas, de princípios estabelecidos para a preservação, para a conservação, na concepção de que um bom professor deve conhecer mais profundamente o que vai ensinar. É corrente afirmar-se que os professores estão mal preparados porque não “dominam” os conteúdos que ensinam. Além disso ele também deve ter um bom “domínio” de sua classe de alunos, para manter a disciplina, referindo-se ao “bom comportamento” dos alunos. E nesta formação eles dominam também os materiais pedagógicos, manejam bem as tecnologias de ensino.

Ora, frente às tecnologias digitais, nunca se domina completamente o equipamento, e muito menos se consegue um controle seguro sobre seus usuários. Isto é também assustador. O professor se amedronta ante suas fragilidades no controle de mudanças imprevistas. Então resiste, buscando defender-se. E passa a solicitar cursos, formações. Ele, que ensina e acredita no que faz, quer também ser ensinado: quer aulas, quer materiais didáticos, quer diretrizes de software educativo e manuais, tutoriais.

Em nossa concepção, o auxílio de que o professore precisa, e merece receber, deve se constituir num apoio em serviço e em experiências de capacitação, em que ele possa experimentar por si mesmo as novas práticas de uso das tecnologias na educação, interagindo com seus pares na realidade de sua escola. Essa formação precisa ser compartilhada, mantendo-se a comunicação na rede para sustentar os questionamentos e as reflexões pertinentes. Para tornar-se um orientador da construção de conhecimento de seus alunos, ele precisa também tornar-se um construtor de inovações.

MIDIATIVA - Como você avalia o desenvolvimento dos alunos que são estimulados a buscar o conhecimento na Internet e a lidar com mídias interativas em geral?

LÉA FAGUNDES - Pode não acontecer desenvolvimento, mas a degradação. O desenvolvimento do aluno não depende da mídia, mas dos usos que ele faça dessas mídias. Vai depender das formas de intervenção dos educadores, dos contextos em que eles interajam, da atenção, do cuidado e dedicação que recebam.

Por isso, o paradigma precisa ser bem explicitado: os alunos terão liberdade de acesso e de escolha, mas para que vão usar sua facilidade de apropriação? Se continuarem sendo oprimidos, reprimidos, controlados, punidos e desrespeitados, vão lutar por liberdade e independência, tentar quebrar os elos das correntes…Então, desprotegidos e sem limites, ingressam nas atmosferas das enfermidades sociais.

Entretanto, quando a intervenção é ética, acolhedora e imaginativa, a liberdade é compartilhada, o processo de desenvolvimento se expressa em múltiplas formas: a curiosidade pelo conhecimento, o desejo de aprender, o desejo e a habilidade de formular questões, o respeito aos diferentes, as competências para realizar trocas usando diferentes sistemas de códigos, o trabalho colaborativo em grupos, a competência para buscar as informações relevantes, para fundamentar suas escolhas, de planejar, realizar e documentar seus próprios projetos de pesquisa, a apropriação dos recursos tecnológicos para utilizar em suas próprias produções, a criatividade na autoria e na publicação de suas produções, etc.

MIDIATIVA - Com a construção e publicação de sites próprios, os alunos não apenas aprendem a operar programas, mas também se constituem como autores de conteúdo. Que tipo de impacto esse processo gera?

LÉA FAGUNDES - No paradigma construtivista os equipamentos eletrônicos não devem servir para o consumo dos usuários. A tecnologia não vai ensinar ao aprendiz. Trata-se do oposto - o aprendiz vai dominar a tecnologia, vai ensiná-la, colocando-a a seu serviço. Ela é a parte do contexto dependente do humano para servi-lo em seus objetivos sem restrições. Suas resistências devem ser superadas e sua apropriação disseminada o mais amplamente possível com justiça e ética sociais. Esse será o maior impacto: os homens não precisarão dominar uns aos outros para ter escravos e afirmar seus poderes na sociedades. Eles têm seus escravos com os robôs a seu serviço. Ora, se um aluno pode ser um autor e as trocas são possíveis, livres e consistentes, a autoria também pode ser compartilhada. Não existe mais a necessidade da “propriedade intelectual” como um bem de mercado. O capital do conhecimento não se perde quando é compartilhado, pelo contrário, ele se multiplica. Um aluno, quando se torna autor, aumenta o poder de sua “auto-estima” porque ele também é capaz de produzir. Então se torna competente para conviver e compartilhar com outros autores em harmonia e com solidariedade.

Fonte: http://www.midiativa.tv/blog/?p=341

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