2 de jul de 2010

Computação sem fronteiras

A "nuvem" é um espaço de processamento e armazenamento de dados que não depende de nenhuma máquina específica para existir. Ela vai mudar a economia e o cotidiano – e permitir que qualquer objeto esteja ligado à internet

Carlos Rydlewski

Montagem sobre fotos Lailson Ssantos e IstockPhoto
CIENTISTA VIRTUAL
Pela internet, o fotógrafo Fábio Bustamente doa o tempo ocioso de seu computador para processar
dados de pesquisas de Harvard: "Eu acreditava que ser voluntário era ajudar em creches.
Mas isso é diferente. É surreal"


A internet é onipresente na vida de bilhões de pessoas, mas poucas delas são capazes de dizer o que exatamente a define. A resposta mais rápida – ela é uma rede mundial de computadores – dá conta de apenas uma parte do fenômeno. Fica faltando definir o que é uma rede de computadores. Quando se responde a isso, chega-se perto de entender o que a internet realmente é e por que ela tem potencial para revolucionar a vida contemporânea ainda mais dramaticamente do que fez até agora, menos de duas décadas depois do início de sua popularização.

A característica fundamental da rede mundial chamada internet é a maneira pela qual os computadores se interligam e se identificam uns aos outros. Computadores são identificados individualmente por seu número de IP, sigla em inglês para protocolo de internet. O IP, com a ajuda de outros protocolos, revela o endereço de rede do usuário, o tempo que passou conectado, se utilizou recursos como blogs e redes sociais, ou quais sites visitou. Nenhum outro meio anterior à internet exigiu do usuário a entrega de tantas informações para permitir o acesso a uma rede de comunicação. Isso pode ter um lado ruim para a privacidade, mas também abre uma fronteira de integração e de uso racional de recursos sem igual para a humanidade. É isso que, no fundo, define a internet. Essa é sua grande promessa.

Otavio Dias de Oliveira
AMBIENTE ASSÉPTICO
Data center da Tivit, em São Paulo: dentro dele, "máquinas-fantasma"
se formam de acordo com as demandas dos clientes


Atualmente, a rede mundial congrega 1,5 bilhão de computadores de todos os tipos e tamanhos, telefones celulares e até alguns televisores e geladeiras. Dentro de dez anos, estarão conectados à rede 7 trilhões de computadores, celulares, geladeiras, mas também aviões, carros, torradeiras, aspiradores de pó, torneiras, interruptores de luz, as próprias lâmpadas – cada objeto com seu IP individual, cada um encaminhando à rede, em tempo real, informações sobre seu funcionamento. Mais alguns anos, com o barateamento dos chips e a cobertura universal sem fio de cada metro quadrado do planeta, poderão estar conectados à internet cada animal doméstico e seu dono, cada pé de sapato ou tênis.

Em mais um passo rumo ao futuro previsível, estarão na rede não apenas os calçados, mas os músculos cardíacos ou o cérebro das pessoas – cada um fornecendo à rede, em tempo real, informações sobre o consumo de calorias ou eventuais doenças. Não é difícil imaginar o avanço se médicos pudessem saber, instante a instante, de cada pessoa que sofre um ataque cardíaco no mundo. E se ao mesmo tempo eles tivessem informações sobre a raça e a idade do paciente, se ele estava correndo ou em repouso, que tipo de comida guardava na geladeira ou que espécie de interação teve antes que o dispositivo captasse a falta de sangue oxigenado a algum vital músculo cardíaco? Os médicos teriam acesso instantaneamente a dados que hoje só as pesquisas epidemiológicas com anos ou até décadas de duração podem fornecer.

A evolução da internet narrada até aqui nada tem de ficção científica. É um quadro que os avanços tecnológicos do presente permitem prever com os dois pés firmemente plantados no chão. A chave do futuro é saber utilizar com prudência e sabedoria tanta informação. No presente, estamos aprendendo a armazená-la e processá-la. São os primeiros passos para o mundo surpreendente descrito acima. E não são passos. São saltos. O primeiro foi a própria internet. O segundo, mais recente, é descrito pelos especialistas como "computação em nuvem". É dela que trata esta reportagem, que abre o Especial VEJA Vida Digital.

A computação em nuvem veio para ficar. Por enquanto não existe uma denominação menos estranha para ela, portanto, é melhor nos acostumarmos. Do que se trata, exatamente? A computação em nuvem é mais ou menos o que sua mãe faz com as roupas sujas que você deixou espalhadas no chão do quarto e, dias depois, como que por encanto, encontra no armário limpas, passadas, cheirosas e cuidadosamente dobradas nas gavetas certas, sem que você tenha ideia de como isso aconteceu. A computação em nuvem faz isso com seus arquivos de internet – ela os armazena – e com suas necessidades de processamento – ela roda seus programas sem que você precise sequer estar com seu PC ligado.

Isso significa que uma porção crescente das informações digitais produzidas por pessoas e empresas está sendo processada e guardada em descomunais centros de computação espalhados pelo mundo, mas conectados entre si. Diz Ray Ozzie, substituto de Bill Gates no desenvolvimento de softwares da Microsoft: "A era da nuvem já começou. Terá um impacto revolucionário na maneira como as pessoas lidam com a tecnologia e vai determinar a história da computação nos próximos cinquenta anos".

Mesmo sem saber, você pode estar nas nuvens. Quem mantém fotos no Flickr, ou salva textos e planilhas no Google Docs, recorre a serviços de armazenamento de dados que operam na nuvem. A vantagem é poder acessar os arquivos de qualquer lugar: a informação não está "trancada" na memória de um computador. Para a grande massa de indivíduos, essa é a novidade mais importante imediatamente trazida pela nuvem. Ela marca o fim de um universo digital "PC-cêntrico". Computadores de grande memória e poder de processamento ainda terão sua utilidade em casa – mas, definitivamente, não serão indispensáveis. Não é por outro motivo que os netbooks, baratos e compactos, mas invariavelmente equipados com sistemas sem fio de conexão à internet, são as máquinas com as projeções de venda mais vistosas para os próximos anos (a previsão é que, só neste ano, as vendas aumentem 80%, oito vezes o ritmo de crescimento de computadores maiores). O poder de computação já não está aprisionado numa caixa de metal. Finalmente, o slogan criado pelo cientista americano John Gage para a Sun Microsystems, em 1984, tem um sentido palpável: "A rede é o computador".

A paternidade da expressão "computação em nuvem" é incerta. Mas a ideia, ainda que em formato rudimentar, remonta a 1961. Foi esboçada pelo especialista em inteligência artificial John McCarthy, então professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Numa palestra, ele descreveu um modelo de computação oferecido como um serviço semelhante ao de distribuição de energia. Algumas centrais, como usinas, forneceriam o processamento e armazenamento de dados para as residências e as empresas. É isso que está ocorrendo atualmente – graças ao surgimento de equipamentos e tecnologias (como a banda larga) ainda desconhecidos nos anos 60.

Na base da computação em nuvem encontram-se os data centers – imensos aglomerados de computadores conectados em rede. Alguns data centers reúnem milhares de servidores (aparelhos pouco mais potentes que um PC) enfileirados em longos corredores. O ambiente é asséptico, a temperatura é mantida permanentemente a 21 graus e o único movimento perceptível é o de pequenas luzes brilhando nas máquinas, indicando que as conexões com a web estão ativas. Segundo estimativa do Data Center Map, existem cerca de 1 000 data centers de grande e médio porte espalhados pelo mundo. Reunidos, ocupariam uma área equivalente a 278 campos de futebol. Todos os gigantes da tecnologia – Google, Microsoft, Amazon, IBM, HP – mantêm estruturas desse tipo em várias localidades. O Google sustenta pelo menos 36 centrais dispersas pelo mundo e tem planos de construir novas unidades sobre balsas, em pleno mar, para aproveitar a energia gerada pelas ondas (os data centers são consumidores frenéticos de energia).

Newscom
O FUTURO, AGORA
Nova Songdo, na Coreia do Sul: 25 bilhões de dólares para
criar uma cidade onde quase tudo terá um chip embutido

Os data centers estão longe de ser novidade. O termo popularizou-se nos anos 90, mas máquinas confinadas em salas frias existem desde a década de 60. No modelo convencional, grupos de computadores eram alocados para realizar diferentes tarefas: um, por exemplo, se incumbia da folha de pagamento de um banco, outro da contabilidade. Redistribuir as funções entre os grupos de máquinas era caro e trabalhoso. Por essa razão, havia grande ociosidade. Até 80% da capacidade de processamento não era utilizada em certos períodos. A tecnologia que transformou esses parques de computadores em nuvem foi a virtualização. Ela permite gerenciar o poder de um data center, fazendo com que todos os processadores e todas as memórias funcionem como um só. Mais que isso: ela cria sistemas virtuais ou "máquinas-fantasma" que destinam poder de processamento a determinados fins quando ele é necessário. Quando a tarefa é cumprida, o sistema virtual desaparece, liberando os servidores para outras funções. Assim, por exemplo, no horário de abertura das agências bancárias, boa parte do poder de processamento dos grandes data centers é destinada a elas. À noite, ele se volta para sites de entretenimento. Não é por outro motivo que a Amazon batizou o seu serviço de nuvem de Elastic Compute Cloud: o espaço de armazenamento ou processamento de dados destinado a cada cliente pode encolher ou se ampliar, conforme a demanda.

Essa elasticidade é um dos motivos por que a nuvem será revolucionária para os negócios. As empresas não precisarão mais gastar fortunas para montar estruturas de tecnologia que caducam rapidamente. Elas usarão a estrutura oferecida pela IBM ou pela Amazon. A consultoria Gartner estima que esse negócio tenha movimentado 46 bilhões de dólares em 2008. Em cinco anos, o mesmo valor será triplicado – atingirá 150 bilhões de dólares. Em 2008, a Nasdaq, a bolsa americana de firmas de tecnologia, criou um sistema com dados sobre milhares de ações. Se tivesse de bancar a infraestrutura, teria investido 7 milhões de dólares. Gastou somente 100 dólares recorrendo aos serviços de nuvem. No fim de 2007, o diário The New York Times digitalizou e tornou disponíveis na web 71 anos de reportagens, feitas entre 1851 e 1922. Pagou 240 dólares para hospedá-las na rede. Outra novidade: hoje, em vez de imobilizar recursos na compra de PCs, companhias podem contar com desktops virtuais. Os funcionários ganham um monitor e um teclado, enquanto o sistema operacional roda na nuvem. Trata-se de outra mudança substancial, dessa vez em relação aos softwares. Antes produtos, eles agora se tornam serviços. Não são mais comprados; paga-se uma taxa para ter acesso a eles pela internet. "Esse mercado deve crescer de 500 000 usuários em 2009 para 49 milhões em 2013", disse a VEJA Mark Margevicius, vice-presidente de pesquisa da Gartner. "O faturamento com softwares saltará de 6,4 bilhões de dólares em 2008 para 14 bilhões em 2012."

A nuvem é um fator de democratização das oportunidades de negócio. Ela significa que qualquer empreendedor pode ter um supercomputador – ainda que virtual – à sua disposição. Iniciativas inovadoras como o Facebook, criado por um grupo de estudantes de Harvard em 2004, jamais teriam prosperado sem o grande poder computacional, associado a custos módicos, oferecido pela nuvem. A Camiseteria, sediada no Rio, é um exemplo caseiro desse fenômeno. Criada em 2005, a empresa vende camisetas. Fecha 99% dos negócios pela internet e usa a rede como ferramenta de marketing. Sem a nuvem, não teria saído do papel. Para garantir o acesso de 15 000 pessoas por dia ao site, a empresa gasta 1 500 reais por mês. "Esse é um décimo do custo que teríamos com uma rede própria de computadores", diz Fabio Seixas, 34 anos, um dos sócios da companhia.

A ciência também se beneficia da nuvem. A IBM, por exemplo, mantém um sistema que conecta 1,2 milhão de computadores de voluntários espalhados por 200 países. Quando ligados, mas ociosos, esses PCs processam minúsculos fragmentos de nove estudos científicos. Há pesquisas sobre temas variados. Do desenvolvimento de uma variedade de arroz mais nutritiva à criação de painéis solares mais eficientes do que os empregados atualmente. Em rede, o poder computacional dessas máquinas equivale a mais de 200.000 anos de processamento de um PC comum isolado. Um data center localizado em Boston, nos Estados Unidos, coordena as operações. Pode dividir tarefas e trocar informações com outros onze data centers da empresa, distribuídos pelos cinco continentes – um deles está localizado no Brasil, em Hortolândia, a 110 quilômetros de São Paulo. A chave de todo o processo, obviamente, é a internet. O fotógrafo paulistano Fábio Bustamante, de 31 anos, participa do programa. "Colaborar numa pesquisa científica de alcance global, ao lado de milhões de pessoas em todo o mundo, me dá uma ótima sensação. É surreal", diz ele. Qual o resultado dessa ação conjunta? Quem comenta é Alán Aspuru-Guzik, professor de química na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, à frente do projeto de desenvolvimento de novos painéis solares. "Sem o sistema da IBM, minha pesquisa seria realizada em 22 anos. Agora, pode ser concluída em dois. É um avanço espetacular", diz ele.

Ernani d’Almeida
OPORTUNIDADES NA NUVEM
Fabio Seixas, cuja empresa gasta 1 500 reais por mês com serviços da nuvem:
"É um décimo do custo que teríamos com uma rede própria de computadores"


A nuvem deverá trazer maior eficiência e racionalidade para grandes sistemas urbanos que se utilizarem dela. Essa será uma das consequências, por exemplo, do mundo das "coisas que falam" mencionado no início desta reportagem. Em teste nos Estados Unidos e na Europa, chips ligados a tomadas elétricas permitirão que a energia em determinado ponto de uma casa (ou empresa) seja desligada a distância, pela internet. Tal ferramenta amplia o controle sobre aparelhos gastões, como ar-condicionado, refrigeradores e máquinas de lavar roupa. Cidades verdes construídas com esse aparato tecnológico podem economizar 75% de energia em relação aos centros urbanos desprovidos de conectividade. Gigantes como GE, Siemens e IBM investem pesadamente no maquinário que cria as chamadas redes elétricas inteligentes (smart grids). A Cisco, empresa líder no fornecimento de máquinas que distribuem o tráfego na web (os roteadores), estima que a venda de equipamentos e softwares para essas redes movimentará 20 bilhões de dólares em cinco anos.

A experiência mais ampla com ambientes totalmente digitalizados acontecerá em Nova Songdo, cidade que está sendo erguida na Coreia do Sul, com inauguração prevista para 2014 e planejamento de John Kim, ex-projetista-chefe do Yahoo!. As obras, com custo previsto de 25 bilhões de dólares, estão sendo tocadas por um consórcio de trinta empresas e se espalham por uma área de 6 quilômetros quadrados, o equivalente a 735 campos de futebol. O espaço abrigará 65 000 moradores e outras 300 000 pessoas que trabalharão no município. Quase tudo em Nova Songdo, apelidada de U-City ("u" de ubíqua ou onipresente), terá um chip embutido. Projetos de residências inteligentes preveem a inclusão de até 2 000 desses dispositivos numa casa. Embalagens recicláveis serão chipadas. Quando o lixo for descartado adequadamente, o cidadão poderá receber um crédito tributário. Os automóveis também serão permanentemente monitorados. "As informações enviadas pelos carros vão permitir a identificação de engarrafamentos antes que aconteçam", diz Marcelo Ehalt, diretor da Cisco, empresa que participa do projeto coreano.

Como sempre acontece nas revoluções tecnológicas, o surgimento da nuvem desperta temores e apreensão. Boa parte deles tem a ver com segurança e privacidade (veja reportagem na pág. 78). Num artigo publicado recentemente no jornal The New York Times, Jonathan Zittrain, professor de direito em Harvard e autor do livro O Futuro da Internet – E Como Evitá-lo, observou que informações armazenadas on-line têm menor proteção tanto na prática quanto do ponto de vista legal. "Antigamente, bandidos tinham de se apossar de um computador para descobrir nossos segredos; com a nuvem, só precisam se apossar de uma senha", escreveu ele. Segundo Zittrain, a nuvem pode ser ainda mais perigosa sob regimes autoritários: "Exceto por transações bancárias e de comércio eletrônico, o tráfego da internet raramente tem a encriptação necessária para protegê-lo de olhares curiosos". A maioria dos fatos mencionados nesta reportagem, contudo, tem claras implicações benéficas. As possibilidades da nuvem mal começam a ser divisadas. Como diz Irving Wladawsky-Berger, um visionário que atuou 37 anos na IBM, essa nova tecnologia pode ser comparada à explosão de vida do período cambriano, ocorrida há 540 milhões de anos: subitamente, várias trilhas se abriram para a evolução.

Com reportagem de Flávio de Carvalho Serpa e Leo Branco

Fonte: http://veja.abril.com.br/120809/computacao-sem-fronteiras-p-062.shtml

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