3 de ago de 2008

Radio e escola, uma sintonia fina

Em São Paulo ou num vilarejo ribeirinho do Pará, programas comunitários mostram a importância da comunicação para a aprendizagem

Ricardo Prado

Pedro Martinelli

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O proprietário de um mercadinho recém-inaugurado na Cidade Líder, na zona leste da cidade de São Paulo, resolveu cobrar apenas 8 centavos pelo pãozinho. A estratégia deu certo e o comerciante ganhou a freguesia. O que ele nunca soube é que a notícia do pão barato havia sido veiculada na Rádio Negro, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Sebastião Francisco, o Negro, localizada no mesmo bairro (foto acima). Ouvida pelas crianças no circuito interno instalado em cada sala de aula, a notícia chegou às mães e estas foram conhecer o novo mercado. O trabalho, evidentemente, tem trazido ganhos pedagógicos. Os alunos estão aprimorando a escrita e aprendendo a observar a mídia com outros olhos, tanto no sentido de ampliar o senso crítico como de buscar exemplos de ação a serem seguidos.

Bem distante dali, numa pequena comunidade às margens do rio Tapajós, no Pará, às 5 e meia da manhã uma voz ecoa do alto-falante instalado em um mastro: "Bom dia, comunidade de Piquiatuba. Aqui fala a Rádio Piquiá!" A emissora funciona como despertador nesse local, que tem energia elétrica obtida de uma pequena instalação captadora de energia solar e apenas recentemente teve seu primeiro aparelho de televisão solenemente instalado no barracão comunitário. Pela Rádio Piquiá crianças e jovens da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Terezinha ganharam vez e voz. Melhoraram a oralidade e começaram a apreciar a leitura.

As duas experiências que unem educação e comunicação têm muito em comum. Em ambas, a rádio se tornou um instrumento importante na melhoria da aprendizagem da garotada, além de funcionar como meio de integrar a comunidade.

O que é a educomunicação

Surgida no Brasil por volta de 1990, a educomunicação tem como objetivo formar alunos críticos e criar um "ecossistema comunicativo" na escola. Ela não é um campo da comunicação social nem da educação.

"As faculdades de Educação ainda não assumiram a função de formar professores que façam uma leitura crítica da mídia", explica Ismar de Oliveira Soares, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Em São Paulo, uma grande rede

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Sebastião Francisco, o Negro, é uma das 121 instituições públicas integradas ao projeto Educom.rádio, que selou parceria entre a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e a Secretaria Municipal de Educação.

Os recursos técnicos para pôr a programação no ar se resumem a um pequeno equipamento profissional com oito canais, entradas para gravador e CD. O alcance é restrito a 200 metros, suficiente para abranger o território da escola sem entrar em conflito com a atual legislação, que não autoriza o uso de rádios comunitárias.

Para os professores, o projeto possibilita uma discussão teórico-pedagógica. Eles conhecem a educomunicação e debatem sobre temas que podem ser tratados em programas radiofônicos, como saúde, meio ambiente e sexualidade. "Não se trata de criar um reforço para a aprendizagem, embora ele exista", explica Ismar de Oliveira Soares, professor da ECA e coordenador do projeto. "O trabalho abre um espaço comunicativo que age na esfera da expressão. A criação desse canal é que favorece a aprendizagem."

E quais os proveitos para os estudantes? "Um ganho imediato é no campo da escrita", diz Ismar. "Como as crianças precisam escrever a pauta do programa, fazer o roteiro de uma radionovela ou redigir notícias, muitas delas, que nunca ou pouco haviam escrito, estão apresentando textos muito mais bem estruturados."

Concursos e reportagens

Pedro Martinelli

Aluno-repórter entrevista colega para programa de rádio na Sebastião Francisco, o Negro: espaço comunicativo

A professora Roseli Marcelle confirma os ganhos na frente pedagógica e na cidadã. Três vezes por semana, durante 15 minutos, a escola ouve, atenta, as mensagens da Rádio Negro. Um dos programas de mais sucesso é o "Teste Seus Conhecimentos", feito com perguntas previamente coletadas entre os professores. Aqueles que acertam mais questões ganham lápis, borrachas ou cadernos.

Outro sucesso de audiência foi o programa especial sobre animais em extinção, que originou uma exposição de desenhos. O acidente sofrido por um colega na hora da saída, que foi resgatado de helicóptero, também mereceu boa cobertura.

Mas nem só de notícias e estudos vive a rádio. Há também horóscopo, músicas pedidas pela garotada (costumeiramente dedicadas a alguém muito especial) e, de vez em quando, até correio elegante.

Uma emissora na floresta Amazônica

Pedro Martinelli

Técnico instala corneta da Rede Mocoronga de Comunicação: ondas na floresta

A Rádio Piquiá, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Terezinha, faz parte da Rede Mocoronga de Comunicação, criada há 16 anos pela organização não governamental Projeto Saúde & Alegria (PSA), que atua em 32 comunidades ribeirinhas extrativistas nos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, em Santarém e Belterra, onde vivem cerca de 23 mil pessoas. O equipamento utilizado lá é composto de um kit de áudio com amplificador, mesa de som, gravador, CD player e microfones, ligados a duas cornetas instaladas em mastros ou no alto das árvores.

A Rede Mocoronga (gentílico daquele que nasce em Santarém) vem servindo como elo de comunicação entre várias comunidades que antes mal se conheciam e pouco conversavam sobre problemas comuns: a legalização de suas terras, muitas transformadas por decreto na Floresta Nacional do Tapajós, alternativas econômicas para o declínio da pesca no rio Tapajós ou os problemas de saúde causados por verminose, consumo de água contaminada e uma alimentação pobre em nutrientes.

Durante os programas, os estudantes falam da importância de pingar cloro na água e da campanha que vem sendo feita para higienizar as fossas sanitárias. Quando têm jornais de Santarém, a cidade mais próxima, distante seis horas de barco, lêem as notícias. Na hora do almoço, entrevistam as mulheres sobre receitas típicas e pratos que usam sobras de alimentos disponíveis na região.

Do projeto também faz parte o circo Mocorongo, que leva atividades circenses para a escola. Para atrair a atenção da audiência mirim, os alunos da rádio até apresentam o programa fantasiados de palhaço.

Pedro Martinelli

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Por meio dos alto-falantes da Rádio Piquiá os moradores são despertados pela manhã. Quem cuida da programação são os alunos, que se vestem de palhaço para atrair a atenção das crianças e entrevistam os moradores. A iniciativa tem permitido o resgate de costumes antigos e de histórias da comunidade

Cultura popular

Pedro Martinelli

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Seu Taumaturgo, morador mais velho da comunidade, explica

como enfrentou um boto enfeitiçado: recuperação da tradição cultural

A comunidade também participa da programação. Seu Raimundo Lima, que tem cinco netos participantes da Rádio Piquiá, canta músicas da tradição com voz impostada e grave. Depois dele, dona Teca ensina a fazer o tarubá, uma bebida de mandioca. Depois das dicas sobre a escovação dos dentes e o bochecho com flúor, feito na escola uma vez por semana, o programa é finalizado por seu Taumaturgo. O morador mais velho da localidade reprisa como, há muito tempo, enfrentou um boto enfeitiçado, graças à ajuda de um pajé.

"Nosso objetivo sempre é fortalecer o senso de comunidade", enfatiza Fábio Pena, vice-coordenador do Núcleo de Educação, Cultura e Comunidade do PSA. Estudante de Pedagogia, ele se vale de sua experiência de ribeirinho para fazer a ponte entre os professores e o grupo de jovens no uso pedagógico da rede de comunicação.

Ednelson dos Anjos, um dos quatro professores da Santa Terezinha, que tem até a 6ª série, ressalta que a turma melhorou no principal problema: a timidez. "Os alunos estão falando mais e melhor. E passaram a gostar de leitura, pois muitas vezes preenchem a programação lendo histórias."

O impasse legal

A questão das rádios comunitárias vem ganhando relevância política, tanto que está em discussão na Comissão de Constituição e Justiça do Senado uma emenda constitucional para atribuir a concessão de licença de uso apenas ao Ministério das Comunicações, dispensando a chancela do poder legislativo, obrigatória desde a Constituição de 1988. Mas as comunidades querem mais. Desejam que essa outorga seja municipal, pois é nesse âmbito que elas estão instaladas. "Já existe na cidade de Itabuna, na Bahia, uma lei que autoriza a prefeitura a outorgar licenças de rádios comunitárias. A Anatel está contestando a lei, mas sei que na cidade de São Paulo também existe um projeto tramitando nesse mesmo sentido. Está havendo, sem dúvida, uma mobilização na sociedade pela democratização do uso do rádio", analisa o professor Ismar de Oliveira, da ECA.

Enquanto a lei não permite, uma escola paulistana resolveu o impasse criando a Rádio Portão. Instalou os alto-falantes na entrada, mas alguns deles voltados para fora, de modo que quem esteja passando perto do portão também possa se inteirar dos assuntos mais importantes do bairro. Assim, quase que sem querer...

Quer saber mais?

Escola Municipal de Ensino Fundamental Sebastião Francisco, o Negro, R. Onofre Jorge Velho, 260, 08280-330, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 6748-1131

Projeto Educom.rádio, Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Cidade Universitária, 05508-900, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 3091-4784, site: www.educomradio.com.br

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0165/aberto/mt_189459.shtml

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