17 de nov de 2007

Racismo se aprende na escola

"A cultura que se veicula na escola não respeita o negro", afirma a professora da rede pública Rita de Cássia Souza Pierini que defendeu, recentemente, sua dissertação de mestrado, Racismo e sala de aula no município de São Paulo: o caso da comunidade negra no antigo curso primário – Zona Norte: 1970-1990, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. "Nas disciplinas escolares, o negro é sempre retratado de forma inferior, e a sua cultura é esquecida. Além da perda de sua identidade, o negro perde seu espaço dentro da sociedade. Ele não se identifica com o que aprende, e acaba perdendo o interesse pelas aulas. Assim, a evasão escolar seria provocada por uma questão cultural", explica.

A educação no Brasil, segundo a pesquisadora, é unilateral, baseada na cultura européia. A História do Brasil por vezes se confunde com a História da Europa, e os livros dificilmente mencionam as influências trazidas pelos africanos, suas religiões, costumes e musicalidade. "Na História, o índio é somente o índio. O negro é o escravo, e o branco é o senhor, o herói. É um ensino elitista, que exclui o negro da formação da cultura brasileira", conta Rita de Cássia. "A ideologia vigente faz com que o negro se torne invisível na sociedade. Isto gera um processo de branqueamento, pois ele absorve os valores dos brancos. Há negros que são mais brancos do que os próprios brancos".

Para Rita de Cássia, "o negro não se sente à vontade num lugar onde é alvo de brincadeiras e achincalhação por parte dos colegas e não se vê defendido, nem pela sua escola, nem pelos seus professores, que às vezes também o atacam. Ele cresce à margem, como se sua condição de inferioridade fosse algo natural. O aluno negro desenvolve baixa auto-estima, o que o leva a obter piores resultados no colégio", observa a professora. O problema da discriminação, contudo, é cíclico. "A escola não é a única responsável pelo racismo. É ela que forma a sociedade, mas é também a sociedade quem faz a escola", adverte.

Entre as brincadeiras mais freqüentes, o cabelo é presença certa. Ofende-se ainda o negro pela sua suposta ociosidade e falta de higiene, frutos do estereótipo do preto escravo. A escola, diz Rita, está sempre omissa. Algumas instituições chegam a negar matrícula para estudantes de cor. E o problema não é somente social, como se imagina. É também étnico. "Mesmo aquele que conseguir galgar os degraus da pirâmide social estará sujeito a um ataque racista.

Como um negro que, por dirigir um carro importado, é tido como chofer ou ladrão. No Brasil, negro bem sucedido é jogador de futebol ou cantor", protesta. Alguns dos negros por ela entrevistados revelaram outro dado interessante: muitos escamoteiam o racismo que sofrem, apontando diversas outras razões para os maus tratos de que são vítimas, ao invés de sua cor. "Trata-se de uma introjeção do racismo em si mesmo", define a professora.

A solução, defende Rita, estaria na criação de um sistema de cotas similar ao norte-americano, que reservasse, por exemplo, um determinado número de vagas no vestibular só para os candidatos de cor. "O racismo tem raízes muito profundas e antigas. É necessário um mecanismo formal para cortá-las, uma ação mais radical", explica. Ela propõe ainda a revisão dos livros didáticos, suas fotos, imagens e textos, uma maior abertura para a discussão do assunto dentro da escola e da comunidade, e uma mudança no sistema educacional, com a introdução da cultura negra em salas de aula. "É preciso que as pessoas tomem conhecimento de tudo o que a África nos legou. E que abandonem a postura egoísta de pensar que o racismo é um problema só de quem o sofre. É uma questão de toda a sociedade".

Mais informações:((011) 203-8310.

Fonte: http://www.usp.br/agen/rede348.htm#Racismo%20se%20ensina%20na%20sala

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