9 de nov de 2006

Cazuza – O Tempo Não Pára


“Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder”
Toda vez que colocamos nosso corpo no limite extremo de suas forças estamos muito próximos da linha divisória que separa a vida e a morte. Depois que atingimos a idade adulta percebemos isso com muito mais clareza. Enquanto somos crianças a idéia da morte nos parece tão distante quanto o Brasil do Japão, ou seja, do outro lado do mundo, praticamente inatingível. Quando atingimos a juventude e deixamos para trás a candura da meninice começamos a pensar que somos imortais, eternos.
A força que brota em nossos corpos na medida em que crescemos nos faz parecer fortes como os adultos, mas com um fôlego muito maior. Nenhum desafio que se coloca a nossa frente parece inatingível. Tudo o que for “legal” pode e deve ser experimentado. Passamos a pensar que mesmo o extremo de nossas habilidades e forças pode ser testado sem que conseqüências nefastas possam advir dessas práticas.
Depois do Festival de Woodstock e da liberação sexual vivenciada pelos jovens durante a década de 1960, resolvemos experimentar de tudo. Orgias sexuais, utilização do ácido lisérgico (LSD), fumar baseados, aspirar carreiras de cocaína ou ainda drogar-se com heroína tornaram-se práticas corriqueiras para uma parcela de jovens que se consideravam arautos da modernidade e da plena liberdade.
Mesmo a morte de ícones da liberalização dos hábitos e costumes como Janis Joplin ou Jim Morrison não pareceram mostrar aos jovens ávidos por grandes revoluções nos hábitos e costumes que algumas de suas “conquistas” eram um tanto quanto perigosas...
O início dos anos 1980 e o surgimento da chamada (naquela época) “peste gay” também não intimidaram os mais “valentes” e desmedidos, mesmo no caso daqueles que se mostravam inteligentes e vanguardistas (talvez por isso mesmo eles não tenham perdido o ímpeto e a vontade de transformar radicalmente tudo o que se encontrava ao seu redor).
Entre esses jovens que resolveram desafiar o establishment estava, sem sombra de dúvidas, o cantor e compositor brasileiro Cazuza. Filho de uma bem posicionada família de classe média alta carioca, Cazuza não era do tipo que admitia qualquer enquadramento ou regra. Desafiava os pais e os ditames sociais através de suas músicas e também de seu comportamento. Apresentá-lo como um herói seria realizar uma leitura isolada da sua obra distanciando-a da vida de seu criador. Tornar Cazuza um vilão aos olhos do grande público faria com que cometêssemos uma tremenda injustiça com um dos mais destacados compositores do rock nacional.
Sua vida, transformada em filme de grande sucesso pelos cineastas Sandra Werneck e Walter Carvalho, entretanto, merece um exame por parte de educadores e estudantes. Através dessa obra cinematográfica ficamos a nos perguntar o que compelia um jovem de obra tão reconhecidamente qualificada a atirar-se de tal forma do alto do precipício que delimitava o morrer e o viver?
O Filme
Já se passaram 15 anos da morte de Cazuza. Uma nova geração de jovens vive num mundo onde a batalha ideológica entre o capitalismo e o comunismo já parece conversa de outra era. “Ideologia”, um marco a sua época, perdeu um pouco de sua sonoridade e alcance numa época onde prevalecem o consumismo e os shoppings centers. A produção do filme “Cazuza – O Tempo Não Pára”, baseado no romance “Só as mães são felizes” de Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), surge num momento em que as obras do cantor e compositor precisavam de um impulso para conquistar novos fãs.
Mas, nem por isso, Sandra Werneck (a diretora do filme), procurou amenizar o discurso e transformar Cazuza em monumento a ser cultuado. Ele não era, definitivamente, uma pessoa que estava em busca de espaços oficiais onde pudesse se tornar estátua ou nome de escola. Cazuza queria mesmo era aproveitar a vida em tudo que ela podia lhe dar. Noitadas intermináveis, muita birita, maconha em profusão, relacionamentos íntimos com diferentes parceiros (dos dois sexos) e tantos outros abusos do verdadeiro “exagerado” fazem parte de sua cinebiografia.
Há, realmente, uma preocupação de não extrapolar as situações apresentadas na tela para não ofender ao grande público e não tornar o filme proibido para menores de 16 anos. Por isso, as seqüências mais “fortes” foram abrandadas para comportar públicos maiores.
Em Cazuza, temos a nítida impressão de estarmos vendo a história de muitas pessoas que estiveram aos nossos lados durante os anos 1980. Como sobrevivente daquela época, devo admitir que não foram poucas às vezes em que estive muito próximo de todos aqueles descaminhos. Minha sorte (ou azar, para alguns...) é que nunca tive talento para compor ou cantar e, por isso, minha rota foi a dos estudos, da caretice. O surpreendente, depois de tudo o que vivemos, é constatar que os “caretas” daquela época vivem (ainda que anônimos) seus sonhos, enquanto os “porras-loucas” já partiram dessa para uma melhor há algum tempo...
Obs. Muita atenção para a impressionante atuação de Daniel de Oliveira como protagonista, é realmente notável como ele conseguiu dar ao papel principal uma interpretação tão aproximada do verdadeiro Cazuza.
Aos Professores
1. Não dá para deixar de lado um assunto tão forte e presente na realidade dos jovens como as drogas. A escola tem um importante papel no sentido de divulgar o conhecimento adquirido acerca das conseqüências nefastas dos tóxicos para a vida de qualquer pessoa. A organização de eventos em que sejam feitos relatos de experiências vividas por ex-dependentes, médicos, enfermeiras ou pessoas especializadas no tratamento de viciados pode ser muito útil. A apresentação de filmes como “Cazuza”, “Bicho de Sete Cabeças” ou “Christiane F.” com a subseqüente organização de projetos de pesquisa também pode auxiliar e muito nesse trabalho de esclarecimento.
2. A AIDS é outro tema importante trabalhado na cinebiografia de Cazuza. Projetos que envolvam um estudo da doença, sua proliferação, as pesquisas em busca de medicamentos, a evolução histórica dessa enfermidade ou ainda o mapeamento mundial da epidemia podem envolver professores de diferentes disciplinas como biologia, geografia, história, redação ou química.
3. Um outro trabalho muito interessante que poderia ser desenvolvido a partir do filme “Cazuza” seria o estudo e contextualização das letras das músicas do controvertido compositor. O que Cazuza queria dizer com composições como “Brasil”, “Ideologia”, “Burguesia” e tantos outros hits que marcaram época? Ainda é possível observar nessas letras o mesmo país de 15 ou 20 anos atrás?
4. Quais são as raízes do Rock Brasileiro? Rita Lee e os Mutantes? Raul Seixas? E a repercussão do trabalho de nossos principais artistas nessa ramificação de nossa música? Uma coisa é certa, a obra dos precursores e também a de seus herdeiros estabeleceu uma nova e rica fatia da cultura nacional. Que tal descobrir um pouco dessa história fazendo uma pesquisa aprofundada da história do rock em terras tupiniquins? O que seria do Brasil sem Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e companhia limitada?

João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo);
Professor universitário e Pesquisador atuando no Centro Universitário Senac em Campos do Jordão;
Editor do Portal Planeta Educação


Ficha Técnica

Cazuza – O Tempo Não Pára
País/Ano de produção: Brasil, 2004
Duração/Gênero: 98 min., Drama
Direção de Sandra Werneck e Walter Carvalho
Roteiro de Fernando Bonassi e Victor Navas
Elenco: Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Farias, Andréa Beltrão, Leandra Leal, Débora Falabella, André Gonçalves, Cadu Fávero, Emílio de Mello.

Links

http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/cazuza/cazuza.htm
http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=1529
http://cineclick.virgula.com.br/criticas/index_texto.php?id_critica=8832

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