29 de jun. de 2009

Uma visão contemporânea do professor do futuro e o uso da informática educativa na escola


Vivemos num mundo, onde em muitos aspectos e parecido com o mundo em que viveram os nossos pais e avós. Muitas invenções feitas nesse século estão disponíveis a todos, em quase todos os setores da vida humana.

Os computadores, a internet e outras tecnologias relacionadas à telecomunicação encontram-se em quase todos os ambientes dos quais o ser humano esta presente. É como não podia deixar de ser a escola e em particular a educação está sofrendo com esse avanço tecnológico.

Atualmente estamos assistindo a uma revolução cultural que se caracteriza pelo amplo uso das tecnologias da informação e comunicação. O conhecimento é um fator importante de produção nessa sociedade.

Ainda que não pareça tão evidente para alguns, essas mudanças estão presentes no nosso dia a dia, transformando o mundo em que vivemos todo dia um pouquinho mais. Para alguns de nós educadores, elas podem não parecer tão importantes ou significativas, mas de alguma forma esse avanço tecnológico está mudando o nosso jeito de aprender e ensinar.

Nos tempos atuais, a escola não pode ser conformar com o simplesmente ensinar a ler e escrever, como único mecanismo de superação pessoal. Se quisermos que nossos alunos tenham oportunidades na sociedade, nos devemos assumir o nosso desafio de levá-los a um novo patamar.

O mundo esta se confrontando com o nascimento de uma nova era, um novo sistema social, em que o conhecimento, o acesso e as aptidões para usar as novas tecnologias serão o elemento-chave da economia, da geração de riquezas e principalmente com a educação.

Se não tomarmos a responsabilidade de formar nossos alunos para que sejam inseridos na “sociedade da informação”, estaremos relegando eles, ou melhor, condenando eles as piores condições ou a exclusão social.

Se ignorarmos o que esta acontecendo no mundo, se, por medo ou por acreditar que é algo muito distante de nós, ou ficarmos indiferentes e não nos prepararmos, estaremos condenados a ser vitimas passivas daquilo que outros decidirem.

A única maneira de assumir essas mudanças com responsabilidade é compreendê-las. E bom que integremos essa tecnologia para transformar o mundo, para nos divertimos e, também, para transformar a própria tecnologia.

O mundo está mudando e também deve mudar a educação que damos aos nossos alunos, para que enfrentem e se desenvolvam nesse mundo onde o domínio e a transformação de informação em conhecimento, onde as redes sociais formam e define quem você é dentro desse mundo novo. Para isso precisamos estar preparados, motivados e capazes de levá-los, ou melhor, ir com eles a esse futuro que já chegou.

Eu costumo me perguntar por que devemos usar tecnologia na escola e a resposta é sempre uma pergunta: Por que queremos que a escola seja moderna? Possivelmente, ainda que isso pareça impensável para alguns, não interessa que a escola seja moderna ou atual.

A escola não precisa estar na moda, no sentido fashion da palavra seus ou no sentido top da tecnologia, mas o que interessa é a escola conseguir os seus objetivos: formar integralmente seus alunos, capacitando-os para que se insiram no mundo moderno para que eles sejam protagonistas, os senhores dos seus destinos, de suas vidas e se transformem em agentes de mudança social.

Propor o uso do computador nas escolas despertou grande interesse, mais ainda gerou uma expectativa em todos os segmentos da educação. Criou-se um mito de que apenas a chegada dos computadores nas escolas ocasionaria uma grande revolução no sistema de ensino, uma revolução da qualidade educativa, com a qual se conseguiria cumprir os objetivos da educação que a sociedade esperava e que precisava.

Quando acreditamos que os aparelhos têm em si o poder de gerar esta mudança, sentimos que tais equipamentos nos enganaram que não cumpriram a promessa de “modernizar” e “melhorar” a qualidade de nossa educação. Os computadores são meios e não o fim.

O erro esta em pensar que eles são “varinhas mágicas”, e que a sua simples presença na escola basta para transformar a realidade de uma instituição educativa. O certo é de que não existe formula mágica para enfrentar o problema a partir de outra perspectiva de ação.

O sistema educativo e a escola são processos culturais. A escola não é o agregado de coisas que formam o “edifício escolar”. A escola é uma instituição social, na qual se somam pessoas (professores, alunos e funcionários), normas e processos sociais. E uma mudança na escola instituição passa por uma profunda revolução educacional.

Uma nova visão sobre o que se pretende nessa mudança deve partir primeiro sobre o modo de como se ensina, se aprende, se avalia e se compartilha e como se constrói essa relação onde todos são agentes de aprendizagem.

Precisamos deixar de ver os computadores e a internet como “coisas que chegam” e que são eles que tem efeito sobre os nossos alunos e sobre a escola. Essas ferramentas, sim eles são apenas ferramentas, que só produziram algum efeito na escola, se nos professores, que construímos a vida na escola, nos apropriarmos dela, transformando-as em recursos a favor da aprendizagem e integrando-as aos outros recursos disponíveis.

A informática educativa supõe o uso das tecnologias da informação e comunicação com intencionalidade pedagógica, integrando-as como recursos dentro do planejamento do processo de aprendizagem. Simplificando utilizar os computadores para que os alunos aprendam algo. A peça chave desse processo é a intencionalidade pedagógica com a qual se realiza a atividade.

Desta maneira, o professor aparece como o elemento chave. Ele é encarregado de fazer uso de tais recursos tecnológicos para atingir seus objetivos. Ele decidirá a hora, os conteúdos, os níveis e as possibilidades na utilização do computador, já que o professor e ele que tem a visão do processo educativo que está desenvolvendo com seus alunos,

Durante algum tempo, ouvi-se que os professores iam ser substituídos pelo computador. Isso não passa de algo sem sentido, pois diferentemente da indústria, onde a maquina substituiu o trabalhador por causa de seu trabalho repetitivo, na educação o professor não será substituído, pois o trabalho do educador é muito diferente de uma repetição mecânica ou automática.

A não ser em casos onde o professor se limita a transmitir informação e a avaliar a memória de seus alunos, nesse caso seja possível a sua substituição por uma maquina, que também pode transmitir informação e avaliar a memorização.

O professor deve assumir a inserção da tecnologia não na escola inteira, mas nas suas aulas. Para isso ele precisa de formação, apoio e acompanhamento pedagógico. Ele deve ir se apropriando progressivamente dessas tecnologias, pensando num minimalismo tecnológico onde controlar e dirigir o processo de inserção dessas ferramentas é fundamental para o sucesso do uso dos recursos.

Para que os computadores tenham o efeito que esperamos dentro da educação, é necessário que nós, que construímos o processo educativo, tiremos proveito deles, transformando-os em instrumentos a serviço de nossos fins: uma educação libertadora para aqueles setores excluídos da sociedade.

Para isso é preciso pautar as ações em fundamentos de se usar a informática dentro dos ambientes escolares. São essas ações:
* Informática a serviço da aprendizagem
* Professor ativo
* Compromisso afetivo
* Liderança do professor
* Contextualizada
* Adaptável a diferentes infra-estruturas
* integrada a sala de aula
* Equipe coordenadora comprometida
* Projeção na comunidade

Pautando nesses princípios acima a busca por uma melhor qualidade na educação, se torna palpável, pois oferece inumeráveis vantagens para fazer da escola um espaço aberto a novos conhecimentos, novos processos de ensino, a novos espaços de participação e colaboração com outras escolas, em contextos sociais e culturais diferentes.

Isso exige de nós educadores, novas habilidades para oferecer a nossos alunos novas oportunidades de aprendizagem. Para isso o professor deve tomar decisões pedagógicas acertadas com respeito a como e quando inserir a tecnologia na sala de aula. Trata-se de pensar o que queremos fazer com os nossos alunos, para depois utilizar as metodologias e os recursos para consegui-los.

Novamente citando os computadores são um meio e não um fim em si mesmo. São os recursos didáticos dentro de uma proposta de educação, que visa a formação da pessoa em todas as suas dimensões, possibilidades e capacidades para transformá-lo em dono do seu próprio desenvolvimento.

Isto nos convida a mudar o papel de transmissor de conhecimentos para o gestor de aprendizagem. A figura do transmissor de conhecimento e da importância da memorização vai perdendo força.

Trata-se, definitivamente, de ir banindo a escola enciclopédia e memorizadora para promover, com força, uma escola que ensina a aprender e ensina a pensar. Uma escola que será um pilar da construção da nova cultura requerida pelas mudanças cientificas, tecnológicas e culturais. Essa realidade, portanto exige que nós inovemos os objetivos e metodologias pedagógicas, pois diante dessas novas habilidades, a didática deve se adequar, permitindo espaços de interação com a informação, de forma critica permanente e autónoma.

Precisamos entender que escola deve ser a responsável pela formação não somente de seus estudantes, mas também de suas famílias, de professores, das pessoas em seu entorno e da comunidade de educação. Formar para integrar e consolidar diferentes possibilidades de parcerias usando para isso todos os recursos disponíveis.

Criar uma rede de conhecimento que descentralize da escola o saber. Assim, os professores podem aprender com as crianças, as famílias, com os professores, a comunidade, com as famílias e a escola, com a comunidade criando assim uma teia de saberes e conhecimentos.

Robson Freire
Coordenador do Núcleo de Tecnologia Educacional de Itaperuna – NTE Itaperuna

24 de jun. de 2009

O Mais é Nada

“Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milênio é outro, se a idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega à parte alguma sem ela.

Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”.

(Fernando Pessoa)

22 de jun. de 2009

Games for Change – jogos para mudar o comportamento social

Olá Amigos

Todos sabem que eu adoro um "gamezinho" para passar o tempo e gosto mais ainda de ações que ajudem socialmente os mais necessitados e navegando pela internet achei esse tesouro.

Games for Change, também conhecido como G4C, é um movimento participativo, sem fins lucrativos, dedicado a usar jogos em vídeo e computador para mudanças sociais. Qualquer vídeo game pode ser referendado como um “game for change” se for produzido pela comunidade através de equipes multidisciplinares ou, de outros, desde que cumpram os ideais de interesse público. Com isso pretendem aproveitar o extraordinário poder de jogos de vídeo para resolver as questões mais prementes dos nossos dias, incluindo a pobreza, direitos humanos, conflito global e as alterações climáticas. A organização realiza um festival anual e disponibiliza recursos para o desenvolvimento. Confira a lista e experimente os jogos disponíveis.

Visitem e Have Fun

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

Fonte: http://enioaragon.wordpress.com/2009/06/17/games-for-change-%e2%80%93-jogos-para-mudar-o-comportamento-social/

19 de jun. de 2009

O Minimalismo Tecnológico em Educação Online e a Inclusão Educacional e Digital no Brasil

Wilson Azevedo - Aquifolium Educacional

Área temática: Inclusão Digital

Desde meados dos anos 90 do século passado assiste-se no Brasil a um processo gradual crescente de inclusão educacional e digital. O número de crianças em idade escolar com acesso a escola já se aproxima de 100%. As matrículas no ensino superior se expandem num ritmo contínuo muito especialmente no ensino superior a distância onde nos últimos 3 anos os índices de crescimento também se aproximaram de 100%. O número de usuários com acesso à Internet continua a crescer e este crescimento acentua-se desde 2 anos para cá nos segmentos de poder aquisitivo médio e médio inferior (classes C e D). A explosão de vendas de computadores nos últimos 2 anos especialmente para as classes C e D moveu o país da 7ª para a 4ª colocação mundial em vendas de computadores.

A combinação do avanço da inclusão educacional com a inclusão digital representa um novo desafio para a Educação Online no Brasil, desafio este que precisa ser identificado, percebido e considerado no planejamento atual e futuro, de curto e médio prazo, pelas instituições de ensino. Nos primeiros 10 anos desde a implantação do acesso comercial à Internet no Brasil (1995-2005) instituições se prepararam para atender a uma elite com mais alto poder aquisitivo, que dispõe de conexões de mais alta velocidade e de computadores mais possantes. Porém estes 10 anos seguintes (2005-2015) evidenciam uma nova onda de expansão que levará a uma alteração significativa no perfil do usuário da Internet e da Educação Online no Brasil, de modo que em algum ponto daqui até 2015 passemos a ter, entre estes usuários, uma maioria de pessoas dos segmentos de médio e médio inferior poder aquisitivo, dispondo de computadores mais limitados e conexões mais lentas. Se na primeira onda, dos primeiros 10 anos, as instituições de ensino orientaram o desenvolvimento de recursos tecnológicos oferecidos para uma clientela mais abastada na direção da sofisticação, nesta segunda onda a prudência recomenda que a palavra de ordem seja "simplificar".

É neste contexto que o Princípio da Parcimônia enunciado por Tiffin e Rajasingham bem como o Minimalismo Tecnológico defendido por Berge e Collins ganham relevância e apontam caminhos ainda não experimentados no desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem para a Educação Online no Brasil. A presente comunicação pretende explorar a aplicação destes princípios à realidade brasileira atual e futura, sugerindo outras formas de encaminhar a organização destes ambientes de modo a favorecer um cada vez maior número de pessoas que passarão a, nos próximos anos, dispor de acesso ao ensino superior a distância online no Brasil.


Uma segunda onda de expansão da Internet: a vez dos mais pobres

Em maio de 1995 a Embratel inaugurou a operação comercial da Internet no Brasil. Até ali restrita ao ambiente acadêmico e a algumas poucas ONGs, a Internet passou a ser, a partir de então, acessada cada vez mais pelo cidadão comum. No primeiro decênio (1995-2005) o acesso à Internet expandiu-se sobretudo nas classes A e B, o que fez o número de usuários passar de pouco mais de um milhão no primeiro ano para cerca de 25 milhões em 2005 – uma explosão de mais de 2.000% de crescimento em apenas 10 anos.

Este primeiro ciclo de crescimento concentrou-se nos segmentos de maior poder aquisitivo. No ano 2000, por exemplo, pesquisa conduzida pelo MediaMetrix detectava que apenas 16% dos usuários de Internet no Brasil pertenciam aos segmentos C e D.

Porém, neste segundo decênio (2005-2015) um novo movimento começa a se fazer sentir, sugerindo que uma nova onda de crescimento da Internet está para acontecer nas classes C, D e E. As duas primeiras versões da pesquisa “TIC Domicílios e Usuários”, conduzidas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil respectivamente em agosto/setembro de 2005 e em julho/agosto de 2006 mostram que o percentual de domicílios com acesso à Internet estabilizou-se na classe A, apresenta um ligeiro crescimento na classe B, mas, pela primeira vez desde o início da operação comercial da Internet no Brasil, começa a crescer significativamente nas classes C, D e E. Em 2005 10,9% dos domicílios de classe C e 0,87 das classes D/E possuíam acesso à Internet. Em 2006 estes percentuais passaram respectivamente a 12,1% e 1,61% — e isto num período de apenas um ano.

Alguns fatores estão contribuindo para este crescimento nesta faixa de poder aquisitivo. A queda do dólar, a redução de impostos e as facilidades de financiamento, que permitem que hoje um computador popular possa ser adquirido em prestações de menos de R$50,00, estariam levando este consumidor de baixa renda, que antes já havia sido responsável pela incrível expansão da telefonia celular, a comprar o primeiro computador da casa e, com uma linha telefônica fixa, agora também para ele mais acessível, conectá-lo à Internet.

No mundo todo, entre meados da década passada e meados desta década, a Internet cresceu num ritmo intenso, em alguns momentos dobrando o número de usuários de um ano para outro. Depois de 10 anos o crescimento a princípio contínuo e rápido parece estar se estabilizando num ritmo mais suave. Nestes 10 anos a Internet se expandiu entre os mais ricos. O fenômeno que se desenha para o futuro próximo no Brasil pode apontar para algo de dimensões globais: se foram os mais ricos os responsáveis pela primeira onda de expansão, uma segunda onda parece estar agora se formando no cenário mundial, talvez uma verdadeira “tsunami” integrada por milhões de pobres ou “menos ricos” que nos próximos anos passarão a acessar a Internet especialmente nos países em desenvolvimento.

Ao mesmo tempo em que a expansão da banda larga no Brasil começa a dar sinais de enfraquecimento, os indicadores acima apontam para uma expansão do acesso discado, em mais baixa velocidade. Considerando-se o perfil sócio-econômico da população brasileira, em que a maior parte se encontra na faixa de menor poder aquisitivo, em algum momento deste decênio (2005-2015) o número de usuários das classes C, D e E, acessando a Internet em conexões discadas, por meio de linhas telefônicas fixas, com mais baixas taxas de transmissão de dados, poderá ultrapassar a metade do total de usuários. A Internet brasileira caminha, nos próximos anos, para ser majoritariamente freqüentada por usuários de baixa renda usando tecnologia e conexões mais limitadas.

Uma segunda onda de expansão da Educação a Distância: impactos sobre o ensino superior exclusivamente presencial

Historicamente a Educação a Distância (EaD) no Brasil sempre foi usada para atender de forma supletiva as lacunas do ensino presencial convencional de nível básico ou profissionalizante. Desde as primeiras iniciativas do começo do século passado, como as de Roquete Pinto, através do rádio, passando pelos cursos profissionalizantes por correspondência, como os dos Institutos Monitor e Universal Brasileiro, até os telecursos pela TV, como o Telecurso 2000, da Fundação Roberto Marinho, o principal público da Educação a Distância sempre foi composto por excluídos do sistema educacional convencional, pessoas que não tiveram na infância e adolescência acesso à escola ou que dela se evadiram sem concluir sua formação básica ou profissional. A Educação a Distância sempre funcionou aqui como uma espécie de “estepe” do ensino, a que se recorre apenas quando os recursos principais não funcionam.

Ao longo dos anos 90 do século passado, porém, surge uma nova “onda” da Educação a Distância, uma espécie de “Educação a Distância de elite”, oferecida sobretudo através de redes informatizadas em empresas e na Internet, mas também através de videoconferência, teleconferência, CD-ROM e material impresso distribuído pelos correios. Em empresas a chamada Educação Corporativa começa a utilizar cada vez mais tecnologias da informação e da comunicação e uma nova área de atuação profissional e comercial se desenvolve, referida freqüentemente pela designação e-learning. No meio acadêmico, ao longo dos anos 90 começam a aparecer os primeiros cursos superiores a distância, de extensão, de graduação e de pós-graduação (lato sensu, como especializações e MBAs). Entre 2003 e 2004, segundo o INEP, houve no ensino superior em geral um crescimento de 8% e entre 2004 e 2005, de 7,5%, enquanto que no ensino superior a distância as taxas de crescimento no mesmo período estiveram em torno dos 100% ao ano...

O ensino semipresencial vem crescendo ano a ano, acompanhando o crescimento da Educação a Distância. Não é mais uma fantasia imaginar que em alguns anos os alunos de cursos exclusivamente presenciais serão minoria nas instituições de ensino superior. Desenha-se no horizonte uma clara tendência que aponta para o gradativo encolhimento até o quase desaparecimento de um modelo que foi amplamente majoritário no ensino superior: o do ensino absoluta, total e exclusivamente presencial, substituído a partir dos anos mais recentes pela educação parcial ou totalmente a distância.

Quando olhamos para o perfil sócio-econômico do estudante de nível superior, percebemos que nestes últimos 10 a 15 anos um contingente cada vez maior de oriundos das classes C, D e E vem chegando à universidade, num processo contínuo e crescente de inclusão no ensino superior que tende a prosseguir e ser sustentado por mais tempo. Assim, para estes próximos anos desenha-se no horizonte um cenário parecido com o que vimos há pouco com relação ao acesso à Internet: um número cada vez maior de representantes das camadas de menor poder aquisitivo chegando ao ensino superior que, por sua vez, tende a cada vez mais incorporar a educação a distância, sobretudo a educação online, via Internet. Se juntarmos estas duas pontas, a da expansão da Internet com a da expansão do ensino superior parcial ou totalmente a distância, perceberemos uma coincidência de foco nas classes C, D e E que nos dá uma perspectiva clara com relação ao futuro e com respeito aos desafios que este futuro nos coloca hoje. Precisamos nos preparar hoje para atender um grande contingente de alunos de mais baixo poder aquisitivo em cursos ou semipresenciais ou totalmente a distância, dispondo de acesso à Internet em computadores mais simples, menos sofisticados, e em conexões mais lentas, sobretudo discadas.

Tecnologias para Educação a Distância: um futuro inesperado

Quando comparamos um LMS (Learning Management System) ou um material didático online oferecido em meados dos anos 90 com um atual percebemos uma nítida tendência à complexificação e à sofisticação. Em especial durante os últimos 5 anos desenvolvedores de serviços e produtos para a Educação a Distância e para o chamado e-learning se prepararam para oferecer recursos, serviços e produtos dentro de um cenário de abundância tecnológica: processadores mais poderosos, maior capacidade de memória, conexões em mais alta velocidade. Com o passar dos anos, sistemas cada vez mais complexos foram desenvolvidos, oferecendo recursos cada vez mais sofisticados, que exigem requisitos tecnológicos mínimos cada vez mais elevados. A indústria do e-learning preparou-se para atender à demanda inicial, advinda da primeira onda de crescimento da Internet e da educação: a dos usuários e clientes mais ricos.

Especialmente no Brasil o mercado desenvolvedor encontra-se agora, nesta virada do primeiro para o segundo decênio da Internet no país, numa desconfortável posição de descompasso e desencontro com relação às condições e às necessidades daqueles que dentro de pouco tempo tornar-se-ão maioria entre os usuários de Internet e da educação em diversos níveis e modalidades (superior, profissional, empreendedora e continuada): os menos ricos e os mais pobres, que usarão equipamentos menos sofisticados, mais simples, com menos recursos e em conexões menos velozes. Neste momento é necessário e urgente reorientar o desenvolvimento de produtos e serviços para a Educação a Distância e o e-learning mais adequados a condições mais restritas de hardware e de conectividade. Por este futuro o desenvolvedor não esperava, não está para ele preparado e nem procurou para ele se preparar. Em lugar de complexificar e sofisticar, um dos grandes desafios para os próximos anos consistirá em simplificar e descomplicar a tecnologia para a Educação a Distância.

Lições da história da Educação Online: minimalismo tecnológico e parcimônia na seleção de recursos

Mas não são apenas o cenário atual e as tendências para o futuro que apontam para isto: também as lições do passado, aprendidas pelos pioneiros da Educação Online, indicam o mesmo rumo da simplicidade tecnológica como um caminho para a excelência em educação a distância online.

Por 10 anos Sir John Daniel, que até pouco tempo era diretor de Educação da UNESCO, foi reitor da Open University britânica, uma das maiores e mais bem conceituadas universidades especializadas em ensino superior a distância do mundo, justamente no período em que esta buscou incorporar mais recursos online a seu tradicional e por 3 décadas testado e aprovado mix tecnológico. Em julho de 2001 a revista The Chronicle of Higher Education lhe perguntou qual a principal lição aprendida neste período. Daniel respondeu com um artigo que tem o seguinte título: “Lessons from the Open University: low-tech learning often works best”. Nele informa que de todas as tecnologias que a universidade foi implantando e colocando à disposição ao longo de uma década, os alunos preferiam sempre as mais simples, a “baixa tecnologia”.

Outro pioneiro da Educação Online, com quase duas décadas de experiência em Educação Corporativa Online, Zane Berge, expôs em dois trabalhos, o primeiro de 1994 e o segundo em fins do ano 2000, o princípio a que denominou “Minimalismo Tecnológico”, para orientar a seleção de tecnologias para a Educação a Distância. Citando outra pioneira e companheira de trabalho, Mauri Collins, Berge explica que o minimalismo tecnológico pode ser definido como “o uso de níveis mínimos de tecnologia, cuidadosamente escolhida com atenção precisa para com suas vantagens e limitações, em apoio a objetivos educacionais bem definidos”. De sua larga experiência Berge aprendeu que os melhores resultados são colhidos quando se opta pelo caminho da simplicidade tecnológica e, inversamente, as maiores dificuldades e os maiores obstáculos estarão no caminho dos que optam pela complexidade e sofisticação tecnológicas. Afirma Berge:

Quanto mais sinos e apitos tem uma tecnologia, mais caro e complexo o equipamento necessário, maiores as limitações de acesso para o aluno, maiores as exigências de tempo e viagem (por exemplo para pontos de videoconferência) mais amplo o suporte técnico necessário e maiores as chances de falhas do equipamento.

Mesmo em condições de abundância tecnológica, ainda que recursos mais avançados de hardware e de conectividade estejam disponíveis, a opção minimalista por tecnologia mais simples mostra-se pedagogicamente mais adequada e produtiva. Esta também é a conclusão a que chegaram John Tiffin e Lalita Rajasingham, autores do premiado livro “In Search of the Virtual Class”, atuando na Nova Zelândia com Educação a Distância e Educação Online desde os anos 70. Com base numa interessante experiência de TV Educativa no México no inicio dos anos 70, em que uma região de sombra de recepção de imagem apresentou resultados tão superiores que se destacaram no panorama nacional da experiência, eles concluíram que os objetivos pedagógicos devem levar a uma seleção muito precisa de um mix de recursos, evitando a dispersão e favorecendo a concentração da atenção do aluno. O pressuposto de que quanto maior a variedade de recursos melhor a aprendizagem não tem a menor fundamentação nem psicológica e nem pedagógica. Propõem assim eles o “princípio da parcimônia”:

"O princípio da parcimônia em design instrucional torna-se crítico quando usamos realidade virtual em educação. Esta possui um potencial bem maior que o da TV de prover informação em múltiplos canais e em inundar os sentidos. Se usada tão indiscrimadamente quanto a TV educativa, seu impacto pode ser negativo".

Materiais, ambientes e sistemas minimalistas para a Educação a Distância

De um lado o passado recomenda: “baixa tecnologia”, tecnologia simples, é o que funciona melhor. De outro lado o presente e o futuro exigem: mais simplicidade tecnológica favorecerá o usuário/aluno de mais baixo poder aquisitivo, tornando a educação online mais acessível a um maior número de pessoas.

Ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), também conhecidos como LMS (Learning Management System), e materiais didáticos em formato digital estão sendo amplamente usados em apoio ao ensino e à aprendizagem online. São materiais, sistemas ou ambientes que tornam possíveis as duas formas básicas de interação que embasam a aprendizagem: a interação com conteúdos instrucionais e a interação individual e/ou coletiva com professores e outros alunos. Nos últimos anos estes ambientes ou sistemas foram se tornando cada vez mais complexos e sofisticados. Mas agora e no futuro precisamos e precisaremos de materiais e AVAs/LMSs mais simples, orientados pelos princípios do minimalismo tecnológico e da parcimônia.

Um material didático, AVA ou LMS minimalista representa uma inversão na própria concepção e projeto deste tipo de recurso/sistema. Até aqui desenvolvedores se preocupam em incluir o máximo de recursos tecnológicos e funcionalidades. Por padrão, um LMS convencional se instala com dezenas de funcionalidades e opções, cabendo aos gestores e educadores desativar os recursos que não serão usados porque não serão necessários. É preciso inverter esta lógica. Um AVA ou LMS minimalista se instalaria com uma configuração mínima, com recursos mínimos. Caso outros recursos sejam necessários, eles deveriam ser acrescentados como “plug-ins”, sempre lembrando o princípio da parcimônia, somente em caso de real necessidade.

Um material didático digital, LMS ou AVA minimalista deve permitir ser facilmente acessado com qualquer configuração de hardware, mais limitada ou mais sofisticada, e em qualquer largura de banda, mais estreita ou mais larga. Usuários de conexões discadas e banda estreita, que logo serão maioria na Internet no Brasil, deverão se sentir confortáveis com estes materiais, ambientes e sistemas, assim como usuários de computadores menos potentes e menos velozes. Excessos deverão ser eliminados ou minimizados nas interfaces destes materiais e ambientes, como por exemplo o uso de recursos em JavaScript, Java, Flash, Active X ou outros que acarretem requisitos mínimos de hardware e conectividade em patamares mais elevados.

Uma especial atenção deverá ser dada às ferramentas e funcionalidades para a colaboração e a interação coletiva assíncrona. Um LMS/AVA convencional exige que o usuário permaneça conectado por longos períodos para navegar no conteúdo do material didático e para ler e responder mensagens em fóruns de discussão. O material didático deverá ser simplificado e possibilitar a leitura e navegação off-line. E o espaço virtual de discussão assíncrona, considerado por muitos pioneiros da Educação Online, como a canadense Linda Harasim, o “coração” da aprendizagem online, deverá permitir a leitura e a redação de mensagens e respostas off-line, muito especialmente via e-mail. Este aspecto é fundamental e crítico para aqueles usuários de baixa renda que em geral pagam pelo tempo de conexão por meio de linha telefônica discada. A leitura e redação off-line via e-mail deve ser mais do que uma mera possibilidade: deve ser a forma padrão de acompanhamento e participação em discussão coletiva. Pode-se oferecer ao usuário a possibilidade de “desligar” o recebimento de mensagens via e-mail. Mas a participação/contribuição via e-mail precisa ser oferecida por padrão nestes ambientes.

Enfim, uma outra lógica precisará orientar o desenvolvimento de materiais, ambientes e sistemas para a Educação Online de modo a torná-los adequados a um outro perfil de usuário que tende nos próximos anos a ser maioria entre os usuários de Internet e de Educação a Distância no Brasil. Outra arquitetura, sintonizada com os princípios da parcimônia e do minimalismo tecnológico, precisará ser organizada e aplicada para permitir que materiais, ambientes e sistemas para EaD se tornem mais acessíveis a este tipo de usuário e atendam às necessidades e desafios dos próximos anos.

Uma volta às origens

Há 30 anos, a Educação Online surgia em meio a condições tecnológicas muito mais restritas que as atuais, porém com excelentes resultados de aprendizagem. Nos seus primeiros 15 a 20 anos ela se desenvolveu aliando novas tecnologias à sofisticação e atualização pedagógicas. Nestes tempos pioneiros seus principais atores eram educadores e pesquisadores. A partir da primeira metade dos anos 90, tempo das chamadas “invasões bárbaras da Internet”, novos atores entraram em cena no palco da educação online, principalmente profissionais oriundos do mercado financeiro e de tecnologia da informação, com pouca ou nenhuma experiência anterior em educação. Desde então cada passo à frente em tecnologia parecia ser acompanhado por vários passos para trás em pedagogia. Crescente complexificação e sofisticação tecnológicas passaram a acompanhar uma grande defasagem e desatualização pedagógicas, com impacto negativo sobre a aprendizagem.

Historicamente a Educação a Distância, no Brasil e no mundo, sempre teve um compromisso mais forte com os menos favorecidos, com aqueles que precisavam de uma segunda chance, os excluídos do sistema educacional predominante ou exclusivamente presencial. Através da EaD milhões de pessoas em todo o mundo e no Brasil ganharam mais uma oportunidade para estudar e aprender, e assim conquistar melhores condições para o seu desenvolvimento pessoal, profissional e cidadão.

O cenário atual e as tendências futuras tanto da Internet quanto do ensino superior no Brasil nos desafiam a colher do passado inspiração e intuições originais que nunca deixaram de ser atuais: apenas foram esquecidas ou relegadas a segundo plano por um breve intervalo de tempo. Cabe-nos agora recuperá-las e colocá-las a serviço do crescimento a um só tempo quantitativo e qualitativo do ensino superior no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância. Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta a Distância. S. Paulo, ABED / Instituto Monitor, 2006.

AZEVEDO, Wilson. Muito Além do Jardim de Infância: temas de Educação Online. Rio de Janeiro, Armazém Digital, 2005.

BERGE, Zane & COLLINS, Mauri. Technological minimalism in Distance Education. The Technology Source. 2000, November/December.

DANIEL, John. Lessons from the Open University: Low-Tech Learning Often Works Best. The Chronicle Review, September 2001.

TIFFIN, John & RAJASINGHAM, Lalita. In Search of the Virtual Class. Education in an Information Society. London, Routledge, 1995.

Fonte: http://www.aquifolium.biz/sala02/WilsonAzevedoColoquiolusobrasileiro.html

12 de jun. de 2009

Playing for Change: Paz através da música

Olá Amigos

Hoje recebi da minha amiga Suzana Cividanis um e-mail contendo uma jóia dentro. Era uma versão remixada e cantada por moradores de rua e varias pessoas pelo mundo cantando e tocando a música Stand By Me de Ben E. King imortalizado pelo maravilhoso John Lenon. O clipe faz parte do premiado documentário, "Playing for Change: Paz através da música".

Aqui, onde me encontro, na minha casa, quente, com comida , conforto e pessoas que me querem bem, torna-se insuportável saber que , neste mesmo momento, há bombardeios em Gaza, no Congo, em Ruanda, etc. Além de milhões de pessoas que morrem, sem água, sem comida e roupa, sem casa e outros, com isso, mas no desemprego, sem posses para sobreviver, para ter uma vida no mínimo digna: que mundo é este?

Como digo aos amigos mais próximos: O insuportável é aqui tão perto de casa!

O clipe, a musica, o conceito tudo é lindo e perfeito, ainda há quem pense que dar dinheiro à músicos de rua é caridade, para mim eles e elas trabalham. Que belas ficam as cidades cheias dos sons de seus músicos de rua! As ruas do mundo inteiro deveriam encher-se destes sons. Que pena se não existissem!

Não há palavras. Quando o ser humano quer até consegue ser espetacular. A música, a poesia, a voz, a expressão e o sentimento são universais. É a música na rua, para ser desfrutada pelo povo anônimo que não vai aos concertos. A música que aproxima povos e continentes. Trazer a música para a rua talvez contribua para um mundo mais solidário.

A música como um extraordinário meio de comunicação entre os cidadãos do mundo, independentemente da raça ou religião. Legal ver tantas gerações e raças e um único modo de se comunicar… a musica. É incrível como uns simples acordes nos fazem acreditar num mundo melhor…

Mudança, começa por aí…esperança cantada…

Por isso vamos nos juntar ao movimento para ajudar a inspirar as pessoas ao redor do mundo para se unirem através da música. Ainda podemos salvar o mundo…Eu acredito, desde que “You stand by me”!

Emocione-se

Abraços

Equipe NTE Itaperuna

9 de jun. de 2009

Eu, professora, me confesso?


Maria Helena Ramalho| 2008-05-20

Ainda acalento o sonho de "ser professora de...", de ser parte integrante e integrada de uma comunidade que quer construir algo de positivo e que sabe dizer não a farsas!

Eu, professora com 50 anos de idade e no 29.º ano de serviço, me confesso "transportada" repentinamente para um tempo e um contexto que não são os meus.

Um tempo, algures entre um passado, que felizmente já não vivi como docente (o de ditadura), e um futuro ainda muito confuso, em que tudo parece acontecer a um ritmo alucinante e com trajectórias pautadas pela irregularidade e imprevisibilidade.

Um contexto, em que as condições materiais e espaciais escolares são das menos favoráveis de toda a minha carreira (apesar do tão falado "choque tecnológico"), em que a estrutura educativa e escolar está de tal modo verticalizada e a cadeia de transmissão de informação tão extensa e difusa que os fenómenos de entropia marcam o quotidiano, abrindo caminho a uma opacidade nada favorável a ambientes construtivos e colaborativos.

Eu, professora por opção e vocação, confesso colocar em causa o meu papel na escola de hoje. Por temperamento e circunstâncias diversas, sempre tive uma postura discreta (excessivamente, segundo alguns), sempre me bastou o carácter sedutor e gratificante de cada aula, de cada encontro pedagógico com os meus alunos. Quando o mérito era reconhecido por pares e por superiores hierárquicos melhor, mas nunca foi (nem é) essa a preocupação da minha vida profissional. Hoje, as circunstâncias do encontro pedagógico estão tão condicionadas e são, por vezes, tão violentas, que dificilmente se consegue fruir o momento, se consegue encantar e ser encantado. Quanto ao reconhecimento do mérito por terceiros, o clima que se está a instalar na(s) escola(s) leva-me a recear que não só tenha menos probabilidade de acontecer como, pior ainda, possa a subserviência vir a ser considerada `mérito'.

Eu, professora, confesso saber ler, interpretar, detectar incongruências... pensar. Confesso saber (no sentido, também, de `estar convencida') que o ensino-aprendizagem para qualquer ser humano (aluno, professor...) tem de ser faseado e tem de fazer sentido, sob pena de não ocorrer verdadeira aprendizagem. Assim, ninguém vive dignamente a sua profissão numa cadência desenfreada de alterações profundas, num sistema top-down e em cascata, com a agravante das incongruências se sucederem ao mesmo ritmo das orientações/determinações superiormente emanadas. Na melhor das hipóteses sobrevive-se à custa de manipulação de dados e de subversão de princípios.

Eu, professora, me confesso (ainda) disposta a lutar para que a escola se paute pela seriedade e dignidade, pelo binómio ensinar-aprender, num contexto de formar e crescer. Ainda acalento o sonho de "ser professora de...", de ser parte integrante e integrada de uma comunidade que quer construir algo de positivo e que sabe dizer não a farsas!

Eu, professora, me questiono...
- Contribuí para este estado da situação? Espero que não.
- Fui conivente com ele? Talvez em parte, por omissão e desorientação nos primeiros meses do meu "reencontro" com a escola.
- Posso alterá-lo? Quero acreditar que sim, certa de que só o poderei fazer se não estiver isolada. Afinal, a escola somos nós (também) que a fazemos!

Fonte: http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=4DAC20983055309EE04400144F16FAAE&opsel=1&channelid=0

8 de jun. de 2009

A Escola tem futuro?

João Ruivo| 2009-02-27

O futuro da Escola está para lá das pequenas mediocridades e dos tiques de arrogância que algumas circunstâncias sustentam.

Todos sabemos que tem!

Onde está o futuro da Escola?

Está nos jovens, nas crianças e nos pais que todos os dias a procuram; na população adulta que quer saber mais; nos desajustados que desejam ser reconvertidos; nos arrependidos que cobiçam reiniciar um novo ciclo da sua vida; nos que não tiveram oportunidade (porque a vida também sabe ser madrasta) e agora buscam o alimento do sucesso; na sociedade e no Estado que já não sabem (e não podem...) viver sem ela e, sobretudo, pressente-se nos professores e educadores que são a alma, o sal e o sangue de que se faz todos os dias essa grande construção colectiva.

A Escola é uma organização muito complexa... É paixão e movimento perpétuo. É atracção e remorso. É liberdade e prisão de sentimentos contraditórios. É mescla de angústias e espontâneas euforias. É confluência e rejeição. É orgulho e acanhamento. É todos e ninguém. É nome e chamamento. É hoje um dar e amanhã um rogar. É promoção e igualdade. É mérito e inveja. É jogo e trabalho. É esforço, suor e emancipação. É convicção e espontaneidade. É responsabilidade e comprometimento com todos os futuros. É passado e é presente. É a chave que abre todas as portas das oportunidades perdidas. É acolhimento, aconchego, colo e terapia. É a estrada do êxito, mas também um percurso inacabado, que nos obriga a voltar lá sempre, num fluxo de eterno retorno.

Porém, também acontece muitas vezes ser o pião das nicas, o bombo da festa, o bode expiatório, sempre e quando aos governos dá o jeito, ou lhes apetece.

Sobre a Escola, há governantes que aprenderam a mentir: sabem que ainda não foi inventada qualquer instituição que a possa substituir. Sabem ainda que os professores são os grandes construtores de todos os amanhãs. E, por isso, têm medo. Medo, porque a Escola é das poucas organizações que todos os governantes conhecem bem. Habituaram-se a observá-la por dentro, desde a mais tenra idade. E, por essa razão, sabem-lhe o poder e a fatalidade de não ser dispensável, silenciável, transferível, aposentável, exonerável ou extinguível. Então, dizíamos, têm medo e, sobre ela, mentem.

Mentem sobre a Escola e sobre os professores. Todos os dias lhes exigem mais e dizem que fazem menos. E não é verdade.

Em relação à Escola e aos professores, a toda a hora o Estado, a sociedade e as famílias se descartam e para aí passam cada vez mais responsabilidades que não são capazes (ou por comodismo não querem...) assumir. Hoje, a Escola obriga-se a prevenir a toxicodependência, a educar para a cidadania, a formar para o empreendedorismo, a promover uma cultura ecológica e de defesa do meio ambiente, a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir princípios de educação sexual, a desenvolver hábitos alimentares saudáveis, a prevenir a Sida e outras doenças sexualmente transmissíveis, a utilizar as novas tecnologias da comunicação e da informação, a combater a violência, o racismo e o belicismo, a reconhecer as vantagens do multiculturalismo, a impregnar os jovens de valores socialmente relevantes, a prepará-los para enfrentarem com sucesso a globalização e a sociedade do conhecimento, e sabe-se lá mais o quê...

Acham pouco? Então tentem fazer mais e melhor... E, sobretudo, não coloquem a auto estima dos professores abaixo dos tornozelos com a divulgação pública de suspeitas infundadas e eticamente inadmissíveis.

É que não há Escola contra a Escola. Não há progresso que se trilhe contra os profissionais da educação. Não há políticas educativas sérias a gosto de birras e conjunturas que alimentam os egos pessoais de alguns governantes. Não há medidas que tenham futuro se não galvanizarem na sua aplicação os principais agentes das mudanças educativas: os educadores e os professores.

O futuro da Escola está para lá das pequenas mediocridades e dos tiques de arrogância que algumas circunstâncias sustentam.

A Escola, tal como a conhecemos, é uma invenção recente da humanidade. Mas não é um bem descartável, de uso tópico, a gosto de modas e de pseudo conveniências financeiras e orçamentais. A Escola vale muito mais que tudo isso. Vale bem mais do que aqueles que a atacam. Vale por mérito, por serviço ininterruptamente prestado, socialmente avaliado e geracionalmente validado.

Sim, a Escola tem muito e indiscutível futuro. E é tão tranquilo saber isso...

Fonte: http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=62035D6B275D6D51E0400A0AB8004AFA&opsel=1&channelid=0

7 de jun. de 2009

Interações sociais mediadas pelo celular


Por Maria Aparecida Moura
Professora da Universidade Federal de Minas Gerais

Por Camila Maciel Mantovani
Jornalista e mestre em Ciências da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais

O desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação deu à sociedade uma nova configuração. Atualmente, vive-se em um mundo conectado em redes onde os fluxos da informação remodelam as formas de interação entre os sujeitos. Pode-se dizer que o desenvolvimento dos processos de comunicação e informação forneceu suporte material para a globalização, fenômeno de caráter econômico, cultural e social. As alterações nas noções de tempo e espaço e a globalização dos fluxos de informação refletiram em todos os campos da vida social: trabalho, lazer, educação, entre outros.

A interação social, antes realizada através das relações face-a face, foi, ao longo da história, transformando-se através da interposição de inúmeras e diversificadas formas de mediação. A interposição das mediações nas trocas comunicacionais tornou-se necessária para garantir a aproximação de sujeitos geograficamente dispersos. Com esse intuito, surgiram, ou foram apropriados socialmente, a carta, o telegrama, o telefone fixo, o fax, o e-mail e, mais contemporaneamente, o telefone celular.

As mediações comunicacionais foram introduzidas no contexto das relações sociais sem, contudo, romperem com os princípios de sociabilidade presentes na interação face a face. Assim, veicula de forma implícita e/ou explicita traços dos sujeitos em interação. Através dos indícios presentes na letra, na escolha do papel, no estilo e, posteriormente, no tom e intensidade da voz e na própria imagem dos interlocutores, garantindo uma migração paulatina do presencial ao tecnologicamente mediado.

Se, anteriormente, o que estava em evidência na mediação era a manutenção dos laços de sociabilidade, com o passar do tempo, outras variáveis foram agregadas, alterando significativamente a natureza da interação. Com o uso das mediações comunicativas, a conectividade e a agilidade das interações experimentadas chegaram rapidamente ao mundo do trabalho e das trocas comerciais, passando a serem vistas como elemento de interesse econômico estratégico.

Nesse contexto, pode-se dizer que a Internet, nos últimos anos, foi um dos meios de comunicação e informação que mais evidenciaram o movimento em torno da noção de global. A internet promoveu o encurtamento de distâncias e criou um espaço comum de trocas informacionais, ligando todas as partes do globo.

No entanto, experimenta-se, atualmente, a intensificação do uso de um outro meio de comunicação que também traz consigo a idéia de conectividade. Este meio é o telefone celular.

2. A Tecnologia da telefonia móvel

A intensificação do uso do telefone celular foi acompanhada por uma forte campanha (quase mesmo uma imposição) em torno da necessidade de os sujeitos estarem conectados, sempre aptos a ingressar em processos de interações instantâneas. Antes, um dos principais meios que possibilitavam a conectividade via rede eram os computadores, hoje, os telefones celulares assumem esse papel.

A história dos aparelhos de telefonia móvel inicia-se de forma bastante semelhante à da Internet (Arpanet 1969). Ambas foram criadas com propósitos militares, o que evidencia a forte presença governamental na promoção e disseminação da idéia de uma sociedade da informação. Diversas pesquisas em TI’s foram financiadas e incentivas pelos ministérios de defesa dos governos, com destaque para o dos Estados Unidos. (Kumar, 1997).

Durante a II Guerra Mundial, a necessidade de um telefone móvel tornou-se premente. O sistema de comunicação utilizado pelo exército norte-americano era formando por duas partes: os soldados carregavam nas costas uma mochila de quatro quilos com apenas parte do telefone. A conexão por rádio com o sistema telefônico, que era o componente mais pesado, ficava no jipe do pelotão. A partir de então, pesquisadores se empenharam em criar um telefone sem fios que pudesse ser usado em qualquer lugar. Em 1947, nos laboratórios Bell foi desenvolvido um sistema de alta capacidade que fazia uso de várias antenas interligadas. Cada uma em sua área seria uma célula. Daí o nome telefone celular.

O primeiro aparelho foi criado em 1973 e diferia-se radicalmente dos modelos atuais. O Dynatac 8000X pesava aproximadamente um quilo, tinha vinte e cinco centímetros de comprimento, sete centímetros de largura e três de espessura. No entanto, foi apenas em 1982 que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) norte-americana autorizou a comercialização dos telefones celulares. Desde então, muitas foram as transformações pelas quais passaram os telefones celulares, transformações estas que não se limitaram apenas aos aspectos físicos dos mesmos, mas que se refletiram principalmente em suas funções.

O advento dos telefones digitais proporcionou não só o aumento do número de linhas, mas também o surgimento de novos serviços wireless. Como tudo foi transformado em dado, foi possível incorporar aos aparelhos serviços de e-mail, mensagens de texto, fax e até mesmo imagens e vídeo. Nesse contexto, os dados socialmente compartilhados tornaram-se fluxos informacionais.

2.1 A telefonia celular no Brasil

No Brasil, os celulares chegaram no ano de 1990, e a expansão de seu uso está atrelada ao processo de privatização pelo qual passaram as empresas de telecomunicações no país.

Segundo Dantas (2002), a abertura do mercado de telefonia móvel para o capital privado obrigou as antigas estatais e as novas empresas que se instalavam a realizarem grandes investimentos no setor. Com isto, houve um aumento significativo na escala de produção de aparelhos e na oferta de novos serviços, numa ampla disputa pelos consumidores.

De acordo com dados recentes publicados pela Anatel (1) (Agência Nacional de Telecomunicações), o Brasil possui hoje mais de 54 milhões de celulares habilitados em funcionamento. Isso significa que, para cada grupo de 100 habitantes, existem hoje cerca de 30 celulares habilitados em todo país. Em 2003, essa relação era de 21,51 telefones móveis para cada 100 habitantes.

Ainda segundo dados da Anatel, no período de um ano, o número de celulares no Brasil cresceu 42,02%. Os telefones pré-pagos representaram em junho de 2004 79,06% do total de celulares, contra apenas 20,94% de pós-pagos.

A introdução do sistema pré-pago foi, para Dantas (2002), a principal razão do sucesso do celular entre as camadas populares. Através desse sistema o usuário adquire o cartão que lhe permite realizar determinado número de chamadas. Porém, ao se darem conta do alto custo das ligações efetuadas a partir de tais modelos as pessoas começaram a utilizar o telefone celular apenas para receber ligações.

3. A elaboração de conteúdos para celular

O mercado da telefonia móvel esteve, durante algum tempo, vinculado apenas ao serviço de voz. Nesse cenário, as operadoras eram os únicos atores, determinando preços de assinaturas e tarifas - modelo de negócio bastante semelhante ao da telefonia fixa. Porém, a digitalização dos celulares permitiu que fossem incorporadas novas funcionalidades ao aparelho, o que fez com que as operadoras de telefonia móvel passassem a vislumbrar novas possibilidades de geração de renda, abrindo espaço para outros atores comerciais. Sendo assim, começaram a ser desenvolvidos os serviços de valor agregado para telefonia móvel, em formatos diversos - imagem, som, vídeo, texto - e que são ofertados através de diferentes empresas especializadas.

Atualmente, já existem no Brasil outros canais de ofertas de produtos via celular, que não apenas os broadcasts - mensagens de texto enviadas aos celulares dos clientes pelas operadoras. São exemplos da nova forma de abordagem do cliente os sites de ringtones e imagens, para celular, de times de futebol, de revistas e até mesmo de canais de televisão (2).

No país, uns dos principais produtos ofertados via celular são os ringtones, também conhecidos como tons ou toques musicais. A venda dos ringtones é feita trabalhando-se a idéia de personalização de chamadas. O usuário, ao receber o item em seu celular, arquiva-o no aparelho e depois o relaciona a um grupo de chamada, ou seja, a determinados telefones gravados em sua agenda. Quando o usuário receber uma ligação advinda de algum desses números, ele poderá identificar quem lhe chama apenas pelo toque do celular.

As imagens e os vídeos elaborados para os celulares além de também serem promovidos com base na idéia de personalização, agregam a noção de troca de informações entre usuários.

4. Fluxos informacionais e agregação just-in-time

A complexidade tecnológica atribuída aos processos de interação social deu margem ao surgimento de novas formas de agregação social, nas quais o laço de sociabilidade não figura como elemento central. Trata-se do que se convencionou chamar de agregação just-in-time.

A agregação just-in-time é caracterizada por processos instantâneos e efêmeros de interação social entre sujeitos dispersos geograficamente. Ela se estabelece via tecnologia, interconectando fluxos informacionais, independente dos limites do tempo e do espaço. Um exemplo desse tipo de agregação é a recém-criada Comunidade - Álibi (3) construída para agregar sujeitos dispostos a fornecer um álibi para outros que desejam faltar ao trabalho, à faculdade ou ter encontros amorosos clandestinos sem ter que passar pelo constrangimento de fornecer uma desculpa face a face. Trata-se de uma agregação colaborativa just-in-time entre pessoas que, na maioria das vezes, nunca se viram ou se falaram.

As agregações just-in-time podem também ter implicações nas formas presenciais de interação social. Um bom exemplo disso é o uso público do telefone celular. Atualmente, as pessoas podem realizar agregações ou exclusões sociais pelo simples reconhecimento de um toque de chamada ao celular (ringtones). A escolha desses ringtones revela muito da subjetividade do portador do aparelho. Assim, quando alguém recebe um telefonema ao som de um ringtone do seu time ou mesmo da sua música favorita estende para o universo presencial a publicização de traços de sua personalidade, reincorporando, desse modo, alguns elementos típicos da interação face a face. Verifica-se, nesses casos, que a objetividade da interação social tecnologicamente mediada acabou por forçar um novo ciclo de apropriações sociais.

Hoje os celulares tornaram-se uma verdadeira extensão do corpo humano e vão além da simples função de estabelecer interações entre sujeitos. Atualmente, esses aparelhos revelam a interação entre fluxos informacionais ao permitirem a realização de download de vídeos e músicas em MP3, fotografias, envio de e-mail, a sincronização sem fio entre diferentes aparelhos e acessórios e a comunicação, via celular, de qualquer lugar do mundo através da quadribanda e da tecnologia GSM. Nesse caso, a interação é motivada mais pela informação disponibilizada, do que pelo sujeito que realiza as trocas informacionais.

Para Myerson (2001), já que os celulares deixaram de ser apenas um “telefone” para se tornarem um “equipamento”, a comunicação assumiu características de processamento de dados. Portanto, o ato comunicacional, inserido nesse processo, nada mais é que uma troca entre equipamentos, envolvendo a transmissão de informações.

A convergência de outras mídias para integrar a plataforma dos celulares é divulgada como sendo a capacidade de os aparelhos interagirem com outros meios de comunicação. Nesse sentido interagir significa fazer uma conexão, entrar em rede. Novamente, conforma ressalta Myerson (2001), “é o equipamento que é capaz de interagir, nessa nova linguagem, sendo assim, o outro nesse processo é uma rede e não um agente humano” (4).

O celular tornou-se, então, uma senha de sociabilidade por manter os sujeitos conectados, via satélite, sem as restrições que as barreiras da temporalidade e do espaço impunham. Na atualidade, é possível estabelecer, por telefone, interações de caráter efêmero que dêem a entender que serão duradouras. Isso é possível devido à incorporação de indícios ofertados pela manipulação da voz, do som ambiente e da imagem dos sujeitos em interação. Trata-se do que Castells (5) (2003: p. 110) denominou portifólio de sociabilidade - caracterizado pela manipulação de imagens pessoais - uma espécie de avatar (6) do self utilizado em interações sociais determinadas.

Castells (2003) ressalta, ainda, que os sujeitos vivenciam um momento de privatização da sociabilidade demarcada pelo individualismo em rede. Seriam as “comunidades personalizadas”, corporificadas em redes egocentradas. Esse novo padrão de sociabilidade, segundo o autor, é induzido pela crise do patriarcalismo, pela individualização e fragmentação do contexto espacial da existência e racionalizado pela crise de legitimidade política.

Cabe ressaltar que essa mobilização em torno do celular não é um fenômeno puramente tecnológico, mas principalmente cultural. Daí todo o discurso a respeito da necessidade de se adotar esse novo meio. É como se, ao não estar conectado nessa rede sem fios, o sujeito deixasse de registrar a sua presença no mundo.

Para Bauman (2004) o celular confere aos sujeitos a ubiqüidade, gerando um estado de permanente conexão entre indivíduos em movimento. Portar um celular significa manter-se inserido em uma rede de potenciais interações. Ele agrega a idéia de família, de intimidade, de emergência e de trabalho. Nele o público e o privado se mesclam diluindo-se as fronteiras entre esses dois territórios.
Em recente pesquisa realizada, Munier (2004) apontou a preponderância do celular como elemento mediador da necessidade de sociabilidade. Ao pesquisar as mediações tecnológicas adotadas nas interações sociais entre jovens franceses, constatou-se que, em momentos de angústia e isolamento, os interlocutores preferem majoritariamente o celular (seja através dos serviços de voz, ou mensagens de texto -sms) em detrimento de outros instrumentos digitais de interação. Essa preponderância justifica-se pelo fato de o celular ter forte conotação pessoal, sendo, portanto, mais conveniente para as comunicações íntimas.

O estudo de Munier corrobora a constatação de que o público jovem configura-se como o segmento social mais propenso ao uso do telefone celular. A familiaridade desse grupo com as tecnologias da informação é grande. A naturalidade com que muitos incorporam os aparatos tecnológicos no seu dia a dia pode ser comparada à aprendizagem da fala. Acrescente-se a isso uma característica marcante dessa fase da vida humana na qual o processo de constituição da identidade passa pelo sentimento de pertencimento a um grupo social.

Há que se destacar também a forte campanha em torno da promoção dos telefones celulares. Myerson (2001) nomeia esse fenômeno de mobilisation - the massive mobile campaign. Segundo o autor, a campanha em torno da promoção dos telefones celulares espreita os sujeitos em todos os lugares. Eles são promovidos através de diversas mídias e eventos direcionados a públicos específicos, como partidas de futebol, shows de rock, dentre outros.

Nesse complexo cenário, as mediações comunicativas ganharam uma centralidade excessiva e tensionaram o caráter das interações sociais reduzindo-as drasticamente à troca de mensagens. Entretanto, essa redução não ocorreu de forma pacífica. Hoje é possível afirmar que a telefonia móvel celular ganhou destaque justamente por incorporar, em termos tecnológicos, os aspectos críticos identificados na correlação de forças estabelecida no debate sobre a função social da mediação comunicativa. Se o telefone fixo já era considerado a mídia mais interativa por permitir a troca e a alteração do curso das mensagens em tempo real, o celular associou a isso a portabilidade, a conectividade e a multifuncionalidade.

5. Considerações finais

A crescente desmaterialização dos objetos informacionais, através do processo de digitalização, relativizou o papel do suporte e possibilitou a interconexão entre os dispositivos tecnológicos. Convergência e interatividade eram palavras que acompanhavam todas as caracterizações e descrições da Internet nos anos que se seguiram à sua difusão. Porém, passado o momento de euforia, elas já não causavam o mesmo impacto. No entanto, hoje, tais termos voltaram à cena, figurando ao lado de uma outra ferramenta: o telefone celular, que passa a ser visto como um novo veículo de comunicação multimídia.

Ao se analisar as alterações ocorridas na noção de informação, pode-se compreender a posição destacada da telefonia móvel na atualidade. As sociedades modernas presenciaram uma transformação no caráter da informação. Se antes esta circulava em ambientes como os cafés e outros espaços de socialização, com o crescente processo de urbanização, a informação precisou tornar-se mais fluida para acompanhar o deslocamento dos sujeitos pela cidade.

Os celulares exacerbaram a necessidade dos rituais de sincronia - interações que exigem espaço e tempo determinado para se efetivar. Contudo, o ritual sincrônico característico do celular prescindiu da noção de espaço e reduziu o papel do sujeito no processo de interação social, haja vista a preponderância dos fluxos informacionais.

Para dar conta desses rituais, é preciso liberar os sujeitos do excesso de interposições materiais antes exigidas para realizar conexões. Assim, nos processos de sociabilidade contemporâneos, não há como estar fora ou longe, é preciso manter-se acessível em situações e contextos diversos.

As mudanças decorrentes do acesso rápido e especializado interferiram nas relações sociais e nas formas de lidar com a informação. Contudo, neste momento, não se pode precisar a direção e as implicações das novas formas de sociabilidade mediadas pela tecnologia. Verifica-se que a agregação social por elas permitida irá alterar, de modo significativo, as formas de interação social na contemporaneidade e, poderão levar ao estabelecimento de novos padrões de comunicação e trocas informacionais entre os homens.

Bibliografia:

- BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: A Busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
- BAUMAN, Zygmunt. Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade. In: Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
- CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede:v.1. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
- CASTELLS, Manuel. Comunidades virtuais ou sociedade de rede? In: A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.
- DANTAS, Marcos. A lógica do capital-informação: a fragmentação dos monopólios e a monopolização dos fragmentos num mundo de comunicações globais. Rio de Janeiro: Contraponto, 2 ed., 2002.
- KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
- LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Ed. 34. 1996.
- LÉVY, Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.
- METROS, Susan E. Making Connections. Revista Leonardo. v.32, n.4, 1999.
- MUNIER, Brigitte. L’influence des nouvelles technologies multimédias sur les formes de sociabilité. Communications & languages. n. 140, juin.2004.
- MYERSON, George. Heidegger, Habermans and the mobile phone. United Kingdom: Icon Books, 2001.
Links:

- http://www.anatel.gov.br/comunicacao_movel/
- http://courses.atlas.uiuc.edu/spcom/spcom199/fudali/History.html
- http://www.ringtones.com.br/capricho
- http://www.ringtones.com.br/cruzeiro
- http://www.ringtones.com.br/mtv

Notas:
1. http://www.anatel.gov.br/Tools/frame.asp?link=/biblioteca/releases/2004/release_15_07_2004.pdf. Acessado no dia 20 de julho de 2004.
2. http://www.ringtones.com.br/cruzeiro; http://www.ringtones.com.br/mtv; www.ringtones.com.br/capricho.
3. http://www.sms.ac (Clube do Álibe). http://amorios.com.ar (Argentina).
4. MYERSON, 2001: p. 52 (tradução nossa)
5. CASTELLS, Manuel. Comunidades virtuais ou sociedade de rede? In: _______. A galáxia da Internet; reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. São Paulo: Jorge Zahar, 2003.
6. Termo apropriado do sânscrito; refere-se a uma deidade hindu que vem a terra através da encarnação. ambiente virtual, refere-se às múltiplas identidades assumidas pelos interlocutores no estabelecimento de interações sociais.

Texto originalmente publicado na Revista Textos de la CiberSociedad, 6. Temática Variada

Fonte: http://www.revistapontocom.org.br/?p=676

4 de jun. de 2009

Multimídia e inovação pedagógica

O futuro do trabalho escolar está na pesquisa metodológica

Eduardo Monteiro 2006

A presença maciça e crescente das tecnologias e linguagens de comunicação é uma característica constitutiva e marcante da sociedade atual. Não há lugar no planeta ou atividade da vida que não esteja afetada, de uma forma ou de outra, pela quantidade e variedade de dispositivos que acessam e armazenam informação, que permitem o contato entre pessoas e grupos, que “tocam” todo tipo de conteúdo. Grandes ou pequenas máquinas, complicadas ou fáceis de usar, caras ou populares, novas ou já obsoletas, seguem rapidamente mudando nossos hábitos, nossa forma de nos relacionarmos entre nós e com o mundo, nosso modo de ver e de entender as coisas a nossa volta.

O mundo do conhecimento, a cultura e os saberes sociais também mudam com essa dinâmica e, portanto, algo de novo vai acontecer com a escola e com aqueles que com ela têm alguma relação – professores, diretores, estudantes ou suas famílias. Se o mundo mudou, ainda que custe, a escola também vai mudar. Seja porque os estudantes trazem consigo inquietações e artefatos desse mundo de comunicação em que habitam, seja porque seus professores estão insatisfeitos e inquietos, sentindo a necessidade de incluir a escola e a si mesmos neste novo contexto, seja ainda porque seus gestores estão aturdidos, quebrando cabeças e paradigmas para promover este encaixe tão complicado entre escola e modernidade.

Inovação na escola: construção que depende de investimento

Há, sem dúvida, enormes possibilidades em perspectiva quando pensamos na presença das novas tecnologias nos ambientes escolares; quantas novas formas de interação com a informação e de construção de conhecimento já não estão acessíveis? Em diversas escolas há experiências bastante significativas, especialmente quando são frutos da mobilização e do empreendimento coletivo, vencendo a falta de recursos e articulando parcerias internas e externas. Se, além disso, o acesso às tecnologias for tomado realmente a sério, visto como um direito do cidadão que busca na escola seu lugar na sociedade da informação, então poderemos realmente sonhar mais alto. Presentes em cada escola, garantidas na trilha curricular de cada estudante ao longo de sua formação básica, quantas possibilidades de emancipação e desenvolvimento não podem trazer? Mas isso, como sabemos e temos visto, depende de muito investimento: em recursos materiais que instalem a modernidade fisicamente nas escolas e em soluções políticas que garantam equipamentos funcionando e a formação profissional e pedagógica dos docentes, que devem saber extrair desses recursos os benefícios educativos e sociais de que suas escolas e estudantes tanto precisam. Esse investimento é condição indispensável para incluir escolas - e com elas suas comunidades - no mundo da tecnologia, da informação, da cultura e do trabalho.

Mas há ainda um item fundamental e que, na maioria das vezes, passa desapercebido, talvez pelo deslumbre que a tecnologia provoca, ou talvez porque haja, também, fortes interesses de mercado e de política em convencer escolas e professores de que não há futuro fora da tecnologia. Isso pode ser verdade; porém só será verdade na medida em que a tecnologia estiver a serviço da educação e do desenvolvimento social e educativo que as escolas têm de gerar para a sociedade. É verdade que escolas com computadores, máquinas digitais de foto e vídeo, conexões de Internet e outros apetrechos são melhores e educam melhor? Talvez. Se os educadores souberem tirar dessas coisas vantagens para educar, sem dúvida poderá ser verdade. Porém, se não souberem, essas tecnologias caras podem ficar ociosas, virar sucata ou, pior, serem formas caras e complicadas das escolas fazerem o mesmo que fazem desde há um século...

Computadores, câmeras e outros eletrônicos que brotam no mercado diariamente têm pelo menos uma coisa em comum: um manual do usuário; e, neste manual, nenhum capítulo ou referência sobre como essas máquinas funcionam como instrumentos para ensinar e aprender melhor. E é aí que está o grande desafio e a grande oportunidade. Esta informação que falta precisa ser inventada, e não é difícil adivinhar que esta é uma tarefa para professores e pedagogos. Engenheiros, psicólogos, designers e comunicadores podem ajudar muito – afinal, a educação também já se abriu a esse modo interdisciplinar de fazer as coisas hoje em dia, inclusive ensinar. Mas são os especialistas em estudantes e escolas que devem liderar o processo de invenção das novas formas de ensinar para um mundo definitivamente novo.

O papel estratégico da pesquisa docente em serviço

O professor de hoje que atua com qualidade sabe que a educação mudou muito. Os educadores de hoje têm estudado muito os processos sociais e psicológicos que constituem a aprendizagem, e hoje já há bastante consenso de que diferentes pessoas, em diferentes contextos, aprendem de formas diversificadas, cada qual com uma modalidade que privilegia determinado tipo de estratégia cognitiva. A noção da diversidade de modalidades de aprendizagem se desdobra na percepção clara de que os espaços educativos devem promover a diversidade das formas de ensinar, se quiserem incluir os estudantes no processo. E a grande oportunidade criada pelas tecnologias de informação e comunicação é, justamente, a ampliação dessa oferta de possibilidades.

Diante disso, o professor se vê desafiado a ser criativo em termos de metodologia. Seja porque tem consciência de que os métodos tradicionais já não dão respostas satisfatórias, dado que uniformizam formas de aprender e de ensinar e, portanto, são potencialmente excludentes, seja porque sabe que seus alunos chegam de um mundo repleto de comunicação e que quase nunca se sintoniza com o modo de comunicar as coisas na escola.

É o professor que vai fazer, então, toda a diferença, podendo ajudar a escola a reencontrar sua função social. O professor inquieto, insatisfeito, que olha para sua sala de aula, para seu quadro de giz, para seu livro didático, senta, põe a mão na testa e pensa: “o que eu faço com isso?”. Esse professor que se sente “perdido” está, sem saber, dando o primeiro passo para se encontrar, reconstruir seu trabalho, sua identidade profissional e sua escola. Mas, é claro, não vai ficar sentado com a mão na testa o resto do dia: vai pesquisar e experimentar recursos, questionar e refletir suas práticas e experiências, ler e debater idéias e posições e vai, finalmente, entrar mais seguro em sala de aula.

A pesquisa docente é o único caminho para levar a escola a recuperar sua função na sociedade da informação. Gestores escolares e de redes de ensino precisam compreender sua importância estratégica fundamental e criar políticas para que professores estudem, pesquisem, desenvolvam metodologia e empenhem esforços para destinar a isso tanto ou mais recursos do que se está buscando para equipar as escolas. Porque os equipamentos sem a metodologia pedagógica só geram benefício para aqueles que os comercializam.

O professor que tem o privilégio – infelizmente, ainda é isso! – de ter os recursos em sua escola, tem responsabilidades e tarefas muito importantes. A principal delas é reconstituir o saber pedagógico, criando, a partir de suas inquietações, novas formas de educar para um mundo novo e que ficou bem distante da escola, que perdeu o bonde da história e não se atualizou.

A pesquisa docente é, portanto, um valor e uma prioridade para quem faz escola. E pode ser assumida a partir de pelo menos três pólos de procedimentos pelo professor ou pelas equipes docentes:


1. Contextualizar sua postura educativa e pedagógica, respondendo:

§ O que é necessário ensinar no contexto social e cultural em que atuo?

§ Como se aprende neste contexto?

§ Como (portanto) se ensina neste contexto?

§ Em que os recursos que tenho ajudam ou não ajudam no trabalho que tenho a fazer aqui?


2. Problematizar situações pedagógicas numa perspectiva experimental:

§ Quais os efeitos que quero obter com o uso dos recursos e materiais que planejei usar? E quais efeitos são indesejados?

§ Como irei avaliá-los? Que hipóteses tenho para seus resultados?

§ Após observar os efeitos de minhas experiências, quais explicações tenho para minhas observações, a reação de meus alunos e os resultados que obtive?

§ Como incorporarei os resultados de minhas observações ao meu planejamento?

§ Para atingir meus objetivos, que atividades e recursos podem me ajudar? E quais não podem? Por quê?


3. Estudar e discutir os temas educacionais relacionados com sua investigação em sala de aula:

§ Que autores, que textos dizem algo que pode me interessar?

§ E que autores estão dizendo coisas sem muito fundamento?

§ Quem de meus colegas pode ter algo a contribuir?

§ Posso escrever algo sobre o que tenho lido, experimentado e refletido?

Autor de seu próprio saber, o professor precisa conquistar uma nova autonomia para si e uma nova referência de atuação docente para sua escola. De forma que se deve buscar – gestores e docentes – uma cultura educacional e escolar que valorize o professor que estuda, aquele que, como diz Pedro Demo (1990), tem o que ensinar porque está em constante aprendizado e diálogo inteligente com a realidade. Até porque, na sociedade da informação, o que o professor tem de melhor a dar não é informação, mas o ensino das estratégias que desenvolve para chegar a ela, elaborá-la e construir conhecimento significativo. Esta cultura precisa ser o ambiente de significação das novas tecnologias nos espaços educativos, para que a escola não fique refém nem de suas limitações históricas, nem dos assédios do mercado, nem do fascínio deslumbrante de máquinas que são maravilhosas sim, mas, enfim, ainda máquinas que se só podem ser humanizadas pelo trabalho sensível e criativo de nossas mãos.

Bibliografia de base e de sugestão:

BELLONI, Maria Luiza. O Que é Mídia-Educação. Ed. Autores Associados, Campinas, SP: 2000.

CINELLI, Adilson .Comunicação e Educação: a linguagem em movimento. Ed. Senac, São Paulo: 1999.

DEMO, Pedro. Pesquisa: Princípio Científico e Educativo. Ed. Ática, S. Paulo: 1986.

FAZENDA, Ivani. C. Interdisciplinarida de: História, Teoria E Pesquisa. Campinas, SP: Papirus, 1994.

GUTIERREZ, Francisco. Linguagem Total. Ed. Papirus, São Paulo, 1978.

HERNANDEZ, Fernand. Transgressão e Mudança na Educação - Os Projetos de Trabalho. Porto Alegre, ArtMed, 1998

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Ed. 34, Rio de Janeiro: 1999.

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. Ed. 34, Rio de Janeiro: 1993.

Fonte: http://www.planetapontocom.org.br/midiaEducacao.swf

Autoria na Era Digital

Professor Sérgio Abranches fala sobre o advento do copia e cola

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Por Marcus Tavares

O que o professor deve fazer quando recebe de seus alunos um trabalho totalmente copiado da internet? Como trabalhar com o advento do Ctrl C + Ctrl V? Na escola do início do século XXI, quais são os significados de autoria, plágio e cópia? O assunto é polêmico, pois não se trata mais de um fato episódico nem exclusivo de um sistema e nível de ensino.

Para Sérgio Abranches, professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diante de um quadro “com poucas possibilidades e muita perplexidade”, os educadores vêm elaborando suas práticas de forma mais imediatista do que propriamente pedagógica. Para ele, é preciso que a escola reveja a participação dos alunos no processo de aprendizagem, no processo de construção da autoria.

Em entrevista, o professor afirma que, se o estudante não for convocado para ser autor-colaborador de determinada atividade, ele não terá o compromisso de produzir nada que seja dele ou a partir dele. “Nesta situação, é muito mais fácil e cômodo dar uma googada (de google), como dizem os mais novos”, destaca.

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O que fazer quando o aluno entrega um trabalho Ctrl C + Ctrl V?

Acompanhe a entrevista:

O que muda na produção docente e discente com o acesso à internet? Professores e alunos estão sabendo tirar proveito de todas as possibilidades da rede?
Sérgio Abranches
- A internet tem se apresentado como um grande campo de práticas distintas e diversas, com ampla possibilidade para a Educação. Entretanto, isto não quer dizer que haja um aproveitamento de suas possibilidades, tanto por alunos quanto por professores. É preciso ainda um processo de formação específica para o uso pedagógico da internet, como de todas as atuais tecnologias da informação e comunicação, a fim de que a Educação possa aproveitar estas possibilidades. Em pesquisa recente, realizada por meus orientandos, observamos que já há uma familiaridade com o uso das tecnologias por parte dos professores, mas isto não significa que estes mesmos professores estejam utilizando as possibilidades que a internet apresenta. Do mesmo modo, observamos nos alunos que o uso da internet ainda é muito restrito em se tratando de questões educacionais. Mesmo que haja uma maior familiaridade por parte dos alunos com as atuais tecnologias, tal situação não redunda em grande proveito para a aprendizagem. Por outro lado, precisamos destacar o crescente número de projetos que busca incorporar tal uso às práticas educacionais. Penso que é por aí que conseguiremos identificar quais são as possibilidades que a internet oferece e que poderão ser aproveitadas pela Educação. Como exemplo, penso que a pesquisa acadêmica tende a ser profundamente dinamizada com a internet, bem como a aprendizagem colaborativa.

A web traz uma nova definição para o que seja autoria, pirataria e plágio?
Sérgio Abranches -
Em um certo sentido, creio que há uma modificação nestas definições. Mas depende fundamentalmente do tipo de uso que se faz da web. A questão da autoria – e os seus contrapontos da pirataria e do plágio – ganha uma nova significação com o uso da web. As formas colaborativas de produção via web introduzem uma nova conceituação do que seja autor. Tomemos como exemplo as diferentes experiências do tipo wiki, desde enciclopédia até pequenos glossários. Se tais práticas forem direcionadas pedagogicamente, podemos suscitar o aparecimento de um autor coletivo, não mais um sujeito único e que não é simplesmente o resultado da soma de diferentes partes, mas sim daquela interatividade proporcionada pela web. Com isso, questionamos também o que seja plágio ou pirataria. Estas duas últimas situações reproduzem concepções de conhecimento e de prática pedagógica que não se coadunam com um uso pedagógico da web. Deste modo, falar em autoria na web pode simplesmente reforçar a forma como tradicionalmente entendemos o que seja identidade (veja-se, por exemplo, o uso que muitos autores e jornalistas fazem dos blogs), ou então significar, a partir de uma proposta pedagógica diferenciada, o surgimento de um autor coletivo, colaborativo, participativo e aberto a novas elaborações. A questão da autoria na web é muito séria, por isso acredito que nós educadores devamos enfrentá-la corretamente, pois parte de nosso trabalho é “mexer” com as identidades.

Neste sentido, o que é autoria nos dias de hoje?
Sérgio Abranches
- Bem, isto é muito difícil de se definir. Em primeiro lugar, devemos considerar que a própria produção de conhecimento é uma reelaboração de conhecimentos já estabelecidos socialmente. Assim, autoria não pode ser entendida como aquilo que me distingue dos outros. Ao contrário, em um contexto globalizado, multicultural, o que me identifica pode ser exatamente aquilo que me aproxima, me coloca em relação com o outro e com os outros. Autoria passa então por uma transformação: não é mais o sinal de minha presença exclusiva neste mundo, através de uma obra única e intransferível, mas sim o que me coloca diante de tantos outros e que, nesta situação, marcam a minha identidade. É claro que precisamos tomar cuidado para que esta nova situação não seja o sinal da desresponsabilização, do “esconder-se para não se comprometer”. Portanto, é muito mais exigente, pois não se limita a dizer o que é e o que não é. Penso que estejamos próximos da passagem da autoria clássica (definidora de uma identidade única) para uma “alteria” (uma identidade construída com o outro).

Neste contexto de produção acadêmica, que regras devem ser estabelecidas entre professores e jovens?
Sérgio Abranches
- É importante pensarmos em regras na produção acadêmica. Mas penso que primeiro devemos pensar em novos projetos, novos contratos didáticos, novas formas de produção do conhecimento. Os jovens já nascem neste contexto, são digitais. A maioria dos professores ainda pertence a uma outra geração, analógica na sua forma de ser e de produzir conhecimento. Esta contradição precisa ser enfrentada. Neste sentido, uma questão básica, que não me arrisco a dizer que seja uma regra para a produção acadêmica em tempos midiáticos, deve ser a partilha da produção do conhecimento. Não estou falando aqui da socialização do conhecimento, algo muito importante. Falo do processo de produzir conhecimento. Este deve ser partilhado, cooperado. Os grupos de pesquisas precisam incorporar esta atitude, não só como metodologia de trabalho, mas como forma de produção e, assim, incorporar o “modus operandi” desta geração digital, tecnológica. Outro elemento que eu apontaria é a ampla divulgação desta produção. Os jovens, quando se dispõem a produzir seus conhecimentos academicamente, procuram sempre estas referências e não podem se relacionar com elas como se fossem estacas fixas, imóveis. Ao contrário, devem percebê-las como incentivadoras. Citaria também a necessidade de inovação metodológica. Este é um aspecto que ainda estamos deixando de lado. Precisamos inovar nossas concepções metodológicas e nosso fazer. Creio ser esta uma regra a ser colocada por aqueles que pretendem contribuir com a Educação e com o conhecimento de um modo geral.

Afinal, o que o professor deve fazer quando recebe um trabalho Ctrl C + Ctrl V?
Sérgio Abranches
- Em primeiro lugar, creio que o professor deve fazer o maior esforço possível para não receber um trabalho Ctrl C + Ctrl V. Em outras palavras, o professor deve se preocupar em preparar suas atividades de modo que esta possibilidade não seja viável. Dizendo de outro modo, a questão está na maneira como o professor propõe as atividades aos alunos. Qual é a diferença entre este tipo de trabalho e aquele que nós fazíamos antigamente copiando longas páginas das enciclopédias que nossos pais compravam à prestação, dizendo para nós que ali estava tudo o que precisávamos saber/aprender? Sim, é claro que tem diferença, mas na minha opinião muito mais na forma e na dinâmica do que no conteúdo e na aprendizagem. Neste sentido, a primeira questão que o professor deve fazer é refletir sobre o que ele propôs aos alunos e o modo como ele propôs. Aí está a raiz da questão. Se o aluno não foi convocado para ser autor-colaborador daquela atividade, ele não se sente com o compromisso de produzir nada que seja dele, ou a partir dele. Nesta situação, é muito mais fácil e cômodo “dar uma googada” (de google), como dizem os mais novos. A segunda questão é pedir ao aluno que explicite o seu processo de produção do conhecimento (que questões ele levantou para fazer tal trabalho, que fontes ele buscou, qual o tipo de análise que ele fez), caso isto não tenha sido apresentado anteriormente. Deste modo, pode-se refletir sobre o processo e não somente sobre o resultado. Uma outra questão é o confronto com outras produções de outros alunos. Não quero aqui propor que haja um conflito, um embate, mas sim que haja uma troca, uma reflexão conjunta apontando os elementos que distinguem, caracterizam as diferentes produções. Sei que ao dizer isto não posso me esquecer do volume de trabalho dos professores, particularmente os que atuam na educação básica, fato este que dificulta uma análise e mesmo uma atenção mais particularizada aos alunos, impedindo então que se possa fazer tal processo, pois demanda tempo. Por isso, evitar que tal procedimento aconteça partindo de uma nova proposta pedagógica é fundamental

Fonte – Rio Mídia

Confira o artigo publicado pelo professor para o 2º Simpósio hipertexto e tecnologias na educação, promovido em setembro do ano passado pela UFPE.

Fonte: http://www.revistapontocom.org.br/?p=712